Financeirização e capitalismo

Figura TinaFinanceirização: Disciplina do Mercado ou Disciplina do Capital?

Quase todas as abordagens contemporâneas sobre a financeirização sustentam que ela resulta do neoliberalismo. E este é entendido como um retorno extemporâneo do rentismo. O domínio do setor financeiro globalizado sobre os sistemas econômicos nacionais não seria, assim, mais do uma distorção histórica que produz uma versão altamente perversa de capitalismo. Pois, além de ser muito mais instável, tal capitalismo superlativo engendra uma sensível piora na repartição da renda.  Ora, os economistas gregos John Milios e Dimitris Sotiropoulos contestam essa tese, mostrando num texto aqui traduzido que a financeirização é uma forma bem-sucedida de reforço da coerção do capital sobre o trabalho. E que surgiu para permitir, em face de certas barreiras históricas, a continuidade da reprodução desta relação social nas melhores condições possíveis.

O texto se encontra aqui: Financeirização – Disciplina do mercado ou disciplina do capital?

Dinheiro fictício I

Imagem do dolarDo dinheiro-ouro ao dinheiro fictício

No século XIX, o dinheiro aparecia sobretudo como dinheiro-ouro. Para Marx, que apreendia então a realidade econômica de seu tempo, o dinheiro-ouro era efetiva base dos sistemas monetário e de crédito. No final do século XX e no começo do século XXI, o dinheiro figura estritamente como dinheiro fiduciário. Ora, o desenvolvimento histórico do capitalismo teria mostrado, finalmente, que a sua teoria do valor e do dinheiro seria falsa?  Os marxistas têm se debatido continuamente com essa questão. O artigo procura mostrar que existe uma resposta para essa indagação. E que ela advém por meio de uma adequada apreensão da dialética da mercadoria e do dinheiro que se encontra em O Capital.

O artigo que desenvolve essa tese foi publicado na Brazilian Journal of Political Economyhttp://www.rep.org.br/PDF/142-2.PDF

Produção e finança

img025 (2)Há uma dicotomia entre produção e finanças? Produção é meramente produção de bens e serviços? Finança é apenas uma atividade de intermediação que às vezes, ou mesmo frequentemente, transforma-se em especulação, dando origem a um rentismo desenfreado?  Na nota que aqui se publica procura-se mostrar que essa “dicotomia” é uma falsidade fundada não num mero erro teórico, mas na própria aparência do modo de produção capitalista. Pois, a duplicidade entre produção e finança está inscrita já na duplicidade entre valor de uso e valor constitutiva da mercadoria. Ela é também, em consequência, inerente à relação de capital. E que, portanto, mesmo a exacerbação da atividade financeira e mesmo a financeirização não é uma anomalia no capitalismo. A nota foi escrita e apresentada no seminário Crise capitalista – Perspectivas emancipatórias promovido pelo Cedeplar e ocorrido entre 27 e 29 de outubro de 2015.

 

O texto da nota encontra-se aqui: Produção e finança

Método de “O Capital”

Imagem do MarxFinalmente, depois de muito procurar, o autor deste blog encontrou um texto muito importante de Marcos Lutz Müller sobre o método de Marx. Eis o que diz o seu primeiro parágrafo: “A progressiva perda de especificidade metodológica do conceito de dialética, paralela à generalização do seu uso e à sua ampliação semântica, desembocou, hoje, nas versões não ortodoxas ou humanistas do marxismo, numa comprometedora diluição teórica do conceito, reduzido, muitas vezes, a um adjetivo pleonástico que qualifica um substantivo inexistente, ou, no marxismo-leninismo convertido em visão de mundo, no seu alinhamento ideológico, que evita voluntariamente aquela diluição pela invocação dogmática das três leis de Engels, reabilitadas em 1956.” Para ajudar a difundi-lo, a partir de agora, este texto está também publicado aqui: Muller – Exposição e Método Dialético em Marx

De uma crítica classista ao neoliberalismo

img017 (2)Eis que se tornou necessário examinar criticamente as teses sobre o “neoliberalismo” e sobre a sua “crise” dos conhecidos economistas políticos Gérard Duménil e Dominique Lévy. Pois, essas teses estão profundamente equivocadas.

Veja-se que esses dois autores franceses vêm escrevendo sistematicamente, quase sempre em conjunto, sobre esse tema, havendo desenvolvido uma particular compreensão do evolver do capitalismo contemporâneo. Em resumo, para eles, o neoliberalismo consiste apenas numa estratégia das classes capitalistas para recuperar a hegemonia que havia sido perdida no período em que prevalecera a socialdemocracia e o keynesianismo. Ora, isto parece fazer sentido à primeira vista – à primeira vista somente.

