Quando o neoliberalismo encontra o fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

O neoliberalismo é, sim, criador. Do que mesmo, na prática!? De má distribuição da renda, da destruição da proteção social dos mais pobres, da precarização da condição de vida dos trabalhadores – tudo isso é bem conhecido. Ainda que procure se justificar em nome da liberdade, o que ele procura mesmo é elevar a taxa de lucro do capital industrial e manter intocado e em processo de valorização o volumoso capital fictício acumulado nas últimas décadas. Mas a sua mais terrível – tem gente que gosta desse último termo e o emprega positivamente – criação não é bem conhecida. E ela precisa, sim, ser mostrada e bem mostrada.

Antes disso, note-se que esse agenciamento político é de certo modo sincero quando exalta a liberdade, mas se veja também que defende, em última análise, a liberdade do agente econômico, do homem como personificação do seu capital. E, nessa perspectiva, é preciso perceber que o neoliberalismo se move também no terreno da moralidade e tem uma pretensão tanto idealista quanto “idealista”.   

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Perspectivas da economia mundial para 2020

Como mensagem de fim de ano e começo de outro, este blog publica dois artigos de Oscar Ugarteche e Alfredo Ocampo. Eles tratam das perspectivas da economia mundial para 2020.

O ano de 2019 foram bem complicados para vários países vistos de vários ângulos: crescimento econômico; coesão social; integração internacional e crise política. Ao longo do ano, as principais organizações internacionais reduziram a previsão de crescimento para a maioria das economias, como resultado de fatores que vêm surgindo há alguns anos: deterioração das relações comerciais, altos níveis de dívida, concentração de renda, fluxos migratórios, racismo e uma queda no investimento produtivo.

Espera-se que a tendência geral da economia mundial continue em ritmo lento na maioria das economias, com o claro contraste das economias asiáticas que continuarão a crescer três vezes mais rápido que o Ocidente, o que poderia ser afetado principalmente pelos protestos em Hong Kong e Índia. Para as economias avançadas, o prognóstico é cinzento, porque os problemas da União Europeia não terminam com a saída do Reino Unido.

O primeiro texto se encontra aqui: Perspectiva da economia mundial para 2020
O segundo texto, por sua vez: Estamos próximos de uma recessão nos Estados Unidos

 

A agonia (e morte?) do desenvolvimento no Brasil

Quando se olha o comportamento da economia capitalista no Brasil nos últimos setenta anos de uma perspectiva que fica apenas na observação dos dados empíricos, é absolutamente nítido que dois grandes períodos aparecem: um deles que vai até 1980, o qual não pode deixar de ser considerado como de alto crescimento e um outro, que se inicia em 1990, o qual está caracterizado por uma quase-estagnação. A década dos anos 1980 é de crise e de transição entre esses dois padrões de crescimento do produto interno bruto (PIB).

O primeiro período mencionado é usualmente chamado de nacional desenvolvimentista. O segundo tem sido caracterizado como liberal periférico, já que nele domina o neoliberalismo.

Contudo, esse segundo período pode também ser dividido em dois outros. Empregando uma terminologia já em uso, mas ainda não fixada na historiografia, o período que vai de 1990 a 2015 pode ser caracterizado como neoliberal progressista. Entretanto, após esse último ano, a gestão da economia capitalista no Brasil tornou-se – é preciso diferenciar – neoliberal reacionário.

Ao contrário do que acontecia anteriormente, este último período passou a apontar a barbárie – e não mais para a civilização. Trata-se, sem dúvida, do advento de uma regressão, de uma decadência.

A que se deve esse comportamento da taxa de crescimento do PIB? Por que o Brasil ficou para trás no assim chamado processo de globalização? O neoliberalismo reacionário contraria o desenvolvimentismo ou, mais do que isso, ele representa o abandono do projeto de desenvolvimento nacional que orientou a economia brasileira nos últimos 70 anos?

É preciso, portanto, que as forças potenciais da civilização – que moram ainda nas classes trabalhadoras em sentido bem amplo –, passem a acreditar e apostar numa mudança mais profunda da sociedade. E, nessa perspectiva, o socialismo democrático e o ecossocialismo surgem como alternativas promissoras. Se o presságio acima se confirmar, sobrevirá a barbárie e o fim de nossa humanidade possível. Veja-se que, em certos espaços da sociedade brasileira, isto já está acontecendo e de modo bem evidente.

