A revolução cibernética socialista de Allende

Publicado Jacobin em 04/09/2020. É aqui republicado dada a importância que esse blog dá à questão do socialismo democrático possível, dada a falência generalizada do “socialismo real”.

Por Eden Medina – Tradução Everton Lourenço

Embora nos digam frequentemente que o passado guarda lições sobre como abordar o presente, raramente olhamos para tecnologias mais antigas em busca de inspiração. Ainda mais raro é sugerir que experiências históricas de nações menos industrializadas possam ter algo a nos ensinar sobre os problemas tecnológicos de hoje – e menos ainda que um projeto socialista de décadas atrás poderia oferecer maneiras de pensar sobre tecnologias promovidas por capitalistas do Vale do Silício.

No entanto, um sistema de computação construído no Chile socialista na década de 1970 – o Projeto Synco ou “Cybersyn”, em inglês – oferece inspiração sobre como devemos pensar sobre tecnologia e dados hoje.

Em pdf:A revolução cibernética socialista de Allende

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Questionando a Teoria Monetária Moderna

Com pequenas modificações, apresenta-se nesse vídeo o conteúdo do artigo já publicado “Crítica das “visões” metalista e cartalista do dinheiro. Acrescenta, ao final, um comentário sobre as propostas de política econômica de André Lara Rezende.

 

 

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Socialismo: o melhor argumento contra ainda é muito ruim

Antes de apresentar e criticar o melhor argumento contra o socialismo é preciso falar um pouco, muito pouco, de um argumento muito, muito ruim. E ele se encontra no livro Capitalismo sem rivais de Branko Milanovic.[1] Neste folhoso, o seu autor oferece dois tipos ideais para entabular uma compreensão do capitalismo contemporâneo: um deles, que chama de “capitalismo meritocrático e liberal”; o outro, que denomina de “capitalismo político”. Estes dois “modelos” – como ele mesmo explica – representam em largos traços, por suposto, os capitalismos realmente existentes nos Estados Unidos e na China, respectivamente.

No último capítulo, denominado Futuro do capitalismo global, depois de apresentar o capitalismo contemporâneo como amoral porque impõe a forma mercadoria a quase tudo, Milanovic se pergunta se há um sistema alternativo que possa vir a substitui-lo no futuro. Põe essa questão de modo retórico para lhe dar, em sequência, uma resposta bem “thatcherita”: “o problema com tal avaliação sensata é que não há uma alternativa viável para o capitalismo hiper mercantilizado”. Justifica, então, essa conclusão peremptória de dois modos: a) “as alternativas criadas no mundo se mostraram piores – algumas delas muito piores”; b) “não se pode ter a esperança de manter tudo isso” – ou seja, os “bens e serviços que se tornaram parte integral de nossas vidas” – “destruindo o espírito aquisitivo ou eliminando a acumulação de riqueza como a única forma de sucesso”.

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Questionando a teoria de equilíbrio geral

Em videoaulas anteriores foram apresentados questionamentos à noção de utilidade e à teoria da preferência revelada. Esta última pretende substituir a primeira como fundamentação da teoria neoclássica. Se a primeira propõe uma fundamentação psicológica, a segunda propõe uma fundamentação empírica. Procurou-se mostra que nenhuma delas é bem sucedida. Nesta videoaula faz uma crítica tanto metodológica quanto estritamente lógica a essa teoria para mostrar, ao fim e ao cabo, um resultado que é conhecido, ainda que pouco divulgado: a teoria do equilíbrio geral é inconsistente.

Outro espectro ronda agora o capital

Para falar de um medo que ora chega ao capital, isto é, ao coração dos capitalistas, é preciso fazer uma comparação entre duas perspectivas sobre as condições atuais e futuras da sociedade humana. Num artigo publicado no sítio A terra é redonda, o Prof. Paulo Artaxo, docente titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), diz:

Nossa sociedade está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Salienta-se que essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente.

Já num relatório sobre a estabilidade financeira publicado recentemente pelo banco central norte-americano, o Federal Reserve, constata-se uma preocupação diversamente orientada:

O curso da pandemia, sua extensão e duração, as consequências econômicas e financeiras, continua a ser um dos mais significantes riscos para o sistema financeiro. A efetivação desses riscos depende largamente do sucesso das medidas de saúde pública e outra ações governamentais para conter a difusão do COVID-19.

