Mais sobre uma taxa de lucro mundial

Artigo original de Michael Roberts, publicado em seu blog The next recession blog, em 20/09/2020

No post anterior, apresentei uma nova abordagem para calcular a taxa de lucro mundial. Não vou repassar aqui os argumentos lá apresentados, pois aquele post, assim como os anteriores sobre o assunto, está disponível no blog original (e numa tradução antes apresentada na semana passada). Mas naquela publicação, disse que apresentaria uma decomposição da taxa de lucro mundial nos fatores que a determinam.

Ademais, disse que iria relacionar a mudança na taxa de lucro à regularidade e intensidade das crises no modo de produção capitalista. Ademais ainda, consideraria a questão de saber, dada à tendência para a taxa de lucro cair (algo bem é consistente com a argumentação de Marx), se ela poderia chegar a zero eventualmente? E se isso vier a ocorrer, o que isso significa sobre o próprio capitalismo? Vou responder partes dessas questões neste post.

Primeiro, vou reapresentar os resultados da medição da taxa de lucro mundial tal como apareceu na postagem de julho. Com base nos dados agora disponíveis no Penn World Tables 9.1 (série IRR original), calculei a taxa média (ponderada) de lucro sobre ativos fixos para as principais economias do G20 de 1950 a 2017 (último ano disponível).

O artigo completo está aqui: Mais sobre uma taxa de lucro mundial

Fim da crise pandêmica: um retorno a Keynes?

Michael Roberts – The next recession blog

– Publicado em 28/09/2020

O último relatório da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento, órgão das Nações Unidas (UNCTAD), a agência de pesquisa econômica que visa ajudar os “países em desenvolvimento”, é leitura obrigatória. Não só está repleto de dados e estatísticas sobre as tendências e os desenvolvimentos na produção, no comércio e no investimento globais, mas esta edição de 2020 assume uma posição radical sobre como tirar a economia mundial do afundamento econômico que o FMI chama de “crise do fechamento” da economia.

Eis o que a UNCTAD diz eloquentemente: “A economia mundial está passando por uma recessão profunda em meio a uma pandemia ainda não controlada. Agora é a hora de elaborar um plano de recuperação global, que possa levar, com credibilidade, até mesmo os países mais vulneráveis, ​​a uma posição mais forte do que antes. A situação antes prevalecente é uma meta que não vale o nome de recuperação. A tarefa é urgente, pois neste momento a história está se repetindo, desta vez com uma mistura perturbadora de tragédia e farsa.”

Para ler a resenha crítica feita por Michael Roberts do documento da UNCTAD, clique aqui: Fim da crise pandêmica – um retorno à Keynes

A desigualdade da renda e da riqueza nos Estados Unidos

Em nota anterior comentou-se o livro de Anne Case e Angus Deaton que eles mesmo denominaram de Mortes pela desesperança. Esses autores explicaram com dados de estatística histórica o declínio social da classe operária branca nos Estados Unidos. O dado mais impressionante que apresentaram foi a queda na expectativa de vida dessa fração importante da sociedade americana – medida pelo total de trabalhadores sem curso superior.

Na presente nota, completa-se aquele quadro publicando uma nota de David Ruccio em que ele apresenta a situação da desigualdade nos Estados Unidos. Ele mostra agora a deterioração dos ganhos dos trabalhadores no país hegemônico e que é considerado como a pátria por excelência do capitalismo.

As causas imediatas dessa queda estão ligadas certamente às transformações tecnológicas e às transferências das industrias trabalho intensivas para a Ásia. Mas a causa última dessa deterioração encontra-se nas políticas neoliberais. E é isto o que mostra David Ruccio, professor da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

Alguns dados são impressionantes: o 1% superior na escala da renda dobrou a sua participação na renda: era pouco mais de 10%, em 1976, mas, quarenta anos depois, em 2016, atingiu a marca dos 20%. O que aconteceu com a concentração da riqueza é ainda mais impressionante: enquanto a fração da riqueza possuída pelo 1% superior (linha verde na Figura 2) cresceu de 24% em 1976 para 36,6% em 2016, a fração possuída pelo 90% inferior (linha roxa) caiu de 35% para 28,7% no mesmo período de tempo.

