A Economia está evoluindo?

Publica-se abaixo um artigo de Michael Roberts criticando a pretensão de ciência rigorosa que recebe o nome de Economia (Economics), a teoria econômica que toma o sistema econômico como se fosse uma segunda natureza e que, ao fim e ao cabo, defende os interesses dos donos do capital em geral. E que para melhor fazer isso, apresenta-se como um suposto saber técnico que se vale da Matemática e da Estatística para construir argumentos. A crítica dele é fraca por dois motivos: ele a) fia-se numa visão positivista de ciência; b) desconhece o método da teoria crítica. 

Não se trata apenas de dizer que a Economia é vulgar (Marx) porque analise apenas as relações aparentes entre fenômenos. Tambem não se trata de afirmar que a Economia se contenta em fazer sinopse de fatos (Horkheimer) porque é teoria tradicional. Trata-se de apontar que cria sistemas econômicos imaginários visando sustentar a própria cientificidade e se capacitar para intervir na política econômica com douta sabedoria.  De qualquer modo, Roberts expõe o alto grau de arrogância e alienação de alguém que deve ser economista. 

Continue lendo

Ruy Fausto: juízos de reflexão e do sujeito

Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Em nota anterior[2], mostrou-se que a apresentação dialética em sua versão marxiana consistia em um juízo existencial amplo sobre o modo de produção capitalista. Eis que busca apreendê-lo criticamente já que se trata de um sistema social complexo – intransparente – cuja natureza interna é desconhecida. Ao ser revelada, fica bem claro que, apesar de sua aparência, ela está em desacordo com valores universais da igualdade, liberdade etc.

 Para realizar essa tarefa, a teoria crítica original parte da forma elementar da riqueza capitalista, a saber, a mercadoria, e caminha passo a passo para reconstruir conceitualmente esse sistema até que ele apareça na forma de um “concreto pensado” em processo de devir. Nesse procedimento, alguns passos cruciais são dados por meio de juízos específicos que apreendem o ser social como tal; os juízos de constatação descobrem modos de ser imediatos e os juízos críticos vão da aparência à essência desvelando a realidade. Assim, a aparência imediata ou “dada” se torna aparência mediata, ou seja, expressão de uma essência que a contraria.

Continue lendo

Ruy Fausto: apresentação dialética

Eleutério F. S, Prado [1]

Introdução

Max Horkheimer, em seu Teoria tradicional e teoria crítica [2], afirma que existem conexões entre as formas de juízos e os períodos históricos. Em sequência, ele opõe o juízo categórico ao juízo hipotético. O juízo categórico, ou seja, aquele que afirma ou nega incondicionalmente uma pertinência (X é A; X é não-B), mostra-se adequado nas sociedades pré-capitalistas. Pois, como tal, alude a um mundo que não pode ser mudado pelo homem. O juízo hipotético (se X, então A; se X, então não-B), ao contrário, afigura-se adequado no capitalismo, pois faz referência a um mundo passível de transformação. Indica a condição necessária para que algo aconteça ou não aconteça, expressando assim uma causalidade eficiente.

Ora, a própria noção de teoria altera-se na sociedade moderna. Se, para os gregos, significava contemplação, observação ou visão desinteressada da ordem do universo, para os modernos, ela significa “uma sinopse de proposições” que descrevem fatos e relações factuais hipotéticas ou conjecturais que permitem atuar no mundo praticamente para transformá-lo.  Em sentido usual e dominante, o termo teoria se refere – indica Horkheimer – “ao saber acumulado de tal forma que permita ser utilizado na caracterização dos fatos tão minuciosamente quanto possível”. Ou seja, dá nome à acumulação de juízos hipotéticos que permanecem hipotéticos porque codificam a transformação possível do mundo.

Continue lendo

As origens antidemocráticas do neoliberalismo

Quinn Slobodian [1]– Terrestres [2] –12/07/2026

Destino, que destino?

Ao final de A escolha da guerra civil [3], Pierre Dardot, Haud Guéguen, Christian Laval e Pierre Sauvêtre mencionam um encontro entre Napoleão e Goethe, ocorrido em 1808. Afirma-se que, na ocasião, Napoleão disse: “Por que sempre se fala em destino? O destino, ele está na política.” Essa frase, desde então, ressoou tão profundamente que o industrial alemão Walter Rathenau a retomou na década de 1920 para transformá-la em “O destino, ele está na economia”. Após a Segunda Guerra Mundial, Ludwig Erhard, Ministro da Economia da Alemanha Ocidental e figura-chave na implementação, no pós-guerra, de uma versão alemã inicial do neoliberalismo, usou a mesma fórmula: “O destino, ele está na economia.”

Essa reformulação reflete bem a oposição atual entre o neoliberalismo e os seus adversários no campo da direita. Alguns argumentam que existe uma “lei econômica” imperativa, em nome da qual burocratas responsáveis e instituições financeiras guiadas por algoritmos determinam o destino das pessoas segundo princípios abstratos extraídos da ciência econômica. Outros, porém, se recusam a se submeter às forças do mercado e supervalorizam o Estado, a soberania e o poder de um líder carismático, ou seja: a intervenção do que está fora daquela lei. Ora, essa alternativa nos leva de volta às ideias que circulam há uma década. Ouve-se falar do retorno dos homens fortes, de tantos pequenos napoleões que erguem a bandeira de que “o destino está na política”. E ela vem sendo também chamada por Timothy Snyder, diante da lógica distributiva implacável do mercado, de “política da eternidade”.

