A última encarnação do capitalismo

Como foi dito no post anterior, há no campo do pensamento crítico duas linhas de explicação para a crise de 2007-2008:

  1. uma delas procura mostrar que essa convulsão, em última instância, decorreu das tendências inerentes ao modo de produção capitalista, em especial da lei da tendência à queda da taxa de lucro;
  2. a outra busca as suas causas imediatas nas mudanças institucionais que ocorreram a partir da crise dos anos 1970, em particular aquelas que liberaram as finanças dos constrangimentos até então existentes à sua expansão.

Este post encaminha a publicação de um artigo percuciente que representa muito bem essa segunda posição. O texto foi escrito por uma jovem e brilhante economista britânica que trabalha como pesquisadora no Institute for Public Policy Research (IPPR) ligado ao Partido Trabalhista do Reino Unido.

Apesar de concordar com a sua tese central – a financeirização não é uma perversão do capitalismo, mas expressão privilegiada de sua mutação histórica mais recente –, julga-se que abriga certas questões conceituais que precisam discutidas e criticadas.  Mas isto será feito apenas no próximo post a ser publicado neste blog.

O artigo de Grace Brakeley se encontra aqui: A última encarnação do capitalismo; mas ele foi publicado também pelo Outras Palavras:  https://wp.me/p15fon-39EB.

A crítica se encontra aqui: Rentismo ou jurismo?

Três ondas da globalização: uma explicação estrutural

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Introdução

Aquilo que é atualmente chamado de globalização vem de longe na história da era moderna. Como se sabe, trata-se de um processo que se iniciou por meio das “grandes navegações”, no século XV d.C. Ademais, como também se sabe, partindo daí, desenvolveu-se por cinco séculos para chegar a um estado atual que foi prefigurado no Manifesto Comunista, escrito em dezembro de 1847 e janeiro de 1848, por Karl Marx e Frederick Engels:

O descobrimento da América, a circum-navegação de África, criou um novo terreno para a burguesia ascendente. O mercado das Índias orientais e da China, a colonização da América, o intercâmbio com as colônias, a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio, à navegação, à indústria, um surto nunca até então conhecido, e, com ele, um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na sociedade feudal em desmoronamento. (…). A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contatos em toda a parte.

A globalização é um processo complexo cuja descrição cabal exige um escrito de centenas de páginas. Entretanto, pode-se apresentar o seu desenvolvimento mais recente sumariamente – ou seja, considerando apenas o último século e meio – por meio de um indicador da evolução do comércio internacional em nível mundial. Eis que há informações estatísticas pertinentes, de qualidade bem razoável, que cobrem um intervalo de tempo que vai de meados do século XIX até o presente. Dispondo então da razão entre o volume de comércio internacional e o PIB global, ano a ano, para tal período secular, pode-se apresentar graficamente o movimento secular da globalização em suas altas e baixas em torno de uma tendência que parece ser sempre de crescimento.

As duas figuras em sequência mostram o processo da globalização de um modo que pode ser considerado como bem significativo. Antes de apresentá-las efetivamente é importante mencionar que a datação de fenômenos históricos é sempre mais arte do que procedimento rigoroso. Aquela aqui apresentada – colhida, na verdade, num artigo de Thomas I. Palley[2], o qual, por sua vez, reflete uma literatura mais ampla – utilizou-se de alguns eventos históricos marcantes. Entretanto, como se pode notar, ela se baseia principalmente na própria evidência estatística que periodiza.

A estatística descritiva apresentada no gráfico em sequência mostra visualmente que o volume de exportações e de importações como proporção do PIB em nível mundial cresceu de 20 para 60 por cento, entre 1870 e 2008. Ora, este é um resultado impressionante que comprova a tese da tendência à mundialização da relação de capital, tal como foi previsto por Marx e Engels.

A figura acima apresenta também, além da série histórica requerida, três grandes ondas de globalização: a primeira que tem início em meados do século XIX e que vai até o começo da Iª Guerra Mundial, em 1914; a segunda, que começa após o fim da IIª Guerra Mundial, em 1945, e que dura até a ascensão de governos neoliberais nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, em torno de 1980; a terceira, que se inicia em 1990, quando ocorre o colapso do “socialismo real”, mas que pode eventualmente não ter chegado ainda ao fim. No entanto, é preciso registrar que essa última onda se enfraqueceu fortemente quando sobreveio a crise de 2008, a qual se seguiu uma longa estagnação (que alguns consideram mesmo como uma longa depressão). É, pois, possível também que um novo período tenha sido inaugurado com a crise de 2008.

Note-se que os términos das ondas são marcados seja por regressão seja por estagnação do comércio internacional. Nesse sentido, houve evidente regressão entre 1914 e 1945 e pelo menos alguma estagnação entre 1980 e 1990. Ademais, passou a ocorrer – como mostra a segunda figura em sequência – pelo menos uma estagnação do volume desse comércio após 2008, indicando que a terceira onda parece ter entrado numa fase de esgotamento. Note-se, ademais, que uma tendência à estagnação ocorreu já após 1971, mas ela foi mascarada devido aos enormes aumentos dos preços do petróleo observados no período. Os inícios, em complemento, indicam retomadas do curso de longo prazo da globalização. E essa tendência – julga-se em consonância com Marx e Engels – reflete tanto um certo “caráter revolucionário” da produção capitalista quanto a sua natureza fortemente espasmódica e turbulenta.   

