Foley e Shaikh: economistas nobres sem Nobel

Autor: Michael Roberts – The New School Economic Review, 12/2023

Neste comentário, Michael Roberts recorre às autobiografias de Duncan Foley e Anwar Shaikh para refletir sobre as contribuições, muito importantes e bem abrangentes, desses dois autores.

Se há dois possíveis candidatos ao prêmio maior em Economia (conhecido como Nobel) que o mereceriam são Duncan Foley e Anwar Shaikh. Mas, em vez disso, o Prêmio Riksbank é sempre concedido a economistas convencionais, os quais muitas vezes não lançam luz sobre qualquer uma das questões econômicas e sociais candentes de nosso tempo.

Em vez disso, ao longo de suas longas carreiras, Foley e Shaikh aplicaram seu extenso conhecimento teórico às questões macro e microeconômicas que são verdadeiramente importantes: Foley escreveu sobre o papel do dinheiro, o crescimento, ciclos e desigualdade; Shaikh produziu análises sobre as crises, o comércio internacional, os lucros e até mesmo sobre o mercado de ações.

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O poder de mercado é permanente

Mordecai Kurz [1] – Project Syndicate – 1/12/2023

E a concorrência não o elimina

O dinheiro gira e cresce

Economistas e formuladores de políticas concordam que as melhorias tecnológicas são cruciais para o crescimento econômico. A revolução da tecnologia da informação (TI) das últimas quatro décadas impulsionou a economia; por isso, muito poucas pessoas gostariam de pará-la. Mas desde a década de 1980, à medida que essa revolução se enraizou, a economia dos EUA experimentou um aumento acentuado no poder de mercado das empresas, definido predominantemente como sua capacidade de afetar os preços.

O aumento da produtividade e o aumento do poder de mercado são os resultados gêmeos do processo de inovação. Ambos resultam da propriedade privada da tecnologia e dos poderes legais conferidos por patentes ou segredos comerciais. Quando uma onda de inovação como a revolução da TI decola, o poder de mercado rapidamente se acumula e se torna uma força significativa, com profundas implicações econômicas e políticas. Em meu livro recente, chamo essa força única de “poder de mercado da tecnologia

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Inteligência artificial: bem público ou privado?

Michael Roberts – The next recession blog – 21/11/2023

O que fazer?

A demissão chocante de Sam Altman, o fundador da OpenAI, pelo próprio conselho da empresa que fora criada por ele, revela as contradições emergentes no desenvolvimento desse tipo de tecnologia. A crise atinge a ChatGPT, mas também outros empreendimentos de “inteligência artificial generativa”, os quais estão impulsionando a atual revolução no campo da inteligência artificial (IA).

Será que a IA e esses modelos de aprendizagem de idiomas (também chamados de LLM) trarão benefícios novos, maravilhosos, para as nossas vidas, reduzindo as horas de trabalho e elevando nosso conhecimento a novos patamares de esforço humano? Ou a IA generativa levará ao aumento do domínio da humanidade pelas máquinas, assim como a uma desigualdade ainda maior de riqueza e renda, à medida que os proprietários e controladores da IA se tornam “vencedores que levam tudo”, enquanto o resto da humanidade é “deixado para trás”?

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Zizek pergunta: onde está a ruptura metabólica?

Não está aí? Eis, pois, uma pseudo questão.

Publica-se aqui, em sequência, um artigo de Slavoj Žižek que foi divulgado pelo sítio LavraPalavra, em 2020. Eis que ele ganhou importância diante o agravamento da crise climática e, num plano ainda mais geral, da crise ecológica. Nesse artigo, o filósofo esloveno faz uma crítica ao livro Kohei Saito, O ecossocialismo de Karl Marx. E o faz do ponto de vista de seu neohegelianismo lacaniano.

O seu ponto principal consiste em argumentar que o conceito de ruptura não é adequado para tratar do problema. Segundo Žižek, essa noção pertence ao materialismo dialético; eis que, pensando ainda deste modo, se acolhe a separação entre sociedade e natureza, considerando essa última como uma fonte de riqueza, ou seja, como uma base que permite o desenvolvimento das forças produtivas.

O que Saito teria feito em seu livro não teria passado de uma inversão do produtivismo original em um antiprodutivismo. Daí que ele chame a sua posição diante do problema historicamente criado pelo desenvolvimento do capitalismo de “comunismo descrescimentista”. Žižek, por seu turno, parece propor que uma transformação ocorreu já na ordem simbólica, pois, agora, a natureza está totalmente e irreversivelmente humanizada É assim que ele termina o artigo: “não há retorno a um sentimento autêntico de nossa unidade com a natureza: a única maneira de enfrentar os desafios ecológicos é aceitar completamente a desnaturalização radical da natureza”.

