A droga que cura a doença que produz!

Autor: Eleutério F. S. Prado

Poderá o dinheiro salvar o capitalismo? – eis a questão.

Quando ocorreu a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008, uma professora consagrada no meio acadêmico brasileiro, numa roda de economistas, declarou: “vamos voltar para a roça!”. Aludia ao efeito dominó possível que estava para ocorrer e que levaria certamente a economia mundial a um baque de proporções catastróficas. Se os bancos “too big to fail” quebrassem uns aos outros, a cadeia de tombos que se seguiria quebraria também um grande número de empresas produtoras de bens e serviços, de tal modo que o desemprego poderia atingir níveis altíssimos, cerca de trinta por cento ou mais da força de trabalho mundial.

O que garantiu a sobrevivência do sistema foi, como se sabe, uma política monetária inédita na história do capitalismo. A emissão em larga escala de dinheiro fiduciário pelos bancos centrais dos países ricos para comprar títulos dos bancos em situação de risco evitou que ficassem sem liquidez e, em consequência, ruíssem por inadimplência generalizada. Essa política econômica ficou conhecida pelo termo “relaxamento monetário” ou Q E (quantitative easing). Ora, um raciocínio simples diria: o dinheiro salvou o capitalismo; por sua causa, não voltamos todos a capinar para garantir o sustento da família!

Eis, na figura em sequência, um gráfico que dá uma ideia visual da dimensão do relaxamento monetário nos Estados Unidos. Note-se que o montante de ativos do banco central cresceu fortemente entre 2008 e 2014, estacionou daí até 2019, mas voltou a se elevar fortemente em consequência da crise do Covid-19. Em resumo, entre 2007 e 2021, cresceu oito vezes!

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Uma taxa de lucro mundial: novas evidências

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 22/01/2022

A lei de Marx da tendência de queda da taxa de lucro (LTQTL) foi sempre muito criticada ou mesmo ignorada. Foi tratada como uma explicação irrelevante das crises sob o capitalismo, tanto teórica quanto empiricamente.

Os críticos não pertencem à economia tradicional, já que eles geralmente ignoram completamente o papel do lucro nas crises. Eles vêm, em parte, de economistas pós-keynesianos que veem na “demanda agregada” o motor das economias capitalistas – e não diretamente o lucro. Mas os maiores céticos vêm dos próprios economistas marxistas.

Embora Marx considerasse a LTQTL como “a lei mais importante da economia política” (Grundrisse) e a causa subjacente dos ciclos recorrentes e das crises (O Capital, Volume 3, Capítulo 13) da economia capitalista, os céticos argumentam que a lei de Marx é ilógica e “indeterminada” enquanto proposição teórica (Michael Heinrich).

 Dizem que o suporte empírico para essa lei é inexistente ou impossível de obter. Em vez disso, afirmam que devemos procurar em outro lugar uma teoria da crise, seja recorrendo a Keynes seja amalgamando várias teorias ecléticas que se fundam na “superprodução”, no “subconsumo” ou na “financeirização” – ou simplesmente aceitando que não existe uma teoria marxista das crises. A meu ver, essas críticas foram respondidas de forma eficaz por vários autores, inclusive por mim.     

Sensível suprassensível I

Introdução

Autor: Eleutério F. S. Prado

Como se sabe, “sensível suprassensível” é um termo que aparece na seção sobre o fetichismo da mercadoria do primeiro capítulo de O capital. Sami Khatib, professor da Leuphana University, em Lüneburg, Alemanha, apresenta abaixo uma interpretação desafiadora desse termo e, assim, da teoria do valor de Marx. Como é importante contestá-la, esse blogueiro, numa postagem posterior (Sensível suprassensível II), vai discuti-la mais a fundo tendo em mente os ensinamentos de Ruy Fausto sobre a dialética de Marx.

A Estética da Abstração Real [1]

Autor: Sami Khatib

A linguagem e o trabalho são expressões nas quais o indivíduo em si não mais se retém e se possui a si mesmo; antes, ele deixa o interior mover-se totalmente para fora dele e assim o abandona ao outro. Por essa razão, podemos dizer que essas expressões expressam tanto o interior quanto podemos dizer que o expressam muito pouco. Muito – porque o próprio interior irrompe nessas expressões, nenhuma oposição permanece entre elas e o interior; eles não fornecem meramente uma expressão do interior, eles fornecem imediatamente o próprio interior. Muito pouco – porque na fala e na ação o interior se transforma em outro e assim se abandona à mercê do elemento de transformação, que torce a palavra falada e a ação realizada e faz deles algo diferente do que eles, como as ações desse determinado indivíduo, são em si e para si.

