Crise estrutural

Como se sabe, “crise” é sempre uma interrupção repentina e violenta no curso normal da existência de livro-de-mezarosum sistema. Crise econômica capitalista, nesse sentido, é uma interrupção no andamento do processo de acumulação de capital. Como também se sabe, “estrutura” é a disposição das partes num todo, isto é, o arranjo dos componentes desse todo tal como é posto pelo plexo das relações que unem as partes na formação do todo. Nesse sentido, o sistema econômico do capital é formado pelas relações sociais capitalistas, em particular e de modo central, pela relação entre o capital e o trabalho assalariado. Ora, qual é então o significado do termo “crise estrutural” que tem sido usado por alguns críticos do capitalismo? Um grande impasse na reprodução contínua desse sistema de relações sociais? No artigo aqui postado, examina-se essa questão no plano conceitual e no plano empírico. O capitalismo, como sistema mundial agora plenamente desenvolvido, passa atualmente por uma crise estrutural? Em seu desenvolvimento histórico, ele enfrenta agora mais uma barreira que pode superar (para vir a criar também, mais à frente, barreiras ainda mais poderosas) ou está encontrando finalmente o seu limite histórico insuperável?

O texto encontra-se aqui: crise-estrutural-do-capitalismo

O capitalismo tem futuro?

capa-do-livro-de-streeckDiversos autores contemporâneos vêm questionando, sob diversas perspectivas, o futuro do capitalismo. Dentre aqueles que mantêm uma posição cética quanto à sua sobrevivência possível para além do século XXI – ou mesmo para os próximos 30 ou 40 anos – não é possível esquecer de István Mészáros, Immanuel Wallerstein e Robert Kurz. Esta postagem, porém, visa recomendar a leitura de Wolfgang Streeck, um instigante sociólogo alemão, que pensa a partir de Karl Marx, mas, principalmente, de Karl Polanyi. A sua tese central é que o neoliberalismo, ao extremar a competição como modo de vida, ao transformar o indivíduo em empresário de si mesmo, ao mercantilizar todas as esferas da vida social, vem minar inexoravelmente as bases morais e sociais da integração dos humanos em sociedade. Como a existência do capitalismo depende de tais bases – herdadas das gerações passadas, mas agora violentamente predadas –, a tentativa de salvá-lo por meio da intensificação neoliberal, levará, segundo ele, à sua desintegração progressiva. E esta dissolução poderá vir acompanhada, eventualmente, do fim da própria humanidade. Alguns poucos textos de Wolfgang Streeck foram traduzidos para o português; aqui se recomenda um deles em especial que foi publicado pela revista Piauí, na edição de outubro de 2014: Como vai acabar o capitalismo? Além disso, aqui se fornece uma tradução de um texto que sintetiza a sua intervenção num debate realizado em 2016, no encontro anual da “Society for Advancement of Socio-economics” (SASE) em que diversos autores discutiram a seguinte questão chave: “o capitalismo tem futuro? ”.

O texto traduzido se encontra aqui: Do-futuro-sombrio-do-capitalismo

Kalecki: Entre Marx e Keynes

Kalecki - Marx - Keynes

Michal Kalecki, mesmo tendo partido da obra de Marx, nunca adotou de fato as suas diretrizes metodológicas. Desenvolveu apenas, isto sim, uma longa e profícua carreira de economista. De fato, ele nunca pretendeu mais do que desenvolver uma teoria positiva do funcionamento do capitalismo. Apesar de algumas divergências, construiu uma teoria muito similar à de Keynes – um economista liberal por formação e por opção política. Mesmo sendo um socialista, Kalecki não produziu uma teoria crítica do capitalismo. Tal como Keynes, analisou o sistema capitalista pela ótica da circulação do capital, dando sustentação à tese de que a meta desse sistema é a produção de valores de uso. Não escapou também, verdadeiramente, do paradigma da economia do equilíbrio.