Palley caracteriza essas três ondas, pela ordem, como vitoriana, keynesiana [3] e neoliberal. As duas primeiras, segundo ele, devem ser vistas sob a lente tradicional da expansão do comércio mundial, mas a terceira, diferentemente, deve ser enxergada pela “lente da reconfiguração global da organização da produção”. Ora, como aqui se crê que mudanças históricas na produção capitalista de mercadorias encontram-se na base das três ondas assinaladas – e não apenas na última –, considera-se que a sua maneira de qualificar essas três vagas pode ser enganadora. É patente que, durante todo o período considerado, ocorreram sucessivas mudanças na própria “organização da produção” em nível nacional e global e que essas mudanças (a serem apresentadas) acabaram se refletindo de alguma maneira na superfície mais visível da economia como um todo, ou seja, no comércio mundial.

Para chegar a uma melhor compreensão do tema, é preciso considerar primeiro as grandes etapas históricas do capitalismo e, depois, os seus fundamentos na organização da produção.

Etapas do capitalismo

Há um consenso sobre a imensa evolução do comércio internacional a partir do último terço do século XVIII. Eis que ele cresceu ainda mais do que a produção mercantil que lhe serviu de base:

A ascensão do sistema mundial de comércio, tal como outras características da economia mundial moderna, inicia-se amplamente com a revolução industrial. Os imensos avanços tecnológicos no transporte e na comunicação então deslanchados – desde os navios a vapor, as estradas de ferro e o telegrafo até os automóveis, os aviões e a internet – reduziram fortemente o custo de mover bens, capital, tecnologia e pessoas pelo mundo. A “morte da distância”, empregando assim uma metáfora moderna – tem sido uma das mais importantes forças a moldar desde então o desenvolvimento econômico global desde os anos 1800.[4]

É nessa ascensão que as três ondas de globalização puderam acontecer. Note-se de início, então, alguns elementos de caráter bem geral que as caracterizam. Cada uma delas está evidentemente marcada não apenas por certo desenvolvimento da tecnologia de transporte e de comunicação, mas também pelo poder imperialista que prevalece historicamente; ora, no período aqui estudado, este passou da Grã-Bretanha para os Estados Unidos. A tabela em sequência apresenta essas diferenças esquematicamente:

Ondas1ª onda2ª onda3ª onda
Período1860-19141945-19801990 – …?
Forma do poder imperialistaO imperialismo britânico domina; mas há rivalidades imperialistas; neocolonialismo.Hegemonia do imperialismo norte-americano no Ocidente; Guerra Fria.Imperialismo dos EUA ainda domina, mas há a ascensão da China e da União Europeia.
Tecnologia de transporte e comunicaçãoMotor a vapor, a combustão interna e elétrico; ferrovias; grandes navios; refrigeração; telégrafo.Rodovias, aviões de passageiros e de carga; navios tanques e de containers; televisão e satélite.Revolução digital: satélites de comunicação; computação eletrônica; internet; telefones celulares.

Ainda que a evolução da tecnologia de transporte e comunicação tenha sido bem importante para o desenvolvimento do processo da globalização, aqui se quer focar centralmente a evolução do modo de organizar a produção capitalista em escala mundial, pressupondo, em consequência, o “imperialismo”. Pois, se tem claro que aquilo que se aponta com esse termo vem a ser uma estruturação de poder entre as nações, algo que existe e se mantém enquanto vigora e domina, em escala mundial, o modo de produção capitalista.

Nessa nota, por isso, adota-se a perspectiva de Milios e Sotiropoulos que se recusa a empregar esse termo para assinalar uma fase histórica do capitalismo. Segundo eles, a palavra imperialismo denota mais corretamente a hierarquia das relações de poder relativo das nações umas em relações às outras. Assim, se há sempre um poder hegemônico nessa hierarquia, este está assentado numa estruturação de poder que se estende para o conjunto das nações formando uma “cadeia imperialista”:

Desde o início o imperialismo tem sido uma característica básica do capitalismo historicamente existente. Não é, pois, produto de um estágio específico do capitalismo. Esta tese torna possível traçar muitos eventos e períodos históricos aparentemente diferentes à mesma causa estrutural. As batalhas para expandir as fronteiras, as lutas para adquirir mercados internacionais (…); o colonialismo, as guerras mundiais, as guerras regionais, os períodos de tensão e de alívio da rivalidade imperialista, a era da Guerra Fria: tudo isso são simplesmente formas históricas distintas das conexões efetivas entre os elos da cadeia imperialista, isto é, a trama contraditória e desigual de poder que conecta as diferentes formações sociais no plano internacional.[5]

Nessa perspectiva, para melhor compreender as três ondas de globalização é preciso dispor de uma periodização do capitalismo enquanto formação histórica que tende a mundialização. Como já se escreveu no passado [6], com base em escritos de Marx, considera-se que a história secular da produção capitalista na era moderna tem três momentos fundamentais: o da manufatura (que vai do século XVI até o último quartel do século XVIII), o da grande indústria (que vai até a década dos anos 1970) e o da pós-grande indústria (da última década citada em diante). Ora, esses três modos de fundar a produção de mercadorias constituem as bases estruturais do desenvolvimento do próprio modo de produção capitalista tomado como um processo que expande e intensifica a globalização.       

