A liquidez e o afogamento

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 29/09/22

“Se não houvesse intervenção hoje, nesta manhã, os rendimentos dos títulos do governo britânico poderiam ter subido de 4,5% para 7-8%; nessa situação, cerca de 90% dos fundos de pensão do Reino Unido teriam ficado sem garantias colaterais… Eles teriam sido varridos do mercado”. Eis o que disse ontem um operador de títulos do Reino Unido.

Uma crise de liquidez eclodiu nos mercados de títulos britânicos após o anúncio do novo governo conservador de que gastaria até 60 bilhões de libras para manter um teto no preço da energia para famílias por até dois anos, para subsidiar os custos energéticos das empresas, assim como, também, para cortar os impostos sobre as rendas das famílias e das empresas.

O impacto total dessa grande generosidade (concedida principalmente para os ricos) no nível da dívida pública do Reino Unido nos próximos anos foi estimado em mais de 400 bilhões de libras ou quase 20% do PIB. Com a dívida pública do Reino Unido já se encontra em 100% do PIB, esse aviso soou como um alarme; caiu a confiança e os preços dos títulos do Reino Unido caíram. Pois, as taxas de juros (isto é, os rendimentos dos títulos) subiram vertiginosamente (veja-se isso no gráfico em sequência).

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Economia pós-global: o que esperar?

As três ondas de globalização e as eras de catástrofe [2]

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A primeira parte do título deste artigo é uma tradução direta do cabeço – The post-global economy – de um conjunto de artigos sobre o futuro do capitalismo, que foi publicado no portal Project Syndicate, em 18 de agosto de 2022. O que aqui se apresenta é uma crítica desses textos escritos por economistas do sistema, pois busca fornecer uma outra perspectiva sobre o mesmo tema.

O que está em curso na economia capitalista mundial após as crises de 2008 (bolha imobiliária nos EUA) e 2020 (pandemia do novo coronavírus) e 2022 (guerra da Ucrânia)? – eis, pois, a grande interrogação. O que o futuro reserva para a humanidade diante desta mutação conservativa do sistema econômico ora largamente hegemônico?

Eis como a gerência desse sítio apresenta o problema:

Uma sucessão de choques ao longo da última década e meia reverteu significativamente a tendência econômica internacional dominante de toda a era da pós-Guerra Fria. Mas mesmo se os relatos da morte da globalização têm sido exagerados, as interrupções contínuas nas redes de comércio e produção apresentam grandes dores de cabeça para governos e para as empresas em todo o mundo.

Dois artigos se sobressaem num conjunto de seis e eles são bem otimistas na caraterização do futuro. Um deles, escrito por André Velasco, professor da London School of Economics, julga que vai nascer uma globalização mitigada, ao mesmo tempo mais sustentável e mais duradoura. O outro, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, acha que um novo consenso está se formando em torno do que denomina de “produtivismo”; os países vão voltar a cuidar de sua própria economia real em detrimento da ênfase nas finanças: “trabalho e localismo em vez de financeirização, consumismo ao invés de globalismo” – afirma ele sem corar provavelmente. O primeiro prevê a continuação do neoliberalismo nas próximas décadas do século XXI e o segundo acredita no surgimento de um novo keynesianismo.

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Sob o céu negro do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O nome dado a este artigo provém de mera tradução do título do último livro de Anselm Jappe, Sous le soleil noir du capital, recentemente publicado[2] em França. Já de início – recomenda-se fortemente – deve-se notar o seu caráter hiperbólico: se o sol amarelo que faz o dia e se esconde na noite garante a vida na face do planeta, um sol negro só pode representar a morte.

O sol negro é, como se sabe, um símbolo fascista. A negação da vida que ele representa se afigura, pois, enfática, terrível, absoluta. Eis que ela provém de um ressentimento e mesmo ódio profundo engendrado pelas frustrações que o capitalismo proporciona para muitos, especialmente para os integrantes das classes médias. Mas essa visão soturna não é uma novidade na obra desse autor. Vale lembrar que o seu penúltimo livro, A sociedade autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição, também apontava para um fim trágico.

O livro reúne vinte e cinco artigos escritos nos últimos dez anos por um dos principais líderes atuais da corrente de pensamento crítico que se dá a conhecer como “crítica do valor” ou “crítica do valor/dissociação”. Fundada por Robert Kurz no começo dos anos 1990, tem atualmente seguidores na Alemanha, França, Brasil e em outros países, mas sempre na forma de pequenos grupos. O livro começa com uma breve história da crítica do valor com base nos escritos de Kurz, discute o fetichismo em Lukács e Adorno assim como outros temas, para se perguntar, ao final, o que falta às crianças.