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Nova era de catástrofes: uma mapa da polícrise do capital

Autora da resenha: Anne Alexander

É tentador, às vezes, dar de ombros para as notícias de desastres e de catástrofes como se fossem simplesmente parte da vida normal. Uma sequência acelerada de crises financeiras, eventos climáticos extremos, pandemias, guerras e agitação civil desfilou diante de nossos olhos nos últimos anos.

A mensagem urgente do importante novo livro de Alex Callinicos, The new age of Catastrophes (Polity Press, 2023), consiste em dizer que aceitar esse estado de coisas como um “novo normal” é perigoso. Trata-se, por isso, de leitura vital para quem quer participar da luta por um futuro em que se possa continuar vivendo.

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Policrise novamente

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 08/10/2023

No início deste ano, escrevi um poste sobre o que alguns chamam de ‘policrise’. O termo indica que o modo de produção capitalista está se defrontando com diversas tensões disruptivas simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Tudo isso começou a acontecer já no início do século XXI.  Palavra da moda na esquerda conectada às novidades, resume, em muitos aspectos, a minha própria descrição das contradições do sistema. Aquilo que designei como “longa depressão” já da década de 2010 está agora atingindo o seu auge.

Como neste mês de outubro as principais agências econômicas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se reúnem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. É bom verificar o que está a acontecer com as contradições que compõem a policrise do capitalismo.

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O retorno da psicopolítica

Autor: Eli Zaretksy [1] – Sidecar – 22/09/2023

Como que demonstrando que o reprimido retorna, a política irrompeu no mundo supostamente apolítico da psicanálise americana. Um grupo de defesa, Black Psychoanalysts Speak e um documentário, Psychoanalysis in El Barrio, procuram corrigir os preconceitos raciais e de classe dessa disciplina, a análise.

Unbehagen, um serviço de psicanalítico popular, está envolvido num debate agitado sobre se é necessário combinar o gênero, a raça, a etnia e a orientação sexual do analista com os do paciente. A própria Associação Psicanalítica Americana (APsaA) foi abalada por recriminações políticas, expurgos, demissões e denúncias. Um artigo de Donald Moss, publicado no jornal da associação, forneceu o catalisador para isso ocorresse. De acordo com seu resumo:

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Os ciclos de globalização seguem a taxa de lucro

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 9/09/2023

O que a economia dominante entende por globalização é a expansão acelerada do comércio e dos fluxos de capital (mas não do trabalho) livremente através das fronteiras.

A globalização, assim definida como a expansão do comércio e dos fluxos de capitais a nível mundial, ocorreu em ondas, ou seja, períodos de rápida expansão do comércio e do capital a nível mundial e, em seguida, períodos em que o comércio e os fluxos de capitais diminuíram e os países reverteram para barreiras comerciais e de capital. Penso que podemos distinguir três ondas de globalização, por volta de 1850-80; por volta de 1944-70; e o maior de meados da década de 1980 até o final do século XX.

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Há uma crise estrutural na China?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Este artigo é simplesmente uma compilação de informações, argumentos e teses de dois outros autores. O seu objetivo é tentar caminhar no sentido de encontrar uma resposta para a pergunta posta no título. Ele começa com uma longa citação de uma postagem de Michael Roberts sobre o segundo encontro da International Initiative for the Promotion of Political Economy (IIPPE), realizado em Madrid, entre 6 e 8 de setembro de 2023. Todas as citações longas estão em itálico. As parcas observações do autor estão em letra normal.

Na conferência principal do IIPPE houve boas apresentações sobre a China. Uma delas foi feita por Prof Dic Lo sob o título A Economia Política da “Nova Normalidade” [2]. Em sua apresentação, ele tratou de uma questão fundamental colocada nos meios de comunicação ocidentais, a saber, sobre a natureza da desaceleração do crescimento da economia capitalista na China. Será permanente ou, pior ainda, produzirá um retrocesso dramático?

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Uma crítica da ideia de financeirização

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O uso do termo “financeirização” é muito difundido no campo da esquerda e, assim, do esforço de compreensão do capitalismo contemporâneo. Recentemente, saiu do prelo um bom livro sobre o tema, escrito por Ilan Lapyda, Introdução à financeirização (CEFA editorial, 2023). Para esse autor, esse fenômeno se manifestou após as crises dos anos 1970 como um movimento próprio da acumulação de capital. Eis que este tendeu a sair em parte da esfera produtora de valor e a se concentrar mais e mais na esfera financeira, amontoando na forma de dívidas. Ora, segundo ele, esse processo deslanchou à medida que, nas duas décadas anteriores, ocorreu superacumulação de capital (que aparece, por exemplo, como excesso de capacidade) e queda da taxa de lucro.

A financeirização, contudo, não veio sozinha, mas acompanhada: “A financeirização, nessa perspectiva” – diz Lapyda –, “se associou intimamente ao advento do neoliberalismo e ao tipo de globalização que impulsionou. O seu papel de destaque (…) foi alcançado por meio de um movimento de liberalização e desregulação dos sistemas financeiros” ocorrido dos anos 1970 em diante.

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