Como enxergam o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo sob uma perspectiva que privilegia a luta de classes pela apropriação de renda, eles não vão muito além de uma crítica classista ao neoliberalismo. Apreendem-no, assim, como um processo que se resolve na esfera da circulação do capital e não como um processo que a si mesmo se engendra na própria esfera da produção do capital. Assim, ao invés de tomar o capital como sujeito automático do modo de produção, ao invés de privilegiar a lógica fetichista da acumulação de capital que faz das classes suportes das relações sociais, caem numa sociologia vulgar que assume as classes como sujeitos políticos plenamente atuantes e, assim, já sempre efetivos e constituídos enquanto tais. Se eles se apresentam como marxistas tout court é porque ainda não superaram o nível já ultrapassado do marxismo tradicional.

Eis aqui o texto: De uma critica classista ao neoliberalismo

Horizonte do capitalismo

Ascensão e DeclinioPerscrutando o horizonte histórico do capitalismo

 Após vários séculos de desenvolvimento capitalista, não teriam se realizadas já certas condições objetivas para a superação desse modo de produção? As relações de produção que o caracterizam não estariam entravando o desenvolvimento das forças produtivas? A questão não é certamente fácil de responder. Entretanto, mesmo sem pretender chegar a uma conclusão definitiva, é possível observar certa tendência à estagnação, a qual se manifesta especialmente nas economias ditas desenvolvidas. Após sugerir, como base na noção de “causação cumulativa”, que a histórica do capitalismo pode ser dividida numa fase de ascensão e numa fase de declínio, examinam duas grandes evidências empíricas: aquela que mostra uma queda secular da taxa de lucro e aquela que examina a passagem histórica da grande onda de crescimento da produtividade do trabalho.  O artigo concluí que chegou o momento de repensar o pós-capitalismo, isto é, um novo socialismo, agora profundamente democrático, como uma possibilidade real, ou seja, como um parto necessário que talvez seja possível fazer acontecer.

O artigo está aqui: Perscrutando o horizonte histórico do capitalismo

 

Estagnação secular

Lagarde - Pequeno (2)A estagnação secular e o futuro do capitalismo

Este artigo examina uma tese bem polêmica do economista keynesiano Lawrence Summers sobre o futuro imediato do capitalismo. Tomando como referência a situação atual dos países desenvolvidos, esse autor tem sustentado que o sistema produtor de mercadorias – o qual chama de economia de mercado – entrou em estado de estagnação secular. Mesmo sem o desejar, ao fazê-lo, ele põe em questão a existência futura do capitalismo no século XXI. Argumenta-se, então, que esse autor constata os sintomas, mas é incapaz de descobrir a verdadeira doença congênita que está corroendo por dentro esse modo de produção. Mostra-se, então, que as suas “sacadas” apenas podem receber uma fundamentação adequada e rigorosa com base na teoria do valor e da acumulação de Karl Marx – uma velha teoria do século XIX.

O artigo foi publicado na Revista do NIEP e se encontra aqui: A estagnação secular…

http://www.marxeomarxismo.uff.br/index.php/MM/article/view/76

 

Da crítica truncada

Imagem do Sursis II

Uma das teses mais populares sobre a crise econômica iniciada em 2008, muito difundia na esquerda keynesiana e marxista, sustenta que ela surgiu como resultado da exacerbação das atividades financeiras deslanchada ao fim da década dos anos 70 do século XX. Conforme reza, o advento do neoliberalismo na década dos anos 80 trouxe consigo o afrouxamento dos controles sobre a criação de capital financeiro, assim como, em consequência, a financeirização das empresas capitalistas voltadas para a produção de bens e serviços como mercadorias.

Um dos resultados dessas reformas liberalizantes teria sido a queda da taxa de acumulação – e do crescimento econômico –, principalmente nos países do centro do sistema. A financeirização, segundo essa ótica, disparou um processo anômalo de expansão dos títulos, ações, etc. que se auto realimentou, que se autonomizou, e que puncionou sistematicamente parte dos lucros obtidos nas atividades produtivas. Em consequência, a taxa de investimento caiu inexoravelmente para níveis bem baixos. A transformação da economia que havia sido construída após a II guerra mundial sob a orientação do keynesianismo, uma pujante máquina de crescimento, teria produzido, após as reformas neoliberais, apenas um sistema em que o crescimento se tornou anêmico e o rentismo passou a prosperar sem qualquer vergonha.

