A relação credor-devedor como base do capitalismo

Publica-se em sequência um texto do autor dos livros cujas capas aparecem na figura abaixo, não sem acrescentar, após o seu final, uma nota crítica para censurar a sua tentativa pós-moderna de desprezar a economia política e a sua crítica exemplar, que, aliás, ele parece  ignorar.

Autor: Maurizio Lazzarato [1]

A economia da dívida parece ter produzido uma grande mudança em nossas sociedades. Vamos analisar o significado dessa mudança baseando-nos no segundo ensaio de A genealogia da moral, [obra clássica de Friedrich Nietzsche].

A economia neoliberal se consolida como uma economia subjetiva, ou seja, uma economia que solicita e produz processos de subjetivação cujo modelo não está mais centrado, como na economia clássica, no comerciante e no produtor. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, o modelo exemplar se tornou o empreendedor (de si mesmo), conforme a definição de Foucault. Ele o descreveu com base em noções como mobilização, engajamento e ativação da subjetividade por meio das técnicas de gestão empresarial e de governo social. Diante da emergência de uma série de crises financeiras, é mais o “homem endividado” que parece incorporar a figura subjetiva do capitalismo moderno.

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A inflação real e o custo de vida

Corbin Trent – America’s Undoing

Titulo original: “It Works, If You Work It”; 23/11/2025

Para que a economia americana possa proporcionar uma vida boa para todos são necessárias reformas estruturais. Ela está muito ruim? Sim, bem ruim! [Mas já foi melhor: aquilo que foi chamado de “american way of life” parece ter existido, sim…, em meados do século passado.]

Desapontamento: de Obama à Trump

As eleições do início deste mês indicam para onde a coisa está indo. Os democratas varreram a Virgínia, Nova Jersey e Nova York. Pesquisas de boca de urna mostraram que 49% dos eleitores da Virgínia colocavam a economia como sua principal questão. Em Nova York, 56% disseram que era o custo de vida. Os eleitores de Nova Jersey focaram em impostos e, portanto, em economia.

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A política econômica do nacional-socialismo

Romaric Godin [1] – Sin Permiso [2] – 17/01/2026

Em um texto recentemente traduzido para o francês, o filósofo alemão Alfred Sohn-Rethel descreve o mecanismo pelo qual os nazistas, aproveitando-se da crise econômica, implantaram um tipo particular de economia que inevitavelmente levou à guerra e à violência. O escrito que se segue permite entender a lógica suicidária da economia fascista.

O livro de Sohn-Rethel

A ascensão da extrema-direita no Ocidente necessariamente nos leva a examinar as condições que levaram à vitória do fascismo na década de 1930. Sob esse ponto de vista, uma obra recentemente republicada em francês sob o título Industrie et national-socialisme, faz uma contribuição original e decisiva para uma boa compreensão da ascensão ao poder do nazismo na Alemanha, em 1933.

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O apocalipse cripto vindouro

Nouriel Roubini [1]  – Project Syndicate – 3 de fevereiro de 2026

O futuro do dinheiro e dos pagamentos terá uma evolução gradual, não a revolução que os vigaristas de cripto estão prometendo. A mais recente queda do Bitcoin e de outras criptomoedas ressalta ainda mais a natureza altamente volátil dessa pseudoclasse de ativos. Só resta esperar que os formuladores de políticas acordem para os riscos antes que seja tarde demais.

Há um ano, o presidente mais pró-cripto da história dos EUA havia acabado de voltar ao poder. Eles acabara de agradar um contingente de investidores de criptomoedas desinformados e de receber um enorme apoio financeiro de profissionais semi-corruptos do setor cripto. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser um novo amanhecer para as criptomoedas, levando vários evangelistas auto-interessados a prever que o Bitcoin se tornaria “ouro digital”, alcançando pelo menos $200.000 até o final de 2025.

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Uma “escolha de Hobson” para Trump

Michael Roberts – The next recession blog – 12/03/2026

Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $95 por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.

O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã. Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção, restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um cessar-fogo seja considerado.

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A Guerra-Espetáculo de Trump no Irã: cortina de fumaça para a grande crise

Por José Paulo Guedes Pinto [1]

“No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” – Guy Debord, tese 14 do livro “A Sociedade do Espetáculo”

Vivemos um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o que custar.

Em outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e mais como instrumentos simbólicos momentâneos para reorganizar a política doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a base de Trump com a imagem de um líder forte.

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Formas sociais e políticas contemporâneas

Autor: Ruy Fausto [1]

No tomo III de Marx: lógica e política, Ruy Fausto faz uma apresentação das estruturas sociais contemporâneas que existem e podem existir, a partir da apresentação dialética dos modos de produção de Karl Marx. Aqui se faz um esforço de expor esse material didaticamente como um convite para que eventuais interessados busquem ler o original.

A primeira seção é preliminar. Ruy Fausto começa dizendo que o comunismo, diante dos eventos da história e do saber psicanalítico introduzido por Sigmund Freud, tornou-se uma utopia irrealizável. Na segunda seção, faz uma apresentação estruturalista  das formas sociais contemporâneas. Em sequência, na terceira seção, mostra como essas formas podem ser explicadas dialeticamente.

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Keynes e o “keynesianismo” militar

Robert Skidelsky – Blogue do autor no Substack – 23/01/2026

Neste post, chamo atenção para o uso indevido da teoria de Keynes para justificar o rearmamento, algo que denomino de “keynesianismo militarista”. Em outras postagem, chamei atenção para o perigo das guerras imaginárias, não apenas para justificar aumentos nos gastos militares, mas para conduzir guerras reais num processo de escalada. Denomino, por isso, a guerra imaginária contra a Rússia ou a China de cena paranoica.

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Haverá uma catástrofe com adoção da IA?

Michael Roberts – The next recession blog –26/02/2026

Illustration of workers displaced by AI automation causing mass unemployment and long food bank lines.

Um relatório publicado no último fim de semana pelo obscuro grupo de analistas financeiros “Citrini Research”, versando sobre o impacto futuro da IA, causou uma venda de ações das empresas de software.  A “Citrini” era pouco conhecida até publicar o seu “Global intelligence crisis report” – um aviso sobre uma crise global que viria com a adoção da IA”. Mas, subitamente, a publicação acumulou mais de 22 milhões de visualizações só no X.

A mensagem básica do aviso diz que, em poucos anos, os “agentes” de IA podem substituir amplamente o trabalho humano em todos os setores da economia.  Se acontecer, isso levaria a um aumento massivo do desemprego, seguido por um colapso do consumo e uma crise financeira no setor de ‘crédito privado’ às famílias e nas hipotecas, desencadeando assim uma brutal recessão.

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O pensamento crítico pode ser único?

Adalmir A. Marquetti [1], Alessandro Miebach [2] e Henrique Morrone [3]

O artigo do Prof. Fernando Nogueira da Costa, intitulado “Pós-keynesianos e Escola de Campinas versus mainstream ou Faria Lima”, é didático em diversos aspectos. Talvez, no esforço de organizar o debate de forma pedagógica, acabe por sugerir que o pensamento crítico brasileiro teria um endereço quase exclusivo: o Instituto de Economia da Unicamp. Em contrapartida, o mainstream apareceria simbolicamente sediado na Faria Lima. Pouco mais de cem quilômetros separariam, assim, os dois polos opostos do pensamento econômico nacional.

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