Guerra comercial em marcha

Os economistas liberais e neoliberais estão alarmados: Trump está paralisando ou mesmo retrocedendo a globalização; guerras comerciais, para eles, são jogos com resultados negativos e, portanto, irracionais, ou seja, em que todos perdem. Como idealizam e santificam o processo de concorrência capitalista, não veem, entretanto, que as guerras comerciais são extensões do próprio processo de competição dos capitais realmente existentes e que elas já estão aí em potência mesmo nos períodos em que vigora uma aparente paz comercial. Ademais, como essas guerras requerem, também, a intervenção e o arbítrio dos estados nacionais, podem também se constituir em prenúncios de guerras de fato. O progresso turbulento e, assim, a regressão e a destruição, tudo isso é inerente ao processo de acumulação capitalista.  

Entretanto, também erra um crítico keynesiano, Joseph Stiglitz, quando diz que as ações de Trump são “motivadas por pura política”. Eis que ele estaria apenas “ansioso para parecer forte e confrontador aos olhos de sua base eleitoral”. Ora, Stiglitz também não vê que o irracional está contido na própria racionalidade contraditória do desenvolvimento capitalista. Sonha, assim, como bom keynesiano, com um capitalismo totalmente racional.

No post anterior, A estagnação dos países ricos, forneceu-se um dos fundamentos históricos dessa conjuntura permeada pela guerra comercial e, possivelmente, pela guerra de fato. Pois, mostrou-se aí, claramente, que o dinamismo do processo de acumulação, no correr dos últimos quarenta anos, havia se deslocado do centro para a periferia asiática, em particular, para a China. Neste que aqui se publica traduz-se um post recente de Michael Roberts em que ele mostra o que está verdadeiramente em jogo nessa disputa: a liderança na capacidade de gerar inovações tecnológicas de ponta e, assim, a hegemonia imperialista no “concerto das nações”, pois ainda domina aí o desconcertado modo de produção capitalista.

A tradução está aqui: Trump, comércio e guerra tecnológica  

P.S. By the way, como se viu e se vê, assim como o socialismo estatista interverte-se em despotismo a fim de promover a acumulação centralizada, a democracia liberal, na crise da acumulação descentralizada, interverte-se em ditadura disfarçada ou mesmo em ditadura de fato.

Dos ciclos de acumulação II

No post anterior voltou-se ao chamado “ciclo sistêmico de acumulação” de Giovanni Arrighi com a finalidade de reexaminar o papel da financeirização em sua fase da desaceleração.  Neste post retorna-se a ele para enfatizar o papel das inovações tecnológicas no seu desenvolvimento, aceleração e desaceleração. Para tanto, traduz-se um artigo de Tony Smith recém-publicado em inglês na revista Logos.

Neste artigo, esse autor argumenta que o processo de acumulação de capital é uma luta sem trégua entre unidades de capital que se dá por meio da introdução de inovações de método e de produto. E que esse processo é sempre contraditório: se, por um lado, abre espaço para a valorização do valor, por outro, tende a produzir superprodução de mercadorias. Assim, além do aumento da composição orgânica do capital, a taxa de lucro tende a cair também devido ao aumento da capacidade ociosa das empresas capitalistas.

Sob essa perspectiva, Smith analisa o capitalismo contemporâneo agora globalizado. O seu ponto central é que um episódio de superprodução generalizada se manifestou na economia mundial na década dos anos 1970. E que ele foi parcialmente “resolvido” por meio da financeirização dos anos 1980 em diante, ou seja, por meio da superação de uma barreira que acabou criando uma barreira ainda maior. Ainda sob essa perspectiva, que é ainda de Karl Marx, ele examina a situação atual para apresentar nua e cruamente as suas ameaças, o seu crucial dilema.

O artigo se encontra aqui: Tecnologia e capitalismo 150 anos depois de Das Kapital

O que é keynesianismo?

Aqui, o keynesianismo é caracterizado como uma doutrina econômica e política – e não estritamente como uma teoria econômica – que se encontra fortemente comprometida com a sobrevivência do capitalismo. Trata-se nesse sentido, ao fim e ao cabo, de um liberalismo iliberal. 

A nota é baseada no livro recém-publicado de Geoff Mann cujo título rememora uma famosa frase de John M. Keynes: no longo prazo estaremos todos mortos. Segundo esse autor, essa assertiva indica iniludivelmente que esse modo de pensar e atuar se encontra atravessado por uma profunda ansiedade histórica. Eis que expressa algo mais profundo, isto é, que o keynesianismo é movido por esperança e medo em relação as turbulências econômicas e as inquietações sociais do capitalismo. Afigura, assim, o futuro como enigmático e incerto e, por isso, contenta-se em ser uma doutrina pragmática, praticamente otimista no presente, que tem por objetivo ir salvando o capitalismo de si mesmo – não em geral, mas particularmente no mundo euro-americano.