Ora, essa comparação leva imediatamente à seguinte questão: a finalidade última da sociedade atual é se preservar, difundindo melhor o nível de civilização até agora alcançado, ou, ao contrário, é manter a lógica de acumulação de capital e, assim, o seu sistema financeiro globalizado? É “ele” que importa?  O sistema econômico existente está a serviço da sociedade? Ou, ao contrário, é esta última que deve atuar e se sacrificar em função do sistema econômico?

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Crítica das “visões” metalista e cartalista do dinheiro no capitalismo

Introdução 

Que provisoriamente seja aquilo que Keynes quis que fosse! Admita-se, pois, que a economia capitalista possa ser tomada, tal como enfatizam os keynesianos, como uma economia monetária de produção, ou seja, como um sistema que se volta – ou pode se voltar quando bem conduzido – à produção de bens que atendem os desejos dos consumidores, mas que não prescinde – ao contrário, exige a presença – da moeda[1] para funcionar.

Creia-se que a moeda – como dizem – é uma mera instituição social necessária ao dinamismo do sistema econômico moderno, e que, por isso mesmo, não atua de modo neutro, como mera intermediária das trocas. Admita-se também que ela é ‘criada a partir do nada’ por meio de operações de débito e crédito que têm por função intrínseca estimular o funcionamento do sistema econômico. “A moeda ou o crédito” – diz uma economista pós-keynesiana – “não existe como resultado da atividade econômica… a moeda [ou o crédito] cria a atividade econômica” (Pettifor, 2017, p. 6).

Por que essa autora pensa assim? É evidente que o Estado provê o dinheiro no capitalismo contemporâneo. O que ela não vê é que o dinheiro como dinheiro é intrínseco à economia mercantil e que o dinheiro como capital é intrínseco ao modo de produção capitalista. Eis que pensa o dinheiro como mera “coisa” que é produzida de modo ad hoc por um agente externo ao sistema econômico. Se o Estado, por qualquer razão, deixar de prover o dinheiro, o que ocorre no sistema econômico baseado na relação de capital? É evidente que haverá um enorme colapso da atividade econômica, mas esta não se extinguirá completamente; pois, em certo momento, a própria atividade econômica precária exigirá que exista, ainda que de modo incipiente, um novo dinheiro. E este surgirá espontaneamente, por meio de um poder central ou por uma combinação dessas duas formas – pouco importa.

Ora, ao invés de definir a moeda como algo que modifica crucialmente a produção humana em geral e que, assim, caracteriza aquela existente na época moderna, não seria mais adequado inquerir sobre as razões da inerência do dinheiro no sistema econômico atual? Apreendendo o dinheiro, por isso, como expressão das relações sociais de produção e circulação desse sistema?

Em pdf: Crítica da visões metalista e cartalista do dinheiro no capitalismo

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A perversão da Economia Política como instrumento de governança

A ciência da economia nasceu com o nome de Economia Política; foi assim denominada pelos economistas clássicos. Porém, no último quartel do século XIX, os economistas neoclássicos mudaram o seu nome para Economia (Economics) simplesmente para ocultar o seu vínculo intrínseco com a política; haveria, segundo eles, há um saber sobre o sistema econômico que não poderia ser desafiado para atender certas demandas políticas.

Se os economistas clássicos compreendiam desassombradamente essa ciência como uma ciência social, histórica e política, os inovadores do final do século XIX, agora assombrados pelas lutas de classes que se desenvolviam na sociedade, passaram a encará-la como ciência positiva ou como ciência matemática, transistórica, semelhante à mecânica clássica.

Ora, mesmo se o sistema econômico da relação de capital tem, sim, imperativos que decorrem de sua natureza, estes não deixam de ser determinações estruturais sustentadas por meio das instituições políticas. A reificação do sistema econômico por meio da positivação metodológica dos seus fenômenos constituintes é apenas um meio de restringir as opções de política econômica àquelas desejadas pelo poder político das classes dominantes.

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A relação de capital: o fascismo e o stalinismo

Introdução

Como essas duas formas políticas, o fascismo e o stalinismo, podem ser compreendidas a partir da relação de capital – a relação social que subsumi o trabalho e, assim, o modo de trabalhar, por meio do assalariamento? Como essa relação estruturante da sociedade moderna é sustentada no fascismo e no stalinismo? Como o Estado garante a acumulação de capital em cada uma delas? Uma dessas formas, como se sabe, configura-se ainda no evolver do capitalismo e a outra aparece no “socialismo” burocrático – ambas, no entanto, mesmo se pareceram sólidas, revelaram-se ao fim reversíveis e transitórias. Para responder essa pergunta, que se tornou novamente central neste começo do século XXI, parte-se aqui da categoria de fetichismo apresentada em O capital.

