Capitalismo: a destruição endógena da teia da vida

Uma entrevista com Jason W. Moore

Artigo publicado em viewpointmag em 28 setembro de 2015

Em o Capitalismo na teia da vida, Jason W. Moore sustenta a necessidade imperativa de fazer uma síntese e uma reformulação teórica completa dos pensamentos marxista, ambiental e feminista. Eis que o que afirma: “Acho que muitos de nós entendemos intuitivamente – mesmo se os nossos quadros analíticos estejam defasados – que o capitalismo é mais do que um sistema “econômico” e mesmo mais do que um sistema social. O capitalismo é uma forma de organizar a natureza.”

O jornalista Kamil Ahsan conversou com Moore sobre seu livro Capitalismo na Teia da Vida (Verso), lançado em agosto de 2015, o qual busca enfrentar os novos desafios que se levantam diante das velhas maneiras de compreender o nosso mundo.

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Do voo da galinha ao voo do peru

Não se pode falar do desempenho econômico do governo do Messias sem recordar o que aconteceu nas últimas décadas. É preciso ver que as classes dominantes e as forças políticas que as representam, já em 1990, abandonaram qualquer projeto desenvolvimentista. Abdicaram completamente de perseguir um caminho de expansão econômica autodeterminado e autossustentado.

No período do desenvolvimentismo associado, em que se abriu a economia ao capital estrangeiro (1956-1980), a burguesia brasileira perdera já o comando e o controle do processo de acumulação. Passou a lhe faltar agora o domínio da maioria das grandes empresas, dos processos tecnológicos e mesmo dos processos financeiros. Não lhe restou outra alternativa senão aceitar uma trajetória medíocre de expansão econômica, segundo um padrão de desenvolvimento que foi classificado como “liberal periférico”. Muitos empresários capitalistas venderam as suas plantas para as empresas estrangeiras e passaram a confiar cada vez mais no mercado financeiro e no neoliberalismo.

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Para a crítica da economia tecnocrática

Como se sabe, a Crítica da Economia Política consiste num objetivo conjugado da apresentação dialética do sujeito automático na obra O capital, o déspota sistêmico que rege o funcionamento do modo de produção capitalista e condiciona tanto as instituições como os comportamentos dos indivíduos na sociedade burguesa.

Essa crítica, como também se sabe, parte de uma diferença que foi indicada pelo próprio Marx numa nota de rodapé do primeiro capítulo desse livro monumental: a economia política clássica distingue-se porque “investiga o nexo interno das condições de produção burguesas”, enquanto que a economia vulgar visa apenas “o nexo aparente (…) oferecendo um entendimento plausível dos fenômenos”. Também se sabe que a economia vulgar foi consagrada como tal já nas últimas décadas do século XIX, pois se passou a considerar esse saber como ciência positiva por excelência.

A crítica marxiana, portanto, consiste, por um lado, em mostrar a aparente veracidade ou mesmo a falsidade das formulações da economia vulgar e, por outro, em retificar as teorias clássicas, eliminando as suas confusões, mas especialmente vinculando de maneira correta a forma e o conteúdo, a aparência e a essência das relações de produção capitalistas. Um elemento central dessa crítica, como atualmente se admite sem contestação, consiste em mostrar como toda essa cientificidade, vulgar ou não, cai no fetichismo da mercadoria, do dinheiro e do próprio capital. Não há dúvida, ademais, que esse modelo de crítica continua importante no século XXI, mesmo se se pode considerar que se tornou insuficiente.

A razão pela qual se tornou necessário ir além da crítica da economia política vem da necessidade de fazer uma crítica da economia tecnocrática, a qual ainda não existia como tal no tempo de Marx. Eis que a primeira foi substituída aos poucos, a partir do último quartel do século XIX, por uma cientificidade que se vale dos recursos do cálculo diferencial para criar um saber cada vez mais apropriado à governança do capitalismo.

