Mudança no mercado de trabalho nos EUA em perspectiva histórica

Adam Tooze – Blog do autor – 27/01/2025

O declínio dos empregos no varejo. Mudança tecnológica no mercado de trabalho dos EUA por David Deming, Christopher Ong e Lawrence H. Summers

De 1970 até os primeiros anos da primeira década dos anos 2000, a produtividade do trabalho cresceu mais rapidamente na manufatura do que na economia em geral. Esse crescimento coincide quase exatamente com o período de rápido declínio do emprego no trabalho de colarinho azul mostrado na figura 1. O crescimento da produtividade na manufatura foi igual ou mais lento do que o crescimento econômico geral nas décadas de 1950 e 1960 e, mais recentemente, desde 2010.

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Economia excepcional

Autor: MichaelRoberts – The next recession blog – 14/01/2025

Na próxima semana, o presidente dos EUA, Joe Biden, termina seu mandato, para ser substituído pelo Donald. Biden teria sido extremamente popular entre os norte-americano e provavelmente teria concorrido e conseguido um segundo mandato como presidente, se o PIB real dos EUA tivesse aumentado 4,5-5,0% em 2024, e se durante todo o seu mandato desde o final de 2020, o PIB real tivesse subido 23%; e se o PIB per capita real tivesse aumentado 26% nesses quatro anos. E ele teria sido parabenizado se a taxa de mortalidade por Covid durante a pandemia de 2020-21 tivesse sido uma das mais baixas do mundo e a economia evitasse a queda pandêmica na produção.

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Mudou, mas ainda é capitalismo

Autor: Cédric Durand[1]

O teórico Fredric Jameson diz que “o mercado é… o Leviatã em pele de cordeiro”; “a sua função não consiste em encorajar e perpetuar a liberdade, mas sim em reprimi-la”. [2] A ideologia do mercado se sustenta numa aparência de liberdade, mas, na verdade, proíbe os seres humanos de tê-la, ou seja, que eles possam tomar coletiva e conscientemente o seu destino econômico nas próprias mãos, alegando que tal iniciativa só pode levar à tragédia. Segundo ela, nós temos a sorte de poder deixar as coisas para o Deus oculto da mão invisível, o mercado smithiano que transforma vícios privados em virtudes públicas e que, supostamente, transforma o choque de interesses em algo harmonioso?[3]

Esse mito leva a uma abdicação da liberdade de deliberar e, assim, do poder organizar o futuro. Implica também no abandono da possibilidade de rever os planos em conjunto conforme se desenrola o inesperado. Por meio do projeto neoliberal de livre mercado, as sociedades abandonam o domínio das coisas ao longo do tempo para confiar nos mecanismos impessoais das finanças.

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Política existêncial: Eros em Marcuse

Autor: Ian Angus [1]

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Vou discordar um pouco de Andrew Feenberg no escrito O conceito de Eros em Marcuse. Ele discorre sobre o uso que Marcuse fez de Freud para desenvolver um conceito de razão erótica. Fez, assim, uma excelente apresentação do projeto de Marcuse. Não se poderia esperar menos de Andrew, especialmente em assuntos marcuseanos.

Talvez eu possa começar sublinhando um aspecto revelador da tentativa de síntese entre Marx e Freud feita por Marcuse. A maioria das discussões sobre Freud feita pelos marxistas foi inspirada na tentativa de explicar o fracasso da classe trabalhadora em cumprir a tarefa revolucionária a ela atribuída, em especial diante do fascismo. Freud foi invocado como um suplemento, no sentido derridiano, para explicar a irracionalidade da atração da classe trabalhadora pelo fascismo. Tal suplemento poderia deixar intocado o conceito de razão operante no marxismo – e mesmo a dicotomia razão/irracional em geral.

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A onda reacionária e a pulsão de morte

Autor: Amador Fernández-Savater [1] – CTXT – 24/06/2023

O clima físico e afetivo hoje é revanchista, desigual, sacrificial para com os mais fracos. É aí que as mensagens da direita pegam. Não tanto por causa de sua força de convicção, persuasão ou sedução, mas porque ressoam com corpos tensos

  “Só o amor nos permite escapar da repetição” (Jorge Luis Borges)

O que significa a “onda reacionária” globalmente, aqui na Espanha [e na América Latina]? Como entender esse fenômeno complexo e multifacetado para melhor combatê-lo?

Proponho esta interpretação: a onda reacionária está tentando sustentar um mundo em crise, um modelo que está vazando para todos os lados.

O que hoje se chama de “policrise” (a combinação das crises climática, energética, alimentar, econômica etc.) refere-se fundamentalmente a uma “crise de presença”, entendida como a crise do modo de vida ocidental baseado no constante impulso de expansão, crescimento e conquista. Uma crise civilizacional de alcance planetário.

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O conceito de totalidade na crítica do capitalismo

Autora: Sandrine Aumercier[1]

À medida que se aproxima de seus limites internos e externos, a mercantilização do mundo tenta relançar a acumulação de capital de forma cada vez mais enfurecida, como se estivesse diante de uma máquina que está parada, mas que deve continuar funcionando a todo custo.

