A desdolarização em processo

Autor: Justin Podur[1] – Counterpunch – 26/06/2023

A desdolarização, aparentemente, “goste-se ou não”, está acontecendo e vem para ficar. É o que mostra um vídeo de maio de 2023 do Quincy Institute for Responsible Statecraft, um “think tank” voltado para a paz com sede em Washington, DC. Mas ele não está sozinho na discussão da desdolarização: os economistas políticos Radhika Desai e Michael Hudson delinearam a sua mecânica em quatro programas realizados entre fevereiro e abril de 2023, no canal do YouTube, Geopolitical Economy Hour.

O economista Richard Wolff forneceu uma explicação de nove minutos sobre esse tópico no canal Democracy at Work. Por outro lado, meios de comunicação como o Business Insider garantiram aos seus leitores que o domínio do dólar não terá continuidade. O jornalista Ben Norton, numa audiência bipartidária de duas horas no Congresso, realizada em 7 de junho – “Dominância do dólar: preservando o status do dólar americano como moeda de reserva global” – falou sobre a defesa da moeda americana diante da desdolarização. Durante a audiência, os membros do Congresso expressaram otimismo, mas também grande ansiedade, sobre o futuro do papel supremo do dólar. Mas o que motivou esse debate?

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Socialismo do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado

Muitos na esquerda estão preocupados: o espectro da crise e das perdas econômicas vultuosas paira mais uma vez sobre as economias capitalistas, principalmente no Ocidente. Mas os capitalistas, sempre no centro, na direita e mesmo na extrema-direita, estão mais ou menos tranquilos. Por quê?

Michael Roberts escreveu recentemente um artigo – Risco moral ou destruição criativa? – em que compara a política econômica nas grandes crises de 1929 e de 2008. Eis que, como se sabe, mas é sempre bom lembrar, ela mudou entre uma e outra de pouca água para muito vinho… e da melhor qualidade. 

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Fim da hegemonia financeira? (II)

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Este artigo fornece uma resposta mais ampla à tese de Cédric Durand que se encontra resumida numa postagem anterior.

Bem, esse é o título, traduzido para o português, de um artigo escrito por Cédric Durand e publicado no número 138 (nov./dez. de 2022) na New Left Review. Por que copiá-lo sem qualquer dissimulação? Ora, para assim iniciar uma contestação à tese que avança na forma de uma conjectura. Eis que é na perspectiva de uma mudança importante que tenta pensar a atual conjuntura macroeconômica nos países do centro do sistema capitalista – ainda globalizado, mas fraturado doravante por um conflito imperialista aberto.

Para isso, em primeiro lugar, é preciso apresentar resumidamente os seus argumentos, os quais pretendem sustentar essa previsão momentosa que, aliás, não é dada como certa, mas apenas como bem provável. Segundo ele “há sinais inconfundíveis de que um novo regime macroeconômico está tomando forma” nos países centrais. Mas o que de fato sinaliza à política econômica dominante que ela tem de mudar? Eis o que diz sobre a conjuntura:

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Acabou a crise bancária?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/03/2023

Os preços das ações dos bancos se estabilizaram no início desta semana. E todos os principais funcionários do Federal Reserve, do Tesouro dos EUA e do Banco Central Europeu estão assegurando aos investidores que a crise acabou. Na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que o sistema bancário dos EUA era “forte e resiliente” e não havia risco de um colapso bancário como em 2008-9.

A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, por sua vez, disse que o setor bancário dos EUA estava “se estabilizando”. Afirmou que o sistema bancário dos EUA era forte. Além disso, o presidente do BCE, Christiane Lagarde, disse repetidamente a investidores e analistas que “não havia oposição” entre combater a inflação aumentando as taxas de juros e preservar a estabilidade financeira.

Portanto, tudo está bem ou pelo menos logo estará. E isso supostamente se deve ao maciço apoio à liquidez que o Fed e outros órgãos de empréstimo do governo dos EUA estão oferecendo. Além disso, os bancos mais fortes intervieram para comprar os bancos em colapso (SVB e Credit Suisse) ou investir dinheiro em bancos falidos (First Republic).