A nota se encontra aqui:O que é keynesianismo?

 

Do próximo desastre econômico

O blog One Question, mantido por Cihan Aksan e Jon Bailes, apresenta a cada mês uma pergunta crucial para um conjunto de pensadores destacados – economistas, sociólogos, cientistas políticos, etc. – solicitando que deem para ela uma resposta breve. No mês de janeiro de 2018, a pergunta foi a seguinte: estamos caminhando para outro desastre econômico? Ela foi respondida por vários autores com um “sim”, mas este “sim” variou na avaliação da gravidade do desastre. Eis aqui a fonte original.

Destacamos aqui duas delas para serem aqui traduzidas e brevemente apresentadas. Eis que as respostas de Wolfgang Streeck e de Cédric Durand, dentre todas anotadas, pareceram as mais interessantes de um ponto de vista crítico. Elas apresentaram o futuro econômico possível de um modo que faz justiça à boa tradição da crítica da economia política. Sugerem – e isto é o mais importante – que devemos estar preparados politicamente tratando desde já a catástrofe econômica vindoura como uma nova oportunidade de transformação. Eis aqui a nota com as traduções: Do próximo desastre econômico

Macroeconomia Atônita

De volta para o futuro! Sim, mas que futuro? Dois macroeconomistas consagrados na academia norte-americana, Olivier Blanchard e Lawrence Progress and confusionSummers, juntaram-se para escrever uma proposta de reformulação das práticas de política e de regulação econômica e, talvez (e isto não está claro), de mudança da macroeconomia atualmente ensinada nos cursos ditos mainstream de Economics.

Eis o seu título: Repensando a política de estabilização. De volta para o futuro. Ora, quando se lê essa alvitrada atentamente, vê-se que eles estão confusos teoricamente. Pois, eles querem salvar a tradição neoclássica a qual pertencem e, ao mesmo tempo, salvar o capitalismo que agora voa baixo sob o comando do capital financeiro.

A proposta, pois, enseja um comentário crítico que, no entendimento dos economistas do sistema, talvez figure como mero blábláblá. Porém, os dois “gênios” não teriam cometido inconsistências, não teriam caído em vulgaridades? A nota que foi escrita para apontá-las está publicada aqui  A macroeconomia, sim, está atônita e, ao mesmo tempo, no Outras Palavras.

Estado, finança e crise

O economista neokeynesiano Richard C. Koo rebatizou as recessões que vem depois das grandes crises capitalistas como “recessões de balanço” (balance sheet recessions). Argumenta que são diferentes das recessões comuns. Pois, caracterizam-se, segundo ele, pelo fato de que as empresas, diante das enormes dívidas acumuladas antes, procuram, após a eclosão da crise, “minimizar o endividamento ao invés de maximizar lucros”.

Em particular, ele explica desse modo – bem detalhadamente – a recessão prolongada da economia capitalista no Japão após o estouro da bolha imobiliária em 1990.

Procura-se mostrar na nota que acompanha esta postagem que ele descreve bem o fenômeno, mas não o explica adequadamente. Pois, não é capaz de esclarecer porque se forma a bolha de crédito que antecede a crise e porque o investimento não se recupera depois que ela estoura. Eis que a sua explicação é de fato tautológica: o investimento não se recupera porque as empresas não querem investir, mas empregar os lucros para reduzir o endividamento.

Para encontrar uma explicação mais profunda do mesmo fenômeno recorre-se a um artigo de Esteban Maito em que ele estuda a crise e a recessão da economia capitalista no Japão a partir de Marx. Para fazê-lo, fornece-se um resumo da teoria da crise que se encontra no Livro III de O capital, indicando que ela é capaz de abarcar também o fenômeno atual da financeirização. Investiga-se, ademais, as consequências da intervenção do Estado no andamento da crise contemporânea. Mostra-se que, se ela evita, impedindo a destruição do capital, uma grande quebra das empresas e a derrocada do sistema financeirizado, faz com que surja uma recessão que se prolonga indefinidamente.

Para acessar a nota clique aqui:  Estado e finança nas grandes crise da acumulação de capital.

Distopia Polanyiana

capa-de-immaginare-il-futuroPublicamos aqui mais um texto curto de Wolfgang Streeck que trata do futuro do capitalismo. Tendo por referência a Europa, foi publicado em 2016, em italiano, no livro Immaginare il futuro, coordenado por Carlo Bordoni. Ao lê-lo, não se deve esquecer que esse autor emprega um raciocínio que vem imediatamente de Karl Polanyi, mas que tem uma origem difusa mais antiga na tradição sociológica.

Segundo esse raciocínio, a sociabilidade mercantil capitalista é extremamente eficiente e eficaz na produção de riqueza material, mas vem a ser, também, inerentemente predatória do homem, da natureza e das tradições. Ela nasce e se expande cada vez mais no interior da sociabilidade herdada – não capitalista, tendendo a desagregá-la cada vez mais, inexoravelmente. Ao fazê-lo, passa a impor a sociabilidade do individualismo possessivo e da competição desenfreada em todos os domínios da vida social, com resultados que acabam por ser desastrosos.