Após a fase da manufatura, nasceu e cresceu o que ficou conhecido como capitalismo industrial. Aqui se enfoca principalmente apenas o período histórico em que este se concretiza. Entre 1770 e 1870 e entre 1980 e 1991 se tem dois subperíodos de significativas transições; neles se formaram, respectivamente, a grande indústria e a pós-grande indústria.[7] Nessas fases de transição subsistiram de maneira importante aqueles modos de produzir que se estabilizaram nos momentos históricos anteriores. Assim, a manufatura ainda se mostrou importante na primeira metade do século XIX e a grande indústria não foi inteiramente ultrapassada nas décadas imediatamente após 1980.

De 1870 em diante tem-se, pois, uma extensa fase em que se expande e se   consolida-se a grande indústria, mas também em que surgem finalmente barreiras internas à sua subsistência e manutenção. Note-se que esse período tem um significado especial na compreensão de mundo que vem de Marx porque ele próprio considerou a grande indústria como o modo de produzir mercadorias especificamente capitalista. Note-se que esse espaço de tempo que excede um século, na perspectiva aqui desenvolvida, contém dois subperíodos (a serem explicitados). De qualquer modo, a fase da grande indústria é superada a partir de 1970 do século passado. Com o esgotamento do grande boom do após guerra surgiram entraves ao desenvolvimento do capitalismo que levaram a mudanças na organização da produção capitalista internamente às nações e internacionalmente.

Subsunção do trabalho ao capital

Note-se, agora, que estas três formas históricas de organizar a produção de mercadorias, as quais subsistiram e evolveram no interior do modo de produção capitalista, foram caracterizadas pelo próprio Marx como formas historicamente determinadas por meio das quais se deu e, assim, se concretizou, o que ele mesmo denominou de subsunção do trabalho ao capital.[8] Nessa perspectiva, para distingui-las, em O capital, ele associou à manufatura e à grande indústria, respectivamente, a materialização da subsunção meramente formal e da subsunção formal e real do trabalho ao capital. Com base em textos dos Grundrisse, é possível distinguir, então, duas formas algo distintas de subsunção real: uma primeira, material, que se consolidou na grande indústria propriamente dita e uma segunda, intelectual, que se concretizou na pós-grande indústria.[9]

Por meio da subsunção formal, o trabalhador se torna juridicamente subordinado ao capital e se transforma, assim, em trabalhador assalariado. Por meio da subsunção real, o trabalhador deixa de ser o condutor do processo de trabalho; é atrelado ao sistema produtivo, passando, então, a ser conduzido de algum modo por sua própria lógica de funcionamento. A subsunção é dita material quando o trabalhador se torna peça ou “apêndice” de um sistema de máquinas baseado em tecnologias mecânicas. A subsunção real torna-se intelectual quando o trabalhador passa a atuar mormente como cérebro-servidor de um sistema produtor de mercadorias que está cada vez mais dependente das tecnologias da informação e comunicação.

Deve ser enfatizado que a periodização do capitalismo aqui retomada não está fundada em quaisquer características aparentes do capitalismo, mas na consolidação consecutiva das formas da subsunção do trabalho ao capital, ou seja, nas formas societárias que visam manter e expandir a relação de capital e, assim, extrair parte crescente do valor produzido pelo uso da força de trabalho. É preciso notar que, sob a subsunção formal, a lógica da extração de mais-valor funda-se no mais-valor absoluto. E que, sob a subsunção real e material, ela passa a se fundar no mais-valor relativo.

A subsunção formal e a subsunção real, entretanto, não se excluem uma da outra, ao contrário, combinam-se sempre, histórica e dialeticamente, para ampliar sempre mais a subordinação do trabalho ao capital. Note-se que a subsunção formal é uma condição necessária da subsunção real e que o capitalismo avança estendendo sempre mais relação de assalariamento e, ao mesmo tempo, aprofundando a exploração por meio do aumento da produtividade do trabalho. Contudo, é preciso ver também que a lógica própria da primeira predomina no período manufatureiro e que a lógica própria da segunda passa a predominar no período da grande indústria.

Na perspectiva aqui abraçada, a primeira e a segunda ondas de globalização ocorrem no interior do extenso período histórico em que a grande indústria se solidifica, estando ambas marcadas, portanto, pelo vigor da extração de mais-valor relativo:  a primeira acontece sob a hegemonia do imperialismo britânico e a segunda sob a hegemonia do imperialismo norte-americano. Na fase britânica, o seu núcleo dinâmico são as indústrias nacionais e, na fase, norte-americana, este passa para as indústrias multinacionais. Em ambos os casos se verifica um processo expansão do capital que combina elevação da produtividade do trabalho nas esferas e áreas já dominadas por ele com a expansão da relação de capital para novas esferas e novas áreas. Ora, essa expansão se dá por meio de certas configurações de imperialismo.

A terceira onda sobrevém quando passa a se consolidar a pós-grande indústria. Está nasce para superar os entraves ao desenvolvimento da grande indústria no centro do sistema, os quais aparecem, grosso modo, já na década dos anos 1970. O seu impulso principal vem do nascimento e da expansão de formas de organização do trabalho que visam ir além da extração de mais-valor relativo. A subordinação dos trabalhadores é reforçada não só por meio do emprego das novas tecnologias de processamento de informação e de comunicação, mas também por outros meios. Como a expansão da pós-grande indústria se dá sob a égide do capital de finanças, a subsunção financeira do trabalho ao capital – que não é nova historicamente – ganha enorme importância nessa fase de desenvolvimento do capitalismo.[10] Ademais, como a subsunção do trabalho ao capital se torna societária e totalizante, ela passa a depender também, fortemente, das técnicas aprimoradas de manipulação ideológica e midiática.

