Michael Roberts e a crítica do keynesianismo (II)

A dúvida de um leitor do primeiro artigo com este título, mostrou a necessidade de explicar melhor um ponto central da argumentação aí contida, a qual buscou indicar uma falha capital da macroeconomia keynesiana. Pois, ela se reflete na própria crítica de Michael Roberts. Pode se afirmar mesmo que esse blogueiro famoso é induzido a fazer afirmações imprecisas porque ele próprio não foi capaz de descobrir essa falha originária. Tal como anteriormente, é preciso começar citando por extenso o seu argumento contra o pós-keynesianismo, que se dirige a um texto de Alex Willians.

O que diz Roberts em sua crítica?

Alex nos diz que um princípio fundamental do pós-keynesianismo (PK) é analisar as expectativas: “nosso próximo princípio é que tudo é expectativa”.  “As expectativas informam as ações dos agentes e essas ações, por sua vez, criam realidade. Talvez o modelo mais simples do ciclo causal keynesiano seja dizer que a demanda esperada impulsiona o investimento, o investimento impulsiona o emprego, o emprego impulsiona os salários, os salários impulsionam o consumo, o consumo impulsiona a demanda e a demanda valida o investimento. A demanda esperada impulsiona os investimentos porque as empresas só investem em capacidade e na contratação de mais trabalhadores quando acham que mais pessoas vão querer comprar seu produto no futuro, mais do que têm feito no momento presente. Se esperassem a mesma demanda, ou menos, não haveria necessidade de investir. Eles poderiam continuar a usar o mesmo equipamento”.

Ora, agora foi dito o que importa. O investimento sob o capitalismo não é movido pelo lucro ou pela lucratividade, mas finalmente pelas “expectativas”. Não é movido nem mesmo pelo lucro futuro, mas sim pela “demanda esperada”. Isso impulsiona o investimento que, por sua vez, gera empregos e salários.

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Michael Roberts e a crítica do keynesianismo (I)

É sabido que Michael Roberts, o blogueiro marxista mais conhecido mundialmente, trava uma luta constantemente para diferenciar, mostrando a sua superioridade, o que ele chama de teoria econômica marxista das outras teorias econômicas, em particular, da que embasa o keynesianismo e o pós-keynesianismo.

Em 17 de junho de 2021, em publicou mais um texto nesse sentido: Os lucros dão o tom (ou seja, Profits call the tune). Como os seus argumentos apresentam alguns problemas, eles também podem ser criticados para que se tornem mais adequados. De início, reproduz-se o que ele disse de importante nessa postagem em seu blog The next recession.

A CRÍTICA DE ROBERTS (em suas palavras)

Argumentei em muitos posts que “os lucros dão o tom” no ritmo da acumulação capitalista. O que quero dizer é que as mudanças nos lucros (e na lucratividade) ao longo do tempo levarão a mudanças nos investimentos das empresas – e não vice-versa.

Os lucros são fundamentais para o investimento capitalista, não a “demanda efetiva” como argumentam os keynesianos, ou as mudanças nas taxas de juros ou na oferta de moeda, como argumentam os monetaristas e a escola austríaca. Discordo fortemente da visão pós-keynesiana de que os lucros são um “resíduo” gerado pelo investimento. Discordo do que disse o keynesiano-marxista Michal Kalecki quando afirmou que “os capitalistas ganham o que investem, enquanto os trabalhadores gastam o que ganham”.

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Pós-keynesianismo: uma crítica aos seus princípios

Michael Roberts – The next recession blog – 26/04/2021. Nota: na próxima segunda-feira publica-se um comentário extenso sobre as críticas de Roberts ao keynesianismo.

Tal como a economia marxista e a economia convencional, a economia keynesiana tem várias correntes. Há uma economia keynesiana que não escapa dos parâmetros da economia de equilíbrio geral. Nessa teoria, as variações nas receitas e nas despesas, no consumo e no investimento, nas taxas de juros e no emprego tenderão a um equilíbrio.  A ele corresponderá um certo nível de emprego – e inflação –, sempre que não haja “choques exógenos” que afetem a estase dos mercados. Se os salários e as taxas de juros caírem o suficiente, o pleno emprego e o crescimento do investimento serão alcançados.

