Para a crítica da Inteligência Artificial (AI)

Ora ameaça, ora apenas ferramenta, é ilusório ver a IA como externa a nós. Ela é fruto do mesmo aparato que reduz nossa subjetividade a um fluxo previsível. É hora de desertar da linha do tempo e reaver o tempo múltiplo – onde podemos ter voz própria

Largue a mão da IA, agarre o inconsciente

Autora: Veridiana Zurita [1] – Outras Palavras – 23/06/2023

Desde o lançamento do ChatGPT [2] em novembro de 2022, o debate sobre Inteligência Artificial (IA) reacendeu nas redes. Falar sobre IA está na ordem do dia. Debatemos sobre suas potências e limites, nossos deslumbramentos e medos frente a um sistema, supostamente, inteligente. As análises sobre o tema variam entre a ameaça de sermos dominados por “Alexas” e “Siris” e a impossibilidade de tal domínio, afinal nossa inteligência humana seria única, insuperável. De toda forma, o tom do debate coloca nós (humanos) versus ela (inteligência artificial). Dominados ou superiores, debatemos a IA inebriados por tal dualidade – aliás, característica de uma certa “inteligência humana”.

De um lado a IA é percebida como entidade tecnológica, uma aparição-mágico-maquínica que no futuro próximo dominaria o humano, superando sua inteligência e causando a temida extinção. Do outro, a IA é analisada como “não-inteligência”, como artificialidade-maquínica, que prevê comportamentos a partir de cálculos que jamais poderiam sistematizar aquilo que conhecemos como afetos, amor, ética e moral humana. Poderíamos dizer que as duas versões são e não são possíveis. O famoso é e não é dialético. 

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Os descaminhos do marxismo de Kojin Karatani

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Lembro, de início, que um resumo das teses de Kojin Karatani feito por Daniel Tutt já foi publicado neste blog: aqui 1, aqui 2 e aqui 3. Agora, na nota que se segue, procura-se criticá-las da perspectiva da apresentação dialética de O capital.

Talvez seja aceitável esperar que ocorram erros na interpretação dos escritos de Karl Marx (como de qualquer outro autor), mas também é de se aguardar que esses erros sejam criticados e retificados. Aqui se examina uma opinião extraviada (julga-se) de Kojin Karatani [2]  sobre o conteúdo da exposição contida em O capital por meio da qual o autor clássico deu a conhecer o próprio conceito de capital como núcleo dinâmico do modo de produção capitalista. E ela está na base, no fundamento, no alicerce de seu livro A estrutura da história mundial [3], de 2014, como um todo.

Karatani se vale da apresentação resumida – e bem conhecida – do materialismo histórico que se encontra no Prefácio de Para a crítica da economia política, de 1859, para desenvolver uma crítica interna a essa concepção tal como formulada originalmente.[4] Aí, como bem se sabe, Marx divide a sociedade em geral em estrutura (a totalidade das relações de produção) e em superestrutura (instituições legais e políticas, assim como as formas culturais da consciência). Com base nessa metáfora arquitetônica, então, diz:

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O novo Consenso de Washington

Autor: Michael Roberts – Fonte: The next recession blog – 08/06/2023

No mês de março deste ano, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, delineou a política econômica internacional do governo americano.  Fez um discurso fundamental porque, como graduado funcionário, nele explicou em que consiste o chamado de Novo Consenso de Washington sobre a política externa dos EUA.

O Consenso de Washington original constituía-se de um conjunto de dez prescrições de política econômica consideradas como um pacote de reformas “padrão” destinado aos países em desenvolvimento em crise de crescimento. Ele seria fomentado por instituições sediadas em Washington, D.C., como o FMI, o Banco Mundial e o Tesouro dos EUA. O termo foi usado pela primeira vez, em 1989, pelo economista inglês John Williamson.

As prescrições abrangeram políticas de promoção do livre mercado, como a “liberalização” comercial e financeira e a privatização de ativos estatais. Recomendavam também políticas monetárias e de gasto público destinadas a minimizar os déficits orçamentários e a despesa pública.  Era o modelo de política neoclássico aplicado ao mundo e imposto aos países pobres pelo imperialismo norte-americano e suas instituições aliadas.  A chave era o “livre comércio” sem tarifas e outras barreiras, o livre fluxo de capitais e a regulação mínima – um modelo que beneficiava especificamente a posição hegemônica dos EUA.

