O planejamento na era da Internet – Parte I

Este blog tem publicado textos que versam sobre o planejamento econômico que seria necessário para organizar uma economia de modo socialista e democrático. Ao contrário do que reza o senso comum atualmente dominado pelos preconceitos neoliberais, é possível argumentar que ele seria muito mais eficiente e eficaz do que a economia de mercado.

Com esse objetivo, é preciso ter em mente, sim, o que ocorreu no passado nas economias de comando centralizado, as quais eram dirigidas por burocratas do partido-Estado. Mas também é necessário investigar as formas de planejamento agora tornadas possíveis pelas novas tecnologias da informática e da comunicação.

No texto que agora se publica – em duas partes – Alan Freeman, economista da Universidade de Manitoba, no Canada, usa todo o seu conhecimento no planejamento da Grande Londres para mostrar porque o planejamento democrático é possível e mesmo necessário quando se tem em mira obter bons resultados econômicos.

Ele sugere que é preciso recomeçar a discutir a teoria do planejamento de forma adequada. Para tanto, afirma que pode fornecer algumas indicações sobre as características gerais que um sistema de planejamento precisa ter para que os objetivos econômicos sejam alcançados sem sacrificar – ao contrário, favorecendo – o processo da democracia.

A primeira parte do seu texto se encontra aqui: Planejamento na Era da Internet – Parte I

O advento da sociedade rottweiler

Esse uso do substantivo próprio “rottweiler”, pesadíssimo, qualifica o quê? Não há dúvida, é com esse indicador de estupidez, bruteza e ferocidade que Paul Collier adjetiva a sociedade que existe atualmente na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Europa: “a despeito da promessa de prosperidade” – diz – “o que o capitalismo moderno está correntemente entregando é agressão, humilhação e medo”.

Mesmo se essa raça canina nem sempre é tão feroz assim, pois os seus donos, tal como o neoliberalismo reacionário está fazendo da sociedade, é que a fazem ser assim, é isto, precisamente isto, o que esse autor quis mostrar em seu livro O futuro do capitalismo – enfrentando novas inquietações (L&PM, 2019), recém-publicado.

Nesse folhoso – o vocábulo cabe bem –, Paul Collier pretende mostrar as consequências das políticas econômicas que foram feitas sob a égide desse pensamento político, primeiro numa linha progressista e depois num rumo francamente reacionário (o atual). Mas não só. Ele pretende também argumentar que o capitalismo deve voltar a ser regido pela ética comunitarista, passando de novo a ser regulado numa perspectiva política socialdemocrática.

As suas teses estão resumidas e comentadas aqui: Sociedade Rottweiler – Criação histórica do neoliberalismo

 

Quando o neoliberalismo encontra o fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

O neoliberalismo é, sim, criador. Do que mesmo, na prática!? De má distribuição da renda, da destruição da proteção social dos mais pobres, da precarização da condição de vida dos trabalhadores – tudo isso é bem conhecido. Ainda que procure se justificar em nome da liberdade, o que ele procura mesmo é elevar a taxa de lucro do capital industrial e manter intocado e em processo de valorização o volumoso capital fictício acumulado nas últimas décadas. Mas a sua mais terrível – tem gente que gosta desse último termo e o emprega positivamente – criação não é bem conhecida. E ela precisa, sim, ser mostrada e bem mostrada.

Antes disso, note-se que esse agenciamento político é de certo modo sincero quando exalta a liberdade, mas se veja também que defende, em última análise, a liberdade do agente econômico, do homem como personificação do seu capital. E, nessa perspectiva, é preciso perceber que o neoliberalismo se move também no terreno da moralidade e tem uma pretensão tanto idealista quanto “idealista”.   

Continuar lendo

Perspectivas da economia mundial para 2020

Como mensagem de fim de ano e começo de outro, este blog publica dois artigos de Oscar Ugarteche e Alfredo Ocampo. Eles tratam das perspectivas da economia mundial para 2020.