Mas este é o ramo que Joan Robinson, uma seguidora de Keynes, chamou de “keynesianismo bastardo”. Trata-se de uma corrente que elimina todas as características radicais da economia de Keynes, que, para Robinson, uma autora politicamente quase maoísta, presumia que o pleno emprego não poderia ser alcançado automaticamente nas modernas “economias de mercado”. É mais provável que prevaleça um equilíbrio de subemprego já que, segundo ela, isso se deve à incerteza sobre o futuro dos capitalistas na tomada de decisões de investimento e à irracionalidade dos “agentes” econômicos sejam eles consumidores ou investidores.

Essa visão radical da economia keynesiana veio a ser chamada de pós-keynesianismo (PK). Os principais proponentes dessa corrente foram contemporâneos de Keynes, como Robinson e Michal Kalecki (marxista e keynesiano), assim como, mais tarde, Hyman Minsky (socialista e keynesiano). Agora existe toda uma escola de economia pós-keynesiana, com revistas, conferências e centros de pensamento (think tanks).

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Recuperação econômica e ameaça inflacionária

Postado em 22 de maio de 2021 no blog The political economy of development

Nick Johnson  

O medo do aumento da inflação em países emergentes da recessão induzida pela pandemia do Covid-19 tem se difundido em toda a imprensa financeira e de negócios nos últimos dias. Eis que tem ocorrido aumentos de preços além do esperado, principalmente nos EUA. Alguns economistas e comentaristas argumentaram que o aumento é temporário. Ocorre devido a fatores do lado da oferta, como gargalos, uma “recuperação” dos gastos dos consumidores à medida que as famílias começam a gastar a poupança acumulada, mas também devido ao estímulo fiscal significativo. A abundância de demanda e problemas de oferta oferecem uma explicação simples para os aumentos de preços. Quando a demanda excede a oferta, os preços sobem, algo que também pode acontecer no caso do nível de preços da economia como um todo.

Quando eu estava estudando economia na faculdade, os livros didáticos ofereciam uma variedade de explicações para a inflação, ou seja, para os aumentos sustentados no nível de preços. Uma delas era o “puxão da demanda”: gastos excessivos batendo contra a falta de oferta, sejam estes dos trabalhadores, do governo ou mesmo dos capitalistas. Uma outra era o “empurrão de custos”: subidas de salários ou de outros insumos importantes, como o petróleo. Trata-se aqui de aumentos de preços que alimentam aumentos do nível geral de preços.

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O valor de tudo não é quase nada

Eis aqui, à princípio, uma frase bem enigmática: “o presente livro volta-se para um mito moderno: a criação de valor na economia”. Quê livro? Trata-se de O valor de tudo – produção e apropriação na economia global, de Mariana Mazzucato (Portfolio Peguin: 2018). Aí, essa autora quer discutir criticamente as narrativas – é esse o termo que emprega – sobre a criação e a apropriação de valor na sociedade contemporânea. O tema fora central no passado, mas no curso do final do século passado e no começo do presente século, segundo ela, andou meio sumido da teoria econômica. De qualquer modo, julga que é requerido agora “um tipo de narrativa radicalmente diferente acerca de quem criou riqueza originariamente – e de quem, na sequência, a extraiu”.

Por que a criação de valor lhe parece um mito? Ora, é ela própria quem fornece a explicação. Ao usar essa palavra faz referência a uma recomendação de Platão em A república, segundo a qual é preciso “vigiar os criadores de fábulas”. Logo, essa autora – e isso deve ficar claro logo de início – não trata a questão do valor econômico no campo da ciência moderna, mas da perspectiva de um discurso que se faz a si mesmo a partir de si mesmo, sem estar prisioneiro à realidade e ao real subjacente . Daí a rememoração da mitologia e de sua vocação para a transmissão de lições morais. Ela não teme voltar à Grécia antiga, à uma época em que os valores eram disseminados supostamente por contadores de histórias. Ou seja, toma o ensino de Platão numa perspectiva pós-moderna já que, segundo pensa e como já deve ter ficado patente, tudo se resolve como uma questão de narrativas.