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Fim da hegemonia financeira? (II)

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Este artigo fornece uma resposta mais ampla à tese de Cédric Durand que se encontra resumida numa postagem anterior.

Bem, esse é o título, traduzido para o português, de um artigo escrito por Cédric Durand e publicado no número 138 (nov./dez. de 2022) na New Left Review. Por que copiá-lo sem qualquer dissimulação? Ora, para assim iniciar uma contestação à tese que avança na forma de uma conjectura. Eis que é na perspectiva de uma mudança importante que tenta pensar a atual conjuntura macroeconômica nos países do centro do sistema capitalista – ainda globalizado, mas fraturado doravante por um conflito imperialista aberto.

Para isso, em primeiro lugar, é preciso apresentar resumidamente os seus argumentos, os quais pretendem sustentar essa previsão momentosa que, aliás, não é dada como certa, mas apenas como bem provável. Segundo ele “há sinais inconfundíveis de que um novo regime macroeconômico está tomando forma” nos países centrais. Mas o que de fato sinaliza à política econômica dominante que ela tem de mudar? Eis o que diz sobre a conjuntura:

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Um buraco negro? Crises econômica, bancária e financeira no horizonte

Autor: Jacques Sapir[1] – El viejo topo – 9/06/2023

Uma nova crise econômica internacional está claramente na perspectiva de muitos comentaristas.[2] Problemas crescentes nos sistemas bancários de vários países, nos Estados Unidos com o Silicon Valley Bank e depois com o First Republic Bank, na Suíça com o resgate do Credit Suisse, e na Alemanha com o Deutsch Bank, reavivaram os temores de uma grande crise financeira, como em 2008-2009. Mas há outros problemas no horizonte, como o crescimento lento nos países da União Europeia combinado com o aumento da dívida pública, assim como forte desaceleração da economia dos EUA.

Isso ocorre em um momento em que as economias ainda não se recuperaram totalmente da crise da Covid-19 e estão lutando contra uma inflação não vista desde os anos setenta. Por fim, a progressiva fragmentação das relações comerciais internacionais, processo que se arrasta desde o fim da crise financeira de 2008-2009, mas que se acelerou acentuadamente com as sanções adotadas pelos países ocidentais contra a Rússia, preocupa tanto as organizações internacionais quanto os economistas.[3]

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Estados ocos em face do “neoindustrialismo”

Autor: Cédric Durand [1] – 15/05/23 – Sidecar

O retorno da política industrial é uma tendência forte, pois está catalisada pelos choques cumulativos da Covid-19 e da guerra na Ucrânia, além de questões estruturais de longo prazo: a crise ecológica, a produtividade vacilante e o alarme com a dependência dos países ocidentais do aparato produtivo da China. Juntos, esses fatores minaram constantemente a confiança dos governos na capacidade da iniciativa privada de impulsionar o desenvolvimento econômico.

É claro que o “estado empreendedor” nunca desapareceu, especialmente nos EUA. Os bolsos fundos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa e dos Institutos Nacionais de Saúde têm sido cruciais para manter a vantagem tecnológica desse país – financiando a pesquisa e o desenvolvimento de produtos nas últimas décadas. Ainda assim, está claro que uma mudança substancial já está ocorrendo.

Como observou um grupo de economistas da OCDE, “as chamadas políticas horizontais, ou seja, as disposições governamentais acessíveis para todas as empresas, as quais incluem os impostos, as regulamentações de produtos ou do mercado de trabalho, são cada vez mais questionadas”. Ao invés disso, “está ganhando força o argumento de que os governos devem atuar mais ativamente na estrutura do setor produtivo empresarial”. Centenas de milhões de fundos estão agora sendo direcionados para as empresas dos sectores militar, de alta tecnologia e ecológico, em ambos os lados do Atlântico.