O texto está aqui: A agonia (e a morte?) do desenvolvimento no Brasil

 

A formação do modo de ser neoliberal

Com este post termina-se a publicação de um artigo e uma nota que tratam, como o título acima indica, da formação intencional e construtiva do modo de ser neoliberal. O primeiro deles, Neoliberalismo e subjetivação capitalista, de autoria de Pierre Dardot e Christian Laval, veio à tela aqui neste blog nas duas últimas segundas-feiras. Agora, para complementá-lo, publica-se uma resenha do livro O ser neoliberal (Gedisa, 2019), resultado de uma discussão recente entre esses dois autores e o psicanalista espanhol Enric Berenguer.

Nesse escrito, eles mais uma vez retomam a questão de como melhor definir o neoliberalismo. Com esse propósito principal repensam tudo o que disseram em A nova razão do mundo, mas indicam também que os processos de formação de subjetividade adequados à produção capitalista não passaram a existir apenas no capitalismo contemporâneo; pois, ao contrário, existiram também nas épocas históricas precedentes, ainda que com certas especificidades.

Ora, aquilo que foi chamado por Foucault de governamentalidade tem assumido formas diversas, ainda semelhantes, ao longo da história do capitalismo. Assim, se o neoliberalismo recebe também nesse novo livro o foco crítico principal, não deixam eles de fazer também referências críticas importantes às formas que existiram no período de domínio do liberalismo clássico e, depois, no período da socialdemocracia.

Na opinião do economista que aqui escreve, o tema da governamentalidade tem de ser apropriado pela crítica que vem de Marx, naquela precisamente em que discute as formas de subsunção do trabalho ao capital. Ora, esse tema tem sido discutido mesmo sem qualquer referência à Foucault sob o conceito de subsunção intelectual ou mental do trabalho ao capital. Ademais, é evidente que, assim, o tema não é esgotado mesmo numa perspectiva que se cinge ao capitalismo no Ocidente.

É preciso mencionar que seria necessário incluir, num estudo mais abrangente, não apenas o fascismo e o nazismo, mas também o comunismo estalinista e o comunismo maoísta, assim como outras variantes dessas formas de exercer o poder e de dominar os seres humanos comuns.

O texto se encontra aqui: A formação do modo de ser neoliberal

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte II

Continua-se neste post a publicação de um artigo que trata do conceito de neoliberalismo. Traz-se por isso, com esse objetivo, a segunda e última parte de um escrito muito importante de Pierre Dardot e Christian Laval.

Como foi dito no primeiro post, se essa forma de prática política é, sim, implementação de medidas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc. Porém, de modo algum, pode ela ser reduzida a essa dimensão estritamente econômica. Eis que é, também, uma forma de governamentalidade, isto é, de criação por meio de técnicas de poder de uma subjetividade adequada à expansão do capitalismo.

O neoliberalismo implica na generalização da forma social “concorrência” – que originalmente é apenas “concorrência de capitais” para âmbitos sociais que não deveriam ser regulados economicamente, tais como hospitais, escolas, associações, igrejas etc. E essa generalização é, sim, produzida construtiva e deliberadamente.

Sustentam esses dois autores que “a imposição dessa forma de concorrência nada tem de natural. “Não resulta de processos espontâneos. Não é efeito de uma espécie de “canibalização” inerente à dinâmica do capitalismo. É produto, isto sim, de uma construção política.”

Note-se, nesse sentido, que “o fator competitivo mais importante hoje é o “capital humano”, a formação do indivíduo, o seu “desenvolvimento pessoal” dentro e fora da empresa, a sua subjetividade no trabalho e fora dele, ele também deve ser remodelado de acordo com o princípio da concorrência”.

Se totalitarismo implica, como queria Hannah Arendt, na realização determinada de um fim último, a conquista do mundo, o capitalismo neoliberal é uma forma de totalitarismo. Esse objetivo não é, entretanto, perseguido por meio da absorção e subordinação do mercado e da sociedade civil como um todo ao Estado, mas, ao contrário, por meio da conquista e subordinação do Estado e da sociedade civil como um todo pela lógica do mercado.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – II

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte I

Inicia-se com este post a publicação de um artigo e uma resenha que tratam do conceito de neoliberalismo. Nos dois primeiros posts, publica-se um escrito de Pierre Dardot e Christian Laval em que esse tema é ventilado.

O que é o neoliberalismo? – eis a pergunta central que esse artigo responde. Se é evidente que essa prática política implica na adoção de determinadas políticas econômicas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc., ela própria não pode ser reduzida ao seu aspecto econômico.

Segundo Dardot e Laval, se neoliberalismo é expansão da lógica mercantil em âmbitos ainda não mercantilizados, ele é na verdade mais do que simplesmente isso. Segundo eles, “o neoliberalismo deve ser caracterizado pela transformação da competição em forma geral das atividades de produção, especialmente daquelas que produzem serviços não mercantis e até mesmo daquelas atividades sociais fora da esfera produtiva”.