Hegel, 1807, Fenomenologia do Espírito

Abstração Real

Explicando as peculiaridades da forma de valor, na edição original de 1867 de O capital, vol. I, Marx desdobra uma imagem convincente:

É como se ao lado e fora dos leões, tigres, coelhos e todos os outros animais reais, os quais formam, quando agrupados, os vários tipos, espécies, subespécies, famílias etc. do reino animal, existisse também em adição o animal, encarnação individual de todo o reino animal.

O projeto de Marx da crítica da economia política poderia ser resumido como a ciência desse animal e de seu modo de existência espectral. Nas “sociedades em que prevalece o modo de produção capitalista” é como se a dimensão abstrata do valor adquirisse vida própria.

O caráter dual da mercadoria – eis que ela é tanto valor de uso quanto valor de troca – cria uma esfera aparentemente autônoma de relações de valor, as quais se desvincularam do mundo sensível das mercadorias concretas e, assim, da dimensão valor de uso dessas mercadorias. Essa autonomia, porém, não é meramente intelectual ou ideal como na esfera da religião onde “os produtos do cérebro humano aparecem como figuras autônomas dotadas de vida própria”.

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Bulimia capitalista: Lacan sobre Marx e crise

Fabio Vighi é um lacano-marxista italiano que escreve textos crítico do capitalismo que têm semelhança com os da corrente da crítica do valor dissociação. No artigo Bulimia capitalista ele mostra como Lacan compreendeu a categoria de mais-valor de Marx. Mesmo sem estar em concordância com ele, aqui se publica uma tradução do artigo que tem o nome acima indicado, cujo resumo – feito por ele mesmo – é o seguinte:

Quando, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Jacques Lacan se deparou com a crítica de Marx à economia política, ele chegou ao cerne de sua noção mais crucial: o mais-valor. 

Ao desenvolver sua abordagem psicanalítica, afirmou que o mais-valor de Marx ocupa a posição de sintoma/sinthoma como um núcleo de gozo não quantificável (jouissance), o que desafia a valorização.

Este artigo oferece uma interpretação da teoria do discurso de Lacan, destacando seu caráter socialmente crítico tal como aparece, particularmente, no discurso capitalista (o quinto discurso que subverte a estrutura dos quatro anteriores). 

Em seguida, enfoca o modo como Lacan à compreende o mais-valor de Marx, argumentando que, ao ler mais-valor como sintoma, Lacan chega ao cerne do enigma do modo de produção capitalista tal como desvelado por Marx.  Finalmente, o artigo examina a relevância que a leitura de Marx por Lacan pode ter para a compreensão da crise do capitalismo contemporâneo e seu impasse substantivo.

Para ler a tradução do texto como um todo baixe o pdf abaixo:

Mais uma contradição prospera no capitalismo

Autor: Prabhat Patnaik

Nos Estados Unidos ainda há quatro milhões de pessoas que permanecem desempregadas em relação à situação antes da pandemia; e, no entanto, a tentativa do governo Biden de estimular a economia já entrou em crise com o ressurgimento da inflação não apenas naquele país, mas também em outras partes do mundo capitalista. 

O Federal Reserve Board (o equivalente ao banco central dos EUA) planeja em breve aumentar as taxas de juros (atualmente próximas de zero). Ademais, mesmo a expansão fiscal será difícil de sustentar diante da inflação. Tudo contribui, portanto, para truncar a recuperação que vem ocorrendo. 

Em outras palavras, mesmo no principal país capitalista do mundo, cuja moeda é “tão boa quanto o ouro” e que, portanto, não precisa temer qualquer fuga de capital debilitante, a capacidade do Estado de estimular a atividade dentro de suas próprias fronteiras encontra-se seriamente constrangido.

Esta é uma nova contradição básica que surgiu no capitalismo mundial e que merece atenção séria. Segundo John Maynard Keynes, o mais importante economista burguês do século XX, embora o capitalismo espontâneo fosse um sistema falho que mantinha grandes massas de trabalhadores desempregadas, a intervenção do Estado poderia consertar essa falha. Ora, esse prognóstico já havia sido contraditado pela globalização de finanças. 