O texto está aqui: A desigualdade nos Estados Unidos

Roberts: Capitulando para adultos

Durante o bloqueio pandêmico, pude ler uma série de novos livros de economia, alguns marxistas, mas a maioria deles não. Parece que muitos economistas importantes publicaram novidades nos A Bolsa Ou a Vidaúltimos dois meses. Nas próximas semanas, farei post sobre alguns deles.

Começarei com Sellouts in the Room de Eric Toussaint. Originalmente publicado em março último, em francês (mas também em grego) sob o título Capitulation entre Adultes, o livro estará disponível em inglês antes do final de 2020. Toussaint rememora os eventos da crise da dívida grega quando a Troika (formada pela Comissão Europeia, o BCE e o FMI) tentaram impor um programa drástico de austeridade ao povo grego. Em troca, destinariam fundos de “resgate” para cobrir as dívidas existentes devidas pelos bancos e pelo governo grego a credores estrangeiros. Eis que o crédito para a Grécia havia secado nos mercados.

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Da neurose à perversão: Crise moral no ocaso do capitalismo

O livro não é novo, mas a sua tese precisa ser recuperada, pois com o passar dos anos tornou-se ainda mais relevante. O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço foi publicado, em 2003, na França e, em 2008, no Brasil. Aqui se apresenta a sua tese fazendo uma ponte com a crítica economia política,.

Ele contém uma longa conversa entre dois psicanalistas franceses, Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun. O primeiro deles alçara, nesse domínio do saber, uma questão associada à emergência e à difusão do neoliberalismo a partir do fim dos anos 1980. E ela, agora, na passagem do milênio, tornara-se motivo de um debate que buscava uma melhor compreensão do tema.

O livro retrata, pois, essa discussão. Eis, pois, o núcleo da tese levantada: com a vitória do neoliberalismo, “passou-se de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, da cultura da neurose, para uma outra que recomenda a sua livre expressão e que promove a perversão”. A perversão, pois, é tomada aqui como um sintoma do ocaso do capitalismo, do fato de que ele não tem mais horizonte histórico progressivo – ao contrário, o seu futuro é a regressão.

O texto completo está aqui: Da neurose à perversão – Crise moral no ocaso do capitalismo

O caráter fetichista do partido stalinista e seu segredo

É possível expor o partido stalinista do mesmo modo que Karl Marx, em O capital, expôs o fetichismo da mercadoria? Slavoj Zizek acha que sim e a sua apresentação crítica dessa forma de partido político encontra-se no seu livro Eles não sabem o que fazem – O objeto sublime da ideologia (Zahar, 1992). Ele, como se sabe, existiu concretamente e governou o sistema centralizado de acumulação de capital que vigorou na Rússia de 1917 até 1991. Mas será que ele desapareceu totalmente?

Como ainda parece importante entender melhor esse “desvio” – na verdade, um afundamento – totalitário de uma organização política que se apresentou na cena histórica como socialista democrática e, ao mesmo tempo, como autoritária. Por que respondeu tão mal à tradição política originada nas propostas de Marx e Engels para superar o modo de produção capitalista?

Que fracassou, todos sabem; não foi muito longe, ao contrário, e isto foi provado cabalmente pelo retorno da Rússia ao capitalismo, agora, na forma de um sistema de acumulação descentralizado. Logo, parece importante saber se esse fracasso não estava inscrito em sua forma própria desde o início? Como não cair no mesmo erro?

De qualquer modo, eis aqui uma apresentação didática de seu argumento: O caráter fetichista do partido stalinista e o seu segredo

O terrível quarteto e seu poder de mercado

Aqui se apresenta a tradução de uma nota de Michael Roberts que tem esse título. Ela foi publicada em seu blog The next recession blog em 1º de agosto de 2020. Ela está em sequência.

No dia 27 de julho de 2020, uma quinta-feira, as gigantes globais de tecnologia, com sede nos EUA, apresentaram, simultaneamente, os seus ganhos trimestrais.  No mesmo dia, foi registrado que a economia dos EUA passara por sua maior contração trimestral na produção nacional de todos os tempos (menos 9,5% no trimestre, o que equivale a uma taxa anual de menos 32,9%).

Em contraste, Alphabet (Google) – o maior mecanismo de busca do mundo; Amazon – maior distribuidor online do mundo; Apple – o maior fabricante de computadores e celulares do mundo; e o Facebook – o maior provedor de mídia social do mundo, que formam um “temível quarteto”, registrou um crescimento de receita de dois dígitos nos três meses encerrados em junho. Obtiveram, assim, um lucro combinado de US$ 33,9 bilhões apenas no segundo trimestre. Embora os EUA e a economia mundial tenham mergulhado numa enorme queda de atividade, mais profunda desde a década de 1930, em função dos bloqueios gerados pela pandemia COVID-19, as empresas de tecnologia mais proeminentes do mundo prosperaram.

