O impacto da IA na sociedade

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 6/06/2024

Abordei já a questão do impacto da inteligência artificial (IA), assim como dos novos modelos inteligentes de aprendizagem, tais como o Copilot, o ChatGPT etc., nos empregos e na produtividade do trabalho.

A previsão padrão sobre os efeitos da IA veio dos economistas do Goldman Sachs, o principal banco de investimentos dos Estados Unidos.  Eles avaliaram que, se a tecnologia cumprisse sua promessa, ela traria um “abalo significativo” no mercado de trabalho, pois afetaria o equivalente a 300 milhões de trabalhadores em tempo integral nas principais economias, já que exporia à automação os seus empregos.

Advogados e pessoal administrativo estariam entre os que correm maior risco de serem demitidos (assim como, provavelmente, os economistas!). Eles calcularam que cerca de dois terços dos empregos nos EUA e na Europa são passíveis em algum grau de serem automatizados por meio de IA. Chegaram a tal conclusão com base em dados sobre as tarefas normalmente executadas em milhares de ocupações. 

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Adam Smith, 300 anos depois

Michael R. Kratke [1]14/03/2024

Os liberais ainda o reverenciam hoje; como se sabe, vários think tanks  radicais pró-mercado são nomeados e referenciados por ele. O Instituto Adam Smith, em Londres, foi e continua sendo um dos mais importantes focos do neoliberalismo. Como costuma acontecer com os grandes autores, a sua extensa obra é pouco lida hoje. Na melhor das hipóteses, presta-se atenção apenas a trechos como aquele que fala da “mão invisível” do mercado. Adam Smith, que nasceu há trezentos anos em Kirkcaldy, perto de Edimburgo, é um dos pensadores mais incompreendidos da era moderna. Grande parte de seu patrimônio literário foi queimado por vontade própria, um total de 18 cadernos escritos à mão muito apertadamente.

Morreu aos 67 anos mundialmente famoso. Viveu e trabalhou na Escócia, em Glasgow e Edimburgo, mas também passou alguns anos em Londres. Viajou para a França e Suíça por mais de dois anos e conheceu a elite intelectual de seu tempo em Paris. Em casa, seus contemporâneos o consideravam o arquétipo do professor distraído que, pelo menos uma vez, andou pela rua principal monologando consigo mesmo. Mas esse cavalheiro um tanto peculiar lidou com as maiores mentes de seu tempo, com David Hume, bem como com Voltaire, Diderot, Turgot e Quesnay.

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Pouco desejo e muita obediência

Autor:  Amador Fernández-Savater[1] – IHU – 29/05/204

Segundo Amador Fernández-Savater, na nossa sociedade há muito pouco desejo e muita obediência aos mandatos de desempenho e produtividade. Sobre esse tema, segue-se uma entrevista que deu a Danele Sarriugarte Mochales e que foi publicada originalmente por Argia e reproduzida por El Salto, 29-05-2024.

DSM – Para começar, eu gostaria de perguntar sobre o ponto de partida do livro, que é composto por vários tipos de materiais. Como isso surge?

AFS – Há um compromisso com o livro como uma tecnologia, uma tecnologia muito poderosa. O que quero dizer? Você publica, as pessoas leem com liberdade e rapidez nas redes. É muito bom, há muitos textos de intervenção no presente, nos debates do presente. Mas fazer livro é outra coisa, há um trabalho de encontro e de reorganização, percebe-se como os problemas e as obsessões insistem continuamente, como se encaminham. O título permite articulação. O material é lido de forma diferente.

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Rentismo: um novo modo de produção?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Ladislau Dowbor, por meio de um artigo que denominou de A sociedade na era digital: um novo modo de produção (2024), propôs que o rentismo, propiciado supostamente pelas novas tecnologias da chamada “indústria 4.0” e alavancado pela financeirização, está no fundamento de um novo modo de produção.

Enquanto o capitalismo industrial havia apropriação do excedente e geração de mais capacidade produtiva por meio do investimento, no novo modo produção em emergência há, segundo ele, apropriação do excedente por meio do rentismo sem que ocorra uma ampliação dessa capacidade, de modo correspondente à acumulação. Eis o que diz:

Trata-se de outro modo de produção em construção, em que a financeirização supera a acumulação produtiva de capital, a exploração por meio do rentismo supera a exploração por meio de baixos salários (mais-valia), inclusive porque se desloca o próprio conceito de emprego. (Dowbor, 2014).

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Capitalismo abutre – será mesmo?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 08/05/2024

Estamos presos no capitalismo abutre?

Grace Blakeley é uma estrela da mídia da ala radical de esquerda do movimento trabalhista britânico.  Ela é colunista do jornal de esquerda Tribune e palestrante regular sobre debates políticos na radiodifusão – muitas vezes, ela se mostra como a única porta-voz da esquerda que defende alternativas socialistas.

Seu perfil e popularidade levaram seu último livro, Stolen, diretamente para o top 50 de todos os livros na Amazon.  Seu novo livro, intitulado Vulture Capitalism: Corporate Crimes, Backdoor Bailouts and the Death of Freedom (Bloomsbury 2024) alcançou ainda mais popularidade. Está “listado’ como o livro de não-ficção feminino do ano; até mesmo a revista Glamour considerou que se tratava de um livro essencial para jovens fashionistas lerem.

O tema principal de Blakeley em Vulture Capitalism é desmistificar o conceito de longa data da economia neoclássica convencional de que o capitalismo é um sistema de “livre mercado” e competição.  Se o capitalismo alguma vez teve “mercados livres” e competição entre empresas na luta para obter lucros criados pelo trabalho (e Blakeley duvida que alguma vez o tenha feito), então certamente não o faz agora. 