Procura-se mostrar no texto que se segue que a compreensão de Kalecki da economia capitalista é bem mais próxima daquela desenvolvida por Keynes do que daquela desenvolvida por Marx. O texto foi publicado na Revista da SEP e se encontra aqui: Kalecki – Entre Marx e Keynes (SEP).

 

Pesadelo resistente

O atual momento histórico não está marcado pela perspectiva do avanço e do progresso. Ao contrário, um pesadelo de regressão parece rondar o Brasil e mesmo o mundo como um todo. Para não assistir passivamente ao desenrolar dos fatos é preciso começar compreendendo o que está acontecendo na sociedade humana cada vez mais unificadaCe cauchemar qui n finit pas pela relação de capital. Com o propósito de fornecer um esclarecimento nesse sentido, foi publicado na França mais um livro de Pierre Dardot e Christian Laval: Este pesadelo que não termina – como o neoliberalismo derrota a democracia. Explicando os efeitos deletérios da racionalidade neoliberal, ele pode contribuir para que seja possível encontrar uma forma de resistir ativamente ao sombrio dos tempos presentes. Uma resenha desse texto político, escrito e publicado sob um sentimento de urgência, é aqui apresentada como uma indicação de leitura.

E essa resenha se encontra aqui: Este pesadelo que não termina

 

Financeirização e capitalismo

Figura TinaFinanceirização: Disciplina do Mercado ou Disciplina do Capital?

Quase todas as abordagens contemporâneas sobre a financeirização sustentam que ela resulta do neoliberalismo. E este é entendido como um retorno extemporâneo do rentismo. O domínio do setor financeiro globalizado sobre os sistemas econômicos nacionais não seria, assim, mais do uma distorção histórica que produz uma versão altamente perversa de capitalismo. Pois, além de ser muito mais instável, tal capitalismo superlativo engendra uma sensível piora na repartição da renda.  Ora, os economistas gregos John Milios e Dimitris Sotiropoulos contestam essa tese, mostrando num texto aqui traduzido que a financeirização é uma forma bem-sucedida de reforço da coerção do capital sobre o trabalho. E que surgiu para permitir, em face de certas barreiras históricas, a continuidade da reprodução desta relação social nas melhores condições possíveis.

O texto se encontra aqui: Financeirização – Disciplina do mercado ou disciplina do capital?

Da macroeconomia

Post MacroeconomiaQuestionando a macroeconomia da “grande recessão”

Examinam-se neste artigo as teses de alguns macroeconomistas sobre a “grande recessão” que se seguiu à crise de 2008. Como esse evento econômico é um marco muito significativo na evolução recente do capitalismo, ele se apresenta como uma boa base para confrontar os diversos modos teóricos de pensar o funcionamento desse sistema como um todo. Assim, discute-se em sequência as teses de cinco economistas sobre as suas causas: dois deles, Ben S. Bernanke e Larry Summers, pertencem à corrente ortodoxa circunscrita pela teoria neoclássica; três outros são tidos como heterodoxos; dentre estes últimos, tem-se Steve Keen, que é pós-keynesiano, assim como Maria Ivanova e Andrew Kliman, que são marxistas.

O artigo foi publicado na Revista do NIEP: aqui 

Dinheiro fictício I

Imagem do dolarDo dinheiro-ouro ao dinheiro fictício

No século XIX, o dinheiro aparecia sobretudo como dinheiro-ouro. Para Marx, que apreendia então a realidade econômica de seu tempo, o dinheiro-ouro era efetiva base dos sistemas monetário e de crédito. No final do século XX e no começo do século XXI, o dinheiro figura estritamente como dinheiro fiduciário. Ora, o desenvolvimento histórico do capitalismo teria mostrado, finalmente, que a sua teoria do valor e do dinheiro seria falsa?  Os marxistas têm se debatido continuamente com essa questão. O artigo procura mostrar que existe uma resposta para essa indagação. E que ela advém por meio de uma adequada apreensão da dialética da mercadoria e do dinheiro que se encontra em O Capital.