 

Como as receitas haviam subido no conjunto dessas empresas de tecnologia, os preços de suas ações (capitalização de mercado) se elevaram para US$ 178 bilhões no dia seguinte. O valor de mercado dessas ações cresceu para US$ 5 trilhões, ou seja, 25% do PIB dos EUA.  O CEO da Amazon, Jeff Bezos, recebeu assim o maior aumento de riqueza já registrado em um único dia, para qualquer indivíduo ao longo de toda história do homem na face da Terra. Em apenas um dia, sua fortuna aumentou em US$ 13 bilhões. Conforme a tendência atual, ele está a caminho de se tornar o primeiro homem a ter uma fortuna de um trilhão de dólares no mundo, o que deverá ocorrer até 2026.

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Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Convidado para fazer uma apresentação sintética das conexões entre “dívida pública” a “subsunção do trabalho ao capital” na cena contemporânea, o autor desse blog preparou uma exposição sobre o tema por meio de uma apresentação em “powerpoint”. Como a exposição não pode ocorrer por falha deste blogueiro impenitente, ele publica aqui o original preparado para os eventuais interessados.

O material se encontra aqui: Formas contemporâneas da subsunção do trabalho ao capital

Mortos pela desesperança

Eis como, os autores – fazendo uso de um pensamento positivo moderado – consolam-se diante de uma situação que se afigura como desconsolada: “mantemos o otimismo; acreditamos no capitalismo; continuamos a crer que a globalização e a mudança tecnológica podem ser orientadas em benefício de todos”.

A situação social que descrevem em Mortos pela desesperança e o futuro do capitalismo  (Deaths of despair and the future of capitalism. Princeton University Press, 2020) apresenta-se como desastrosa, indignante e cruel, mas ao invés de fazer uma crítica radical do sistema que, aliás, chamam pelo seu verdadeiro nome, preferem vê-lo apenas como mal administrado.

Anne Case e Angus Deaton, dois economistas consagrados da Universidade de Princeton (EUA), documentam nesse livro, de certo modo corajoso, os infortúnios, as ofensas sistêmicas e os bloqueios de perspectiva que os trabalhadores brancos menos instruídos (classe operária) vêm enfrentando na sociedade norte-americana.

Para mostrar que essa obra tem, sim, valor descritivo para compreender o que ocorreu nas últimas décadas com o sonho americano, leia-se a nota crítica se encontra aqui: Mortos por desesperança

 

Morozov: Socialismo digital

A Europa vai voltar à socialdemocracia a partir terceira década do século XXI? Recentemente foi anunciado que o bloco de 27 países que formam a União Europeia aprovou um pacote de 4,7 trilhões de reais com o objetivo de torná-la líder da economia verde e da economia digital.

Basta gastar mais dinheiro nessa direção? Ora, como argumenta Evgeny Morozov no artigo que aqui se apresenta, as grandes conquistas socialistas no século XX ocorreram no campo da inovação institucional. E é nesse campo, segundo ele, que a Europa deveria realmente inovar.

Sugere, por isso, que a Europa pode reviver essa tradição. Sugere, ademais, que ela precisa ir bem mais longe do que simplesmente criar as condições de investimento por parte do setor privado. Ela tem, segundo ele, de se empenhar em construir infraestruturas tecnológicas que funcionem como comuns – e não como fontes de acumulação de capital para a iniciativa privada.

Ainda que a proposta de reinventar a socialdemocracia pareça ingênua ou mesmo utópica no mundo atual – mas especialmente no contexto da América Latina em que ela nunca existiu de fato – a mensagem central afigura-se como bem correta. Sem assumir o controle das plataformas de informação, a possibilidade de controlar o sistema econômico e, assim, as condições de vida da população, não se realizará.

Ainda que Morozov tenha ainda esperança na socialdemocracia europeia, aqui se sustenta uma tese mais radical. Apenas superando o capitalismo por meio do socialismo democrático será possível alcançar os objetivos que ele corretamente põe como centrais .

O texto está aqui: Morozov – Socialismo digital