A sociabilidade tradicional lhe põe contenções, mas também lhe fornece uma estrutura normativa e institucional necessária à sua própria subsistência. Ora, a sociabilidade capitalista que dela se nutre só pode destruí-la. À medida que a sociabilidade tradicional vai desaparecendo, vai deixando também de conter o processo da ruína dos recursos herdados, o que também é produzido pelo capitalismo.

Nesse sentido, o neoliberalismo é entendido como a batalha final da sociabilidade mercantil capitalista para subjugar toda sociabilidade tradicional que é inerentemente comunitária. Se essa última busca a preservação dos bens comuns, a primeira é baseada em bens exclusivos e privados. É por isso que ele vê o futuro da sociedade humana sob a égide da mercantilização desenfreada como sombrio.

O texto se encontra aqui: como-sera-a-nossa-sociedade-nos-proximos-decenios

Esboço de outro socialismo

1984-de-orwell

O filósofo Denis Collin no texto em apenso apresenta um novo conceito de transformação social, radicalmente diferente, segundo diz, das tendências tradicionais da socialdemocracia, do socialismo cientificista e do comunismo de caserna. Originalmente escrito em francês, está aqui traduzido para o português como uma forma de contribuir para o debate sobre uma nova perspectiva para a superação do capitalismo. Essa perspectiva, mesmo sendo ainda incipiente, pretende encontrar um caminho para superar tanto o reformismo fracassado quanto o centralismo revolucionário. A inspiração para a proposta vem de uma leitura de teses de George Orwell.

“Common decency” ou decência comum.

Denis Collin – Esboço de outro socialismo [1]

O título desta conferência foi tomado emprestado de George Orwell. Trata- se de explorar o significado e as implicações da ideia de “decência”. O principal resultado a ser obtido consiste na proposição de um novo conceito de transformação social, radicalmente diferente das tendências tradicionais do socialismo e do comunismo revolucionário.

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O capitalismo tem futuro?

capa-do-livro-de-streeckDiversos autores contemporâneos vêm questionando, sob diversas perspectivas, o futuro do capitalismo. Dentre aqueles que mantêm uma posição cética quanto à sua sobrevivência possível para além do século XXI – ou mesmo para os próximos 30 ou 40 anos – não é possível esquecer de István Mészáros, Immanuel Wallerstein e Robert Kurz. Esta postagem, porém, visa recomendar a leitura de Wolfgang Streeck, um instigante sociólogo alemão, que pensa a partir de Karl Marx, mas, principalmente, de Karl Polanyi. A sua tese central é que o neoliberalismo, ao extremar a competição como modo de vida, ao transformar o indivíduo em empresário de si mesmo, ao mercantilizar todas as esferas da vida social, vem minar inexoravelmente as bases morais e sociais da integração dos humanos em sociedade. Como a existência do capitalismo depende de tais bases – herdadas das gerações passadas, mas agora violentamente predadas –, a tentativa de salvá-lo por meio da intensificação neoliberal, levará, segundo ele, à sua desintegração progressiva. E esta dissolução poderá vir acompanhada, eventualmente, do fim da própria humanidade. Alguns poucos textos de Wolfgang Streeck foram traduzidos para o português; aqui se recomenda um deles em especial que foi publicado pela revista Piauí, na edição de outubro de 2014: Como vai acabar o capitalismo? Além disso, aqui se fornece uma tradução de um texto que sintetiza a sua intervenção num debate realizado em 2016, no encontro anual da “Society for Advancement of Socio-economics” (SASE) em que diversos autores discutiram a seguinte questão chave: “o capitalismo tem futuro? ”.

O texto traduzido se encontra aqui: Do-futuro-sombrio-do-capitalismo

Pesadelo resistente

O atual momento histórico não está marcado pela perspectiva do avanço e do progresso. Ao contrário, um pesadelo de regressão parece rondar o Brasil e mesmo o mundo como um todo. Para não assistir passivamente ao desenrolar dos fatos é preciso começar compreendendo o que está acontecendo na sociedade humana cada vez mais unificadaCe cauchemar qui n finit pas pela relação de capital. Com o propósito de fornecer um esclarecimento nesse sentido, foi publicado na França mais um livro de Pierre Dardot e Christian Laval: Este pesadelo que não termina – como o neoliberalismo derrota a democracia. Explicando os efeitos deletérios da racionalidade neoliberal, ele pode contribuir para que seja possível encontrar uma forma de resistir ativamente ao sombrio dos tempos presentes. Uma resenha desse texto político, escrito e publicado sob um sentimento de urgência, é aqui apresentada como uma indicação de leitura.

E essa resenha se encontra aqui: Este pesadelo que não termina