O artigo que desenvolve essa tese foi publicado na Brazilian Journal of Political Economyhttp://www.rep.org.br/PDF/142-2.PDF

Finança e imperialismo

The City, front cover of Verso bookEstá saindo um livro importante sobre o tema “finança e imperialismo”. Ele foi escrito por Tony Norfield. Originário de uma tese de doutorado na SOAS da Universidade de Londres, está sendo publicado pela Verso sob o título de The City – London and the global power of finance (em português:  A City Londres e o poder global das finanças). Nesse livro, a produção e a finança capitalista não são enxergadas como duas esferas analiticamente separáveis e que podem ser assim avaliadas distintamente como geradoras de bem-estar – um “erro” que costuma ser cometido por keynesianos e marxistas. Ao contrário, elas são vistas como esferas que formam uma unidade indissolúvel, uma simbiose de capitais funcionantes e financeiros, a qual existe e cada vez se integra mais para melhor extrair o mais-valor na economia capitalista. Como forma de indicar a sua leitura para os pesquisadores brasileiros da área, publica-se uma tradução da resenha do livro feita pelo notável blogueiro inglês que é conhecido pelo nome de Michael Roberts.

 

Michael Roberts bloga em https://thenextrecession.wordpress.com/

Tony Norfield bloga em http://economicsofimperialism.blogspot.co.uk/

 

A resenha se encontra aqui: O imperialismo britânico e poder global da finança.

Impedimento e neoliberalismo

imagem do impeachmenO impedimento (impeachment) de um presidente da república está, desde o dia 3 de dezembro de 2015, novamente na pauta das preocupações dos brasileiros. Depois de um processo eleitoral muito acirrado, movido por muito dinheiro, legal e ilegal, e por muita mentira, flagrante e oculta de quase todos os partidos, da situação e da oposição, surge uma tentativa de interromper o mandato da atual presidente da republica. É importante tentar saber o porquê. Uma contribuição encontra-se aqui: Impedimento e neoliberalismo. O post sugere que a governança tecnocrática – inspirada fortemente na racionalidade neoliberal -, aproveitando as fraquezas políticas e os desvios éticos do lulismo e do petismo, quer tornar ainda mais rasa e frágil a democracia no Brasil.

O que é austeridade?

Oxi - Milios PaperÉ o modo por meio do qual é reforçada a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas. Ao implementá-la como política de Estado, visa-se, em última análise, a recuperação da lucratividade possível das empresas capitalistas, seja reduzindo diretamente os gastos públicos sociais seja reduzindo indiretamente, no setor privado, o salário real. No capitalismo clássico do século XIX, a própria crise econômica, que lavrava espontaneamente, reimpunha a disciplina do capital, pois esta encontrava-se corroída em parte na fase de boom. Interpretada aqui como crise de superacumulação em geral, quando sobrevinha, gerava queda dos salários e, assim, aumento da taxa de exploração; destruía também boa parte do capital real e do capital financeiro, de tal modo que a taxa de lucro subia. Ora, isto preparava as condições de um novo boom.

No capitalismo regulado pelo Estado da segunda metade do século XX em diante, os impactos automáticos das crises nos estoques de capital real e financeiro tornaram-se insuportáveis. O gasto público estabilizador tornou-se muito importante e os bancos centrais passaram a impedir o colapso da liquidez e, assim, as quebras em cadeia que produziam um decrescimento econômico descontrolado. A política de austeridade nas novas condições históricas do capitalismo passou a visar, então, a reposição da disciplina do capital sem que haja uma forte destruição do capital acumulado. O resultado dessa estratégia de enfrentamento da superacumulação, entretanto, pode não gerar o melhor dos mundos para o evolver da relação de capital. Ao invés de queda abrupta da atividade econômica, tal como fora observada na Crise de 1929, passou-se a verificar uma expressiva tendência à recessão prolongada e mesmo à depressão crônica.

Um artigo de John Milios, publicado em inglês na revista Jacobin, encontra-se aqui traduzido para o português. Ele ajuda a compreender a racionalidade perversa da política de austeridade em geral. Pois, segundo ele, A austeridade não é irracional.