Da inflação…

O vídeo que aqui se apresenta é uma tentativa de completar com teoria o que o artigo do economista político britânico Michael Robert apresenta como fato histórico. O seu artigo versa sobre o recente surto inflacionário na economia mundial. Para alcançar esse objetivo, faz-se uso extenso da teoria da inflação de Anwar Shaikh.

Uma tradução do artigo de Michael Roberts, aqui referenciado, encontra-se publicado neste blog, na postagem anterior. Eis aí o vídeo.

Video do autor do blog

Trata-se de uma experiência: uma arquivo em power-point foi transformado num vídeo. Supõe-se aqui que o conteúdo, uma apresentação didática, pode ser entendida sem uma apresentação muito extensa. Aqueles que quiserem fazer um comentário podem fazê-lo porque ele me ajudará a melhorar.

Inflação produzida por aumento dos lucros

Autor: Michael Roberts

Título original: Custo de vida e lucros – – The next recession blog – 12/07/2023

O último relatório de emprego da OCDE é um revelador da crise do custo de vida. Eis que permite saber se os aumentos salariais ou os lucros deram a maior contribuição para o aumento da inflação. Sobre os salários, a OCDE constata que os salários reais caíram em média 3,8% no último ano na OCDE. Pois, o relatório afirma: “Os mercados de trabalho elevaram os salários nominais, mas menos do que a inflação, levando a uma queda dos salários reais em quase todas as indústrias e países da OCDE.”

As quedas variaram consideravelmente de país para cada país da OCDE.  As maiores quedas foram na Escandinávia e no Leste Europeu, onde os preços da energia subiram mais devido à perda de petróleo e gás russos, enquanto a queda dos EUA é uma das mais baixas, já que os preços da energia, embora subindo, não dispararam tanto.  A Europa teve que mudar da energia de gasodutos da Rússia para passar a receber gás natural liquefeito (GNL), muito mais caro por causa do transporte.

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O novo Consenso de Washington

Autor: Michael Roberts – Fonte: The next recession blog – 08/06/2023

No mês de março deste ano, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, delineou a política econômica internacional do governo americano.  Fez um discurso fundamental porque, como graduado funcionário, nele explicou em que consiste o chamado de Novo Consenso de Washington sobre a política externa dos EUA.

O Consenso de Washington original constituía-se de um conjunto de dez prescrições de política econômica consideradas como um pacote de reformas “padrão” destinado aos países em desenvolvimento em crise de crescimento. Ele seria fomentado por instituições sediadas em Washington, D.C., como o FMI, o Banco Mundial e o Tesouro dos EUA. O termo foi usado pela primeira vez, em 1989, pelo economista inglês John Williamson.

As prescrições abrangeram políticas de promoção do livre mercado, como a “liberalização” comercial e financeira e a privatização de ativos estatais. Recomendavam também políticas monetárias e de gasto público destinadas a minimizar os déficits orçamentários e a despesa pública.  Era o modelo de política neoclássico aplicado ao mundo e imposto aos países pobres pelo imperialismo norte-americano e suas instituições aliadas.  A chave era o “livre comércio” sem tarifas e outras barreiras, o livre fluxo de capitais e a regulação mínima – um modelo que beneficiava especificamente a posição hegemônica dos EUA.

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A crise do capitalismo formalmente democrático

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 12/02/2022

Em seu último livro, o colunista do FT e guru keynesiano Martin Wolf parte da premissa de que capitalismo e democracia andam juntos como uma mão em uma luva. Mas ele está preocupado: “vivemos em uma época em que as falhas econômicas abalaram a fé no capitalismo global. Alguns agora argumentam que o capitalismo é melhor sem democracia; outros que a democracia é melhor sem o capitalismo”.

No entanto, em seu livro, Wolf afirma que, embora “o casamento entre o capitalismo e a democracia tenha se tornado preocupante”, qualquer “divórcio seria uma calamidade quase inimaginável”. Apesar dos passos vacilantes do capitalismo no século XXI: desaceleração do crescimento, aumento da desigualdade, desilusão popular generalizada, o “capitalismo democrático“, como ele chama o sistema da relação de capital, “embora inerentemente frágil, continua sendo o melhor sistema que conhecemos para o florescimento humano”.

Wolf define “democracia” como “sufrágio universal, democracia representativa, eleições livres e justas; participação ativa das pessoas, como cidadãos, na vida cívica; proteção dos direitos civis e humanos de todos os cidadãos igualmente; e um estado de direito que vincula igualmente todos os cidadãos”. Por capitalismo, “quero dizer uma economia na qual os mercados, a competição, a iniciativa econômica privada e a propriedade privada desempenham papéis centrais”.

