Há uma crise estrutural na China?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Este artigo é simplesmente uma compilação de informações, argumentos e teses de dois outros autores. O seu objetivo é tentar caminhar no sentido de encontrar uma resposta para a pergunta posta no título. Ele começa com uma longa citação de uma postagem de Michael Roberts sobre o segundo encontro da International Initiative for the Promotion of Political Economy (IIPPE), realizado em Madrid, entre 6 e 8 de setembro de 2023. Todas as citações longas estão em itálico. As parcas observações do autor estão em letra normal.

Na conferência principal do IIPPE houve boas apresentações sobre a China. Uma delas foi feita por Prof Dic Lo sob o título A Economia Política da “Nova Normalidade” [2]. Em sua apresentação, ele tratou de uma questão fundamental colocada nos meios de comunicação ocidentais, a saber, sobre a natureza da desaceleração do crescimento da economia capitalista na China. Será permanente ou, pior ainda, produzirá um retrocesso dramático?

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China: investimento ou consumo?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 08/2023

No segundo trimestre de 2023, a economia chinesa se expandiu em relação ao mesmo trimestre do ano anterior: cresceu 0,8% quando havia caído -1,9%. Parece forte, mas o crescimento trimestral foi de apenas 0,8%, havendo, pois, se desacelerado acentuadamente em relação aos 2,2% do primeiro trimestre de 2023.

Segundo uma medida confiável da atividade econômica, o PMI da China (índice de atividade econômica do Project Management Institute) de julho de 2023 caiu para 51,1, face a 52,3 no mês anterior (50 é o limiar entre a expansão e da contração). Este foi o valor mais baixo observado entre dezembro de 2022 e julho de 2023. A atividade fabril na China contraiu-se pelo quarto mês consecutivo.

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Alimentos, comércio e recessão

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 10/08/2023

A última medida de preços ao consumidor dos EUA, referente a julho de 2023, mostrou um aumento na taxa anual de inflação; foi 3,2% frente a 3% em junho. Esse resultado adveio principalmente da comparação (efeitos de base, como são chamados) com uma queda na taxa em julho passado em relação ao pico em junho.  O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, permaneceu muito mais alto, em 4,7% ao ano.

É bom lembrar aqui, que mesmo se a inflação caísse ainda mais e ficasse próxima de zero, os preços desde o fim da queda da pandemia de COVID subiram de 10% a 15% na maioria das economias do G7.  Sim, a taxa de inflação está desacelerando, mas os preços ao consumidor dos EUA estão 17% mais altos do que no início de 2021.

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Da inflação…

O vídeo que aqui se apresenta é uma tentativa de completar com teoria o que o artigo do economista político britânico Michael Robert apresenta como fato histórico. O seu artigo versa sobre o recente surto inflacionário na economia mundial. Para alcançar esse objetivo, faz-se uso extenso da teoria da inflação de Anwar Shaikh.

Uma tradução do artigo de Michael Roberts, aqui referenciado, encontra-se publicado neste blog, na postagem anterior. Eis aí o vídeo.

Video do autor do blog

Trata-se de uma experiência: uma arquivo em power-point foi transformado num vídeo. Supõe-se aqui que o conteúdo, uma apresentação didática, pode ser entendida sem uma apresentação muito extensa. Aqueles que quiserem fazer um comentário podem fazê-lo porque ele me ajudará a melhorar.

Inflação produzida por aumento dos lucros

Autor: Michael Roberts

Título original: Custo de vida e lucros – – The next recession blog – 12/07/2023

O último relatório de emprego da OCDE é um revelador da crise do custo de vida. Eis que permite saber se os aumentos salariais ou os lucros deram a maior contribuição para o aumento da inflação. Sobre os salários, a OCDE constata que os salários reais caíram em média 3,8% no último ano na OCDE. Pois, o relatório afirma: “Os mercados de trabalho elevaram os salários nominais, mas menos do que a inflação, levando a uma queda dos salários reais em quase todas as indústrias e países da OCDE.”

As quedas variaram consideravelmente de país para cada país da OCDE.  As maiores quedas foram na Escandinávia e no Leste Europeu, onde os preços da energia subiram mais devido à perda de petróleo e gás russos, enquanto a queda dos EUA é uma das mais baixas, já que os preços da energia, embora subindo, não dispararam tanto.  A Europa teve que mudar da energia de gasodutos da Rússia para passar a receber gás natural liquefeito (GNL), muito mais caro por causa do transporte.

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O novo Consenso de Washington

Autor: Michael Roberts – Fonte: The next recession blog – 08/06/2023

No mês de março deste ano, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, delineou a política econômica internacional do governo americano.  Fez um discurso fundamental porque, como graduado funcionário, nele explicou em que consiste o chamado de Novo Consenso de Washington sobre a política externa dos EUA.

O Consenso de Washington original constituía-se de um conjunto de dez prescrições de política econômica consideradas como um pacote de reformas “padrão” destinado aos países em desenvolvimento em crise de crescimento. Ele seria fomentado por instituições sediadas em Washington, D.C., como o FMI, o Banco Mundial e o Tesouro dos EUA. O termo foi usado pela primeira vez, em 1989, pelo economista inglês John Williamson.

As prescrições abrangeram políticas de promoção do livre mercado, como a “liberalização” comercial e financeira e a privatização de ativos estatais. Recomendavam também políticas monetárias e de gasto público destinadas a minimizar os déficits orçamentários e a despesa pública.  Era o modelo de política neoclássico aplicado ao mundo e imposto aos países pobres pelo imperialismo norte-americano e suas instituições aliadas.  A chave era o “livre comércio” sem tarifas e outras barreiras, o livre fluxo de capitais e a regulação mínima – um modelo que beneficiava especificamente a posição hegemônica dos EUA.