O evolver da relação de capital descobre agora novas formas de extração de mais-valor absoluto, agora por meio da precarização, terceirização, superexploração do trabalho assalariado, assim como da espoliação dos trabalhadores seja na esfera da produção seja na esfera do consumo, no centro e na periferia do sistema. Tais formas sobrevêm, então, como formas contemporâneas – neoliberais e cínicas – de manter o domínio do capital não só sobre o trabalho, mas também sobre a vida humana em geral. Pois, as promessas de civilização que o capitalismo continua oferecendo se tornaram agora não apenas meras miragens, mas ilusões genocidas cada vez mais perigosas.

As três ondas da globalização

Para poder retomar a linha principal de argumentação, note-se que as ondas da globalização manifestam de algum modo o caráter bem-sucedido da acumulação de capital em nível mundial em certas condições históricas. Eis que se formam no correr do tempo determinadas configurações da produção capitalista e estas produzem prosperidade por um certo período, mas acabam por entrar em declínio relativo, tal como ocorreu entre 1914 e 1945, entre 1980 e 1990, e após 2008.

Essas configurações, que se sucedem formando “períodos”, surgem como respostas sistêmicas do capitalismo às suas próprias barreiras e crises de desenvolvimento. Elas advêm de suas contradições, mas se configuram e aparecem como respostas que são construídas administrativa, política e geopoliticamente pelos agentes-suportes da relação de capital frente ao evolver das forças produtivas e das relações de produção e, assim, das lutas de classes em geral. Eis que essas lutas se dão entre as burguesias dos estados nacionais, mas não ocorrem sem estar fundadas nas lutas entre frações da burguesia, assim como nas lutas entre as burguesias e os trabalhadores, no interior dos estados nacionais.

Como se sabe, a predominância da grande indústria em relação à manufatura ocorreu na Inglaterra já por volta de 1848, mas ela só aconteceu nos outros países do centro capitalista após 1970. É com a Grande Depressão de 1873-1893 que a revolução industrial iniciada na Inglaterra se espraiou mais fortemente para países como Alemanha, Estados Unidos, França, Escandinávia, principalmente. Ao longo da primeira metade do século XIX, a extração de mais-valor absoluto se mostrou cada vem mais inadequada como meio de aumentar o mais-valor extraído dos trabalhadores. Finalmente, nas três últimas décadas do século XIX, ela foi superada no centro do sistema mundial de acumulação. Ao fim deste período, estava plenamente consolidado nesses países – mas ainda não na periferia – o capitalismo de grande indústria que se baseia principalmente na extração de mais-valor relativo.

Essa renovação produziu grandes transformações: elevação da aplicação da ciência e da tecnologia nos processos produtivos, crescimento do tamanho das fábricas, ou seja, de grandes autômatos que combinam máquinas e homens, dominação de setores por capitais monopolistas, expansão dos mercados domésticos etc.  Sob esse impulso, ganharam também corpo nesses países as massas de proletários e, como elas, sobreveio o fortalecimento dos sindicatos. A expansão da produção por meio da grande indústria implicou no crescimento do comércio internacional e, em consequência, da exportação de capitais. A intensificação da competição entre os capitais monopolistas [11] engendrou as disputas por mercados externos, criou o nacionalismo, gerou rivalidades internacionais, fomentou o neocolonianismo.

É preciso, agora, tentar caracterizar as três ondas de globalização aqui consideradas pondo em relevo os seus fundamentos históricos nas formas da “organização da produção” que se sucederam ao longo do último século e meio. A figura acima, ainda que restrita ao período 1900-2011, contribuirá para esse esforço. Ela mostra a mudança secular na composição da pauta de exportações de mercadorias tomando o mundo como um todo. Como se vê, ela indica que o comércio internacional, até o começo da II Guerra Mundial, se concentrava na exportação de produtos agrícolas, mas que isto se modificou fortemente no período que se segue ao seu término, em 1945. Passou então a predominar o comércio de insumos para a indústria (produtos de mineração e energia) e de produtos industriais na forma de mercadorias.

O século XIX assistiu a grandes mudanças na divisão internacional do trabalho, algo então em formação, devido ao desenvolvimento da indústria moderna no centro do sistema. Toda uma periferia vai se constituir como fornecedora de matérias primas e de bens primários para os países que entraram com força na corrida pela industrialização. Surgiu, por isso um crescente diferencial de produtividade entre os países do Norte e do Sul, o qual se refletiu na diferente capacidade para gerar rendas. Devido à abertura comercial, ocorreu mesmo uma desindustrialização de certos países como a China e a Índia (o caso mais notório) e mesmo na América Latina.

Mesmo no centro, o comércio internacional esteve largamente dominado pelos produtos primários pelo menos até o começo da I Guerra Mundial. Como a industrialização do centro, como já se mencionou, prosperou numa base estritamente nacional, era inevitável que surgissem rivalidade imperialistas entre as nações mais desenvolvidas. A Grã-Bretanha, que dominava os mares e tinha um império colonial extenso, foi a potência maior na produção industrial até, grosso modo, o fim do século XIX; de 1870 em diante teve de enfrentar a competição dos Estados Unidos e este a ultrapassou já no começo do século XX; demais, a Alemanha, França e Japão despontaram como competidores significativos na produção industrial.

