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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Mortos pela desesperança

Eis como, os autores – fazendo uso de um pensamento positivo moderado – consolam-se diante de uma situação que se afigura como desconsolada: “mantemos o otimismo; acreditamos no capitalismo; continuamos a crer que a globalização e a mudança tecnológica podem ser orientadas em benefício de todos”.

A situação social que descrevem em Mortos pela desesperança e o futuro do capitalismo  (Deaths of despair and the future of capitalism. Princeton University Press, 2020) apresenta-se como desastrosa, indignante e cruel, mas ao invés de fazer uma crítica radical do sistema que, aliás, chamam pelo seu verdadeiro nome, preferem vê-lo apenas como mal administrado.

Anne Case e Angus Deaton, dois economistas consagrados da Universidade de Princeton (EUA), documentam nesse livro, de certo modo corajoso, os infortúnios, as ofensas sistêmicas e os bloqueios de perspectiva que os trabalhadores brancos menos instruídos (classe operária) vêm enfrentando na sociedade norte-americana.

Para mostrar que essa obra tem, sim, valor descritivo para compreender o que ocorreu nas últimas décadas com o sonho americano, leia-se a nota crítica se encontra aqui: Mortos por desesperança

 

Morozov: Socialismo digital

A Europa vai voltar à socialdemocracia a partir terceira década do século XXI? Recentemente foi anunciado que o bloco de 27 países que formam a União Europeia aprovou um pacote de 4,7 trilhões de reais com o objetivo de torná-la líder da economia verde e da economia digital.

Basta gastar mais dinheiro nessa direção? Ora, como argumenta Evgeny Morozov no artigo que aqui se apresenta, as grandes conquistas socialistas no século XX ocorreram no campo da inovação institucional. E é nesse campo, segundo ele, que a Europa deveria realmente inovar.

Sugere, por isso, que a Europa pode reviver essa tradição. Sugere, ademais, que ela precisa ir bem mais longe do que simplesmente criar as condições de investimento por parte do setor privado. Ela tem, segundo ele, de se empenhar em construir infraestruturas tecnológicas que funcionem como comuns – e não como fontes de acumulação de capital para a iniciativa privada.

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Guerra de capitais: China x EUA

Constata-se atualmente uma crescente guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China.  É, pois, interessante examinar o livro Capital wars de Michael Howell que apresenta uma visão diferente no que se refere à rivalidade entre a China e os EUA.

Até agora, a concorrência entre os EUA e a China na esfera econômica tem ocorrido na esfera do comércio e da tecnologia.  Pouco atritos aconteceram nos mercados financeiros. Mas é bem provável que a batalha decisiva ocorra na esfera financeira. Como se sabe, o dólar domina cerca de 80 por cento das transações internacionais e a China está se esforçando para reduzir essa proporção. Ela quer criar uma área de transações comerciais e financeiras em rebimbe.

O artigo de Michael Roberts em anexo faz um comentário sobre o livro de Howell que parece ser muito interessante (e, também, muito caro para os leitores brasileiros).

Ele se encontra aqui: Guerra de capitais – EUA x China

A hipótese do comunismo hermenêutico

A expressão “comunismo hermenêutico” soa bem estranha, não só por causa do adjetivo que qualifica o nome, mas porque esse substantivo costuma estar associado corriqueiramente a uma forma de totalitarismo que existiu no século XX: o estalinismo. A tese é polêmica, mas é preciso conhecê-la.

O fato é que se apresenta agora no título de um livro publicado no começo da última década, escrito por Gianni Vattimo e Santiago Zabala com pretensão de resgatar o caráter emancipatório da proposta comunista. Eis o título completo do escrito: Comunismo hermenêutico – De Heidegger a Marx (Herder, 2012). Ora, a associação do conceito de comunismo ao filósofo alemão que aderiu ao nazismo na década dos anos 1930 torna essa expressão ainda mais, profundamente, estranha.

Para eles, “a crise do comunismo soviético – assim a crise atual do capitalismo neoliberal que enfrenta – requer do marxismo uma virada hermenêutica”. Os seus grandes erros, os seus descaminhos, as suas formas de governo autoritárias e totalitárias decorreram – ainda segundo eles – de uma incapacidade intrínseca de apreender e considerar a subjetividade coletiva das populações nos países que se tornaram socialistas no século XX.

O comunismo histórico achava que era portador da verdade da história e, por isso, que tinha o direito de impor ferreamente à população governada um processo de acumulação de capital planejado e dirigido pelo Estado. Como a história mostrou – pense-se na Rússia e na China, por exemplo -, o sistema de acumulação centralizado que aí vigorou nada mais foi do que uma forma de transição de formas retardatária de produção para o capitalismo.