De onde vem Anselm Jappe?

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Medida do poder global

Autor: Tony Norfield – Blog Economics of Imperialism – 14/09/2021

Poucos países podem exercer muito poder sobre o resto do mundo. Há apenas cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aqueles que podem vetar decisões importantes da ONU. O G7, um fórum político de países ricos liderado pelos EUA que tem, bem, sete membros. A concentração do poder global é extrema. Esse poder tem consequências sobre as diferentes maneiras pelas quais um país pode influenciar o funcionamento do mundo.

Algumas dessas maneiras são óbvias, por exemplo, usar o poder militar para forçar outro país a se submeter. Muitas delas não são, principalmente aquelas que estão vinculadas ao sistema que envolve a economia mundial como um todo. Cinco dimensões do poder internacional serão aqui usadas para avaliar o status dos países em termos de poder. Essa avaliação mostra não apenas como os EUA são muito mais proeminentes na hierarquia do poder mundial, mas o faz de um modo para além de uma simples medida de tamanho econômico, como o PIB. É possível avaliar a importância relativa de outros países, assim como lançar uma nova luz sobre uma importante questão geopolítica hoje: a ascensão da China.

Ascenção da China

A China já foi vista principalmente como um importante fornecedor de produtos baratos e um valioso dínamo para a economia mundial. Agora, os EUA consideram a China a maior ameaça aos seus interesses globais. Todos os anos, muitas centenas de páginas sobre este tópico são publicadas no Congresso dos EUA, somando-se a um fluxo constante de material dirigido aos formuladores de políticas dos EUA de “think tanks” e grupos de “lobby”.

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Haverá uma queda no PIB global?

Os economistas estão indecisos. O PIB global só caiu por duas vezes abaixo de zero (em 2008 e 2020) nos últimos 70 anos, ou seja, desde o fim da II Guerra Mundial. No entanto, haverá certamente uma recessão na economia global; o PIB global deverá se situar na casa dos 2%, mas haverá queda do PIB em alguns países importantes da Europa (Alemanha entre elas); uma redução forte do crescimento da economia capitalista nos EUA e na China está também prevista. O gráfico que se segue apresenta um indicador que costuma acertar na vinda de recessões.

Um artigo de Michael Roberts reporta as discussões havidas no encontro anual de banqueiros centrais norte-americanos na vila de Jackson Hole, nos Estados Unidos.

Lá no vale de Jackson Hole

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 27/08/2022

Jay Powell, presidente do Federal Reserve dos EUA, fez um discurso no simpósio anual de verão dos banqueiros centrais em Jackson Hole, Wyoming, EUA. Ele foi observado de perto por investidores financeiros e economistas para ver se apoiaria a estratégia de um “pivô do Fed” na política de taxas de juros. O pivô funcionaria como um abrandamento na atual alta agressiva da taxa básica de juros do Fed.

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A infinitude do desejo e da riqueza (I)

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aristóteles/Grécia Antiga

Aristóteles, no século IV a. c., sabia certamente a diferença entre o sensato e o insensato, o medido e o desmedido, em matéria de desejo e de riqueza. E essa percepção está bem patente em sua discussão da posse e da obtenção de bens nas condições da Grécia antiga, que se encontra como se sabe no capítulo III de A política. [2] Sendo assim, como é possível reconstruir a sua sabedoria milenar referente a uma sociedade escravista para vir a compreender melhor a relação interna entre o desejo e a riqueza no capitalismo, na perspectiva do encontro da psicanálise com a crítica da economia política?

Como se verá no curso da exposição que se segue, essa investigação nada tem de impertinente. A questão da infinitude dos desejos e da riqueza é central para compreender a sociedade antiga e moderna.

Como se sabe, para o estagirita a economia consistia na economia doméstica. Sob essa perspectiva, ele se pergunta, iniciando um questionamento, se a arte da aquisição faz parte das atividades atinentes ao domínio do domus. Ora, a primeira proporciona e a segunda faz uso dos bens proporcionados.

Distingue, então, em primeiro lugar, o que classifica como meios naturais de obter de bens, quais sejam eles, a caça, a pesca, a agricultura e a indústria doméstica. Estes são, para ele, justos e necessários. “Há, portanto, uma espécie de arte da aquisição que é por natureza uma parte da economia doméstica, uma vez que esta deve ter disponíveis, ou proporcionar ela mesma, as coisas passíveis de atender as pessoas, necessárias à vida e úteis à comunidade composta pela família e pela cidade” (op. cit., p. 36).