 Após a recessão do período entre as duas grandes guerras mundial – que viu crescer o nacionalismo econômico e o protecionismo –, o movimento ascendente da globalização retomou o seu curso a partir de 1945, agora sob hegemonia dos Estados Unidos. O comércio internacional cresceu fortemente na “era de ouro” do capitalismo, a qual durou aproximadamente de 1950 até 1973, sob a égide de novas instituições econômicas multilaterais, com o acordo de Bretton-Woods, o FMI e o GATT. O ambiente de cooperação industrial e comercial sob a liderança imperialista dos Estados Unidos enfrentou, entretanto, a Guerra Fria, ou seja, a oposição da União Soviética.

Uma das mais importantes diferenças da segunda onda de globalização em relação primeira encontra-se no modo de desenvolver as forças produtivas industriais. Enquanto na primeira, a grande indústria cresceu numa base nacional, agora, ela passou a se expandir numa base multinacional. A industrialização, além de se fortalecer no centro, espalhou-se para os países da periferia de tal modo que a produção mercantil de produtos industrializados passou a ser conduzida por meio de empresas gigantes que mantinham plantas em muitos países do mundo. Com a figura acima bem mostra, passou a predominar no comércio internacional as trocas de bens e de componentes produzidos por plantas industriais, em detrimentos das trocas de produtos agrícolas.  

Em consequência dessa nova orientação, ocorreu uma explosão dos investimentos estrangeiros diretos, o que mudou significativamente o caráter do imperialismo. A extração de mais-valor deixou agora de se basear predominantemente na coerção neocolonial, pois passou a depender mais do que é chamado de “troca desigual”, ou seja, de uma transferência que está implícita na troca de mercadorias produzidas em condições muito diferentes de salário e produtividade do trabalho.

Já aqui aparece um fenômeno que se tornará crucial na terceira onda da globalização, qual seja ele, as complexas cadeias produtivas cujos elos se espalham pelo mundo na dependência do custo relativo de produção. Assim, os componentes e produtos intensivos em ciência e tecnologia tenderão a ser produzidos no centro e aqueles intensivos em trabalho, na periferia. Mas esse processo se intensificará de modo formidável apenas quando surgem as tecnologias de computação e de comunicação digitais a partir dos anos 1970, as quais tornaram possível uma interação mais intensa e mais rápida entre matrizes e subsidiárias, entre as empresas líderes e as empresas fornecedoras. Segundo dados do relatório antes citado, “em 2009, haviam 82.000 multinacionais em operação, controlando mais de 810.000 subsidiárias no mundo como um todo. Quase dos terços do comércio mundial se dava então no interior das empresas multinacionais, incluindo-se aí os seus fornecedores, o que mostra a importância das cadeias globais de oferta”.[12]

Se no começo da segunda onda o comércio de produtos industrializados se dava principalmente entre as economias industrializadas (Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão, ao longo dos anos outros países (Formosa, Correia do Sul, Hong Kong e Singapura) foram incluídos no grupo dos mais significativos. Assim se ampliou o número dos participantes do núcleo mais dinâmico do comercio internacional. Ademais, a partir de 1980, outros países ainda (como a China e a Índia) entraram nessa dinâmica, transformando-a qualitativamente. Como observou Palley, “durante os anos da terceira globalização neoliberal ocorreu uma mudança geográfica de grande escala na atividade econômica e no comércio. Eis que, entre 1980 e 2015, as economias em desenvolvimento e em transição elevaram a sua participação no PIB, nas exportações e nas importações globais”.[13]  E essa mudança está retratada na tabela em sequência:

Qual o significado dessa mudança? Palley considerou que a terceira onda diferiu das duas primeiras porque foi orientada não para incrementar o comércio, mas para deslocar certas atividades produtivas para a periferia visando aumentar a parcela e a taxa de lucro.[14] Eis que a reorganização industrial em nível mundial transferiu a produção de partes ou mesmo de mercadorias completas intensivas em trabalho para fora do centro do sistema de acumulação capitalista, para países em que a força de trabalho é abundante, em que os salários são mais baixos e a capacidade de luta dos trabalhadores é menor ainda. Para ele, o neoliberalismo assomou para sabotar o estado de bem-estar social conquistado pelos trabalhadores no centro do sistema. Na verdade, como foi visto, ele vem a ser uma retomada da lógica de incrementar o mais-valor absoluto para elevar a taxa de lucro deprimida grosso modo tanto pela elevação da composição orgânica do capital quanto pela ascensão do estado de bem-estar especialmente no centro do sistema.[15]

Entretanto, o desenvolvimento da globalização no último século e meio, pela via das três ondas sumariamente apresentadas é perfeitamente consistente com a lógica do capital que visa o lucro e não o bem-estar dos trabalhadores e que concede este último apenas circunstancialmente, isto é, somente enquanto o primeiro está bem contemplado. A saudade da “era de ouro”, o protesto dos representantes dos sindicatos nos países centrais, não comovem quase nada os chamados CEO’s – chief executive officers” – do capital transnacional.