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Tocar os corpos, mudar o mundo

IHU: Vivemos um tempo de mal-estar generalizado. Paradoxalmente, o mesmo sistema que o provoca nos oferece os remédios. No entanto, estes anestésicos ou alívios imediatos prometidos nos impedem de formular as perguntas necessárias para mudar desde a raiz as condições de vida daninhas. Como sair desta espiral catastrófica?

Em Capitalismo libidinal (Ned Ediciones, 2024), Amador Fernández-Savater nos propõe, de forma machadiana, trilhar um novo caminho para estar no mundo de uma forma diferente, reapropriando o nosso próprio mal-estar como energia de mudança e transformação. Chama este caminho de “políticas do desejo”. Eis que “As ideias que não tocam os corpos deixam o mundo igual”.

Spinoza dizia que a essência do ser humano é desejar, o que chamava de apetites naturais. Contudo, quando essas necessidades biológicas se tornam desejos socialmente construídos, e que demandam algo que não precisamos, tornam-se capitalismo.

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Finança e capital industrial

Autores: Scott Sehon e Stephen Maher[1]

Tradução: Sofia Schurig (Jacobina, 5/04/2024).

Hoje, é praticamente dado como certo por figuras políticas desde Hillary Clinton até Bernie Sanders que o aumento da finança nas últimas décadas ocorreu às custas da indústria. Essas opiniões também são amplamente difundidas entre os economistas políticos críticos, talvez o mais proeminente deles seja Robert Brenner e Cédric Durand. Seu surgimento, diz Durand, está “enraizado no esgotamento da dinâmica produtiva nas economias avançadas e na reorientação do capital para longe do investimento produtivo doméstico”. Segundo essa visão, o capital industrial “real” foi superado pelas atividades “fictícias” da finança. O aumento desta última é um sintoma de uma “fase tardia” do capitalismo, um prenúncio da disfunção e declínio do sistema.

Para Brenner e Durand, o aumento deste setor financeiro corrosivo dependeu crucialmente de sua capacidade de capturar o estado – levando à formação do que Brenner e Dylan Riley chegaram a chamar de uma nova forma de capitalismo, “capitalismo político”. Segundo esses teóricos, isso tem sido talvez acima de tudo evidente na política de flexibilização quantitativa (QE) do Federal Reserve ao longo de décadas: “infusões monetárias ininterruptas dos bancos centrais”, que Durand vê como resultado de “chantagem” por parte de um setor financeiro corrosivo.

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Em guerra com o “meu” neoliberalismo

Autor: Amador Fernández-Savater [1]

Vários exercícios de “economia libidinal” são ensaiados neste livro [Capitalismo Libidinal [2]] O que se quer dizer com esse título? O que ele significa?

Em primeiro lugar, uma espécie de escuta, acolhida de fenômenos que chamam a atenção, não apenas os discursos ou as identidades, os cálculos ou os interesses, mas também às posições do desejo e as flutuações de humor, desejos e relutâncias, assim como os estados anímicos.

Jean-François Lyotard, em seu livro intitulado Economia Libidinal, nos ensina a distinção entre signos e intensidades: o que é dito e o que acontece, o nível de informação e o nível das forças. Nosso ouvido, hipersemiotizado, registra (e acredite-se!) as retóricas, as declarações, as gesticulações, mas deixa escapar os funcionamentos, as ações e os movimentos que deslizam “por baixo”. É um ouvido incauto, que fetichiza sinais, que acredita no que é dito e mostrado, leva as coisas ao pé da letra. Mas não basta falar de algo (revolução, comunidade, cuidado) para que ele exista. E vice-versa: há existências imperceptíveis, sem nome, sem termo de referência, sem rótulo.

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A onda reacionária e a pulsão de morte

Autor: Amador Fernández-Savater [1] – CTXT – 24/06/2023

O clima físico e afetivo hoje é revanchista, desigual, sacrificial para com os mais fracos. É aí que as mensagens da direita pegam. Não tanto por causa de sua força de convicção, persuasão ou sedução, mas porque ressoam com corpos tensos

  “Só o amor nos permite escapar da repetição” (Jorge Luis Borges)

O que significa a “onda reacionária” globalmente, aqui na Espanha [e na América Latina]? Como entender esse fenômeno complexo e multifacetado para melhor combatê-lo?

Proponho esta interpretação: a onda reacionária está tentando sustentar um mundo em crise, um modelo que está vazando para todos os lados.

O que hoje se chama de “policrise” (a combinação das crises climática, energética, alimentar, econômica etc.) refere-se fundamentalmente a uma “crise de presença”, entendida como a crise do modo de vida ocidental baseado no constante impulso de expansão, crescimento e conquista. Uma crise civilizacional de alcance planetário.

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Sim, é suicidarismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Essa nota dá continuidade a outra que foi publicada em 12/2023 aqui em A terra é redonda, mas que não foi bem notada. Sob o propósito de caracterizar o extremismo neoliberal, ela recebera originalmente um título negativo, “não, não é fascismo”. O escrito, entretanto, saiu com um título afirmativo que também se mostrou bem justo, “extremismo neoliberal suicidário”. Ninguém deu bola, mas a questão é importante para o que vem vindo no século XXI com o ocaso do capitalismo.

O artigo tinha uma mensagem: eis que é preciso evitar usar a etiqueta “fascista” para caracterizar todos os extremismos de direita. Pois, esse costume impede uma melhor compreensão dessa prática política que, desde os anos 1980, vem buscando dar sustentação ao sistema fundado na relação de capital.

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