A inciência e a inflação

Jayati Ghosh lamenta a incapacidade da profissão de economista de pensar além de análises grosseiras da inflação – e de políticas grosseiras para contê-la. Mas donde vem essa inciência? Qual a sua condição estrutural?

Autora: Jayati Ghosh; publicado em Social Europe, 25/07/2022

A onda inflacionária tem revelado várias coisas sobre os governos atuais, mas também, de forma mais patente, sobre os economistas. O número de economistas e, consequentemente, de formuladores de políticas, que permanecem presos à ideia inflexível de que a inflação resulta de uma política monetária muito frouxa – e que, portanto, os bancos centrais devem restringir a oferta de dinheiro e aumentar as taxas de juros – é enorme. Trata-se de algo que John K. Galbraith teria chamado de “sabedoria convencional”.

Mas isso está errado. As causas da inflação variam de acordo com o contexto e o período. Uma política monetária mais rígida é uma ferramenta perigosa que corre o risco de gerar recessão e desemprego – prejudicando ainda mais os trabalhadores do que os próprios aumentos de preços. Mas essa política não causa apenas sofrimento humano, pois, se os motores da inflação forem outros, reduzir o excesso de demanda supostamente culposo não resolverá o problema.

Esses fatos óbvios parecem quase esquecidos na discussão convencional. Até o respeitado economista Olivier Blanchard, em uma série de tweets, sugeriu que o aumento do desemprego era a única maneira de controlar a inflação. O problema, aparentemente, era como fazer com que os trabalhadores entendessem e aceitassem isso:

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Morrer de tanto verde!

Autores: Sandrine Aumercier [1] e Frank Grohmann [2]

Fonte: Blog Grundrisse – Psychanalyse et capitalisme

Durante os últimos anos, não se passou um dia sem que a mídia nos falasse sobre a crise climática. Temperaturas sem precedentes, estado de emergência no norte da Itália, incêndios incontroláveis, seca de rios e estresse hídrico, agricultura seriamente afetada, aumento da fome no mundo etc. É agora normal nos atormentar com o catálogo dos desastres climáticos; até mesmo os céticos do clima estão expostos a essa punição normalizada.

Ora, até quando ainda vamos aceitar essa forma de terror, que apresenta quase como um fato consumado a destruição das bases da vida? Até quando será “possível” viver sem estremecer sob a ameaça da eclosão de um conflito nuclear?

Ao mesmo tempo, à direita ou à esquerda, todos se gabam de um aumento da “consciência climática” e voluntariamente acrescentam sua voz ao coro das lamentações e das recomendações. Os patrões franceses das empresas fornecedoras de energia estão até se dividindo: enquanto uns apelam para cortar o consumo privado, outros castigam seus lucros; os governos nesse entretempo estão buscando algum tipo de equilíbrio.

Ao mesmo tempo, a invasão russa da Ucrânia levanta a questão da “independência energética”. Não passa um dia sem que este tema apareça também nas manchetes. Anuncia-se a moralização direcionada dos suprimentos, grandes mudanças na política energética e incitações hipócritas à sobriedade. As propagandas de sorvete devem ser acompanhadas, como se sabe, de uma recomendação de consumo de “cinco frutas e verduras por dia”. Do mesmo modo, não está longe o momento em que todo incentivo ao consumo será acompanhado de um incentivo à sobriedade no consumo.

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Acabou o impulso de globalização?

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 27/04/2022

Além da inflação e da guerra, o que atrai o pensamento econômico atual é o aparente fracasso do que a teoria econômica mainstream aprecia chamar de “globalização”. O que ela quer dizer com esse termo? Refere-se à expansão livre do comércio e do fluxo de capital através das fronteiras. Em 2000, o FMI identificou quatro aspectos básicos da globalização: comércio e transações, movimentos de capitais e investimentos, migração e circulação de pessoas e disseminação do conhecimento. O seu perfil atualmente se apresenta assim:

Todos esses componentes aparentemente se expandiram a partir do início da década de 1980 como parte da reversão neoliberal das políticas nacionais de macrogestão anteriormente seguidas. Ditas keynesianos, elas eram adotadas por governos no ambiente da ordem econômica mundial de Bretton Woods (isto é, sob a hegemonia dos EUA). A nova regra agora era quebrar as barreiras tarifárias, cotas e outras restrições comerciais, permitindo assim que as multinacionais negociassem “livremente” e transferissem os seus investimentos no exterior, ou seja, para áreas de mão de obra barata, com a finalidade de aumentar a lucratividade. Isso levaria à expansão global e ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas e ao crescimento dos recursos do mundo – pelo menos era o que se afirmava então.