Nesse sentido, aqueles como o economista pós-keynesiano aqui citado, que pensam a partir dos interesses imediatos dos trabalhadores do primeiro mundo, deveriam ficar ainda mais preocupados com o futuro do que com o passado. A terceira onda pode estar se esgotando, mas não haverá retorno ao “consenso keynesiano”. Sabe-se isso, sabe-se também – tal como um gráfico anterior mostrou – que a terceira onda de globalização estacionou, mas, como diz o próprio Palley, “ ‘estacionar’ não deveria ser confundido com ‘acabar’. A economia de plataforma está aí para ficar”.[16] Sim, mas agora, sob grande e crescente rivalidade entre os Estados Unidos, a União Europeia e a China.[17] As guerras comerciais estão de volta; novas guerras propriamente ditas podem eclodir. Um colapso ecológico está provavelmente se aproximando. Uma debacle do sistema financeiro mundializado pode ocorrer em futuro não muito distante. Logo, parece estarem desaparecendo quaisquer razões para continuar esperando algum desenvolvimento humano no capitalismo, quando o desenvolvimento humano é aquilo que não se pode deixar de esperar.  


NOTAS

[1] Professor titular aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blog na internet: https://eleuterioprado.wordpress.com/.

[2] Palley, Thomas I. – Three globalizations, not two: rethinking the history and economics of trade and globalization. FMM working paper, Macroeconomic Policy Institute, 2018.

[3] Segundo Palley, a segunda onda teria começado já em 1972. Assim sendo, não teria havido, tal como mostra o primeiro gráfico acima apresentado, um período de declínio do comércio internacional entre 1980 e 1990.

[4] World Trade Report, 2013 – Factors shaping the future of world trade, p. 46.

[5] Milios, John e Sotiropoulos, Dimitris P. – Rethinking imperialism – A study of capitalist rule. Palgrave/Macmillan, 2009.

[6] Ver Prado, Eleutério F. S. – Pós-grande indústria e neoliberalismo. Revista de Economia Política, vol. 25 (1), 2005, p. 11-27.

[7] No artigo anteriormente citado, o período de consolidação da grande indústria no centro do capitalismo histórico foi chamado erroneamente de “grande indústria competitiva”; denominou-se então, também erroneamente, o período seguinte de “grande indústria monopolista”. Eis que se acolhe agora a crítica de que a distinção entre capitalismo competitivo e capitalismo monopolista então empregada utilizava, implicitamente, uma noção de competição de empresas que é estranha à apresentação de Marx do capital enquanto relação social central e dominadora do modo de produção capitalista. Para esse autor, a competição e mesmo a livre competição é uma característica inerente ao capitalismo enquanto tal, mesmo quando os oligopólios e a monopolização ganham dimensão e passam a predominar aí em muitos setores chaves do sistema econômico. Veja-se sobre isso o capítulo 6, Modo capitalista de produção e monopólios, do livro de Milios e Sotiropoulos anteriormente citado

[8] Um apanhado sobre o significado e o uso dessa categoria em Marx e no marxismo encontra-se em Clover, Joshua, Subsumption and crisis. The Sage Handbook of Frankfurt School Critical Theory. Sage, 2018, p. 1567-83.

[9] Ver Prado, Eleutério F. S. – Pós-grande indústria: trabalho imaterial e fetichismo. Crítica Marxista, nº 17, 2003, p. 109-130.

[10] Em suma, agora, os trabalhadores são não apenas explorados, mas também espoliados; tornam-se trabalhadores endividados, pagadores de juros. Ver Prado, Eleutério F. S. – Subsunção financeira do trabalho ao capital. Princípios, nº 154, mai.-jun. 2018.

[11] Segundo Milios e Sotiropoulos, a ascensão do capitalismo baseado na extração de mais-valor relativo foi percebida e nomeada estágio imperialista do capitalismo ou capitalismo monopolista. Op. cit., p. 130.

[12] World Trade Report, 2013 – Factors shaping the future of world trade, p. 54.

[13] Op. cit., p. 20.

[14] Eis o que diz: “A economia de plataforma é fundamentalmente diferente da economia convencional voltada para o comércio. Essa última visa transacionar mercadorias para além das fronteiras mantendo imóvel a produção nacional. A primeira visa criar uma rede internacional, flexível e móvel, de produção, com base na arbitragem do custo global de produção”. Ver Palley, 2018, p. 19. 

[15] Ver o post Austeridade em perspectiva histórica, publicado neste blog em 1/06/2018.

[16] Idem, p. 32.

[17] Nesse sentido, o seguinte artigo é bem interessante: Palley, Thomas – Globalization Checkmated? Political and geopolitical contradictions coming home to roost. Political Economy Research Institute, 2018.

E o artigo de Thomas Palley pode ser encontrado aqui: Three globalization, not two…

Aversão ao pleno-emprego?

O economista marxista indiano Prabhat Patnaik procurou defender ainda o sistema de acumulação centralizado que ainda é usualmente chamado de socialismo ou de socialismo real. “O velho regime socialista” – diz ele em seu escrito (em inglês) denominado Por que o socialismo não tem crises de superprodução? – “tem sido objeto de muita difamação”…

Segundo ele, o socialismo, ao contrário do capitalismo, visa o pleno-emprego. Pois, os capitalistas, ao contrário dos líderes socialistas, segundo ele ainda, têm aversão à máxima ocupação da força de trabalho. Será que essa tese é verdadeira? Ou ela provém, em última análise, de uma infiltração do individualismo metodológico no campo do marxismo?

No post aqui apresentado procura-se mostrar por que o sistema de acumulação descentralizado, ou seja, o capitalismo, não se instala no pleno-emprego e por que o sistema de acumulação centralizado, incorretamente chamado de socialismo, nele permanece.

