O capitalismo britânico está estagnado

Autor: Michel Roberts – The next recession blog – 04/07/2024

Os cidadãos do Reino Unido votaram em uma eleição geral em 4 de julho de 2024.  As pesquisas de opinião atualmente preveem que o Partido Conservador, após 14 anos no governo, será fortemente derrotado.  Espera-se que o Partido Trabalhista, de oposição, ganhe uma maioria de mais de 250 assentos. Trata-se de um deslizamento de terra recorde, pois os conservadores obterão menos de 100 assentos.

Mas antes da eleição, 75% dos britânicos mostraram que têm uma visão negativa da política na Grã-Bretanha.  Eis que os partidos Trabalhista e Conservador devem registrar uma menor parcela combinada de votos em um século.  Em vez disso, partidos menores como a Reforma, os Liberais Democratas e os Verdes fizeram avanços.

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A direita populista na Europa

Jon Bloomfield[1] e David Edgar[2] – Europa Social – 2/07/2024

A narrativa nacional-populista da extrema-direita ainda não foi contestada – apesar de sua total incoerência.

A líder nacional do Reunião (Rassemblement), Marine Le Pen, na convenção de extrema direita em Madri, ocorrida em maio de 2024 – mostrou de modo bem patente que a sua “prioridade nacional” estatista contradizia o libertarismo econômico do presidente argentino, Javier Milei. Mas eles estavam de “mãos dadas”, extranhamente juntos.

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O impacto da IA na sociedade

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 6/06/2024

Abordei já a questão do impacto da inteligência artificial (IA), assim como dos novos modelos inteligentes de aprendizagem, tais como o Copilot, o ChatGPT etc., nos empregos e na produtividade do trabalho.

A previsão padrão sobre os efeitos da IA veio dos economistas do Goldman Sachs, o principal banco de investimentos dos Estados Unidos.  Eles avaliaram que, se a tecnologia cumprisse sua promessa, ela traria um “abalo significativo” no mercado de trabalho, pois afetaria o equivalente a 300 milhões de trabalhadores em tempo integral nas principais economias, já que exporia à automação os seus empregos.

Advogados e pessoal administrativo estariam entre os que correm maior risco de serem demitidos (assim como, provavelmente, os economistas!). Eles calcularam que cerca de dois terços dos empregos nos EUA e na Europa são passíveis em algum grau de serem automatizados por meio de IA. Chegaram a tal conclusão com base em dados sobre as tarefas normalmente executadas em milhares de ocupações. 

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Esquerda além da resistência

Autor: Rodrigo Santaella [1] – IHU – 11/06/2024

Não basta enfrentar ameaças o extremismo de direita; é preciso voltar a se orientar para o futuro: “A agência coletiva parece relegada ao segundo plano em nome de prognósticos e diagnósticos acerca do desenvolvimento tecnológico propriamente dito”, constata o cientista político

Se, por um lado, o aceleracionismo de esquerda tem riscos e limites ao depositar sua confiança no desenvolvimento tecnológico para garantir avanços e transformações sociais, por outro, esta corrente teórico-política tem o “mérito” de “chacoalhar” a esquerda tradicional, “resignada, acomodada, ordeira, ou seja, uma esquerda que se adequou à ordem e desistiu de qualquer tipo de imaginação política e, no limite, concebeu a ideia de que a sua única tarefa possível é administrar o capitalismo”, resume Rodrigo Santaella na apresentação das principais ideias que marcam o pensamento conhecido como aceleracionismo de esquerda.

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Adam Smith, 300 anos depois

Michael R. Kratke [1]14/03/2024

Os liberais ainda o reverenciam hoje; como se sabe, vários think tanks  radicais pró-mercado são nomeados e referenciados por ele. O Instituto Adam Smith, em Londres, foi e continua sendo um dos mais importantes focos do neoliberalismo. Como costuma acontecer com os grandes autores, a sua extensa obra é pouco lida hoje. Na melhor das hipóteses, presta-se atenção apenas a trechos como aquele que fala da “mão invisível” do mercado. Adam Smith, que nasceu há trezentos anos em Kirkcaldy, perto de Edimburgo, é um dos pensadores mais incompreendidos da era moderna. Grande parte de seu patrimônio literário foi queimado por vontade própria, um total de 18 cadernos escritos à mão muito apertadamente.

Morreu aos 67 anos mundialmente famoso. Viveu e trabalhou na Escócia, em Glasgow e Edimburgo, mas também passou alguns anos em Londres. Viajou para a França e Suíça por mais de dois anos e conheceu a elite intelectual de seu tempo em Paris. Em casa, seus contemporâneos o consideravam o arquétipo do professor distraído que, pelo menos uma vez, andou pela rua principal monologando consigo mesmo. Mas esse cavalheiro um tanto peculiar lidou com as maiores mentes de seu tempo, com David Hume, bem como com Voltaire, Diderot, Turgot e Quesnay.