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Pós-neoliberais, mas pré-ricardianos

Desde logo, é preciso saudar (com alguma ironia, confessa-se) o fato de que surgiu mais uma voz dissonante no interior da academia norte-americana formada por economistas, a qual está dominada de fato por um unitarismo avassalador. Trata-se, no entanto, de uma vela titubeante numa escuridão imensa. Aqui se vai mostrar em que consiste sem abdicar do direito de crítica severa.

E se começa pelo título: esclarece-se que os prefixos “pós” e “pré” não indicam aí posições históricas, mas posições no campo da Economia contemporânea que, de um modo ou outro, ainda insiste em se autodenominar de Economics – abjurando assim o termo Economia Política preferido pelos economistas clássicos.

Faz-se referência assim a um grupo de economistas de centro-esquerda que se reúnem atualmente sob uma bandeira que eles próprios chamam de Economia para a prosperidade inclusiva (isto é, Economics for Inclusive Prosperity – ou EfIP). Como essa iniciativa se considera pós-neoliberal e como, ademais, reclama situar-se numa posição moralmente superior àquela mais comum na tradição na qual estão inseridos, será aqui designada por EPI.

Em pdf: Pós-neoliberais, mas pré-ricardianos

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O mainstream enfrenta desafios históricos. Vai superá-los?

Publicado por Michael Roberts – The next recession blog – 2/02/2021

Recentemente, a recém-confirmada secretária do Tesouro dos EUA e ex-chefe do Federal Reserve, Janet Yellen, expôs, em uma carta a sua equipe, os desafios que o capitalismo americano agora enfrenta.  Aí disse: “a crise atual é muito diferente daquela ocorrida em 2008. A sua escala é igualmente grande, se não for ainda maior. A pandemia causou uma devastação total na economia. Indústrias inteiras pararam suas operações. Dezesseis milhões de americanos ainda dependem do seguro-desemprego. As prateleiras dos bancos de alimentos estão ficando vazias.”  

Tudo isso já aconteceu, mas o que o porvir lhe reserva? Sobre o futuro, Yellen diz que os Estados Unidos enfrentam agora “quatro crises históricas: a da COVID-19 é apenas uma delas. Além da pandemia, o país também enfrenta uma crise climática, uma crise de racismo sistêmico e uma crise econômica que se arrasta há cinquenta anos.”

Ela não explicou em que consiste essa crise que já dura cinquenta anos. Mas, apesar disso, afirmou que estava confiante de que a teoria econômica mainstream pode encontrar as soluções. “A teoria econômica não é apenas algo que se encontra nos livros. Nem é simplesmente uma coleção de modelos. Na verdade, passei da academia para o governo porque acredito que a política econômica pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a sociedade. Podemos – e devemos – usá-la para enfrentar a desigualdade, o racismo e as mudanças climáticas. Ainda tento ver minha ciência – a ciência da economia – da maneira como meu pai via a dele: como um meio de ajudar as pessoas.”

Em pdf: O mainstream enfrenta desafios

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A revolução cibernética socialista de Allende

Publicado Jacobin em 04/09/2020. É aqui republicado dada a importância que esse blog dá à questão do socialismo democrático possível, dada a falência generalizada do “socialismo real”.

Por Eden Medina – Tradução Everton Lourenço

Embora nos digam frequentemente que o passado guarda lições sobre como abordar o presente, raramente olhamos para tecnologias mais antigas em busca de inspiração. Ainda mais raro é sugerir que experiências históricas de nações menos industrializadas possam ter algo a nos ensinar sobre os problemas tecnológicos de hoje – e menos ainda que um projeto socialista de décadas atrás poderia oferecer maneiras de pensar sobre tecnologias promovidas por capitalistas do Vale do Silício.

No entanto, um sistema de computação construído no Chile socialista na década de 1970 – o Projeto Synco ou “Cybersyn”, em inglês – oferece inspiração sobre como devemos pensar sobre tecnologia e dados hoje.

