Sim, é suicidarismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Essa nota dá continuidade a outra que foi publicada em 12/2023 aqui em A terra é redonda, mas que não foi bem notada. Sob o propósito de caracterizar o extremismo neoliberal, ela recebera originalmente um título negativo, “não, não é fascismo”. O escrito, entretanto, saiu com um título afirmativo que também se mostrou bem justo, “extremismo neoliberal suicidário”. Ninguém deu bola, mas a questão é importante para o que vem vindo no século XXI com o ocaso do capitalismo.

O artigo tinha uma mensagem: eis que é preciso evitar usar a etiqueta “fascista” para caracterizar todos os extremismos de direita. Pois, esse costume impede uma melhor compreensão dessa prática política que, desde os anos 1980, vem buscando dar sustentação ao sistema fundado na relação de capital.

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A grande substituição

Publica-se aqui um pequeno artigo de uma autora que pensa a partir de uma idealização, o capitalismo liberal corrigido em seus excessos pela social-democracia. A sua tese de fundo é que o sistema econômico está embutido numa sociedade que supostamente garante a solidariedade social. Eis que essa solidariedade é contrariada constantemente pela sociabilidade posta pelo sistema mercantil generalizado – outro nome para o capitalismo.

A sociedade é assim pensada, portanto, não como “sociedade civil” tal como acontece na tradição que vai de Hegel a Marx, mas como comunidade – forma de existência dos humanos soldada supostamente por uma sociabilidade orgânica. Apesar disso, a sua questão parece relevante. O que vai acontecer na civilização humana realmente existente se o neoliberalismo extremista (que chama de populismo) predominar num grande número de países?

Publica-se porque faz um contraponto aos artigos Não, não é fascismo e Sim, é suicidarismo sim, ambos publicados neste blogue.

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Não, não é fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Às vezes, certas palavras se transformam em etiquetas que podem ser coladas em qualquer lugar que pareça interessante. É o que vem acontecendo com a palavra “fascista” que é usada por gente de esquerda quando enfrenta opiniões e ações controversas de gente de direita. Trata-se, é bem evidente, de uma tática de fácil emprego em entreveros políticos, mas que pode pecar por falta de rigor teórico: nem toda posição política de direita, ainda que adversa, pode ser denotada como fascista – mesmo quando se insurge como igualmente perversa.

Aqui não se quer considerar esse uso corriqueiro da palavra “fascista”, mas um outro que se afigura bem comum atualmente e que se vale de um embasamento bem mais austero. E ele se encontra, por exemplo, no artigo A ascensão global da extrema direita, de Sérgio Schargel, que veio à luz recentemente no sítio A terra é redonda. Os argumentos aí apresentados foram introduzidos por meio da seguinte epígrafe: “mais do que nunca, precisamos chamar e classificar o bacilo da extrema direita por seu nome verdadeiro: fascismo”.

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A crise argentina: uma perspectiva de longo prazo

Autor: Rolando Astarita [1]

A crise atual faz parte de uma longa história de quedas recorrentes do PIB, como mostra a tabela a seguir (Figura 1), que registra as variações anuais do PIB desde 1961 até o presente.  Tomamos como referência a crise de 1975, pois foi a última crise a ocorrer no âmbito da industrialização por substituição de importações (ISI), ou seja, do programa de desenvolvimento da industrialização baseado no mercado interno.

Figura 1

Após essa data, ao longo destes 50 anos, houve nada menos do que por 13 vezes houve “crescimentos negativos” do PIB, totalizando 20 anos ao todo. Em 1981-1982, 1988-1990, 1999-2002 e em 2019-2020, as quedas foram superiores a 10%. Embora os contratempos combinem com anos de crescimento e até mesmo, mais do que compensatoriamente, de alto crescimento. Eis agora como se comportou a inflação no período (Figura 2):  

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Crise e corrupção na economia vulgar

Não é só a economia capitalista realmente existente que entra em crise, que passa por quedas, que eram periódicas no passado, mas que agora se transformaram numa crise estrutural continua, persistente. A própria economia vulgar também sofre crises constantes, mas não só porque os erros são possíveis, mas porque ela se desvia dos objetivos estritamente científicos, mesmo vulgares, para servir ao capital.

Se caía e ainda cai em meras apologias do existente, tal como a economia de equilíbrio geral, após-II Guerra Mundial, a própria “teoria econômica” se tornou mercadoria. Ao ser vendida na praça, perdeu completamente a seriedade. A corrupção se tornou inerente à sua prática. Os economistas mais afamados atuais são justamente aqueles que manipulam conceitos e números para falar disfarçadamente em nome dos interesses do grande capital e, particularmente, do capital financeiro. Um artigo recente do economista norte-americano, dissidente do mainstream, James Galbraith mostra isso com bastante clareza.

Eis porque a economia convencional  errou sobre a inflação

Autor: James Galbraith [1] – Publicado em 15/11/2023 – Project Syndicate

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Da inflação…

O vídeo que aqui se apresenta é uma tentativa de completar com teoria o que o artigo do economista político britânico Michael Robert apresenta como fato histórico. O seu artigo versa sobre o recente surto inflacionário na economia mundial. Para alcançar esse objetivo, faz-se uso extenso da teoria da inflação de Anwar Shaikh.

Uma tradução do artigo de Michael Roberts, aqui referenciado, encontra-se publicado neste blog, na postagem anterior. Eis aí o vídeo.

