Do keynesianismo ainda

Publica-se nesse post a tradução para o português de uma terceira resenha do livro In the long run we are dead (No longo prazo estaremos todos mortos) de Geoff Mann que trata do keynesianismo e de sua importância histórica como posição diante do evolver inquieto do capitalismo.

Como se sabe, o keynesianismo se apresenta como uma alternativa de política econômica que se contrapõe às correntes liberais que minimizam ou pretendem minimizar o papel do Estado no provimento do emprego no sistema econômico como um todo.

Trata-se de uma resenha feita pelo historiador britânico Adam Toose que tem, como se sabe, uma enorme simpatia pelo keynesianismo. A grande interrogação que ele nos apresenta é a seguinte: “enquanto o mundo derrete diante de nossos olhos [devido às mudanças climáticas], o que o gerencialismo keynesiano tem a oferecer aos nossos filhos e netos?

De qualquer forma, ela aponta a China pós Mao como o país em que ainda estão sendo aplicadas as lições do keynesianismo, aliás, como enorme sucesso – ainda que esse sucesso não esteja isento de graves problemas ambientais, econômicos e sociais e que seja da modalidade autoritária.

A tradução se encontra aqui: Tempos tempestuosos

Desenvolvimentismo como simulacro

Este post encaminha uma nota crítica sobre um tema relevante para a compreensão do caráter do governo do Partido dos Trabalhadores. E que se tornou ainda mais importante após o golpe parlamentar de agosto de 2016. Nela se examina a questão de saber se houve ou não um experimento de desenvolvimentismo no período que vai de agosto de 2011 ao fim de 2014, ou seja, no governo liderado por Dilma Rousseff. A nota está construída por meio do confronto de duas teses de primeira qualidade que se debruçaram sobre essa questão: uma delas, proposta por André Singer, que afirma ter existido um ensaio desenvolvimentista no governo Rousseff, e a outra, alvitrada por Pedro Fonseca, que nega ter havido uma real política de industrialização tocada pelo Estado nos governos do PT e, em particular, em seu último quadriênio.

A nota se encontra aqui: Desenvolvimentismo como simulacro

Austeridade em perspectiva histórica

O que é austeridade? Num post publicado em novembro de 2015 procurou-se responder a essa questão por meio da tradução de um escrito de John Milios intitulado “A austeridade não é irracional”.

Ao introduzir os leitores deste blog ao artigo deste importante crítico da economia política, mostrou-se que a “austeridade” é uma política de Estado que, em síntese, procura reforçar a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas.

Neste post, pretende-se expor como e porque a política de austeridade se tornou necessária e mesmo imperativa na gestão do capitalismo contemporâneo. Eis que o próprio desenvolvimento deste modo de produção, após a II Guerra Mundial, exigiu o crescimento dos gastos estatais (em particular, dos sociais), o qual acabou contribuindo para o rebaixamento da taxa de lucro e, assim, para produzir um sistema econômico frágil que tende à estagnação (ou seja, que não tem mais a capacidade de recuperação do capitalismo clássico).

Quer-se mostrar, ademais, rememorando a tese de Wolfgang Streeck em Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático, que a política de austeridade implica em primazia dos imperativos econômicos em relação as necessidades humanas, sociais e ambientais. E que ela leva, por isso, necessariamente, ao esvaziamento da democracia liberal, ou seja, da democracia formal que é possível no capitalismo.

Eis o post: iAusteridade em Perspectiva Histórica

 

A estagnação dos países ricos

Ao contrário do que muita gente pensa, o capitalismo não está mais progredindo de modo firme e forte em países como EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália etc. Ao contrário, sabe-se que o crescimento econômico se reduziu progressivamente nas nações de altas rendas, década após década, após o término da II Guerra Mundial. Os dados mostram, inclusive, que o investimento como proporção do excedente obtido pelas grandes corporações tendeu a se reduzir ao longo dos últimos decênios.

Nessa postagem faz-se uma confrontação entre duas teses, sustentadas ambas por economistas de esquerda, que buscam explicar esse curso histórico.