Não havia nada de novo nesse fenômeno. Desde que o capitalismo se tornou o modo de produção dominante nas principais economias, já em meados do século XIX, houve períodos de aumento do comércio internacional e de exportação crescente de capital. Em 1848, os autores do Manifesto Comunista notaram o aumento no nível de interdependência nacional trazido pelo capitalismo e previram o caráter universal da sociedade mundial moderna:

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Crítica do sujeito moderno e crítica da economia política

Notas sobre o método da crítica

Autora: Sandrine Aumercier – Blog Pslim-Psao – Publicado em 18/06/2022

Em busca de um conceito político de psicanálise

Por que é tão difícil falar de Psicanálise em Economia Política? Farei algumas considerações de método sobre essa questão. Freud nunca se perguntou se a psicanálise deveria evitar falar sobre sociedade, civilização ou fenômenos coletivos: para ele, isso era evidente e constituía uma parte muito importante de seu trabalho. É até incrível o quanto ele nunca deixou de trazer essa questão de volta à tona.

O seu problema era saber se os conceitos resultantes da cura individual eram adequados teoricamente. Ele não estava satisfeito com as analogias que tinha que produzir, nem com certos discursos transculturais. É necessário notar uma aporia em sua investigação: se trata da autonomização do desenvolvimento cultural, é obrigado ao mesmo tempo a se referir a um fenômeno orgânico. Ele permanece, portanto, dependente de uma visão historicista, imperialista e lamarckiana característica de seu tempo. Por isso, os termos de Freud não são mais nossos, ainda que ele lance as bases para uma teorização psicanalítica dos processos culturais.

Se Lacan rompe com a herança do Iluminismo, a sua teorização do coletivo também não se envolve em profundidade com a crítica da economia política. O eco fantástico de algumas referências de Lacan a Marx não vem a ser uma salvação. Lacan, aliás, nunca desenvolveu as suas intuições e hoje elas parecem requerer uma releitura de Marx por quem as examina. Porém, o nome de Lacan não é uma garantia.

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Negacionismo in extremis

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Pouca gente acredita que se vive atualmente o ocaso do capitalismo e, talvez, o fim da história. Ao ser mencionada, a tese recebe frequentemente um sorrisinho de descaso como se autor fosse apenas um órfão do socialismo que não consegue ver a pujança e a dominância do sistema realmente existente. Julga-se que a previsão apocalíptica vem de alguém que espera o colapso do capitalismo para que se realize, como um milagre, a utopia milenar de uma sociedade em que as contradições estruturais e os conflitos manifestos foram abolidos.

Será? Eis como Murray Smith, o autor de Twilight capitalism caracteriza a situação atual da humanidade: “o capitalismo vai logo terminar – seja por um esforço consciente dos trabalhadores do mundo como um todo para substitui-lo por uma ordem social e uma organização econômica mais sustentável ou o capitalismo vai destruir a humanidade”. Veja-se: essa tese está fundamentada na própria natureza do capitalismo: ele se move pelo lucro e só pelo lucro e, para tanto, em consequência, não pode parar de explorar os trabalhadores e a natureza.

O capitalismo pode ser salvo de sua força evolutiva que se transformou já de predominantemente criativa em predominantemente destrutiva? O capital vai superar ainda as barreiras que ele própria cria como previu Marx em O capital? Reformadores keynesianos, seguidores de Karl Polanyi, marxistas, assim como outros, parecem acreditar que sim: os planos de salvamento não param de sair dos computadores para se instalar na internet e, assim, viajar pelo mundo. Ficam quase sempre aí nesse repositório do imaginário social concreto já que não podem se transformar em políticas econômicas efetivas.

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