A onda reacionária e a pulsão de morte

Autor: Amador Fernández-Savater [1] – CTXT – 24/06/2023

O clima físico e afetivo hoje é revanchista, desigual, sacrificial para com os mais fracos. É aí que as mensagens da direita pegam. Não tanto por causa de sua força de convicção, persuasão ou sedução, mas porque ressoam com corpos tensos

  “Só o amor nos permite escapar da repetição” (Jorge Luis Borges)

O que significa a “onda reacionária” globalmente, aqui na Espanha [e na América Latina]? Como entender esse fenômeno complexo e multifacetado para melhor combatê-lo?

Proponho esta interpretação: a onda reacionária está tentando sustentar um mundo em crise, um modelo que está vazando para todos os lados.

O que hoje se chama de “policrise” (a combinação das crises climática, energética, alimentar, econômica etc.) refere-se fundamentalmente a uma “crise de presença”, entendida como a crise do modo de vida ocidental baseado no constante impulso de expansão, crescimento e conquista. Uma crise civilizacional de alcance planetário.

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Uma teoria nas nuvens

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Segundo Yanis Varoufakis, em seu espantoso Technofeudalism: What Killed Capitalism[2], o capital agora está nas nuvens; para delírio da pós-modernidade, afirma peremptoriamente que o capital não se encontra mais tanto nas máquinas, mas se transformou em algoritmo e, como se fosse fumaça, subiu aos céus. É assombroso, já que ao ficar junto das estrelas, o danado desempregou os mercados. É também admirável porque, assim, o tinhoso conseguiu expandir o seu escopo: agora não explora só os trabalhadores assalariados na esfera da produção mercantil, mas arranca o couro também dos capitalistas. São afirmações tão abissais que é preciso provar que foram ditas:

 “O capital-nuvem (cloud capital) matou os mercados e os substituiu por uma espécie de feudo digital, onde não apenas os proletários — os precários —, mas também os burgueses e os capitalistas vassalos, estão produzindo mais-valor (…) [para certos senhores]. Eles estão produzindo aluguéis (rent). Eles estão produzindo aluguel de nuvem, porque o feudo agora é um feudo de nuvem, para os donos do capital de nuvem”.[3]

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Teorias da taxa de juros

Autores: Stavros Mavroudeas[1] & Th. Chatzirafailidis[2]

Três abordagens distintas

Existem três abordagens principais no pensamento econômico sobre a determinação da taxa de juros. Primeiro, analisaremos as duas mais importantes teorias burguesas da taxa de juros e, em seguida, apresentaremos separadamente a relevante teoria de Marx. Como será argumentado mais adiante, essa distinção é feita não apenas por razões de apresentação, mas principalmente por razões de substância científica.

A primeira teoria burguesa dos juros é a teoria neoclássica dos fundos emprestáveis. Sua ideia central gira em torno da existência de uma taxa natural de juros. Isso significa que a taxa de mercado tende a se aproximar da primeira no longo prazo. Assim, o ônus do ajuste “recai” sobre a taxa de mercado sempre que a poupança divergir dos investimentos. Mais detalhadamente, quando os investimentos superam a poupança e a taxa de juros de mercado é menor que a natural, a primeira aumenta até igualar a segunda, de modo a trazer a equalização da poupança com os investimentos. O mecanismo de ajuste inverso ocorre quando o investimento fica aquém da poupança, de modo que, no final, a economia sempre acaba em um estado de equilíbrio.

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Marcuse no século XXI

Autor: Amador Fernández-Savater [1] – Fonte: Outras Palavras

Herbert Marcuse foi talvez o filósofo mais popular e influente nas décadas de 60 e 70 do século passado, no calor dos movimentos contraculturais e da chamada Nova Esquerda. Por que sua leitura diminuiu hoje?

Arriscamos o seguinte: o declínio do interesse por Marcuse é paralelo ao declínio da capacidade utópica das sociedades. Ou seja, ao triunfo do que hoje se chama “realismo capitalista” e que vem repetir o seguinte: o que há é o que há .

No próprio pensamento crítico prevalece um certo chafurdar na impotência: goza-se com a descrição infindável de nossa submissão aos dispositivos de poder e de como toda tentativa de libertação é redirecionada para o interior do sistema (“tá vendo? Já te disse”).

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O capitalismo “já foi”?

Publica-se aqui uma resenha irônica e desdenhosa de quatro livros abaixo mencionados que analisaram criticamente o capitalismo após a crise econômica de 2008-09 e a pandemia de 2020-21 para anunciar que ele já foi superado – mesmo estando aí produzindo mercadorias, explorando trabalhadores e estraçalhando vidas.

Apesar do viés social-democrata pós-moderno do autor, apesar de falta de qualidade crítiica, ele fornece algumas informações que ajudam a fazer uma eventual avaliação desses folhosos. Segundo ele, esses livros surgiram porque essas duas crises ‘desferiram golpes devastadores em uma sociedade de mercado que já estava cambaleante – esvaziada que fora pela “financeirização” ou pela “desmaterialização” dos ativos”. Veja-se, pois, o que disseram em resumo.

O que foi o capitalismo?

Autor: James Livingston[1] – Project Syndicate – 16/02/2023

O que não acaba hoje em dia? O que não está à beira da extinção? A lista de isenções não é longa e, nós – seres humanos –, não estamos certamente nela.