A violência desse esforço, que não para diante de qualquer esfera da existência social que quer anexar, só é igualada pelo inevitável esgotamento de suas fontes de movimento. Diante desse horizonte totalitário, a teoria crítica que pretende compreender esse funcionamento não pode almejar menos do que abraçar o nível da totalidade.

Voltando-se para esse propósito, ela tem de desafiar a fobia daqueles que diagnosticam sempre alguma tendência totalitária escondida no próprio conceito de totalidade. Mas também é preciso renunciar ao fruto venenoso dos amanhãs cantados a que o conceito de totalidade parece convidar.

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Cuéllar no divã da Dra. Lógica

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Após citar por extenso a introdução de um artigo de David Pavón Cuéllar, o qual recebeu, dele próprio, o título Marx, Lacan et la condition prolétarienne du sujet comme force de travail de l’inconscient, serão apresentados alguns comentários críticos. Estes não serão terminantes, mas se esforçarão para dar forma a uma reflexão sobre um tema que se julga bem importante: a questão do sujeito na crítica da economia política e, a fortiori, na psicanálise. Eis o texto de Cuéllar:

Há uma profunda afinidade entre o sujeito em Marx e em Lacan. Ambos são frustrados, explorados, alienados, separados de seu ser e despojados de seu saber. Ambos se encontram no lugar de uma verdade do saber que irrompe como sintoma no saber. Ambos são reduzidos a força de trabalho pura e simples para fazer um trabalho que não lhes pertence.

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A moral jansenista e a compulsão do capitalismo (II)

Autor Samo Tomšič

O surgimento da fé a partir da compulsão de repetir

Depois de vincular a noção de mais-valor à transformação moderna do gozo, Lacan volta-se para Pascal e, em uma série de sessões do Seminário XVI, focaliza um detalhe específico dos Pensées de Pascal. Observa a notória aposta com que Pascal se empenha, por um lado, em desenvolver um argumento probabilístico para a existência de Deus e, por outro, em lançar luz sobre o mecanismo da conversão, a transformação do incrédulo em crente.

Se a ligação de Pascal com o capitalismo deve ser buscada em algum lugar, este vem a ser o vínculo – a princípio um tanto excêntrico – entre a questão da existência de um ser supremo e o jogo de aposta, na função estrutural dessa aposta e no surgimento da fé. A aposta, de fato, representa uma sofisticada mudança na tradição filosófica já que o esforço fundamental da filosofia sistemática consistiu sempre em fornecer provas sólidas da existência de Deus. Ao longo de sua história, a filosofia investiu muito esforço nessa empreitada, mas os resultados foram fracos; particularmente com o advento da ciência moderna, já que, por causa dela, a certeza da existência de Deus tem sido cada vez mais minada internamente pela dúvida ateísta.

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A desdolarização em processo

Autor: Justin Podur[1] – Counterpunch – 26/06/2023

A desdolarização, aparentemente, “goste-se ou não”, está acontecendo e vem para ficar. É o que mostra um vídeo de maio de 2023 do Quincy Institute for Responsible Statecraft, um “think tank” voltado para a paz com sede em Washington, DC. Mas ele não está sozinho na discussão da desdolarização: os economistas políticos Radhika Desai e Michael Hudson delinearam a sua mecânica em quatro programas realizados entre fevereiro e abril de 2023, no canal do YouTube, Geopolitical Economy Hour.

O economista Richard Wolff forneceu uma explicação de nove minutos sobre esse tópico no canal Democracy at Work. Por outro lado, meios de comunicação como o Business Insider garantiram aos seus leitores que o domínio do dólar não terá continuidade. O jornalista Ben Norton, numa audiência bipartidária de duas horas no Congresso, realizada em 7 de junho – “Dominância do dólar: preservando o status do dólar americano como moeda de reserva global” – falou sobre a defesa da moeda americana diante da desdolarização. Durante a audiência, os membros do Congresso expressaram otimismo, mas também grande ansiedade, sobre o futuro do papel supremo do dólar. Mas o que motivou esse debate?

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Os descaminhos do marxismo de Kojin Karatani

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Lembro, de início, que um resumo das teses de Kojin Karatani feito por Daniel Tutt já foi publicado neste blog: aqui 1, aqui 2 e aqui 3. Agora, na nota que se segue, procura-se criticá-las da perspectiva da apresentação dialética de O capital.

Talvez seja aceitável esperar que ocorram erros na interpretação dos escritos de Karl Marx (como de qualquer outro autor), mas também é de se aguardar que esses erros sejam criticados e retificados. Aqui se examina uma opinião extraviada (julga-se) de Kojin Karatani [2]  sobre o conteúdo da exposição contida em O capital por meio da qual o autor clássico deu a conhecer o próprio conceito de capital como núcleo dinâmico do modo de produção capitalista. E ela está na base, no fundamento, no alicerce de seu livro A estrutura da história mundial [3], de 2014, como um todo.

Karatani se vale da apresentação resumida – e bem conhecida – do materialismo histórico que se encontra no Prefácio de Para a crítica da economia política, de 1859, para desenvolver uma crítica interna a essa concepção tal como formulada originalmente.[4] Aí, como bem se sabe, Marx divide a sociedade em geral em estrutura (a totalidade das relações de produção) e em superestrutura (instituições legais e políticas, assim como as formas culturais da consciência). Com base nessa metáfora arquitetônica, então, diz:

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