Video do autor do blog

Trata-se de uma experiência: uma arquivo em power-point foi transformado num vídeo. Supõe-se aqui que o conteúdo, uma apresentação didática, pode ser entendida sem uma apresentação muito extensa. Aqueles que quiserem fazer um comentário podem fazê-lo porque ele me ajudará a melhorar.

Inflação produzida por aumento dos lucros

Autor: Michael Roberts

Título original: Custo de vida e lucros – – The next recession blog – 12/07/2023

O último relatório de emprego da OCDE é um revelador da crise do custo de vida. Eis que permite saber se os aumentos salariais ou os lucros deram a maior contribuição para o aumento da inflação. Sobre os salários, a OCDE constata que os salários reais caíram em média 3,8% no último ano na OCDE. Pois, o relatório afirma: “Os mercados de trabalho elevaram os salários nominais, mas menos do que a inflação, levando a uma queda dos salários reais em quase todas as indústrias e países da OCDE.”

As quedas variaram consideravelmente de país para cada país da OCDE.  As maiores quedas foram na Escandinávia e no Leste Europeu, onde os preços da energia subiram mais devido à perda de petróleo e gás russos, enquanto a queda dos EUA é uma das mais baixas, já que os preços da energia, embora subindo, não dispararam tanto.  A Europa teve que mudar da energia de gasodutos da Rússia para passar a receber gás natural liquefeito (GNL), muito mais caro por causa do transporte.

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Estados ocos em face do “neoindustrialismo”

Autor: Cédric Durand [1] – 15/05/23 – Sidecar

O retorno da política industrial é uma tendência forte, pois está catalisada pelos choques cumulativos da Covid-19 e da guerra na Ucrânia, além de questões estruturais de longo prazo: a crise ecológica, a produtividade vacilante e o alarme com a dependência dos países ocidentais do aparato produtivo da China. Juntos, esses fatores minaram constantemente a confiança dos governos na capacidade da iniciativa privada de impulsionar o desenvolvimento econômico.

É claro que o “estado empreendedor” nunca desapareceu, especialmente nos EUA. Os bolsos fundos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa e dos Institutos Nacionais de Saúde têm sido cruciais para manter a vantagem tecnológica desse país – financiando a pesquisa e o desenvolvimento de produtos nas últimas décadas. Ainda assim, está claro que uma mudança substancial já está ocorrendo.

Como observou um grupo de economistas da OCDE, “as chamadas políticas horizontais, ou seja, as disposições governamentais acessíveis para todas as empresas, as quais incluem os impostos, as regulamentações de produtos ou do mercado de trabalho, são cada vez mais questionadas”. Ao invés disso, “está ganhando força o argumento de que os governos devem atuar mais ativamente na estrutura do setor produtivo empresarial”. Centenas de milhões de fundos estão agora sendo direcionados para as empresas dos sectores militar, de alta tecnologia e ecológico, em ambos os lados do Atlântico.

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O dólar num mundo multipolar

Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession – 22/04/2023

Contestadores da atual ordem mundial? Ler até o fim.

Christine Lagarde, chefe do Banco Central Europeu (BCE), na forma de “keynote”, fez um importante discurso na semana passada no Conselho de Relações Exteriores dos EUA, em Nova York.

Foi importante porque ela analisou os recentes desenvolvimentos no comércio e investimento globais e avaliou as implicações do afastamento em relação ao domínio hegemônico da economia dos EUA e do dólar na economia mundial e, assim, o movimento em direção a uma economia mundial “fragmentada” e “multipolar” – onde nenhuma potência econômica ou mesmo o atual bloco imperialista do G7-plus conseguirá dominar o comércio global, o investimento e o fluxo do dinheiro.

Lagarde explicou: “A economia global vem passando por um período de mudanças transformadoras. Após a pandemia, a guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia, a transformação da energia em arma, a súbita aceleração da inflação, bem como uma crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, as placas tectônicas da geopolítica estão mudando mais rapidamente”.

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A crise do capitalismo formalmente democrático

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 12/02/2022

Em seu último livro, o colunista do FT e guru keynesiano Martin Wolf parte da premissa de que capitalismo e democracia andam juntos como uma mão em uma luva. Mas ele está preocupado: “vivemos em uma época em que as falhas econômicas abalaram a fé no capitalismo global. Alguns agora argumentam que o capitalismo é melhor sem democracia; outros que a democracia é melhor sem o capitalismo”.

No entanto, em seu livro, Wolf afirma que, embora “o casamento entre o capitalismo e a democracia tenha se tornado preocupante”, qualquer “divórcio seria uma calamidade quase inimaginável”. Apesar dos passos vacilantes do capitalismo no século XXI: desaceleração do crescimento, aumento da desigualdade, desilusão popular generalizada, o “capitalismo democrático“, como ele chama o sistema da relação de capital, “embora inerentemente frágil, continua sendo o melhor sistema que conhecemos para o florescimento humano”.

Wolf define “democracia” como “sufrágio universal, democracia representativa, eleições livres e justas; participação ativa das pessoas, como cidadãos, na vida cívica; proteção dos direitos civis e humanos de todos os cidadãos igualmente; e um estado de direito que vincula igualmente todos os cidadãos”. Por capitalismo, “quero dizer uma economia na qual os mercados, a competição, a iniciativa econômica privada e a propriedade privada desempenham papéis centrais”.

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