Uma resenha crítica desse livro se encontra aqui: A hipótese do comunismo hermenêutico

Dinheiro: entre a ficção e o fetiche

Há duas ilusões reais simétricas implicadas na compreensão da sociabilidade mercantil: o fetichismo da mercadoria e a ficção do valor de troca como um significante que não se remete, ele mesmo, ao valor, ao trabalho abstrato. No primeiro caso, há uma identificação da forma do valor com o material que dá suporte a essa forma. No segundo caso, a forma parece puramente convencional.

E a crítica dialética, como aponta Ruy Fausto, tem de ser crítica dessas duas ilusões opostas. Como se sabe, Marx mostra que a contradição interna à mercadoria, valor de uso e valor, desdobra-se numa contradição externa entre a forma relativa de valor e a forma equivalente. É preciso partir daí.

Ora, na compreensão do dinheiro essas duas ilusões reaparecem: o dinheiro-mercadoria produz a primeira ilusão e o dinheiro-papel engendra a segunda ilusão. Apresenta-se aqui uma nota tentando esclarecer essa questão: Entre a ficção e o fetiche – Novo

 

Déficits, dívidas e deflação após a pandemia

Os níveis de endividamento das economias capitalistas estão em níveis recordes. Eles estão superando mesmo os montantes atingidos do final da II Guerra Mundial, quando os países centrais precisaram financiar o custo da atividade bélica em seus territórios ou em territórios alheios. Em números, isso significa algo em torno de 120% do PIB global. O gráfico ao lado ilustra esse resultado.

O blog publica em anexo um novo artigo de Michael Roberts que procura investigar as consequências desse endividamento. Uma questão debatida entre os economistas vem a ser saber se essas dívidas crescentes prejudicam ou não o crescimento econômico.

Ademais, o artigo mostra também que o nível de endividamento das corporativo está em nível elevado e que ele está aumentando como consequência do bloqueio induzido pela pandemia do coronavírus. Aqui a questão é saber se as empresas com muitas dívidas terão condições de investir ou se elas vão permanecer servindo os seus credores.

No conjunto, há empresas saudáveis. Há empresas pressionadas por suas dívidas, mas ainda assim sobreviventes. Há, porém, um número enorme de empresas que não conseguem atingir esse objetivo e que são consideradas por isso como “empresas zumbis”.

O artigo está aqui: Déficits, dívidas e deflação

Ecossocialismo e política do comum são urgências históricas

IHU: A superação do capitalismo tem que ser uma obra coletiva, plural, descentralizada e democrática em busca de uma política do comum, diz o economista.

No emaranhado de incertezas que toma conta do país por causa dos efeitos gerados pela crise do novo coronavírus, um diagnóstico é unânime: “o curso da economia capitalista no Brasil neste ano, como também provavelmente no ano que vem, estará marcado pelas consequências da pandemia do novo coronavírus”, e a recuperação econômica será “lenta, difícil e fraca”, diz o economista Eleutério da Silva Prado à IHU On-Line. A crise política, especialmente no aspecto que envolve a família presidenciável, acrescenta uma “dose adicional de incerteza e instabilidade. E isto pode solapar ainda mais o andamento da atividade econômica no Brasil”, avalia.

Para ele, no curto prazo, um caminho viável para superar a crise econômica diante do endividamento público de 90% previsto para o próximo ano é redirecionar a dívida do governo. “Ao invés de o governo financiar os seus gastos com as urgências da pandemia do novo coronavírus por meio da venda de títulos no mercado, ele pode emitir dinheiro fiduciário vendendo títulos para o Banco Central. A dívida do governo aumenta, mas a dívida pública não”. Essa alternativa, menciona, é descartada pelo governo porque “contraria a lógica da financeirização”.

A longo prazo, o economista defende uma mudança estrutural que consiste na substituição do atual modelo de produção capitalista. “O atual modo de produção precisa ser desafiado por um socialismo democrático que seja também um ecossocialismo”, que “vise preservar a civilização tendo por base o princípio do comum”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele também comenta algumas das políticas que estão na ordem do dia para enfrentar a crise, como a criação de uma renda mínima. “Não se pode ficar contra essa proposta dado o nível de miserabilidade de milhões de cidadãos brasileiros que deveriam ser mais bem respeitados pelo poder público. Mas é preciso ver que ela foi proposta inicialmente por economistas ultraliberais ou mesmo conservadores como Milton Friedman e Friedrich Hayek. Pois, na forma por eles recomendada, ela permite a eliminação de quase toda outra proteção social destinada aos trabalhadores. Nesse sentido, ela é consistente com a privatização de tudo. Não endosso essa ideologia”. Uma renda mínima é oportuna “se for implementada como parte de uma reforma substantiva da repartição da renda e da riqueza no país”, conclui.