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Karl Marx: o papel alienação na compreensão do capitalismo

Marcello Musto

Autor: Marcello Musto[1]

A compreensão inovadora de Marx da alienação do trabalho é parte inestimável de seu pensamento. Para Marx, a alienação era fundamental para a compreensão do capitalismo e sua superação.

A alienação foi uma das questões mais importantes e debatidas do século XX e a teoria do fenômeno proposta por Karl Marx teve um papel fundamental na construção do conceito. No entanto, ao contrário do que se possa imaginar, a própria teoria da alienação não se desenvolveu de forma linear e a publicação de textos inéditos em que Marx analisou o conceito, marcou um momento significativo na transformação de sua teoria e na sua disseminação no uma escala global.

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, com a categoria de “trabalho alienado”, Marx não apenas estendeu o escopo do problema da alienação da esfera filosófica, religiosa e política para a esfera econômica da produção material, mas também converteu este último em condição indispensável para compreender e superar o primeiro. No entanto, essa primeira elaboração, escrita aos 26 anos, foi apenas o esboço inicial de sua teoria. Embora muitas das teorias marxistas posteriores de alienação tenham sido erroneamente fundadas nas observações incompletas dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 – que superestimam o conceito de “auto-alienação” (Selbst-Entfremdung) – não devemos esquecer que duas décadas ou mais de pesquisas que Marx fez antes de publicar O Capital produziram uma evolução considerável em seus conceitos.

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Subsunção da pulsão de morte ao capital

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Apresenta-se em sequência mais um trecho do livro Gozando com o que não se tem – o projeto político da psicanálise (Enjoying we don’t have – the political Project of psychoanalysis, 2013), de Todd McGowan. Assim como no anterior, busca-se nesta nova postagem continuar apresentado as conexões entre a psicanálise em sua versão não conformista e a crítica da economia política que vem de Karl Marx. Eis que esta última vem de Sigmund Freud, passa por Jacques Lacan e chega a autores como Slavoj Zizec.  

A tradução do trecho escolhido é literal, mas aqui se propõe que a sua noção central, pulsão de morte, seja lida criticamente. Segundo a psicanálise contemporânea – note-se –, a pulsão em geral – e não o mero instinto – é uma característica do ser humano justamente por que ele é um ser de linguagem. Ora, essa pulsão mora no inconsciente, mas se manifesta no consciente na forma do desejo em todas as formas de sociedade. Nem sempre do mesmo modo.

Como ocorre no capitalismo? Como esse modo de produção está baseado na subsunção do trabalho ao capital e na subsunção do sujeito à lógica do capital, o desejo das pessoas fica subsumido a um mandamento acumulativo. Eis que o superego reafirma constantemente ao “sujeito” o modo de ser do próprio capital que, como bem se sabe, move-se segundo a lógica do mau infinito. Tem-se, em consequência, um desejo insaciável que se dirige também para a acumulação. Assim, o capitalismo captura os desejos do sujeito oferecendo-lhe satisfação supostamente possível, mas lhe entrega, ao fim e ao cabo, apenas insatisfação. E isso será bem explicado no texto traduzido.

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O todo da tempestade: dinheiro, dívida e crise na atual longa depressão

Apresenta-se nessa postagem um artigo muito de Alan Freeman que este blogueiro traduziu já há dois anos para ser publicado numa revista de esquerda que tem a questão da crise capitalista como um tema importante. Infelizmente, por falta de periódico que publica traduções, ele permaneceu guardado no computador durante todo esse tempo. Agora, ele está sendo publicado no próprio blog Economia e Complexidade. Mesmo se perdeu um pouco a atualidade, o texto é muito instrutivo no que respeita à compreensão da crise da perspectiva de Karl Marx.

O artigo investiga os mecanismos e as causas das recessões e depressões. Investiga também a relação destas últimas com as crises financeiras mais espetaculares que as anunciam. Demonstra como o conceito de “expressão monetária do tempo de trabalho” permite entender o aspecto mais difícil dessa relação, a saber, como o dinheiro adquire valor e, assim, torna-se capaz de funcionar como “valor auto expansível”. Em consequência, permite compreender, nas condições específicas que caracterizam as recessões e depressões, porque ele funciona como alternativa ao emprego de capital na produção.

Para lê-lo, é preciso baixar o artigo em pdf.