O ano de 2019 foram bem complicados para vários países vistos de vários ângulos: crescimento econômico; coesão social; integração internacional e crise política. Ao longo do ano, as principais organizações internacionais reduziram a previsão de crescimento para a maioria das economias, como resultado de fatores que vêm surgindo há alguns anos: deterioração das relações comerciais, altos níveis de dívida, concentração de renda, fluxos migratórios, racismo e uma queda no investimento produtivo.

Espera-se que a tendência geral da economia mundial continue em ritmo lento na maioria das economias, com o claro contraste das economias asiáticas que continuarão a crescer três vezes mais rápido que o Ocidente, o que poderia ser afetado principalmente pelos protestos em Hong Kong e Índia. Para as economias avançadas, o prognóstico é cinzento, porque os problemas da União Europeia não terminam com a saída do Reino Unido.

O primeiro texto se encontra aqui: Perspectiva da economia mundial para 2020
O segundo texto, por sua vez: Estamos próximos de uma recessão nos Estados Unidos

 

Ruinas do neoliberalismo: Chile, o caso precursor

Os acontecimentos no Chile, mesmo filtrados por uma imprensa que não tem muito interesse em divulgá-los, são impressionantes. Se a economia chilena é julgada por critérios economicistas, não há grande dúvida, parece que ela estava indo muito bem. Mas se é assim, por que ocorre atualmente esse enorme incêndio na sociedade chilena?

É para entender melhor esse aspecto que se consulta primeiro, na nota encaminhada por meio deste post, um artigo do economista chileno Andrés Velasco, publicado no portal Project Syndicate. Ele tenta explicá-lo por meio do conhecimento extenso que, evidentemente, possui sobre esse país.

Como o Chile é considerado como uma vitrine do neoliberalismo, tais eventos não denotam um fracasso das políticas que vem sendo implementadas em muitos países do mundo, inclusive no Brasil? Ora, quando esse problema foi apresentado a Paulo Guedes, Ministro da Economia do atual governo no Brasil, ele não soube respondê-la adequadamente.

Ao lançar recentemente planos que pretendem reformar o Estado brasileiro para adequá-lo a certas aspirações dessa corrente política, ele minimizou: “democracia é assim mesmo: barulhenta (…) ainda há insatisfação com a desigualdade”. Mas será só isso!? Será que um economista neoliberal como ele entende de sociedade?

Como a resposta economicista se afigura como bem insuficiente, procura-se junto a um professor de filosofia e cientista político, Hans Sluga, outra explicação. Ele sugere que o neoliberalismo reativou, mesmo sem o desejar, o niilismo, um solo em que prosperam agora os extremismos de direita. Ao expandir – completando, assim, a sua tese – a racionalidade econômica para todas as esferas da sociedade, o neoliberalismo limpou o terreno onde cresceu o mato dos movimentos que agora ameaçam a democracia liberal e mesmo a civilização no seio da sociedade contemporânea.

A hipótese deste autor encontra-se num livro de Wendy Brown, In the Ruins of neoliberalism, que será resenhado em breve por este blogueiro. De qualquer modo, a interpretação dessa hipótese é devedora de teses que se encontram neste livro.

Ora, quando se observa que emergiu no Chile uma forte reação ao neoliberalismo, é preciso fazer várias perguntas. Por que surgiu essa reação? Qual o seu sentido histórico? Ora, o que foi criado antes pelo conluio entre os economistas neoliberais da Universidade de Chicago e os militares da ditadura Pinochet? Por que a principal pauta do movimento opositor consiste agora na revogação da Constituição criada justamente no período da ditadura?

Eis a nota: Ruinas do neoliberalismo: Ruinas do neoliberalismo: Chile, o caso precursor
Observação: uma versão desta nota foi publicada em 12/11/2019 no portal do Outras Palavras. Aqui, entretanto, publica-se uma versão aprimorada.

Alçando está? Ou está ficando para trás?