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O espectro da crise ronda o capitalismo

Stavros Mavroudeas[1]

Em 10/3, o Silicon Valley Bank (SVB), com sede na Califórnia, tornou-se o maior banco a falir desde a crise financeira de 2008. Chegou a ser o 16º maior banco comercial dos EUA. Especializou-se em transações com empresas de tecnologia e saúde e, particularmente, em investimentos em empresas iniciantes.

A falência da SVB foi desencadeada por perdas significativas em títulos corporativos aos quais havia emprestado. A fim de diminuir as perdas, o SVB comprou títulos da dívida do estado dos EUA. No entanto, a política do Fed de aumentar as taxas de juros diminuiu o valor de mercado desses títulos. SVB ficou então em um corner. Tentou cobrir as perdas com um aumento de capital, mas isso causou pânico entre as principais empresas de tecnologia da Califórnia que mantinham o seu caixa na SVB.

O resultado foi que, em vez de levantar capital, o SVB enfrentou uma corrida bancária típica. Suas ações entraram em colapso, arrastando as de outros bancos para baixo. A negociação de suas ações foi interrompida e os esforços para levantar capital ou encontrar um comprador falharam, levando a Corporação Federal de Seguro de Depósitos dos EUA (FDIC) a assumir o seu controle. Este último é uma agência governamental independente que assegura depósitos bancários e supervisiona instituições financeiras. Liquidará os ativos do banco para reembolsar os seus clientes, incluindo depositantes e credores.

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Criação destrutiva ou risco moral?

Michael Roberts – The next recession blog – 15/03/2022

Enquanto escrevo, os preços das ações e títulos dos bancos regionais dos EUA estão caindo. E um grande banco suíço internacional, o Credit Suisse, está à beira da falência. Uma crise financeira não vista desde a crise financeira global de 2008 parece estar se desenrolando. Qual será a resposta das autoridades monetárias e financeiras?

Em 1928, o então secretário do tesouro e banqueiro dos EUA, Andrew Mellon, pressionou por taxas de juros mais altas para controlar a inflação e o crédito alimentou a especulação no mercado de ações. Sob seu legado, o Federal Reserve Board começou a aumentar as taxas de juros e, em agosto de 1929, o Fed elevou a taxa a um novo patamar. Apenas dois meses depois, em outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York sofreu o pior crash de sua história no que foi chamado de “Terça-feira Negra ”. A história se repete, como a velha destruição criativa ou como um novo episódio de risco moral?

Em 1929, Mellon não se intimidou. Ele aconselhou o então presidente Hoover a “liquidar a mão-de-obra, liquidar as ações, liquidar os fazendeiros, liquidar os imóveis… isso eliminará a podridão do sistema. Os altos custos de vida e a alta qualidade de vida cairão. As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras aprenderão com as pessoas menos competentes.”Além disso, ele defendeu a eliminação de bancos “fracos” como um pré-requisito, ainda que difícil, mas necessário, para a recuperação do sistema bancário. Essa “eliminação” seria realizada por meio da recusa de emprestar dinheiro aos bancos (tomando empréstimos e outros investimentos como garantia) e recusando-se a colocar mais dinheiro em circulação. A Grande Depressão da década de 1930 seguiu-se a um grande colapso bancário.

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As causas da inflação atual

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/02/2023

A Eastern Economics Association (EEA) realizou sua conferência anual no último final de semana. Ela não é tão grande quanto a enorme conferência anual da American Economic Association (ASSA), mas incorpora apresentações de teses econômicas muito mais heterodoxas e radicais do que a ASSA.

Foram centenas de trabalhos apresentados. Vou me concentrar em apenas alguns trabalhos das sessões organizadas pela Union of Radical Political Economics (URPE), os quais me foram gentilmente enviados por seus autores.

Nesta primeira de duas postagens sobre temas da conferência, examinarei a palestra de abertura de Joseph Stiglitz. O professor Stiglitz é ganhador do prêmio Nobel (Riksbank) em Economia, ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-presidente da EEA; agora, é economista-chefe do centro de pesquisa Roosevelt Institute (nome este que indica já a sua orientação política). Stiglitz tem sido um dos principais críticos da economia neoclássica dominante; também se apresenta como defensor de um capitalismo que funciona para muitos – não para poucos.

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Pode o capitalismo global durar?