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Marx e Adorno: dialética negativa e crítica da economia política

Autores: Werner Bonefeld [1] e Chris O’Kane [2]

O título do livro aqui apresentado, Adorno and Marx: Negative dialectics and the critique of political Economy (Bloomsbury Academic, 2022), resume uma história intelectual recente do desenvolvimento da crítica da economia política enquanto uma teoria social crítica. Ela surgiu no contexto da nova esquerda do final dos anos 1960 e, desde então, foi elaborada por sucessivas gerações de estudiosos críticos em diferentes instituições institucionais. A influência da Escola de Frankfurt foi de particular importância para o seu desenvolvimento. Em primeiro lugar, está ligada à Nova Leitura de Marx, inspirada em Adorno, na então Alemanha Ocidental.[3]

No Reino Unido, surgiu como a análise da “forma social” no interior da estrutura da Conferência de Economistas Socialistas.[4] Essas novas leituras da crítica da economia política como uma teoria social crítica desenvolveram-se ainda mais na interseção entre a teoria crítica inicial da Escola de Frankfurt – principalmente Adorno, Horkheimer e Marcuse –, a Nova Leitura de Marx da Alemanha Ocidental e a análise da “forma social” sob a rubrica de “marxismo aberto”.[5]

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A “mudança criativa” vai mudar o mundo?!

Autor: Stavros Mavroudeas[1]

Num artigo recente (muito divulgado pelos círculos sistêmicos, assim como outros), Yanis Varoufakis, referindo-se à atual turbulência bancária internacional, proferiu o slogan supostamente radical “deixem os bancos queimarem”. É claro que esse autor não é famoso pela coerência das suas análises econômicas. Como ele mesmo se descreveu, é um criador de contos de fadas que se passa por um economista. O referido artigo se enquadra totalmente nesta categoria.

Além disso, as visões políticas de Varoufakis variam – muitas vezes simultaneamente – de radicais (mas nunca realmente de esquerda) a descaradamente conservadoras. Recentemente, por razões eleitorais puramente oportunistas, ele professou dar uma virada à “esquerda”. Em sua recente máscara, ele encontrou apenas alguns cúmplices dispostos e igualmente oportunistas, mas seu sucesso eleitoral ainda está em jogo. É claro que, como em suas análises científicas, a “ambiguidade criativa” (que é sinônimo de oportunismo e falta de confiabilidade) é a marca de sua virada política supostamente radical.

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O mundo à beira de uma catástrofe climática

Autor: José Eustáquio Diniz Alves – IHU – 11/04/23 [1]

Eis a epígrafe

“Presta atenção, querida

De cada amor, tu herdarás só o cinismo

Quando notares, estás à beira do abismo

Abismo que cavaste com teus pés”

Cartola (1908-1980), O mundo

Eis o. resumo:

A ultrapassagem do limite de 1,5 graus Celsius em relação ao período pré-industrial pode levar a uma série de consequências negativas para a sociedade e o meio ambiente.

Eis o artigo:

O mundo está à beira de um aquecimento global catastrófico, em função do aumento das atividades antrópicas que geram danos profundos nos ecossistemas e no clima. O ser humano tem sido egoísta e tem apresentado uma avareza sem limites pelo domínio das riquezas naturais. Com uma soberba sem igual tem desprezado as demais espécies vivas do Planeta e provocado uma degradação em larga escala na biosfera. A civilização está à beira de um abismo climático e ambiental e, como alertou Cartola (1908-1980), é uma situação auto infringida: “Abismo que cavaste com teus pés”.

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A China é a maior economia do mundo

Autor: Dean Baker[1]

É normal que políticos, repórteres e colunistas se refiram aos Estados Unidos como a maior economia do mundo e à China como a segunda maior. Suponho que essa afirmação seja boa para o ego dessas pessoas, mas isso não é mais verdade. Medindo pela paridade do poder de compra, a economia da China superou a dos EUA em 2014 e agora é cerca de 25% maior do que ela. [1] O FMI projeta que a economia da China será quase 40% maior até 2028, o último ano em suas projeções.

Fonte: Fundo Monetário Internacional.

A mensuração que os apologetas dos Estados Unidos da América do Norte usam comumente é baseada na taxa de câmbio. É assim que se mede o PIB de cada país em sua própria moeda para depois converter essa moeda em dólares na taxa de câmbio atual. Por essa medida, a economia dos EUA ainda é mais de um terço maior do que a economia da China. Ora, essa medida reflete não apenas a produção, mas a força do dólar como dinheiro mundial.

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