Em pdf:A revolução cibernética socialista de Allende

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Questionando a Teoria Monetária Moderna

Com pequenas modificações, apresenta-se nesse vídeo o conteúdo do artigo já publicado “Crítica das “visões” metalista e cartalista do dinheiro. Acrescenta, ao final, um comentário sobre as propostas de política econômica de André Lara Rezende.

 

 

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Socialismo: o melhor argumento contra ainda é muito ruim

Antes de apresentar e criticar o melhor argumento contra o socialismo é preciso falar um pouco, muito pouco, de um argumento muito, muito ruim. E ele se encontra no livro Capitalismo sem rivais de Branko Milanovic.[1] Neste folhoso, o seu autor oferece dois tipos ideais para entabular uma compreensão do capitalismo contemporâneo: um deles, que chama de “capitalismo meritocrático e liberal”; o outro, que denomina de “capitalismo político”. Estes dois “modelos” – como ele mesmo explica – representam em largos traços, por suposto, os capitalismos realmente existentes nos Estados Unidos e na China, respectivamente.

No último capítulo, denominado Futuro do capitalismo global, depois de apresentar o capitalismo contemporâneo como amoral porque impõe a forma mercadoria a quase tudo, Milanovic se pergunta se há um sistema alternativo que possa vir a substitui-lo no futuro. Põe essa questão de modo retórico para lhe dar, em sequência, uma resposta bem “thatcherita”: “o problema com tal avaliação sensata é que não há uma alternativa viável para o capitalismo hiper mercantilizado”. Justifica, então, essa conclusão peremptória de dois modos: a) “as alternativas criadas no mundo se mostraram piores – algumas delas muito piores”; b) “não se pode ter a esperança de manter tudo isso” – ou seja, os “bens e serviços que se tornaram parte integral de nossas vidas” – “destruindo o espírito aquisitivo ou eliminando a acumulação de riqueza como a única forma de sucesso”.

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Questionando a teoria de equilíbrio geral

Em videoaulas anteriores foram apresentados questionamentos à noção de utilidade e à teoria da preferência revelada. Esta última pretende substituir a primeira como fundamentação da teoria neoclássica. Se a primeira propõe uma fundamentação psicológica, a segunda propõe uma fundamentação empírica. Procurou-se mostra que nenhuma delas é bem sucedida. Nesta videoaula faz uma crítica tanto metodológica quanto estritamente lógica a essa teoria para mostrar, ao fim e ao cabo, um resultado que é conhecido, ainda que pouco divulgado: a teoria do equilíbrio geral é inconsistente.

Outro espectro ronda agora o capital

Para falar de um medo que ora chega ao capital, isto é, ao coração dos capitalistas, é preciso fazer uma comparação entre duas perspectivas sobre as condições atuais e futuras da sociedade humana. Num artigo publicado no sítio A terra é redonda, o Prof. Paulo Artaxo, docente titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), diz:

Nossa sociedade está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Salienta-se que essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente.

Já num relatório sobre a estabilidade financeira publicado recentemente pelo banco central norte-americano, o Federal Reserve, constata-se uma preocupação diversamente orientada:

O curso da pandemia, sua extensão e duração, as consequências econômicas e financeiras, continua a ser um dos mais significantes riscos para o sistema financeiro. A efetivação desses riscos depende largamente do sucesso das medidas de saúde pública e outra ações governamentais para conter a difusão do COVID-19.

Ora, essa comparação leva imediatamente à seguinte questão: a finalidade última da sociedade atual é se preservar, difundindo melhor o nível de civilização até agora alcançado, ou, ao contrário, é manter a lógica de acumulação de capital e, assim, o seu sistema financeiro globalizado? É “ele” que importa?  O sistema econômico existente está a serviço da sociedade? Ou, ao contrário, é esta última que deve atuar e se sacrificar em função do sistema econômico?

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