Nesse sentido, como o alimentador deste blog tem escrito há mais de dez anos, consiste numa forma suplementar de subsunção do trabalho ao capital, para além da subsunção formal e da subsunção real, tal como foram caracterizadas originalmente por Karl Marx. Assim, esta forma pode ser – e tem sido – denominada subsunção intelectual ou mental do trabalho ao capital.

Este post e o seguinte encaminham a tradução para o português de um artigo de Dardot e Laval publicado originalmente em francês, em 2010. Neste escrito, eles apresentam essa tese pondo um foco especial no neoliberalismo, sem deixar, no entanto, de mencionar que a socialdemocracia nunca deixou de ser, também, uma forma de “governamentalidade” – ainda que não tenha sido destrutiva da vida boa com passou a ser a sua sucessora. Note-se que, ao apresentá-la, criticam também o economicismo presente ainda em grande parte do marxismo:

É esta pelo menos a tese deste trabalho: a autonomização e a extensão da concorrência não procedem da ação subterrânea de supostas “leis imanentes da produção capitalista”, algo que a concorrência veio impor a cada capitalista individual sob a forma de um “constrangimento externo. Muito ao contrário, elas são o efeito de práticas, técnicas, discursos que generalizam aquilo que no jargão gerencial é chamado de “melhores práticas” e que, portanto, vem homogeneizar para toda sociedade certas maneiras de fazer e de ser.

A primeira parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – I

Ruinas do neoliberalismo: Chile, o caso precursor

Os acontecimentos no Chile, mesmo filtrados por uma imprensa que não tem muito interesse em divulgá-los, são impressionantes. Se a economia chilena é julgada por critérios economicistas, não há grande dúvida, parece que ela estava indo muito bem. Mas se é assim, por que ocorre atualmente esse enorme incêndio na sociedade chilena?

É para entender melhor esse aspecto que se consulta primeiro, na nota encaminhada por meio deste post, um artigo do economista chileno Andrés Velasco, publicado no portal Project Syndicate. Ele tenta explicá-lo por meio do conhecimento extenso que, evidentemente, possui sobre esse país.

Como o Chile é considerado como uma vitrine do neoliberalismo, tais eventos não denotam um fracasso das políticas que vem sendo implementadas em muitos países do mundo, inclusive no Brasil? Ora, quando esse problema foi apresentado a Paulo Guedes, Ministro da Economia do atual governo no Brasil, ele não soube respondê-la adequadamente.

Ao lançar recentemente planos que pretendem reformar o Estado brasileiro para adequá-lo a certas aspirações dessa corrente política, ele minimizou: “democracia é assim mesmo: barulhenta (…) ainda há insatisfação com a desigualdade”. Mas será só isso!? Será que um economista neoliberal como ele entende de sociedade?

Como a resposta economicista se afigura como bem insuficiente, procura-se junto a um professor de filosofia e cientista político, Hans Sluga, outra explicação. Ele sugere que o neoliberalismo reativou, mesmo sem o desejar, o niilismo, um solo em que prosperam agora os extremismos de direita. Ao expandir – completando, assim, a sua tese – a racionalidade econômica para todas as esferas da sociedade, o neoliberalismo limpou o terreno onde cresceu o mato dos movimentos que agora ameaçam a democracia liberal e mesmo a civilização no seio da sociedade contemporânea.

A hipótese deste autor encontra-se num livro de Wendy Brown, In the Ruins of neoliberalism, que será resenhado em breve por este blogueiro. De qualquer modo, a interpretação dessa hipótese é devedora de teses que se encontram neste livro.

Ora, quando se observa que emergiu no Chile uma forte reação ao neoliberalismo, é preciso fazer várias perguntas. Por que surgiu essa reação? Qual o seu sentido histórico? Ora, o que foi criado antes pelo conluio entre os economistas neoliberais da Universidade de Chicago e os militares da ditadura Pinochet? Por que a principal pauta do movimento opositor consiste agora na revogação da Constituição criada justamente no período da ditadura?

Eis a nota: Ruinas do neoliberalismo: Ruinas do neoliberalismo: Chile, o caso precursor
Observação: uma versão desta nota foi publicada em 12/11/2019 no portal do Outras Palavras. Aqui, entretanto, publica-se uma versão aprimorada.