Continue lendo

Que diabos acontecem em Delaware?

Emily Topping [1] – Current Affairs – 25/06/2026

Mais de dois terços das empresas da Fortune 500 estão baseadas neste pequeno estado e o restante dos norte-americanos está tendo que conviver com as consequências.[2]

Nacionalmente, o modesto estado de Delaware não recebe muita atenção. Como o segundo menor estado dos Estados Unidos, tem aproximadamente 154 km de comprimento e, em seu ponto mais largo, apenas 56 km. Querendo, leva-se cerca de uma hora e meia para dirigir de um lado ao outro, presumivelmente para chegar a um lugar mais emocionante. O produto mais famoso de Delaware é Joe Biden, junto com algo chamado “scrapple”: um prato regional de café da manhã do meio-Atlântico que é tentadoramente descrito como um “pedaço de restos de porco coalhado com farinha de milho”. No entanto, o que falta ao estado em matéria cultural é compensado por coisas mais insidiosas.

Continue lendo

Titãs da gestão de ativos

Benjamin Braun [1], Adrienne Buller [2]

Artigo publicado no portal Policrise que busca rastrear a ascensão e a política do capitalismo dos gestores de ativos.

Em meados de outubro de 2021, a BlackRock revelou os resultados do terceiro trimestre; viu-se, então, que essa gigante da gestão de ativos estava anunciando que o seu patrimônio em ativos sob gestão estava pouco abaixo de $10 trilhões de dólares. Era uma quantia enorme! Eis que era “aproximadamente equivalente a toda a indústria global de fundos de cobertura (hedge), capital privado (private equity) e capital de risco juntos”. O montante anunciado mostrava, ademais, que houvera um aumento de quase dez vezes em apenas alguns anos. Pois, a empresa ultrapassara pela primeira vez a marca de 1 trilhão de dólares pouco mais de 10 anos antes, em 2009.

Desde a crise financeira de 2008, testemunha-se a ascensão da BlackRock como uma superpotência indiscutível na gestão de ativos. Embora excepcional, ela não está sozinha. Aparece junto com a sua rival mais próxima, a Vanguard. Pois, essas duas empresas controlam quase US$ 20 trilhões em ativos, tendo assim uma participação combinada de mais de 50% no mercado em expansão de fundos negociados em bolsa (ETFs).

Continue lendo

Afogados em dívídas impagáveis

Autor: Fernando Rugitsky [1]

Inclusão financeira e expropriação financeira no Brasil [2]

Na eleição de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reeleição a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroeconômico relativamente bem-sucedido. Após um longo período de crise e estagnação — entre 2015 e 2022, o crescimento médio anual do PIB foi de apenas 0,3% —, a economia brasileira cresceu cerca de 3% anuais nos três primeiros anos do atual governo, enquanto a taxa de desemprego caiu de 9,5% para algo em torno de 6%, na comparação entre as médias de 2022, último ano do governo anterior, e de 2025. Mas as pesquisas indicam que isso pode não ser suficiente para garantir uma reeleição tranquila. A maioria delas aponta uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.

Continue lendo

A IA está inflando uma bolha?

C.P. Chandrasekhar [1] e Jayati Ghosh [2]

A febre dos investimentos financeiros desencadeada pela oferta pública inicial da SpaceX é um sinal de que o boom dos investimentos em IA é uma bolha.[3]

Os mercados financeiros dos EUA estão em êxtase. Algumas empresas estão batendo recordes de ofertas públicas iniciais (IPO), transmitindo a impressão de uma transformação do papel dos mercados de ações no capitalismo americano. A tendência começou com a SpaceX, a megacorporação criada ao converter a plataforma de mídia social Twitter, renomeada X, no player de inteligência artificial xAI, e depois fundi-la com o operador de satélites e gigante das telecomunicações.

Continue lendo

O problema dos três corpos do capitalismo

Autor: Romaric Godin

Tradução do subtítulo: Sobre a gestão autoritária do desastre (e os meios para lidar com ele).

Publica-se abaixo uma tradução da introdução do livro de Romaric Godin, a qual foi disponibilizada no sítio da própria editora La découverte, em francês. Como o texto é extenso, a sua publicação encontra-se abaixo na forma de pdf que pode ser baixado pelos interessados. Segue-se o endereço do sítio da editora para os eventuais interessados: https://www.editionsladecouverte.fr/2

Subprodução dos EUA causa superprodução da China?

Eis aqui duas frases em que uma diz o mesmo que a outra de movo invertido: “A superprodução chinesa causou o déficit comercial dos Estados Unidos” e “A subprodução dos EUA causou o superávit da China”. Ambas estão erradas, mas é preciso explicar o porquê.

Richard Baldwin [1] – Blog no Substack – 11/06/2026

Introdução

Nota para mim mesmo: não se pode estabelecer causalidade a partir de uma identidade. Todo mundo sabe disso; ora, absolutamente todo mundo sabe disso – e com certeza.

A China está produzindo produtos manufaturados em excesso e isso gera um enorme superávit comercial que o resto do mundo é obrigado a absorver. Leve-se isso em conta: se a China tem superávit comercial, alguém precisa manter um déficit comercial.

Será que ao se apontar para “todo mundo” não se está colocando a carroça na frente dos bois ao invés dos bois em frente da carroça? Será? Com certeza?

Continue lendo