Como já aconteceu outras vezes, o capitalismo enfrenta agora uma crise estrutural que coloca em dúvida a sua permanência na história. Diante dela, imensa como nunca fora antes, parece haver dois caminhos. A razão comunicativa recomenda aprofundar a democracia para resolver os impasses do desenvolvimento na sociedade contemporânea e, sobretudo, para contrariar o rumo do colapso societário. A sua negação extremista, entretanto, é que se tem apresentado e prosperado na cena política.

Diante dos esgarçamentos sociais produzidos pela atual crise estrutural, o fantasma de formas políticas totalitárias tem ressurgido no horizonte. E elas laboram para impedir a superação das ameaças à própria civilização humana. Não existe mais, portanto, a via de retorno à socialdemocracia. Logo, para as forças do desenvolvimento e da transformação só resta o caminho mais difícil do socialismo democrático. Por isso é que se afigura importante compreender melhor essas duas formas de totalitarismo, distinguindo o que tem de comum e o que tem de diferente.

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O Inesperado acerto de contas: coronavírus e capitalismo

Artigo de Radhika Desai – Tradução do blog  

Talvez seja auspicioso que a seriedade da ameaça do coronavírus tenha atingido a maior parte do mundo ocidental nos Idos de Março, justamente no momento tradicional do cálculo das dívidas pendentes na Roma antiga. A semana anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente declarara o contágio do vírus como uma pandemia; os governos, em sequência, apressaram-se em dar uma resposta. O vírus passou a dominar o ciclo das novas notícias, surgiram uma multiplicidade de informações erradas e mesmo de desinformações nas mídias sociais. As cidades e até mesmo países inteiros foram fechados, os mercados de todos os tipos imagináveis ​​despencaram e as empresas anunciaram demissões e interrupções da produção.

Ficou claro que, quaisquer que fossem as origens, os caminhos e a letalidade do vírus, agora chamado de Covid-19, iria testar seriamente o capitalismo ocidental em seus mecanismos de enfrentamento. Quase certamente, eles seriam surpreendidos e falhariam. Afinal, problemas e desequilíbrios acumularam-se no sistema capitalista ocidental ao longo das últimas quatro décadas, aparentemente desde que tomou o caminho neoliberal para sair da crise da década dos anos 1970. Seguiu em frente desde então, sem levar em consideração o potencial de problemas e crises que engendrava.

Durante essas décadas, tal como um analista importante mostrou, o mundo capitalista ocidental passou a ganhar tempo, por meio da acumulação de dívidas, tanto públicas quanto privadas. Buscava, assim, com os seus fracos e estreitos mercados, evitar o acerto de contas final, um problema que o neoliberalismo, com sua implacável pressão descendente sobre os salários reais, apenas exacerbava.

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Uma crise de crédito pronta para eclodir?

Michael Robert – Blog The next recession – 2/12/2020

A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a recessão no ciclo  capitalista – com os seus impactos recessivos na produção e no investimento – é frequentemente desencadeada por um crash financeiro. Não foi isto o que aconteceu agora.

A crise produzida pela pandemia do coronavírus tem também, no entanto, uma causa “próxima”  específica. Em certo sentido, essa queda global sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um “evento exógeno”, ou seja, a propagação de um vírus mortal. No entanto, tenha-se em conta que esse próprio evento está fundado na relação predatória do capitalismo com a natureza.

De qualquer modo, as previsões de recuperação implicam numa perda discreta e aparentemente irrecuperável de PIB mundial. Pelo menos é o que indica as estimativas da OCDE. Ora, essa mesma estimativa não prevê qualquer novo desastre à frente. Será isso correto?

Fala-se constantemente em uma recuperação tão logo as vacinas comecem a ser aplicadas na população. Contudo, há elos mais fracos na malha das relações mercantis: boa parte das empresas médias e menores estão muito endividadas. Pode, pois, ocorrer uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida que estas empresas começarem a quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários aumentam.

Uma tradução do artigo completo de Michael Roberts está aqui: Uma crise de crédito à frente