As teorias do desenvolvimento criadas no pós-II Guerra Mundial pressupunham que os países ditos subdesenvolvidos poderiam, por meio de políticas adequadas, superar essa condição. Conforme se urbanizavam e se industrializavam, eles iriam pouco a pouco alcançando os países ditos desenvolvidos.

Passados mais de setenta anos, a tese da convergência acima enunciada ainda prevalece como um suposto de fundo de boa parte dos teóricos ortodoxos. Ela, entretanto, não é mais defendida explicitamente. Pois, a história real do desenvolvimento econômica dos países do Sul não lhes dá qualquer suporte.

Neste post examina-se a hipótese de Nassif, Feijó e Araújo, segundo a qual o Brasil não está mais alçando (catching up) mas, ao contrário, está ficando para trás (falling behind). Pensando na tradição de Kaldor e Thirwall, esses três autores admitem também que o crescimento econômico do Brasil, provavelmente, continuará simulando o voo das galinhas.

Para acrescentar um viés um pouco mais pessimista à tese desses autores, mostra-se com base num artigo de Alan Freeman que as evidências históricas apontam não para uma convergência, mas para uma divergência. Os países do Sul, sob o capitalismo globalizado, estão ficando cada vez para trás em relação do Norte desenvolvido.

O que fazer? Aceitar o caminho da pobreza e até da barbárie ou reinventar o futuro?

O texto se encontra aqui: Alçando está? Ou está ficando para trás?

Hudson: Guerra Fria 2.0

Excepcionalmente, este blog publica um artigo que não estava previsto num planejamento que é feito pelo autor, mas que está oculto para os leitores. Na verdade, trata-se de uma republicação de uma nota que saiu ontem mesmo no sítio Sinpermiso.

O texto que aqui se ventila foi escrito por Michael Hudson e está disponível, em espanhol, no sítio mencionado e, em inglês, no blog desse autor. Título: As ameaças comerciais de Trump são realmente uma guerra fria 2.0.

A iniciativa faz parte de um esforço para dar uma pequena contribuição para a compreensão do que está acontecendo no mundo. Este blog prefere sempre tratar de temas internos à Economia Política em sentido estrito. Mas, atualmente, o problema geopolítico se apresenta como incontornável.

Como no dia 10 do corrente mês de junho de 2019 foi publicado um artigo de Ashley Smith sobre a guerra híbrida entre os Estados Unidos e a China, pareceu que este que agora se publica constitui-se em um complemento necessário ao primeiro. Ele mostra, sobre outro ângulo, que a rivalidade entre esses dois países tende lamentavelmente a se intensificar.

O texto se encontra aqui: Las amenazas comerciales de Trump son realmente una Guerra Fria 2.0

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China vai se intensificar

Talvez o seguinte ponto de vista não seja realista: “A questão que se coloca é até que ponto essas escaramuças entre EUA e China serão o “novo normal” para as relações internacionais, refletindo o estilo agressivo e as preferências protecionistas da administração Trump ou o prelúdio para uma guerra comercial de amplo espectro”.

Pois, não se trata de uma ocorrência simplesmente econômica, mas de algo que marcará a geopolítica e a história mundial nas próximas décadas. Eis que a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China está se transformando numa guerra híbrida que poderá envolver todos os países do mundo, direta ou indiretamente.

Trata-se de um confronto entre um império em relativo declínio e um império em ascensão, mas ainda mais fraco tecnológica e militarmente do que o primeiro.

Este blog, na busca de um melhor esclarecimento, publica hoje uma nota de um observador norte-americano, Ashley Smith, que foi publicado na revista eletrônica Jacobin. A sua tese e que “este conflito crescente entre as duas potências se constituirá na rivalidade central e imperial do século XXI”.

O que fazer diante dela? Smith opta pela luta por um socialismo democrático que não se inspira, nenhum um pouco, nas experiências socialistas fracassadas e totalitárias do século XX. Mesmo se esse socialismo tem nome, mas não tem ainda um conteúdo bem definido: como combinar democracia plena com um sistema de planejamento? – eis a principal questão.