Os teóricos da corrente “crítica do valor” consideram essa avaliação do evolver do capitalismo gestado pelo neoliberalismo como uma crítica truncada. Para começar, ela omite que o capital financeiro, que é mais propriamente denominado de capital fictício, constitui-se como uma forma intrínseca e necessária da relação de capital. E que, por isso mesmo, existe em simbiose com capital funcionante: eis que toda operação financeira está ancorada direta ou indiretamente na produção real de mais-valor; não apenas colhe parte do mais-valor aí produzido, mas também permite e induz que ele seja aí criado. Se o capital funcionante se valoriza ao agregar valor atuando diretamente na esfera da produção mercantil, o primeiro se valoriza indiretamente, fora dessa esfera, mas somente o faz porque antecipa mais-valor que ainda vai se realizar ou ainda vai ser produzido no futuro. Logo, não apenas punciona mais-valor, mas também estimula a sua produção. Não faz sentido, portanto, confundir o jurismo com o rentismo tal como costumam fazer aqueles que não são capazes de ir além de uma crítica truncada do capitalismo.

Os teóricos da “crítica do valor” julgam, assim, que é enganoso considerar o capital financeiro como uma intrusão que parasita e abate o capital funcionante. Ademais, pensam também que esse capital, ao contrário do que admitem os autores da crítica truncada, teve um papel decisivo na sustentação da acumulação no período neoliberal. Se ela foi fraca, mas fraca ainda teria sido sem o boom de capital fictício observado em todo período. Pois, segundo eles, o advento da terceira revolução industrial reduzira drasticamente a possibilidade de crescimento da massa de mais-valor, jogando o capitalismo realmente existente num processo de estagnação e de declínio.  Nessa circunstância, a acumulação sustentada pela expansão explosiva do capital financeiro foi a única forma capaz de manter o sistema funcionando sem cair numa depressão profunda. Ora, para fornecer uma amostra do conteúdo desse argumento, publica-se aqui um excerto tirado do livro A Grande Desvalorização de Ernst Lohoff e de Norbert Trenkle, o qual já foi discutido em postagens anteriores. Nesse trecho da obra, eles explicam como o neoliberalismo foi capaz de produzir uma suspensão (temporária) do desenrolar da crise.

 

Ei-lo: Lohoff – A suspensão da crise pelo neoliberalismo

A grande desvalorização III

Imagem para AusteridadeCom esta postagem, a qual se segue a duas anteriormente feitas, concluímos a apresentação das teses de Ernst Lohoff e Norbert Trenkle desenvolvidas amplamente em A grande desvalorização. Este livro, como já dissemos, foi publicado apenas em alemão e em francês. Para mostrar como esses dois autores pertencentes ao grupo de autores da “crítica do valor” apreendem a relação entre certo travamento da acumulação de capital real e a expansão desmedida do capital fictício no capitalismo contemporâneo, publicamos a tradução de uma entrevista dada por eles mesmos e que foi publicada na revista Telepolis, em 2012. Ela esclarece como, na opinião deles, a produção de riqueza abstrata tem de continuar de modo insensato mesmo quando as bases da acumulação real foram erodidas pelo próprio movimento histórico de expansão do capital.

O conteúdo dessa entrevista é bem interessante porque ajuda a compreender também a lógica da política de austeridade que ora está sendo praticada, de modo bem disfarçado, no Brasil. Em resumo, essa lógica consiste em matar de fato parte da produção de bens e serviços para dar mais vida ao capital financeiro. Ao derrubar a produção de mercadorias, propicia também o rebaixamento dos salários reais, aumentando assim, implicitamente, a taxa média de lucro obtida pelo capital funcionante. E que não haja ilusão, pois, no capitalismo contemporâneo, o capital funcionante opera sob a liderança e o protagonismo do capital financeiro nacional e internacional. A ilusão de que ainda há progresso no capitalismo, aliás, não para de ser propagandeada inclusive por economistas que se apresentam como de esquerda.

 

O texto se encontra aqui: Como os bancos centrais são transformados em “bad banks

A grande desvalorização II

UMA NOTA COMPLEMENTAR

Examinou-se na nota anterior de mesmo nome, limitadamente, a tese central da corrente de pensamento marxista que se autodenomina de “crítica do valor”. De acordo com essa tese, a terceira revolução industrial, iniciada na década dos anos 60 do século XX, trouxe consigo um limite que o capitalismo não poderá superar: o decrescimento na produção de mais-valor decorrente do crescimento acelerado da produtividade do trabalho. Eis o que diz um autor destacado dessa corrente: “o capitalismo está chegando à sua crise final porque, com o crescimento da produtividade, agora a produção social total (global) de mais-valor apenas pode decrescer no longo prazo” (Ortlieb, 2014, p. 78). Nesta nota, complementar à primeira, pretende-se prosseguir e aprofundar aquele exame, discutindo agora certas condições necessárias para avaliá-la diante do desenrolar efetivo da realidade histórica contemporânea.

Numa nota futura pretende-se discutir como os autores dessa corrente apreendem a relação entre a queda da massa de mais-valor e o protagonismo do capital financeiro no capitalismo contemporâneo.

A nota complementar se encontra aqui: Queda da Massa de Mais-valor II