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Desordem na economia mundial

Autor: C.P. Chandrasekhar; Fonte: Frontline Print – 01/05/2022  

Quando os líderes financeiros mundiais se reuniram em meados de abril em Washington para as reuniões anuais de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, o clima era de melancolia. A economia mundial está em desordem e os líderes mundiais estão sem saber para onde ela está indo ou o que pode ser feito para evitar um possível colapso.

Na edição de abril de 2022 de seu World Economic Outlook, o FMI reduziu sua previsão de crescimento do PIB para 2022 de seis meses atrás em 1,3 ponto percentual, ou seja, para 3,6%; projeta ademais que o crescimento permaneça abaixo desse nível nos próximos dois anos. A inflação que surgiu como um problema em 2021 vem se acelerando nos últimos três meses; as expectativas de que os aumentos de preços seriam transitórios parecem agora totalmente equivocadas. E os níveis de oferta e as tendências de preços estão sinalizando crises iminentes nos mercados globais de energia e alimentos, com implicações humanitárias assustadoras para nações e populações vulneráveis.

Quatro fatores se combinaram para intensificar a incerteza econômica global.

O primeiro é que, em 2019, ficou claro que os esforços árduos destinados a transitar da Grande Recessão, desencadeada pela Crise Financeira Global de 2008, para um crescimento robusto tiveram, na melhor das hipóteses, sucesso pela metade. Não houve um único ano após 2010 e até 2019, em que o crescimento do PIB global (a preços constantes usando taxas de câmbio de mercado) tivesse se igualado aos níveis de 3,9 e 3,8 por cento atingidos em 2006 e 2007.

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Ocaso e fantasia: uma globalização melhor?

Autor: Eleutério F. S. Prado

Dani Rodrik é um economista e professor renomado que trabalha na Escola de Governo da Universidade de Havard. De origem turca, mas radicado nos Estados Unidos onde obteve o seu doutorado, trabalha nos temas da globalização, do crescimento econômico e da economia política administrativa. Recentemente, escreveu um artigo de divulgação em que apresenta a sua crença otimista de que das “cinzas da globalização” – que ele agora chama de hiperglobalização! – “pode surgir uma globalização melhor”. [1] Ora, supõe assim que uma globalização virtuosa possa vir superar uma globalização agora vista como desencaminhada, supostamente viciosa! Será?

Para encontrar uma resposta para essa dúvida não hiperbólica é preciso olhar seguramente para a história da taxa de lucro mundial do pós-guerra até o presente (apresentada na figura abaixo por meio de uma variável proxy, qual seja ela, a taxa de lucro média dos países do G20). Ela mostra, sem ilusão, que o capitalismo se encontra numa trajetória de declínio em nível global. 

Rodrik, porém, prefere não pensar nessa evidência empírica que comprova de algum modo a tese dos economistas clássicos e de Marx sobre a tendência declinante da taxa de lucro. Ora, como ele argumenta em favor de uma “globalização virtuosa” vista como possível? Será que esse momento feliz estaria esperando nas fórmulas abstratas da “melhor teoria” para ser implementada por meio de políticas econômicas “corretas”?

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A inciência e a inflação

Jayati Ghosh lamenta a incapacidade da profissão de economista de pensar além de análises grosseiras da inflação – e de políticas grosseiras para contê-la. Mas donde vem essa inciência? Qual a sua condição estrutural?

Autora: Jayati Ghosh; publicado em Social Europe, 25/07/2022

A onda inflacionária tem revelado várias coisas sobre os governos atuais, mas também, de forma mais patente, sobre os economistas. O número de economistas e, consequentemente, de formuladores de políticas, que permanecem presos à ideia inflexível de que a inflação resulta de uma política monetária muito frouxa – e que, portanto, os bancos centrais devem restringir a oferta de dinheiro e aumentar as taxas de juros – é enorme. Trata-se de algo que John K. Galbraith teria chamado de “sabedoria convencional”.

Mas isso está errado. As causas da inflação variam de acordo com o contexto e o período. Uma política monetária mais rígida é uma ferramenta perigosa que corre o risco de gerar recessão e desemprego – prejudicando ainda mais os trabalhadores do que os próprios aumentos de preços. Mas essa política não causa apenas sofrimento humano, pois, se os motores da inflação forem outros, reduzir o excesso de demanda supostamente culposo não resolverá o problema.

Esses fatos óbvios parecem quase esquecidos na discussão convencional. Até o respeitado economista Olivier Blanchard, em uma série de tweets, sugeriu que o aumento do desemprego era a única maneira de controlar a inflação. O problema, aparentemente, era como fazer com que os trabalhadores entendessem e aceitassem isso:

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Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

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