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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Financeirização e capitalismo

Figura TinaFinanceirização: Disciplina do Mercado ou Disciplina do Capital?

Quase todas as abordagens contemporâneas sobre a financeirização sustentam que ela resulta do neoliberalismo. E este é entendido como um retorno extemporâneo do rentismo. O domínio do setor financeiro globalizado sobre os sistemas econômicos nacionais não seria, assim, mais do uma distorção histórica que produz uma versão altamente perversa de capitalismo. Pois, além de ser muito mais instável, tal capitalismo superlativo engendra uma sensível piora na repartição da renda.  Ora, os economistas gregos John Milios e Dimitris Sotiropoulos contestam essa tese, mostrando num texto aqui traduzido que a financeirização é uma forma bem-sucedida de reforço da coerção do capital sobre o trabalho. E que surgiu para permitir, em face de certas barreiras históricas, a continuidade da reprodução desta relação social nas melhores condições possíveis.

O texto se encontra aqui: Financeirização – Disciplina do mercado ou disciplina do capital?

Da macroeconomia

Post MacroeconomiaQuestionando a macroeconomia da “grande recessão”

Examinam-se neste artigo as teses de alguns macroeconomistas sobre a “grande recessão” que se seguiu à crise de 2008. Como esse evento econômico é um marco muito significativo na evolução recente do capitalismo, ele se apresenta como uma boa base para confrontar os diversos modos teóricos de pensar o funcionamento desse sistema como um todo. Assim, discute-se em sequência as teses de cinco economistas sobre as suas causas: dois deles, Ben S. Bernanke e Larry Summers, pertencem à corrente ortodoxa circunscrita pela teoria neoclássica; três outros são tidos como heterodoxos; dentre estes últimos, tem-se Steve Keen, que é pós-keynesiano, assim como Maria Ivanova e Andrew Kliman, que são marxistas.

O artigo foi publicado na Revista do NIEP: aqui 

Dinheiro fictício I

Imagem do dolarDo dinheiro-ouro ao dinheiro fictício

No século XIX, o dinheiro aparecia sobretudo como dinheiro-ouro. Para Marx, que apreendia então a realidade econômica de seu tempo, o dinheiro-ouro era efetiva base dos sistemas monetário e de crédito. No final do século XX e no começo do século XXI, o dinheiro figura estritamente como dinheiro fiduciário. Ora, o desenvolvimento histórico do capitalismo teria mostrado, finalmente, que a sua teoria do valor e do dinheiro seria falsa?  Os marxistas têm se debatido continuamente com essa questão. O artigo procura mostrar que existe uma resposta para essa indagação. E que ela advém por meio de uma adequada apreensão da dialética da mercadoria e do dinheiro que se encontra em O Capital.

O artigo que desenvolve essa tese foi publicado na Brazilian Journal of Political Economyhttp://www.rep.org.br/PDF/142-2.PDF

Finança e imperialismo

The City, front cover of Verso bookEstá saindo um livro importante sobre o tema “finança e imperialismo”. Ele foi escrito por Tony Norfield. Originário de uma tese de doutorado na SOAS da Universidade de Londres, está sendo publicado pela Verso sob o título de The City – London and the global power of finance (em português:  A City Londres e o poder global das finanças). Nesse livro, a produção e a finança capitalista não são enxergadas como duas esferas analiticamente separáveis e que podem ser assim avaliadas distintamente como geradoras de bem-estar – um “erro” que costuma ser cometido por keynesianos e marxistas. Ao contrário, elas são vistas como esferas que formam uma unidade indissolúvel, uma simbiose de capitais funcionantes e financeiros, a qual existe e cada vez se integra mais para melhor extrair o mais-valor na economia capitalista. Como forma de indicar a sua leitura para os pesquisadores brasileiros da área, publica-se uma tradução da resenha do livro feita pelo notável blogueiro inglês que é conhecido pelo nome de Michael Roberts.

 

Michael Roberts bloga em https://thenextrecession.wordpress.com/

Tony Norfield bloga em http://economicsofimperialism.blogspot.co.uk/

 

A resenha se encontra aqui: O imperialismo britânico e poder global da finança.

Impedimento e neoliberalismo

imagem do impeachmenO impedimento (impeachment) de um presidente da república está, desde o dia 3 de dezembro de 2015, novamente na pauta das preocupações dos brasileiros. Depois de um processo eleitoral muito acirrado, movido por muito dinheiro, legal e ilegal, e por muita mentira, flagrante e oculta de quase todos os partidos, da situação e da oposição, surge uma tentativa de interromper o mandato da atual presidente da republica. É importante tentar saber o porquê. Uma contribuição encontra-se aqui: Impedimento e neoliberalismo. O post sugere que a governança tecnocrática – inspirada fortemente na racionalidade neoliberal -, aproveitando as fraquezas políticas e os desvios éticos do lulismo e do petismo, quer tornar ainda mais rasa e frágil a democracia no Brasil.

O que é austeridade?

Oxi - Milios PaperÉ o modo por meio do qual é reforçada a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas. Ao implementá-la como política de Estado, visa-se, em última análise, a recuperação da lucratividade possível das empresas capitalistas, seja reduzindo diretamente os gastos públicos sociais seja reduzindo indiretamente, no setor privado, o salário real. No capitalismo clássico do século XIX, a própria crise econômica, que lavrava espontaneamente, reimpunha a disciplina do capital, pois esta encontrava-se corroída em parte na fase de boom. Interpretada aqui como crise de superacumulação em geral, quando sobrevinha, gerava queda dos salários e, assim, aumento da taxa de exploração; destruía também boa parte do capital real e do capital financeiro, de tal modo que a taxa de lucro subia. Ora, isto preparava as condições de um novo boom.