Mas por que retomar a questão do valor de um modo tão enfático? Mazzucato – assim como muitos outros economistas do sistema – parece estar desconsolada com os rumos atuais do capitalismo. Se este muito prometera por dois séculos, ainda que bem turbulentos e pontuados por crises menores e maiores, agora desaponta como pouco produtivo, apropriador e apenas preocupado com as dores dos ricos – e não com as dores do mundo. Ela, gostaria, portanto, de vê-lo mudado e revigorado como criador de riqueza para muitos. E, para tanto, julga que é preciso em primeiro lugar reconsiderar de novo a questão do valor econômico, para bem distinguir quem o produz e quem dele se apropria.  

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Suicidarismo como política do capital

A jornalista Eliane Brum, afirmou que “a população brasileira se tornou cobaia — e grande parte se submeteu a (…) um experimento de perversão inédito na história”.[1] Alude ao fato que aquele que, atualmente, figura como presidente da república no Brasil tem sabotado sistematicamente o controle da pandemia do coronavírus, desde que sobreveio, no começo de 2020. Sim, mas o que move essa política? – eis o que é preciso perguntar.

Inédito? Acho que não. Não creio que demonstrações de perversidade política desse gênero sejam novidade. Ao contrário, penso que já apareceram muitas outras vezes na história moderna. Na verdade, ela está enraizada – e isso é o que se quer mostrar – no capitalismo enquanto modo de produção. Ainda que a sua crueldade estrutural tenha sido velada, escondida e dourada, não se pode ignorar que marcou indelevelmente todo o seu evolver histórico. Veja-se: esse curso se caracterizou sempre pela dualidade “progresso e destruição”, com oscilações, mas mantendo sempre uma tendência exponencial.  

 A destruição é, pois, uma nota constante do capitalismo e ela chegou mesmo a predominar em certos momentos. Agora, apresenta-se numa forma “nua e crua” mais uma vez no Brasil e está aí para que todo mundo possa ver – mesmo se há ainda muitos que não querem vê-la e que, assim, não a veem de fato. Há, ademais, outros que a veem, mas negam que haja alternativa. Ora, parece certo que assomou agora de uma forma notável na “pátria dita amada, mas muito maltratada” com a eleição de Jair Messias Bolsonaro para o cargo de presidente da república do Brasil, no final de 2018.

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Discursos da relação de capital

Eleutério F S Prado

Um artigo publicado como “working paper” pelo FMI causou certo espanto em alguns economistas de esquerda no Brasil. O seu título: Crenças acocoradas, vieses ocultos: elevação e queda das narrativas de crescimento (Crouching beliefs, hidden biases: rise and fall os growth narratives). Os seus autores, Reda Cherif, Marc Engler, Fuad Hasanov, mesmo sendo pouco conhecidos, conseguiram causar um pequeno tremor no campo da teoria econômica. Todos os economistas que frequentam o cercado do mainstream parecem tratar o artigo de modo respeitoso. Afinal, ele tem o endosso da principal organização controladora do dinheiro em âmbito mundial.  

A razão pela qual o conteúdo desse artigo ecoou entre os economistas de esquerda é que parece expor a teoria econômica como ideologia.  Ademais, parece indicar também que há um declínio da política de austeridade a qual combatem com veemência. Nessa recepção do “paper”, há, porém, um suposto implícito. Se até mesmo os economistas do centro do sistema abandonaram esse discurso, os da periferia, menos competentes segundo o preconceito, deveriam fazer o mesmo. Os funcionários da governança tecnocrática do capitalismo no Brasil precisam, portanto – e esse é argumento –, alinharem-se aos que estão na vanguarda, que operam no centro do sistema.