Autor: William I. Robinson [1]

Introdução

Se a história do capitalismo consiste numa de transformação sem fim, as crises geralmente marcam – antes e depois – os momentos decisivos. No período de 2008 até a terceira década do século XXI ocorreu uma crise prolongada que, longe de ser resolvida, foi agravada pela pandemia do novo coronavírus. Essa crise é tanto econômica e estrutural, quanto política, ou seja, de legitimidade do Estado e da hegemonia capitalista.

Como muitos observaram, a crise é também existencial devido à ameaça de colapso ecológico, bem como à ameaça renovada de guerra nuclear, à qual devemos acrescentar o perigo de futuras pandemias que podem envolver micróbios muito mais mortais do que os da espécie coronavírus.

O capitalismo global pode resistir e durar? A humanidade sobreviverá? Estas são, com certeza, duas questões distintas. É perfeitamente possível que o sistema ainda perdure mesmo que a maioria da humanidade passe a enfrentar lutas desesperadas pela sobrevivência.  Muitos vão perecer nos próximos anos e nas décadas vindouras.

Cada grande crise no capitalismo mundial envolveu previsões de que o sistema entraria em colapso diante de contradições insolúveis. No entanto, o capitalismo provou repetidamente ser mais resiliente e adaptável do que acreditaram os seus previsores apocalípticos. Como se explora neste ensaio, o sistema vem passando por uma nova rodada de reestruturação e transformação desde o colapso financeiro de 2008. E ela acontece com base numa tecnologia da digitalização muito avançada que afeta toda a economia e a sociedade globais.

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A taxa de lucro nos EUA com dados de 2021

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 17/12/2022

Todos os anos, analiso a taxa de lucro do capital nos Estados Unidos. Isso ocorre porque os dados dos EUA são os melhores e mais abrangentes e porque os EUA são a economia capitalista mais importante. Muitas vezes, ela prepara o cenário para as tendências do capitalismo global. Agora temos os dados nacionais oficiais para 2021.

Existem muitas maneiras de medir a taxa de lucro à la Marx – ver http://pinguet.free.fr/basu2012.pdf ). Prefiro medir a taxa de lucro observando o mais-valor total de uma economia em relação ao capital privado total empregado na produção. Assim, julgo ficar o mais próximo possível da fórmula original de Marx de s/(C+v), onde s = mais-valia; C = capital constante – que deve incluir tanto o ativo fixo (máquinas etc.) quanto o capital circulante (matérias-primas e componentes intermediários); e v = salários ou custos da força de trabalho. Meus cálculos podem ser replicados e verificados consultando o excelente manual que explica meu método, gentilmente compilado por Anders Axelsson, da Suécia.  

Chamo meu cálculo de medida de ‘economia total’, pois se baseia na renda nacional total após a depreciação e após a remuneração da força de trabalho para calcular o(s) valor(es) excedente(s); ativos fixos privados não residenciais líquidos para capital constante (portanto, isso exclui governo, habitação e imóveis) (C); e remuneração dos empregados por capital variável (v).

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A grande crise é inevitável

Autor: Nouriel Roubini,

Project Syndicate – Tradução: Antônio Martins

A economia mundial está caminhando para uma confluência sem precedentes de crises econômicas, financeiras e de dívida, após a explosão de déficits, empréstimos e alavancagem.

No setor privado, a montanha de dívidas inclui famílias (endividadas em hipotecas, cartões de crédito, empréstimos para automóveis, empréstimos estudantis, empréstimos pessoais), empresas e corporações (empréstimos bancários, títulos de dívida e dívida privada) e o setor financeiro (passivo de instituições bancárias e não bancárias). No setor público, estão os títulos dos governos centrais, subnacionais e locais, além de outros passivos formais e dívidas implícitas – como passivos não financiados dos sistemas de pensão por repartição e de atendimento à saúde. Tudo isso continuará a crescer à medida que as sociedades envelhecem.

Olhando apenas para as dívidas explícitas, os números são impressionantes. Globalmente, a dívida total dos setores público e privado como parcela do PIB aumentou de 200% em 1999 para 350% em 2021. A proporção é agora de 420% nas economias avançadas e de 330% na China. Nos Estados Unidos, é 420%, maior do que durante a Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial.

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