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Pouco desejo e muita obediência

Autor:  Amador Fernández-Savater[1] – IHU – 29/05/204

Segundo Amador Fernández-Savater, na nossa sociedade há muito pouco desejo e muita obediência aos mandatos de desempenho e produtividade. Sobre esse tema, segue-se uma entrevista que deu a Danele Sarriugarte Mochales e que foi publicada originalmente por Argia e reproduzida por El Salto, 29-05-2024.

DSM – Para começar, eu gostaria de perguntar sobre o ponto de partida do livro, que é composto por vários tipos de materiais. Como isso surge?

AFS – Há um compromisso com o livro como uma tecnologia, uma tecnologia muito poderosa. O que quero dizer? Você publica, as pessoas leem com liberdade e rapidez nas redes. É muito bom, há muitos textos de intervenção no presente, nos debates do presente. Mas fazer livro é outra coisa, há um trabalho de encontro e de reorganização, percebe-se como os problemas e as obsessões insistem continuamente, como se encaminham. O título permite articulação. O material é lido de forma diferente.

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Rentismo: um novo modo de produção?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

Ladislau Dowbor, por meio de um artigo que denominou de A sociedade na era digital: um novo modo de produção (2024), propôs que o rentismo, propiciado supostamente pelas novas tecnologias da chamada “indústria 4.0” e alavancado pela financeirização, está no fundamento de um novo modo de produção.

Enquanto o capitalismo industrial havia apropriação do excedente e geração de mais capacidade produtiva por meio do investimento, no novo modo produção em emergência há, segundo ele, apropriação do excedente por meio do rentismo sem que ocorra uma ampliação dessa capacidade, de modo correspondente à acumulação. Eis o que diz:

Trata-se de outro modo de produção em construção, em que a financeirização supera a acumulação produtiva de capital, a exploração por meio do rentismo supera a exploração por meio de baixos salários (mais-valia), inclusive porque se desloca o próprio conceito de emprego. (Dowbor, 2014).

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Capitalismo progressista ou suicidário?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 13/05/2024

Capa do livro

O economista liberal de esquerda e ganhador do Prêmio Nobel (Riksbank) Joseph Stiglitz tem outro livro para proclamar os benefícios do que ele chama de “capitalismo progressista”.  O título, The road to freedom, é uma glosa com o título do infame livro de Friedrich Hayek, The Road to Serfdom, publicado em 1944.

Antes de prosseguir, veja-se o que diz um autor de uma resenha publicada no The Guardian:

Stiglitz acha que o pensador monetarista favorito de Thatcher é responsável por uma desertificação da esperança humana. Mas o que significa para o futuro do capitalismo que as pessoas estejam perdendo a esperança?  Por enquanto, muitos se agarram ao pouco que obtém explorando o seu “capital humano”, mas o que ocorrerá quando perceberem que isso é bem insuficiente?  

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O que deu errado com o capitalismo?

Autor: Michael Robert – 27/05/2024

Ruchir Sharma

Ruchir Sharma tem um livro chamado O que deu errado com o capitalismo?  Ruchir Sharma é investidor, autor, gestor de fundos e colunista do Financial Times. Ele é o chefe dos negócios internacionais da Rockefeller Capital Management e foi investidor de mercados emergentes no Morgan Stanley Investment Management.

Com essas credenciais – ele está “dentro da besta” ou mesmo é “uma das bestas” –, ele deveria saber a resposta para essa sua pergunta.  Em uma resenha de seu livro no Financial Times, Sharma apresenta seu argumento.  Primeiro, ele diz:  “preocupo-me como os EUA estão liderando o mundo agora. A fé no capitalismo americano, que foi construído sobre um governo limitado que deixa espaço para a liberdade e a iniciativa individuais, despencou.”

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Marx e Freud, um pelo outro

Qual é o tema da teoria crítica?[1]

Sandrine Aumercier[2] e Frank Grohmann[3]

A hipótese freudiana do inconsciente é inseparável de uma crítica do sujeito; o exame de Marx das categorias da economia política constitui uma crítica às relações sociais objetivas do capitalismo. As pesquisas enciclopédicas de Marx em todos os campos científicos de seu tempo, bem como as incansáveis incursões de Freud em disciplinas vizinhas – e, em particular, na teoria da cultura – mostram que nenhum dos dois desconhecia as limitações de suas respectivas abordagens. Pelo contrário, eles foram receptivos ao fato de que o método empregado exigia necessariamente uma extensão para além de si mesmo. Nenhum deles, entretanto, foi capaz de extrair todas as consequências dessa necessidade.

O que ambas as críticas têm em comum é que elas retornam à materialidade da vida psíquica e da vida social. A psicanálise o faz por meio da análise do desvio das formações do inconsciente; a crítica da economia política o faz por meio do exame das consequências sociais da redução da vida humana a um mero apêndice do movimento autônomo do valor, algo que acontece às costas do portador da função. O problema da consciência emerge em ambos como o verdadeiro escândalo.

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