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A crise do capitalismo formalmente democrático

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 12/02/2022

Em seu último livro, o colunista do FT e guru keynesiano Martin Wolf parte da premissa de que capitalismo e democracia andam juntos como uma mão em uma luva. Mas ele está preocupado: “vivemos em uma época em que as falhas econômicas abalaram a fé no capitalismo global. Alguns agora argumentam que o capitalismo é melhor sem democracia; outros que a democracia é melhor sem o capitalismo”.

No entanto, em seu livro, Wolf afirma que, embora “o casamento entre o capitalismo e a democracia tenha se tornado preocupante”, qualquer “divórcio seria uma calamidade quase inimaginável”. Apesar dos passos vacilantes do capitalismo no século XXI: desaceleração do crescimento, aumento da desigualdade, desilusão popular generalizada, o “capitalismo democrático“, como ele chama o sistema da relação de capital, “embora inerentemente frágil, continua sendo o melhor sistema que conhecemos para o florescimento humano”.

Wolf define “democracia” como “sufrágio universal, democracia representativa, eleições livres e justas; participação ativa das pessoas, como cidadãos, na vida cívica; proteção dos direitos civis e humanos de todos os cidadãos igualmente; e um estado de direito que vincula igualmente todos os cidadãos”. Por capitalismo, “quero dizer uma economia na qual os mercados, a competição, a iniciativa econômica privada e a propriedade privada desempenham papéis centrais”.

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Acabou a crise bancária?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/03/2023

Os preços das ações dos bancos se estabilizaram no início desta semana. E todos os principais funcionários do Federal Reserve, do Tesouro dos EUA e do Banco Central Europeu estão assegurando aos investidores que a crise acabou. Na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que o sistema bancário dos EUA era “forte e resiliente” e não havia risco de um colapso bancário como em 2008-9.

A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, por sua vez, disse que o setor bancário dos EUA estava “se estabilizando”. Afirmou que o sistema bancário dos EUA era forte. Além disso, o presidente do BCE, Christiane Lagarde, disse repetidamente a investidores e analistas que “não havia oposição” entre combater a inflação aumentando as taxas de juros e preservar a estabilidade financeira.

Portanto, tudo está bem ou pelo menos logo estará. E isso supostamente se deve ao maciço apoio à liquidez que o Fed e outros órgãos de empréstimo do governo dos EUA estão oferecendo. Além disso, os bancos mais fortes intervieram para comprar os bancos em colapso (SVB e Credit Suisse) ou investir dinheiro em bancos falidos (First Republic).

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Criação destrutiva ou risco moral?

Michael Roberts – The next recession blog – 15/03/2022

Enquanto escrevo, os preços das ações e títulos dos bancos regionais dos EUA estão caindo. E um grande banco suíço internacional, o Credit Suisse, está à beira da falência. Uma crise financeira não vista desde a crise financeira global de 2008 parece estar se desenrolando. Qual será a resposta das autoridades monetárias e financeiras?

Em 1928, o então secretário do tesouro e banqueiro dos EUA, Andrew Mellon, pressionou por taxas de juros mais altas para controlar a inflação e o crédito alimentou a especulação no mercado de ações. Sob seu legado, o Federal Reserve Board começou a aumentar as taxas de juros e, em agosto de 1929, o Fed elevou a taxa a um novo patamar. Apenas dois meses depois, em outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York sofreu o pior crash de sua história no que foi chamado de “Terça-feira Negra ”. A história se repete, como a velha destruição criativa ou como um novo episódio de risco moral?

Em 1929, Mellon não se intimidou. Ele aconselhou o então presidente Hoover a “liquidar a mão-de-obra, liquidar as ações, liquidar os fazendeiros, liquidar os imóveis… isso eliminará a podridão do sistema. Os altos custos de vida e a alta qualidade de vida cairão. As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras aprenderão com as pessoas menos competentes.”Além disso, ele defendeu a eliminação de bancos “fracos” como um pré-requisito, ainda que difícil, mas necessário, para a recuperação do sistema bancário. Essa “eliminação” seria realizada por meio da recusa de emprestar dinheiro aos bancos (tomando empréstimos e outros investimentos como garantia) e recusando-se a colocar mais dinheiro em circulação. A Grande Depressão da década de 1930 seguiu-se a um grande colapso bancário.

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As causas da inflação atual

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 27/02/2023

A Eastern Economics Association (EEA) realizou sua conferência anual no último final de semana. Ela não é tão grande quanto a enorme conferência anual da American Economic Association (ASSA), mas incorpora apresentações de teses econômicas muito mais heterodoxas e radicais do que a ASSA.

Foram centenas de trabalhos apresentados. Vou me concentrar em apenas alguns trabalhos das sessões organizadas pela Union of Radical Political Economics (URPE), os quais me foram gentilmente enviados por seus autores.

Nesta primeira de duas postagens sobre temas da conferência, examinarei a palestra de abertura de Joseph Stiglitz. O professor Stiglitz é ganhador do prêmio Nobel (Riksbank) em Economia, ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-presidente da EEA; agora, é economista-chefe do centro de pesquisa Roosevelt Institute (nome este que indica já a sua orientação política). Stiglitz tem sido um dos principais críticos da economia neoclássica dominante; também se apresenta como defensor de um capitalismo que funciona para muitos – não para poucos.

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