Uma delas, mais aceita pelos keynesianos, julga que a causa do fenômeno se encontra na política econômica neoliberal que, em síntese, possibilitou que ocorresse uma “vingança dos rentistas”. A outra, mais acolhida por marxistas, pensa que essa causa se encontra na própria onda mais recente de globalização: ela deslocou a acumulação de capital do centro euro-americano para a Ásia. Como ela se centra no movimento do capital – a exploração reificada – em busca de maior rentabilidade, é aqui denominada de “incursão do capital”.

O texto se encontra aqui: A estagnação econômica dos países ricos

Dos ciclos de acumulação II

No post anterior voltou-se ao chamado “ciclo sistêmico de acumulação” de Giovanni Arrighi com a finalidade de reexaminar o papel da financeirização em sua fase da desaceleração.  Neste post retorna-se a ele para enfatizar o papel das inovações tecnológicas no seu desenvolvimento, aceleração e desaceleração. Para tanto, traduz-se um artigo de Tony Smith recém-publicado em inglês na revista Logos.

Neste artigo, esse autor argumenta que o processo de acumulação de capital é uma luta sem trégua entre unidades de capital que se dá por meio da introdução de inovações de método e de produto. E que esse processo é sempre contraditório: se, por um lado, abre espaço para a valorização do valor, por outro, tende a produzir superprodução de mercadorias. Assim, além do aumento da composição orgânica do capital, a taxa de lucro tende a cair também devido ao aumento da capacidade ociosa das empresas capitalistas.

Sob essa perspectiva, Smith analisa o capitalismo contemporâneo agora globalizado. O seu ponto central é que um episódio de superprodução generalizada se manifestou na economia mundial na década dos anos 1970. E que ele foi parcialmente “resolvido” por meio da financeirização dos anos 1980 em diante, ou seja, por meio da superação de uma barreira que acabou criando uma barreira ainda maior. Ainda sob essa perspectiva, que é ainda de Karl Marx, ele examina a situação atual para apresentar nua e cruamente as suas ameaças, o seu crucial dilema.

O artigo se encontra aqui: Tecnologia e capitalismo 150 anos depois de Das Kapital

Ainda sobre o keynesianismo

Como o postO que é keynesianismo?” foi bem recebido pelo círculo de leitores desse blog, publica-se outro sobre o mesmo tema. Trata-se da tradução de uma resenha que também apresenta o livro de Geoff Mann antes aqui discutido, No longo prazo todos estaremos mortos. Esta foi feita por Mike Beggs da Universidade de Sydney, tendo sido publicada no sítio do Jacobin. Ela examina as teses de Mann do ponto de vista da política transformadora possível nos países ricos do centro do sistema capitalista mundial. Na interpretação do autor deste post, ao fim e ao cabo, ela sugere que demandas keynesianas sejam agora retomadas pelos partidos de esquerda, não para manter o capitalismo, mas para criar as condições necessárias para superá-lo. É uma proposta num momento em que faltam propostas...

O texto se encontra aqui: A contra-revolução keynesiana

Impactos da austeridade

Pensando na economia capitalista no Brasil, aqui se vai fazer uma apresentação crítica dos impactos da política de austeridade examinando o caso recente da economia capitalista da Grécia. Para tanto, usa-se as informações e análises encontradas num artigo dos economistas gregos Nasos Koratzanis e Christos Pierros: Acessando os impactos da austeridade na economia grega (2017). Entretanto, como esses dois autores se mantêm numa perspectiva keynesiana, eles não levam a crítica ao seu horizonte. Para ver onde o sol se põe recorre-se à perspectiva desenvolvida pelo marxista grego, John Milios, no artigo A austeridade não é irracional (2015). Mostra-se, assim, que essa política, mesmo se se apresenta como tal, não visa a recuperação da produção mercantil. Ao contrário, busca continuar extraindo o maior volume possível de mais-valor na forma dos serviços das dívidas, mesmo se isto derruba e exaure o sistema econômico e, assim, produz uma catástrofe social.