A entrevista está aqui: Entrevista IHU

Rumo à estagnação completa

Dois fatos futuros já são sabidos nesse momento de velório nacional por causa de uma “gripezinha” que se mostra, dia após dia, hora após hora, minuto após minutos, como uma doença genocida:

a) os governantes da pátria amada e idolatrada, considerando-se o conjunto das nações de rendas médias e altas, serão considerados como os mais desastrados no enfrentamento da difusão da pandemia do novo coronavírus na sociedade;

b) os danos na malha produtiva produzidos pela atual crise da economia capitalista no Brasil, como consequência dessa má gestão, mas também da política econômica dos últimos trinta anos e, em particular, aquela imediatamente pregressa, serão os maiores dentre todas essas mesmas nações.

Para tomar ciência de um argumento que afirma a possibilidade de que ocorra uma estagnação completa da economia capitalista no Brasil, leia-se o artigo que aqui  vai, mas que já foi publicado pelo jornal de internet Outras Palavras: Rumo à estagnação completa

A China depois da pandemia

Pela primeira vez nas últimas décadas, a China não tem meta de crescimento econômico para este ano de 2020. Mas e depois?

A pandemia e o bloqueio levaram a economia chinesa a uma severa contração por vários meses, da qual está agora apenas se recuperando. A economia contraiu 6,8% no primeiro trimestre e a maioria das previsões para o ano inteiro representa menos da metade da taxa de crescimento de 6,1%, registrada no ano passado. Mas mesmo esse número será muito melhor do que aqueles a serem obtidos por todas as economias do G7, em 2020. De qualquer modo, a produção e o investimento industrial estão aumentando agora, mas os gastos dos consumidores continuam deprimidos.

A tese de que a China caminha agora para uma estagnação em sequência a uma crise de lucratividade por causa do baixo consumo e do excesso de investimento não parece totalmente convincente. A China tem uma importante economia capitalista, baseada em empresas privadas, em sua estrutura de produção. No entanto, tem também um importante setor estatal cujo processo de acumulação não depende de decisões privadas.

Ainda é uma incógnita saber para onde vai a China nas próximas duas décadas. O artigo em sequência tenta dizer alguma coisa sobre esse destino: China na década de 2020 – após a pandemia

Voltando ao normal?

A notícia do jornal Folha de S. Paulo, em 6/06/2020, menciona o surgimento de um surto de esperança sobre uma rápida retomada da economia global após a divulgação dos dados de emprego da economia norte-americana: “uma onda de otimismo levou o dólar para abaixo” em vários países do mundo. Ao mesmo tempo se observou que as bolsas entraram num processo de recuperação: “a mudança de perspectiva levou a bolsa de tecnologia, Nasdaq, em Nova York, a bater sua máxima histórica, com 9.845 pontos.

E esse efeito se espalhou no mundo, inclusive no país que mais se descuidou no combate ao novo coronavírus. Eis que, no caso do Brasil, os dois gráficos abaixo mostram que, efetivamente, o mercado de ações, que havia caído em março, recuperou boa parte do valor das cotações em junho. Ademais, o dólar que havia chegado a quase R$ 6,00 reais voltou a ficar abaixo de R$ 5,00, aliviando as pressões sobre o Bacen.

Agora, o que os analistas mais superficiais não percebem é que vem ocorrendo um descolamento cada vez maior entre o mundo das finanças e o mundo da criação de valor na esfera da produção de mercadorias. E que o comportamento especulativo decorrente, cada vez mais inquieto, nervoso, sôfrego, é apenas consequência do desespero do capital diante da possibilidade de que possa perder valor devido à superacumulação.

O artigo em anexo, colhido no blog The next recession, mantido por Michael Roberts, mostra bem que a economia mundial, em particular, a economia norte-americana, não vai voltar ao “normal” rapidamente como imaginam os torcedores do time do curto-prazo e das formas aparentes do capitalismo. Eis que a longa depressão iniciada em 1997 – e continuada desde então – não vai terminar tão cedo. E que, em consequência, a excitação observada é apenas mais uma masturbação do capitalismo contemporâneo que sonha com os seus anos dourados, mas tem de se contentar com a solidão dos introvertidos.

Eis o texto de Michael Roberts: Voltando ao normal?