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Acabou a crise bancária?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/03/2023

Os preços das ações dos bancos se estabilizaram no início desta semana. E todos os principais funcionários do Federal Reserve, do Tesouro dos EUA e do Banco Central Europeu estão assegurando aos investidores que a crise acabou. Na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que o sistema bancário dos EUA era “forte e resiliente” e não havia risco de um colapso bancário como em 2008-9.

A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, por sua vez, disse que o setor bancário dos EUA estava “se estabilizando”. Afirmou que o sistema bancário dos EUA era forte. Além disso, o presidente do BCE, Christiane Lagarde, disse repetidamente a investidores e analistas que “não havia oposição” entre combater a inflação aumentando as taxas de juros e preservar a estabilidade financeira.

Portanto, tudo está bem ou pelo menos logo estará. E isso supostamente se deve ao maciço apoio à liquidez que o Fed e outros órgãos de empréstimo do governo dos EUA estão oferecendo. Além disso, os bancos mais fortes intervieram para comprar os bancos em colapso (SVB e Credit Suisse) ou investir dinheiro em bancos falidos (First Republic).

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Criação destrutiva ou risco moral?

Michael Roberts – The next recession blog – 15/03/2022

Enquanto escrevo, os preços das ações e títulos dos bancos regionais dos EUA estão caindo. E um grande banco suíço internacional, o Credit Suisse, está à beira da falência. Uma crise financeira não vista desde a crise financeira global de 2008 parece estar se desenrolando. Qual será a resposta das autoridades monetárias e financeiras?

Em 1928, o então secretário do tesouro e banqueiro dos EUA, Andrew Mellon, pressionou por taxas de juros mais altas para controlar a inflação e o crédito alimentou a especulação no mercado de ações. Sob seu legado, o Federal Reserve Board começou a aumentar as taxas de juros e, em agosto de 1929, o Fed elevou a taxa a um novo patamar. Apenas dois meses depois, em outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York sofreu o pior crash de sua história no que foi chamado de “Terça-feira Negra ”. A história se repete, como a velha destruição criativa ou como um novo episódio de risco moral?

Em 1929, Mellon não se intimidou. Ele aconselhou o então presidente Hoover a “liquidar a mão-de-obra, liquidar as ações, liquidar os fazendeiros, liquidar os imóveis… isso eliminará a podridão do sistema. Os altos custos de vida e a alta qualidade de vida cairão. As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras aprenderão com as pessoas menos competentes.”Além disso, ele defendeu a eliminação de bancos “fracos” como um pré-requisito, ainda que difícil, mas necessário, para a recuperação do sistema bancário. Essa “eliminação” seria realizada por meio da recusa de emprestar dinheiro aos bancos (tomando empréstimos e outros investimentos como garantia) e recusando-se a colocar mais dinheiro em circulação. A Grande Depressão da década de 1930 seguiu-se a um grande colapso bancário.

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As causas da inflação atual

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/02/2023

A Eastern Economics Association (EEA) realizou sua conferência anual no último final de semana. Ela não é tão grande quanto a enorme conferência anual da American Economic Association (ASSA), mas incorpora apresentações de teses econômicas muito mais heterodoxas e radicais do que a ASSA.

Foram centenas de trabalhos apresentados. Vou me concentrar em apenas alguns trabalhos das sessões organizadas pela Union of Radical Political Economics (URPE), os quais me foram gentilmente enviados por seus autores.

Nesta primeira de duas postagens sobre temas da conferência, examinarei a palestra de abertura de Joseph Stiglitz. O professor Stiglitz é ganhador do prêmio Nobel (Riksbank) em Economia, ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-presidente da EEA; agora, é economista-chefe do centro de pesquisa Roosevelt Institute (nome este que indica já a sua orientação política). Stiglitz tem sido um dos principais críticos da economia neoclássica dominante; também se apresenta como defensor de um capitalismo que funciona para muitos – não para poucos.

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Davos 2023: enrolação

Autor: Michael Roberts – The Next Recession Blog – 15/12/2023

Esta semana, o acampamento da rica elite global do Fórum Econômico Mundial (WEF em inglês) começou novamente após o interregno da pandemia da COVID. Os principais líderes políticos e empresariais voaram em seus jatos particulares para discutir as mudanças climáticas e o aquecimento global, bem como a iminente crise econômica global, a crise do custo de vida e a guerra na Ucrânia.