Apesar dessa diferença de comportamento macroeconômico, argumenta-se aqui que ambos esses sistemas enquanto sistemas são guiados pela acumulação de capital. E, se assim é, procura-se mostrar por que ocorre essa apontada diferença?

A resposta do blog está aqui: Capitalismo, socialismo e pleno-emprego

Do totalitarismo implícito

Este post encaminha uma nota em que se examina a tese de um cientista político norte-americano (Sheldon Wolin) sobre a natureza da democracia nos Estados Unidos. Ela argui – contra toda a opinião estabelecida no “mundo ocidental” – que o sistema político dos Estados Unidos da América do Norte se encontra completamente dominado pelo poder das grandes corporações e que, por isso, não é de fato democrático – mas, ao contrário, totalitário.

Segundo esse autor, entretanto, trata-se de um totalitarismo invertido. Pois, nos regimes totalitários reconhecidos como tais a economia estava subordinada à política. Mas nos regimes totalitários apenas aparentemente democráticos ocorre o contrário: a política está, ainda que sub-repticiamente, subordinada à economia, isto é, ao comando dos lobbies corporativos que atuam sempre em detrimento dos interesses da grande maioria.

Aqui se procura argumentar, primeiro, que esse autor tem uma compreensão inadequada da função do sistema econômico na sociedade moderna. Em que, em consequência, não vê que a economia dominava a política também nos regimes totalitários que chama de “clássicos”.  Ademais, busca-se sustentar que existe, sim, um potencial totalitário, mas que ele se encontra implícito nos atuais países apresentados como simplesmente democráticos.  Trata-se, entretanto, de um poder que não se torna total, pelo menos enquanto não está ameaçado, porque está contido por forças sociais contra-arrestantes, as quais se originam de uma certa anarquia conflituosa que é inerente ao próprio capitalismo.

A nota se encontra aqui: Do totalitarismo invertido – e implícito

O artigo original: Sheldon Wolin e o totalitarismo Invertido

Brasil: Uma nação incompleta

A história do Brasil após 1930, do ponto de vista do modelo econômico, pode ser dividida em três períodos: o primeiro deles, que vai até 1953, pode ser caracterizado como estritamente nacional-desenvolvimentista. Desta última data até 1980, este se transforma em desenvolvimentismo associado-dependente; de 1980 em diante o desenvolvimentismo é negado, acentua-se a dependência e o modelo econômico realmente existente se torna liberal-periférico.

Procurou-se apresentar de modo mais amplo essa compreensão da história econômica do Brasil no artigo A quase estagnação da economia capitalista no Brasil. Para escrevê-la, foram combinados os estudos empíricos de Adalmir Marquetti sobre a evolução da taxa de lucro com as lições de economia brasileira de Luiz Filgueiras.

Neste post traz-se aos leitores do blog um pequeno artigo deste último autor com a finalidade de apresentar as razões de fundo pelas quais nunca houve de fato um projeto de desenvolvimento capitalista verdadeiramente nacional no Brasil. Neste escrito, o autor de uma conhecida História do plano real procura mostrar, renovando a tese da inexistência de burguesia nacional, que o Brasil nunca chegou a se constituir como uma nação completa, ou seja, um país com classe dominante e dominada bem integradas, voltado para o próprio desenvolvimento, de modo independente em relação ao imperialismo norte-americano principalmente.

O texto está aqui: Filgueiras, Luiz – Brasil , uma nação incompleta

Austeridade em perspectiva histórica

O que é austeridade? Num post publicado em novembro de 2015 procurou-se responder a essa questão por meio da tradução de um escrito de John Milios intitulado “A austeridade não é irracional”.

Ao introduzir os leitores deste blog ao artigo deste importante crítico da economia política, mostrou-se que a “austeridade” é uma política de Estado que, em síntese, procura reforçar a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas.

Neste post, pretende-se expor como e porque a política de austeridade se tornou necessária e mesmo imperativa na gestão do capitalismo contemporâneo. Eis que o próprio desenvolvimento deste modo de produção, após a II Guerra Mundial, exigiu o crescimento dos gastos estatais (em particular, dos sociais), o qual acabou contribuindo para o rebaixamento da taxa de lucro e, assim, para produzir um sistema econômico frágil que tende à estagnação (ou seja, que não tem mais a capacidade de recuperação do capitalismo clássico).

Quer-se mostrar, ademais, rememorando a tese de Wolfgang Streeck em Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático, que a política de austeridade implica em primazia dos imperativos econômicos em relação as necessidades humanas, sociais e ambientais. E que ela leva, por isso, necessariamente, ao esvaziamento da democracia liberal, ou seja, da democracia formal que é possível no capitalismo.

Eis o post: iAusteridade em Perspectiva Histórica

 

Taxa de lucro e financeirização

Na bibliografia marxista que interpreta a Crise de 2008 – assim como a Grande Depressão que adveio depois dela – é comum aparecer oposição entre explicação que privilegia a queda tendencial da taxa de lucro e explicação que privilegia a financeirização.

Entretanto, como enfatizou recentemente Alan Freeman, não se pode compreender bem a teoria da crise proposta por Marx quando se faz abstração do papel do dinheiro e das finanças. Ao contrário, se este é o objetivo, deve-se integrar essas duas componentes na compreensão em geral processo de acumulação de capital. Pois, é no evolver da taxa de lucro e do capital à juros que a crise acontece.

Como o dinheiro é a forma por excelência do capital, a esfera do capital de finanças em que o valor circula sob formas diversas não pode deixar de estar profundamente imbricada na esfera do capital industrial em que se produz o valor. E elas interagem no boom e na crise, na prosperidade, na recessão e quando uma se interverte na outra.