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Sim, é suicidarismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Essa nota dá continuidade a outra que foi publicada em 12/2023 aqui em A terra é redonda, mas que não foi bem notada. Sob o propósito de caracterizar o extremismo neoliberal, ela recebera originalmente um título negativo, “não, não é fascismo”. O escrito, entretanto, saiu com um título afirmativo que também se mostrou bem justo, “extremismo neoliberal suicidário”. Ninguém deu bola, mas a questão é importante para o que vem vindo no século XXI com o ocaso do capitalismo.

O artigo tinha uma mensagem: eis que é preciso evitar usar a etiqueta “fascista” para caracterizar todos os extremismos de direita. Pois, esse costume impede uma melhor compreensão dessa prática política que, desde os anos 1980, vem buscando dar sustentação ao sistema fundado na relação de capital.

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A grande substituição

Publica-se aqui um pequeno artigo de uma autora que pensa a partir de uma idealização, o capitalismo liberal corrigido em seus excessos pela social-democracia. A sua tese de fundo é que o sistema econômico está embutido numa sociedade que supostamente garante a solidariedade social. Eis que essa solidariedade é contrariada constantemente pela sociabilidade posta pelo sistema mercantil generalizado – outro nome para o capitalismo.

A sociedade é assim pensada, portanto, não como “sociedade civil” tal como acontece na tradição que vai de Hegel a Marx, mas como comunidade – forma de existência dos humanos soldada supostamente por uma sociabilidade orgânica. Apesar disso, a sua questão parece relevante. O que vai acontecer na civilização humana realmente existente se o neoliberalismo extremista (que chama de populismo) predominar num grande número de países?

Publica-se porque faz um contraponto aos artigos Não, não é fascismo e Sim, é suicidarismo sim, ambos publicados neste blogue.

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Não, não é fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Às vezes, certas palavras se transformam em etiquetas que podem ser coladas em qualquer lugar que pareça interessante. É o que vem acontecendo com a palavra “fascista” que é usada por gente de esquerda quando enfrenta opiniões e ações controversas de gente de direita. Trata-se, é bem evidente, de uma tática de fácil emprego em entreveros políticos, mas que pode pecar por falta de rigor teórico: nem toda posição política de direita, ainda que adversa, pode ser denotada como fascista – mesmo quando se insurge como igualmente perversa.

Aqui não se quer considerar esse uso corriqueiro da palavra “fascista”, mas um outro que se afigura bem comum atualmente e que se vale de um embasamento bem mais austero. E ele se encontra, por exemplo, no artigo A ascensão global da extrema direita, de Sérgio Schargel, que veio à luz recentemente no sítio A terra é redonda. Os argumentos aí apresentados foram introduzidos por meio da seguinte epígrafe: “mais do que nunca, precisamos chamar e classificar o bacilo da extrema direita por seu nome verdadeiro: fascismo”.

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Bem-vindo ao mundo da policrise

Autor: Romaric Godin [1]– Sinpermiso – 02/01/2024

O historiador Adam Tooze ressuscitou a noção de “policrise”, que se tornou um tema favorito das elites políticas e econômicas mundiais. Consideramos, abaixo, a ascensão e queda dessa noção da moda.

Bruno Le Maire, Ministro das Finanças de França desde 2017, não é um escritor prolixo. Mas, nas horas vagas, ele também é profeta. No outono de 2021, quando apresentou a Lei das Finanças de 2022, disse aos deputados que o seu orçamento era a primeira pedra de uma “grande década de crescimento sustentável”. Foi um momento de otimismo: a economia global parecia estar se recuperando rapidamente da crise sanitária. Os comentários de Le Maire ilustram a euforia generalizada que aflorou nos círculos empresariais e entre os principais economistas após a superação da crise sanitária.

No dia 1º de janeiro de 2021, quando as feridas da Covid ainda estavam abertas, um dos principais colunistas do Financial Times, jornal da City de Londres, Martin Sandbu, abriu o ano novo de então com um texto intitulado: “Adeus 2020, ano do vírus; olá ‘loucos anos vinte’.” O termo final da alocução (…) refere-se à década de 1920, que, pelo menos nos Estados Unidos, foi um período de forte crescimento e de nascimento da sociedade de consumo. A posição de Martin Sandbu parecia simples. Os consumidores, tentando esquecer a crise sanitária, tal como um século antes tinham tentado esquecer os horrores da guerra, embarcaram num frenesi de gastos, colocando a economia num círculo virtuoso, ou seja, “na maior prosperidade num século”.

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Foley e Shaikh: economistas nobres sem Nobel

Autor: Michael Roberts – The New School Economic Review, 12/2023

Neste comentário, Michael Roberts recorre às autobiografias de Duncan Foley e Anwar Shaikh para refletir sobre as contribuições, muito importantes e bem abrangentes, desses dois autores.

Se há dois possíveis candidatos ao prêmio maior em Economia (conhecido como Nobel) que o mereceriam são Duncan Foley e Anwar Shaikh. Mas, em vez disso, o Prêmio Riksbank é sempre concedido a economistas convencionais, os quais muitas vezes não lançam luz sobre qualquer uma das questões econômicas e sociais candentes de nosso tempo.

Em vez disso, ao longo de suas longas carreiras, Foley e Shaikh aplicaram seu extenso conhecimento teórico às questões macro e microeconômicas que são verdadeiramente importantes: Foley escreveu sobre o papel do dinheiro, o crescimento, ciclos e desigualdade; Shaikh produziu análises sobre as crises, o comércio internacional, os lucros e até mesmo sobre o mercado de ações.

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