No capitalismo regulado pelo Estado da segunda metade do século XX em diante, os impactos automáticos das crises nos estoques de capital real e financeiro tornaram-se insuportáveis. O gasto público estabilizador tornou-se muito importante e os bancos centrais passaram a impedir o colapso da liquidez e, assim, as quebras em cadeia que produziam um decrescimento econômico descontrolado. A política de austeridade nas novas condições históricas do capitalismo passou a visar, então, a reposição da disciplina do capital sem que haja uma forte destruição do capital acumulado. O resultado dessa estratégia de enfrentamento da superacumulação, entretanto, pode não gerar o melhor dos mundos para o evolver da relação de capital. Ao invés de queda abrupta da atividade econômica, tal como fora observada na Crise de 1929, passou-se a verificar uma expressiva tendência à recessão prolongada e mesmo à depressão crônica.

Um artigo de John Milios, publicado em inglês na revista Jacobin, encontra-se aqui traduzido para o português. Ele ajuda a compreender a racionalidade perversa da política de austeridade em geral. Pois, segundo ele, A austeridade não é irracional.

Produção e finança

img025 (2)Há uma dicotomia entre produção e finanças? Produção é meramente produção de bens e serviços? Finança é apenas uma atividade de intermediação que às vezes, ou mesmo frequentemente, transforma-se em especulação, dando origem a um rentismo desenfreado?  Na nota que aqui se publica procura-se mostrar que essa “dicotomia” é uma falsidade fundada não num mero erro teórico, mas na própria aparência do modo de produção capitalista. Pois, a duplicidade entre produção e finança está inscrita já na duplicidade entre valor de uso e valor constitutiva da mercadoria. Ela é também, em consequência, inerente à relação de capital. E que, portanto, mesmo a exacerbação da atividade financeira e mesmo a financeirização não é uma anomalia no capitalismo. A nota foi escrita e apresentada no seminário Crise capitalista – Perspectivas emancipatórias promovido pelo Cedeplar e ocorrido entre 27 e 29 de outubro de 2015.

 

O texto da nota encontra-se aqui: Produção e finança

A luta pelo “comum”

Da regulação social democrática 

roda de conversaTentando repercutir a tese de que, na atual conjunta histórica, é preciso opor o “comum” à propriedade privada e, mesmo, à propriedade estatal, de que, ademais, é preciso opor a democracia dos iguais à dominância de classe e, mesmo, à democracia burguesa, procura-se desenvolver aqui uma crítica à regulação social democrática. Sustenta-se, em síntese, que ela se tornou, ao mesmo tempo, uma impossibilidade e um estorvo. A tese da defesa do “comum” vem de um texto de Pierre Dardot e Christian Laval que se encontra aqui: Propriedade, apropriação social e instituição do comum.  A tese crítica à regulação moderadora acima mencionada, por sua vez, encontra-se aqui:A regulação social democrática tornou-se anacrônica

Este post,  publicado em 18 de setembro, foi modificado em 20 de setembro de 2015.

Método de “O Capital”

Imagem do MarxFinalmente, depois de muito procurar, o autor deste blog encontrou um texto muito importante de Marcos Lutz Müller sobre o método de Marx. Eis o que diz o seu primeiro parágrafo: “A progressiva perda de especificidade metodológica do conceito de dialética, paralela à generalização do seu uso e à sua ampliação semântica, desembocou, hoje, nas versões não ortodoxas ou humanistas do marxismo, numa comprometedora diluição teórica do conceito, reduzido, muitas vezes, a um adjetivo pleonástico que qualifica um substantivo inexistente, ou, no marxismo-leninismo convertido em visão de mundo, no seu alinhamento ideológico, que evita voluntariamente aquela diluição pela invocação dogmática das três leis de Engels, reabilitadas em 1956.” Para ajudar a difundi-lo, a partir de agora, este texto está também publicado aqui: Muller – Exposição e Método Dialético em Marx

De uma crítica classista ao neoliberalismo

img017 (2)Eis que se tornou necessário examinar criticamente as teses sobre o “neoliberalismo” e sobre a sua “crise” dos conhecidos economistas políticos Gérard Duménil e Dominique Lévy. Pois, essas teses estão profundamente equivocadas.

Veja-se que esses dois autores franceses vêm escrevendo sistematicamente, quase sempre em conjunto, sobre esse tema, havendo desenvolvido uma particular compreensão do evolver do capitalismo contemporâneo. Em resumo, para eles, o neoliberalismo consiste apenas numa estratégia das classes capitalistas para recuperar a hegemonia que havia sido perdida no período em que prevalecera a socialdemocracia e o keynesianismo. Ora, isto parece fazer sentido à primeira vista – à primeira vista somente.

Como enxergam o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo sob uma perspectiva que privilegia a luta de classes pela apropriação de renda, eles não vão muito além de uma crítica classista ao neoliberalismo. Apreendem-no, assim, como um processo que se resolve na esfera da circulação do capital e não como um processo que a si mesmo se engendra na própria esfera da produção do capital. Assim, ao invés de tomar o capital como sujeito automático do modo de produção, ao invés de privilegiar a lógica fetichista da acumulação de capital que faz das classes suportes das relações sociais, caem numa sociologia vulgar que assume as classes como sujeitos políticos plenamente atuantes e, assim, já sempre efetivos e constituídos enquanto tais. Se eles se apresentam como marxistas tout court é porque ainda não superaram o nível já ultrapassado do marxismo tradicional.

Eis aqui o texto: De uma critica classista ao neoliberalismo