O humor reinante é aparentemente pessimista. Dois terços dos principais economistas entrevistados pelo WEF acreditam que é provável que haja uma recessão global em 2023; quase um em cada cinco dizem que é extremamente provável que ela ocorra. Os líderes corporativos também estão ansiosos; 73% dos CEOs em todo o mundo avaliam que o crescimento econômico global diminuirá nos próximos 12 meses. Essa é a perspectiva mais pessimista desde que a pesquisa do WEF foi feita pela primeira vez há 12 anos.

Sob neve, pouco antes do início do Fórum na exclusiva estação de esqui de Davos, na Suíça, o WEF publicou seu Relatório de Risco Global.  Nele consta uma leitura chocante sobre o estado do capitalismo global na década de 2020.

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Rumo à utopia ou ao desastre?

Os economistas do sistema não estão suportando psiquicamente ver para onde o capitalismo está levando a humanidade. E, por isso, estão caindo em alguma forma de “denegação” – um estado mental estudado por Sigmund Freud. Trata-se de um mecanismo de defesa em que o sujeito nega a realidade como um meio de proteção contra algo que pode gerar dor ou sofrimento. Quando a denegação é parcial, ela é quase sempre complementada por uma fantasia que encobre a perda.

No texto em sequência, Michael Roberts estuda (implicitamente) como essa patologia psicanalítica aparece, ainda que de uma forma mitigada, num livro recém-lançado por Bradford DeLong. Eis que este último autor julga que a utopia keynesiana ainda está no horizonte.

Autor: Michael Roberts – Blog: The next recession, 25/10/2022

Bradford DeLong é um dos economistas keynesianos mais proeminentes do mundo; é também historiador econômico, atuando como professor na Universidade da Califórnia, Berkeley. Serviu, ademais, como vice-secretário assistente do Departamento do Tesouro dos EUA, no governo Clinton, sob o comando de Lawrence Summers. Trata-se de um democrata liberal na política interna dos EUA e um keynesiano clássico na Economia.

Ele publicou um novo livro, intitulado Rumo à Utopia: uma história econômica do século XX. É um trabalho ambicioso que visa analisar e explicar o desenvolvimento da economia capitalista no que ele considera seu período de maior sucesso: o século XX.

Em particular, DeLong afirma que o capitalismo, enquanto uma força progressiva que vem resolver as carências da humanidade, só decolou em 1870; desde então passou a voar alto até a Grande Recessão de 2008-9, momento em que se completou o que ele chama de “longo século XX”. Quais foram as razões que permitiram ao capitalismo um crescimento econômico mais rápido, que produziram um salto quântico nos padrões de vida a partir de 1870? DeLong elenca as seguintes: “a tripla emergência da globalização, da pesquisa industrial e da corporação moderna”.

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Da teoria vulgar da espiral salários/preços

Autor: Michael Roberts, The next recession blog – 20/11/22

Os aumentos salariais “excessivos” levam ao aumento da inflação e, assim, levam as economias a uma espiral de preços e salários? Em 1865, na Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx debateu esse tópico com o membro do Conselho dessa Associação, Thomas Weston. Weston, um líder do sindicato dos carpinteiros, argumentou que pedir aumento de salário era inútil porque tudo o que aconteceria seria que os empregadores aumentariam seus preços para manter seus lucros e, portanto, a inflação consumiria rapidamente o poder de compra elevado; os salários reais estagnariam e os trabalhadores voltariam à estaca zero por causa de uma espiral preço/salário.

Marx respondeu ao argumento de Weston com firmeza. A sua resposta, que acabou sendo publicada em um panfleto, Valor, Preço e Lucro, foi basicamente a que segue. Em primeiro lugar, “os aumentos salariais geralmente acontecem na esteira dos aumentos de preços anteriores” – a demanda por aumento do salário é uma tentativa de recuperação; não se deve, portanto, a demandas ‘excessivas’ e irrealistas por salários mais altos por parte dos trabalhadores. Em segundo lugar, não são os aumentos salariais que causam o aumento da inflação. Muitas outras coisas afetam as mudanças de preços – argumentou Marx: a saber: “a quantidade de produção (taxas de crescimento – MR), as forças produtivas do trabalho (crescimento da produtividade – MR), o valor do dinheiro (crescimento da oferta monetária – MR), flutuações do mercado preços (fixação de preços – MR) e diferentes fases do ciclo industrial” (boom ou recessão – MR).

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