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A economia norte-americana com Joe Biden

Michael Roberts[1]

Eis o dia da inauguração. Há, pois, um novo presidente nos Estados Unidos, país este que tem a economia e o estado capitalista mais poderosos do mundo. O mandato de quatro anos de Joe Biden começou quando Donald Trump fugiu para sua propriedade e campo de golfe na Flórida. Mas antes de ir, ele disse: “o meu movimento está apenas começando”.

Qual é a situação dos Estados Unidos no momento em que Biden assume o cargo? A pandemia COVID-19 causou enormes danos às vidas e aos meios de subsistência de milhões de americanos. O seu impacto foi muito pior do que poderia ter sido por vários motivos. Primeiro, o governo dos Estados Unidos, assim como os outros governos, nada fez para se preparar para a pandemia COVID-19. 

Como outras postagens explicaram, os governos foram devidamente alertados de que patógenos perigosos para a vida humana – e para os quais não havia imunidade – estavam aparecendo. Outras pandemias antes do COVID-19 já haviam aparecido. Mas a maioria dos governos não gastou em prevenção (pesquisa de vacinas, por exemplo) ou em proteção (provisão de recursos robustos para a saúde e sistemas de teste e rastreamento). 

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O futuro dos EUA não é risonho e franco

Publica-se nesta semana dois artigos que tratam do futuro da sociedade e da economia norte americana. Hoje, os leitores encontram aqui um texto do economista socialdemocrata John Kolmos. Na próxima quinta-feira, será a vez do artigo do economista marxista Michael Roberts. Ambos são pessimistas. O capitalismo no Ocidente está produzindo massas enormes de pessoas descontentes e estas, em grande número, estão dispostas a aceitar lideranças protofascistas, as quais ele chama de populistas. Ocorre, em consequência, uma revolta no seio da sociedade, mas ela não produz uma virada à esquerda; produz paranoias coletivas de direita que acabam levando a sociedade ainda mais para o caminho da derrocada econômica e social, com o aval das classes dominantes.    

Eagle at Westchester Ave., Bronx 1970

Alexandre, o Grande e o corte do nó górdio não estão à vista nos Estados Unidos

John Komlos[1]

Um longo sopro de ar fresco está percorrendo os Estados Unidos como um todo, substituindo o ar quente bufado da administração Trump. No entanto, os desafios a serem enfrentados pela equipe Biden-Harris são formidáveis e, provavelmente, insuperáveis.[1]

Vamos considerá-los, em primeiro lugar, a partir de uma visão de longo alcance. A civilização ocidental encontra-se novamente numa encruzilhada; chegou até esse ponto por meio da revolução da informática e está, agora, para entrar no caminho de uma economia pós-industrial baseada em conhecimento. De acordo com o registro histórico, transformações econômicas como essa que ora enfrenta são sempre complicadas; elas nunca transcorrem de modo suave e raramente estão isentas de conflitos.

A transição do feudalismo para o capitalismo não foi uma brincadeira de criança. A França, por exemplo, passou por quatro revoluções durante a transição; já a Inglaterra enfrentou duas grandes reviravoltas no século XVII, numa das quais um rei foi decapitado e na outra um rei foi deposto por meio de maquinações que se assemelharam a um golpe de Estado moderno.

 Como transformações como essa embaralham a hierarquia política, social e econômica, não deve causar surpresa de que sobrevirão conflitos à medida em que o processo prossegue. É difícil abrir mão do poder e dos privilégios.[2] Ora, isso já era óbvio para os gregos antigos.[3]

Embora esse quadro geral nos ajude a entender o contexto da situação atual, é preciso ir além. É crucial reconhecer que os EUA estão enfrentando vinte formidáveis contratempos nos âmbitos político, cultural, social e econômico. Além disso, todos eles estão entrelaçados por meio de complexos processos de realimentação. Como eles são muito numerosos não será possível mencioná-los todos aqui. 

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