Como encontrar o gozo perdido

Autor: Todd McGowan[1]

Marx indica como o modo de produção capitalista captura e transforma a força pulsional da atividade humana, vendo o comunismo como um corretivo implícito para essa distorção. Em sua visão crítica, o impulso de acumular não é um impulso inerente à própria subjetividade humana de tal modo que uma alternativa aparece como possível. No segundo tomo de O Capital, Marx enuncia essencialmente a posição da política emancipatória que vem da psicanálise quando diz: “o capitalismo já estará essencialmente abolido quando se assumir que a satisfação é o motivo principal da ação humana – e não mais o enriquecimento por si mesmo”. Aqui, a distinção entre gozo e enriquecimento como motivos para a ação separam o capitalismo dos outros sistemas econômicos, mesmo os não mencionados. A alternativa à acumulação é a satisfação – ou, mais especificamente, o reconhecimento da satisfação.

 O problema fundamental do capitalismo é este: ele não permite reconhecer o gozo ou mesmo entender o gozo como aquilo que move as pessoas. Não é que o capitalismo as prive da satisfação de pensar, amar, teorizar, cantar, pintar e esgrimir – para usar os exemplos do próprio Marx; ele não permite que as pessoas vejam a satisfação como um motivo possível para os seus atos. Pode-se pensar no impulso para o gozo ou num impulso centrado no gozo como uma possibilidade existente para além do sistema capitalista. Fora já dele, essa pulsão – pulsão de morte[2] – não teria outra finalidade senão o gozo, ou seja, operaria em contraposição à lógica acumulativa da pulsão capitalista. A pulsão capitalista de acumulação representa uma distorção da pulsão de morte, uma reescrita dela que muda a sua estrutura.

A luta política não é simplesmente uma luta pelo direito de usufruir de certos bens e pela melhor repartição desse direito. É também – e mesmo predominantemente – uma luta sobre como identificar e localizar o modo satisfação. A ideologia capitalista é hoje triunfante porque venceu esta luta no passado. Como sujeitos sujeitados ao capitalismo, as pessoas definem o gozo em termos de acumulação: goza-se na medida em que se acumula objetos desejados. E essa definição se tornou onipresente: de acordo com a lógica que prevalece hoje, até a satisfação que deriva do romance vem da aquisição de um objeto desejado. Mas essa não é a única maneira de pensar a satisfação. Uma das tarefas mais importantes para a política emancipatória hoje consiste em transformar a maneira usual de pensar o gozo – mediante uma quebra do vínculo posto pela ideologia capitalista entre acumulação e o gozo.

Mas o impulso capitalista para acumular não liquida simplesmente com a satisfação. Mesmo estando reescrita, essa pulsão continua a proporcionar uma satisfação costumeira. Contudo, a pulsão de acumulação dominante torna mais difícil para os sujeitos identificarem como desfrutam-na. A adesão pessoal ao capitalismo não ocorre por causa de uma negligência completa da satisfação própria, pois, na verdade, isso depende de modo fundamental da capacidade de proporcionar satisfação desse sistema. Se os súditos capitalistas não estivessem realmente se divertindo, não continuariam a ser súditos capitalistas. As pessoas realmente se divertem no mundo capitalista – a pulsão de morte continua a funcionar – mas elas não gozam da maneira pela qual a ideologia capitalista as apreende em sua lógica econômica.

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Estagflação, estagnação ou inflação?

Nome original: O dilema dos bancos centrais

Michael Roberts – The next recession blog – 15/12/2021

“A inflação que obtivemos não foi a inflação que esperávamos”, disse o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, em sua coletiva de imprensa, depois que o comitê de política monetária do Fed decidiu acelerar a “redução” de suas compras de títulos para zero em março de 2022. Sugeriu, então, que começaria a aumentar a taxa de juros básica do Fed, de zero para acima disso.

O que Powell quis dizer com a expressão “não foi a inflação que esperávamos”? Ele não se referiu apenas ao nível da taxa de inflação. A inflação de bens de consumo e serviços nos EUA está agora muito mais alta do que a previsão do Fed em setembro, quando ocorreu a sua última reunião. Isso também está ocorrendo com o chamado de “núcleo da inflação”, uma taxa que exclui os preços de energia e dos alimentos em alta acelerada. A inflação plena atingiu 6,5% em novembro, a maior taxa em quase 40 anos.

Para ler o artigo como um todo, baixar o pdf