O texto de se encontra aqui: A rivalidade entre os EUA e a China vai se intensificar

Para 2020: sombras e sombrios

Neste post apresenta-se criticamente um pequeno artigo bombástico – e, talvez, por isso mesmo – muito lido por pessoas interessadas em economia política internacional e/ou nos rumos da economia norte-americana ou ainda no sistema econômico mundial. Ele foi escrito por Nouriel Roubini, no caso em parceria com Brunello Rosa. Eis o seu título: Os elementos causadores de uma recessão e crise financeira em 2020.

O folheto de somente três páginas contém muitas sombras, sombrios e assombrações. Foi publicado no portal Project Syndicate, em 13 de setembro de 2018. Nele, esses dois autores fazem uma previsão para a economia capitalista mundial que ainda está centrada nos Estados Unidos.  Segundo eles, sobrevirá inexoravelmente uma forte crise – ou mesmo uma crise catastrófica – em 2020, ano da próxima eleição presidencial na norte-américa. 

Roubini ficou mais conhecido depois que antecipou com boa precisão a crise que eclodiu no mercado imobiliário dos Estados Unidos, em 2008.  Ele foi capaz de mostrar a sua extensão e a sua gravidade mesmo antes que a bolha de crédito estourasse e espalhasse o seu poder destruidor para o resto do mundo. No entanto, no post que aqui se publica, sem deixar de reconhecer os seus méritos como economista e como marqueteiro de si mesmo, faz-se primeiro uma crítica ao seu estilo de fazer previsões. Eis que elas se destinam ao mercado consumidor de projeções econômicas e, por isso, está escrita num estilo excessivamente afirmativo. Ora, nesse caso, como em muito outros, como se sabe, a fama vale dinheiro.

A nota se encontra aqui: Para 2020 – sombras e sombrios

Ascensão – e queda? – do capitalismo neoliberal

Neste post apresenta-se uma resenha do livro recente de David M. Kotz que leva o título de The rise and fall of neoliberal capitalism, ou seja, Ascensão e queda do capitalismo neoliberal, o qual foi publicado em 2017 nos Estados Unidos.

Esse autor escreve de uma perspectiva teórica que visa compreender o capitalismo em processo de mudança e que se autodenomina de abordagem da “estrutura social da acumulação” (ESA). Como tal, essa teoria põe ênfase no que denomina “estrutura institucional”, supondo sempre que esta estrutura marca e demarca o sistema econômico real na temporalidade histórica.

Sob essa perspectiva, Kotz explica a mudança do capitalismo regulado de modo keynesiano, que perdurou no após II Guerra Mundial até cerca de 1980, para o capitalismo neoliberal que prosperou desde então. Esse último capitalismo, como se sabe, passou por uma forte crise em 2008 e, a partir dessa data, entrou numa recessão prolongada. Ora, a sua explicação da mudança do primeiro para o segundo se concentra basicamente em apresentar a matriz institucional tanto do capitalismo dito também socialdemocrático quando daquele que o sucedeu.

No último capítulo, o autor examina os “caminhos futuros possíveis” do capitalismo. Em primeiro lugar, assevera que a história econômica dos Estados Unidos justifica plenamente a principal tese da ESA. Esta se caracteriza por associar as grandes crises às grandes mudanças. Kotz, então, considera quatro possíveis direções de mudança após 2008.

A primeira delas é continuação do neoliberalismo ainda que modificado para superar os entraves atualmente presentes. A segunda consiste no aparecimento de um capitalismo mais autoritário, regulado e constrangido pelo Estado. A terceira faz referência a um verdadeiro retorno: a história observaria a volta de um capitalismo regulado que reporia o compromisso capital-trabalho que vigorara durante três décadas após a II Guerra Mundial. A quarta tem um caráter mais utópico, pois examina a possibilidade de que o capitalismo seja substituído por um socialismo democrático.

Ao final, o post apresenta uma avaliação crítica dessas quatro alternativas

A resenha se encontra aqui: Ascensão – e queda? – do capitalismo neoliberal