Traz-se aqui, por meio deste post, um texto em que essa imbricação é mostrada teórica e empiricamente. Trata-se do excelente artigo de Lucas Rodrigues e de Marcelo Milan que está sendo publicado na lista dos artigos aceitos para o próximo ENEP (Niterói, 12-15 de junho, na UFF). Neste artigo, estes dois autores examinam o comportamento da taxa de lucro na economia dos EUA, entre 1960 e 2014, mostrando o impacto que recebeu do processo de financeirização a partir de meados dos anos 1970.

O artigo se encontra aqui: Financeirização e mensuração da taxa de lucro nos EUA.

A economia política da grande depressão

Neste post trazemos a tradução de um artigo recentemente produzido por Joseph Choonara e que foi publicado na revista eletrônica International Socialism (nº 158). Esse texto é aqui divulgado em português porque se trata de uma síntese muito boa – além de bem didática – da melhor interpretação marxista – e britânica –, sobre a grande depressão iniciada em 2008.

Mostra que esta decorreu, em última análise, da queda persistente, ainda que oscilante, da taxa de lucro após o término da II Guerra. E das respostas que foram dadas para enfrentá-la a partir da década dos anos 1980.  Mostra também que a globalização, assim como a financeirização, foram resposta sistêmicas – ainda que levadas a efeito por meio de decisões de política econômica – às dificuldades postas pela superacumulação de capital observada já no final dos anos 1960 e, em particular, nas crises do começo dos anos 1970. Nessa perspectiva, ademais, sustenta a contracorrente que a atual oscilação ascendente de recuperação da economia mundial é “fraca, frágil e incerta”.

O artigo traduzido, em pdf, encontra-se aqui:A economia política da grande depressão

Como este artigo repõe a necessidade de compreender melhor o processo recente de financeirização da economia capitalista, os dois próximos post voltaram a esse tema.

Guerra comercial em marcha

Os economistas liberais e neoliberais estão alarmados: Trump está paralisando ou mesmo retrocedendo a globalização; guerras comerciais, para eles, são jogos com resultados negativos e, portanto, irracionais, ou seja, em que todos perdem. Como idealizam e santificam o processo de concorrência capitalista, não veem, entretanto, que as guerras comerciais são extensões do próprio processo de competição dos capitais realmente existentes e que elas já estão aí em potência mesmo nos períodos em que vigora uma aparente paz comercial. Ademais, como essas guerras requerem, também, a intervenção e o arbítrio dos estados nacionais, podem também se constituir em prenúncios de guerras de fato. O progresso turbulento e, assim, a regressão e a destruição, tudo isso é inerente ao processo de acumulação capitalista.  

Entretanto, também erra um crítico keynesiano, Joseph Stiglitz, quando diz que as ações de Trump são “motivadas por pura política”. Eis que ele estaria apenas “ansioso para parecer forte e confrontador aos olhos de sua base eleitoral”. Ora, Stiglitz também não vê que o irracional está contido na própria racionalidade contraditória do desenvolvimento capitalista. Sonha, assim, como bom keynesiano, com um capitalismo totalmente racional.

No post anterior, A estagnação dos países ricos, forneceu-se um dos fundamentos históricos dessa conjuntura permeada pela guerra comercial e, possivelmente, pela guerra de fato. Pois, mostrou-se aí, claramente, que o dinamismo do processo de acumulação, no correr dos últimos quarenta anos, havia se deslocado do centro para a periferia asiática, em particular, para a China. Neste que aqui se publica traduz-se um post recente de Michael Roberts em que ele mostra o que está verdadeiramente em jogo nessa disputa: a liderança na capacidade de gerar inovações tecnológicas de ponta e, assim, a hegemonia imperialista no “concerto das nações”, pois ainda domina aí o desconcertado modo de produção capitalista.

A tradução está aqui: Trump, comércio e guerra tecnológica  

P.S. By the way, como se viu e se vê, assim como o socialismo estatista interverte-se em despotismo a fim de promover a acumulação centralizada, a democracia liberal, na crise da acumulação descentralizada, interverte-se em ditadura disfarçada ou mesmo em ditadura de fato.

A estagnação dos países ricos

Ao contrário do que muita gente pensa, o capitalismo não está mais progredindo de modo firme e forte em países como EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália etc. Ao contrário, sabe-se que o crescimento econômico se reduziu progressivamente nas nações de altas rendas, década após década, após o término da II Guerra Mundial. Os dados mostram, inclusive, que o investimento como proporção do excedente obtido pelas grandes corporações tendeu a se reduzir ao longo dos últimos decênios.

Nessa postagem faz-se uma confrontação entre duas teses, sustentadas ambas por economistas de esquerda, que buscam explicar esse curso histórico.

Uma delas, mais aceita pelos keynesianos, julga que a causa do fenômeno se encontra na política econômica neoliberal que, em síntese, possibilitou que ocorresse uma “vingança dos rentistas”. A outra, mais acolhida por marxistas, pensa que essa causa se encontra na própria onda mais recente de globalização: ela deslocou a acumulação de capital do centro euro-americano para a Ásia. Como ela se centra no movimento do capital – a exploração reificada – em busca de maior rentabilidade, é aqui denominada de “incursão do capital”.

O texto se encontra aqui: A estagnação econômica dos países ricos