Como arruinar um país em três décadas

Os leitores desse blog, lendo o título, devem imaginar que o post vai falar do Brasil. Não, ele não vai mencionar a economia capitalista instalada na terra brasilis. Vai discorrer sobre a situação precária da economia italiana no interior da zona do Euro. Entretanto, os leitores que, de fato, lerem a pertinente nota de Servaas Storm sobre o caso da economia capitalista na Itália, certamente pensarão que um texto muito semelhante poderia ser escrito sobre o Brasil.

Logo, ao lerem “Itália”, devem, portanto, pensar no Brasil.

Segundo o texto que esse autor apresenta, as políticas de austeridade defendidas e aplicadas pelos economistas neoliberais estão abrindo uma caixa de Pandora na Itália e na Europa em geral. Pode ser esta uma tese keynesiana típica já que recomenda uma atitude de acomodação diante da possibilidade da rebelião. Mas ela tem a sua verdade.

Ninguém pode dizer onde isso vai acabar. Os economistas (incluindo os italianos) carregam uma enorme responsabilidade em tudo isso, tanto porque são muito culpados pelo caos quanto porque não conseguem chegar a soluções estratégicas racionais para resolver as crises em curso. “Talvez”, escreveu John Maynard Keynes, “seja historicamente verdade que nenhuma ordem social pereça, salvo por sua própria mão” (Keynes, 1919). Economistas racionais têm que provar que o veredicto de Keynes está errado, começando na Itália – pelo menos porque a confusão do Brexit parece estar além da redenção.

Se a situação econômica de alguns países do Norte inspira esse tipo de alerta, o que a situação de alguns países do Sul não deveria suscitar? O Brasil se encontra quase estagnado desde a década dos anos 1990, com um pequeno surto de crescimento entre 2004 e 2010.

A partir de 2011 entrou no caminho da recessão devido a um aperto dos lucros e uma queda da demanda agregada, fatos que ocorreram no primeiro governo Dilma. A partir de 2015 entrou no rumo da depressão justamente em razão das políticas de austeridade implementadas por Levy, Meirelles e Guedes. Ora, essas políticas servem principalmente ao capital financeiro e não ao capital industrial. Como continua assim, é preciso também perguntar: onde isso vai acabar?

O texto se encontra aqui: Como arruinar um país em três décadas

Da teoria econômica do socialismo – I

Inicia-se hoje neste blog a publicação de uma série de artigo teóricos que versam sobre o futuro (incerto) do socialismo. Na verdade, todos os textos a serem aqui ventilados guardam a característica de ficarem no campo da economia política rigorosa e, portanto, teórica. Eis que o socialismo, hoje, parece uma má utopia e não uma alternativa realista.

Como dizem os autores do primeiro artigo, Fikret Adaman e Pat Devine, com a queda do socialismo soviético “os socialistas de todos os tipos foram afetados por uma profunda perda de confiança e rebaixamento de expectativas (…) A razão subjacente para essa perda de confiança é que a conjuntura histórica coincide com uma profunda crise da teoria socialista, acima de tudo da teoria de uma economia socialista”.

Uma das consequências desse refluxo do socialismo é que ele só poderá se tornar viável como alternativa se puder se constituir como um socialismo radicalmente democrático. Existem, no entanto, várias tentativas de pensar o pós-capitalismo que pretendem preencher esse vácuo. E o primeiro artigo aqui publicado – em três partes – faz uma bela apresentação dessas tentativas.

A primeira parte do artigo se encontra aqui: Da teoria econômica do socialismo – Parte I

Hudson: Guerra Fria 2.0

Excepcionalmente, este blog publica um artigo que não estava previsto num planejamento que é feito pelo autor, mas que está oculto para os leitores. Na verdade, trata-se de uma republicação de uma nota que saiu ontem mesmo no sítio Sinpermiso.

O texto que aqui se ventila foi escrito por Michael Hudson e está disponível, em espanhol, no sítio mencionado e, em inglês, no blog desse autor. Título: As ameaças comerciais de Trump são realmente uma guerra fria 2.0.

A iniciativa faz parte de um esforço para dar uma pequena contribuição para a compreensão do que está acontecendo no mundo. Este blog prefere sempre tratar de temas internos à Economia Política em sentido estrito. Mas, atualmente, o problema geopolítico se apresenta como incontornável.

Como no dia 10 do corrente mês de junho de 2019 foi publicado um artigo de Ashley Smith sobre a guerra híbrida entre os Estados Unidos e a China, pareceu que este que agora se publica constitui-se em um complemento necessário ao primeiro. Ele mostra, sobre outro ângulo, que a rivalidade entre esses dois países tende lamentavelmente a se intensificar.

O texto se encontra aqui: Las amenazas comerciales de Trump son realmente una Guerra Fria 2.0