O texto se encontra aqui: Impactos da austeridade na Grécia

Macroeconomia Atônita

De volta para o futuro! Sim, mas que futuro? Dois macroeconomistas consagrados na academia norte-americana, Olivier Blanchard e Lawrence Progress and confusionSummers, juntaram-se para escrever uma proposta de reformulação das práticas de política e de regulação econômica e, talvez (e isto não está claro), de mudança da macroeconomia atualmente ensinada nos cursos ditos mainstream de Economics.

Eis o seu título: Repensando a política de estabilização. De volta para o futuro. Ora, quando se lê essa alvitrada atentamente, vê-se que eles estão confusos teoricamente. Pois, eles querem salvar a tradição neoclássica a qual pertencem e, ao mesmo tempo, salvar o capitalismo que agora voa baixo sob o comando do capital financeiro.

A proposta, pois, enseja um comentário crítico que, no entendimento dos economistas do sistema, talvez figure como mero blábláblá. Porém, os dois “gênios” não teriam cometido inconsistências, não teriam caído em vulgaridades? A nota que foi escrita para apontá-las está publicada aqui  A macroeconomia, sim, está atônita e, ao mesmo tempo, no Outras Palavras.

Uma certa economia política neoliberal

O neoliberalismo é um sistema normativo que pretende estender a lógica da concorrência capitalista para todas as relações sociais. Os neoliberais estão convencidos de que o mercado fornece um paradigma de sociabilidade adequado para a sociedade como um todo. Em consequência, esforçam-se continuamente mudar as instituições existentes de tal modo que elas passem a incentivar a lógica competição. Em sua perspectiva, por exemplo, os governantes e os governados devem se comportar como se fossem empresas.

Esta postagem discute um pouco como os neoliberais querem enfrentar o baixo crescimento da economia capitalista no Brasil. Para eles, ela cresce pouco porque as suas instituições – especialmente estatais – não favorecem a busca do auto interesse, a concorrência e o esforço produtivo. Para mudar essa situação, propõem uma série de políticas sociais e econômicas. E elas são do seguinte tipo: conter o crescimento das despesas primárias do governo; reduzir a carga tributária; desregular o mercado de força de trabalho; encurtar a cobertura da previdência social; abrir a economia para a competição internacional; garantir melhor o direito de propriedade etc.

Na nota que se está publicando junto dessa postagem, indica-se que essas propostas não só abrem caminho para a normatividade da competição desenfreada, mas também – e de modo central – buscam obter uma elevação da taxa de lucro por meio do aumento do aumento da eficiência do capital industrial na apropriação e na retenção de mais-valor. Ao examiná-las, busca-se mostrar aqui que essas políticas podem, sim, ter algum resultado no sentido de elevar a taxa de crescimento do PIB. Porém, elas terão efeitos deletérios na sociedade brasileira: reduzirão os salários reais, diminuirão os gastos sociais do Estado, piorarão a repartição da renda, agravarão as tensões sociais, produzirão barbárie, fortalecerão as alternativas fascistas.

O texto da nota está aqui: Uma certa economia política neoliberal

Voou mais alto e despencou

            Nos anos 1990, alguns economistas passaram a empregar o termo “voo da galinha” para indicar o padrão de crescimento da economia capitalista no Brasil. Entretanto, entre 2004 e 2010 pareceu que esse padrão havia mudado de modo radical; pareceu que não podia ser mais visto como o voejo de uma galinha comum, mas como o adejo de uma galinha de angola. Pois, esta última é capaz de subir mais, ficar mais no alto e, assim, ir bem mais longe.

           Na verdade, o padrão de crescimento mudara apenas temporariamente. Por assim dizer, a ave que cisca no quintal do capitalismo mundial aproveitara uma oportunidade, subira no poleiro para daí poder se lançar um pouco além…. Porém, após um animado voo que não durou tanto assim, despencou rumo ao chão; de fato, como bem se sabe, caiu na lagoa dos patos e afundou. Agora, ela luta para voltar ao velho terreiro e se tornar novamente capaz de voos provavelmente tão rasos e intermitentes como aqueles que foram observados entre 1990 e 2003.

Para ler uma nota que procura uma explicação para o voo mais longo da economia capitalista entre 2000 e 2016 clique aqui: Subiu no poleiro, voou mais alto e despencou