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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

O que é financeirização? (II)

Com este post dá-se mais um passo na compreensão da financeirização. Ele se junta e complementa um post anterior de mesmo nome, publicado em julho de 2013. Lá se mostrou, em síntese, que não se pode apreender esse fenômeno tratando a esfera do capital de finanças como simplesmente exterior à esfera do capital industrial e do capital comercial.

Eis que a financeirização não é um fenômeno que afeta apenas a circulação do capital e, assim, a repartição da renda. Diferentemente, ela é uma mudança orgânica do capitalismo que afeta também a produção de valor. As duas esferas acima referidas – e esse é a tese de fundo – são momentos inseparáveis e articulados da totalidade posta pela relação de capital e assim devem ser tratadas.

Neste post apresenta-se um sumário dos principais resultados do livro Capitalizando na Crise de Greta Krippner, publicado em 2011. Ai, essa autora caracteriza a financeirização como uma mudança crucial, que emergiu no pós-guerra e no centro do sistema, no modo de apropriação do lucro. E o lucro, como se sabe, é o motor do capitalismo. Eis que, segundo ela, o lucro financeiro ganhou crescente importância em relação ao lucro industrial e comercial, principalmente a partir dos anos 1980. Desse modo, ela compreende o processo de exacerbação financeira recente como uma transformação que afeta o capitalismo como um todo.

O post está aqui: O que é financeirização II?

Taxa de lucro e financeirização

Na bibliografia marxista que interpreta a Crise de 2008 – assim como a Grande Depressão que adveio depois dela – é comum aparecer oposição entre explicação que privilegia a queda tendencial da taxa de lucro e explicação que privilegia a financeirização.

Entretanto, como enfatizou recentemente Alan Freeman, não se pode compreender bem a teoria da crise proposta por Marx quando se faz abstração do papel do dinheiro e das finanças. Ao contrário, se este é o objetivo, deve-se integrar essas duas componentes na compreensão em geral processo de acumulação de capital. Pois, é no evolver da taxa de lucro e do capital à juros que a crise acontece.

Como o dinheiro é a forma por excelência do capital, a esfera do capital de finanças em que o valor circula sob formas diversas não pode deixar de estar profundamente imbricada na esfera do capital industrial em que se produz o valor. E elas interagem no boom e na crise, na prosperidade, na recessão e quando uma se interverte na outra.

Traz-se aqui, por meio deste post, um texto em que essa imbricação é mostrada teórica e empiricamente. Trata-se do excelente artigo de Lucas Rodrigues e de Marcelo Milan que está sendo publicado na lista dos artigos aceitos para o próximo ENEP (Niterói, 12-15 de junho, na UFF). Neste artigo, estes dois autores examinam o comportamento da taxa de lucro na economia dos EUA, entre 1960 e 2014, mostrando o impacto que recebeu do processo de financeirização a partir de meados dos anos 1970.

O artigo se encontra aqui: Financeirização e mensuração da taxa de lucro nos EUA.

A economia política da grande depressão

Neste post trazemos a tradução de um artigo recentemente produzido por Joseph Choonara e que foi publicado na revista eletrônica International Socialism (nº 158). Esse texto é aqui divulgado em português porque se trata de uma síntese muito boa – além de bem didática – da melhor interpretação marxista – e britânica –, sobre a grande depressão iniciada em 2008.

Mostra que esta decorreu, em última análise, da queda persistente, ainda que oscilante, da taxa de lucro após o término da II Guerra. E das respostas que foram dadas para enfrentá-la a partir da década dos anos 1980.  Mostra também que a globalização, assim como a financeirização, foram resposta sistêmicas – ainda que levadas a efeito por meio de decisões de política econômica – às dificuldades postas pela superacumulação de capital observada já no final dos anos 1960 e, em particular, nas crises do começo dos anos 1970. Nessa perspectiva, ademais, sustenta a contracorrente que a atual oscilação ascendente de recuperação da economia mundial é “fraca, frágil e incerta”.

O artigo traduzido, em pdf, encontra-se aqui:A economia política da grande depressão

Como este artigo repõe a necessidade de compreender melhor o processo recente de financeirização da economia capitalista, os dois próximos post voltaram a esse tema.

Subsunção financeira do trabalho ao capital

Autor: Eleutério F. S. Prado1

Introdução: O trabalho em plataforma de compartilhamento

Um taxista que trabalha em uma plataforma de compartilhamento do tipo Uber é um trabalhador assalariado ou um trabalhador autônomo? Do ponto de vista jurídico, dada a legislação existente no Brasil e em outros países, trata-se então de saber se existe ou não um vínculo trabalhista entre os motoristas de taxi que se atrelam a esse sistema e a empresa que o administra. Exista este vínculo ou não, tal tipo de trabalhador funciona sob o comando do capital, isto é, dos donos ou dos gerentes do capital posto com base em tal plataforma?

Essa plataforma é uma máquina digital que conecta e casa motoristas e passageiros distribuídos pelas cidades por meio de aparelhos celulares de telefonia. Eles combinam, assim, corridas determinadas, algo muito útil em grandes centros urbanos. Essas corridas são serviços mercantis e, portanto, mercadorias; como tais, têm valor de uso e valor e este último, como ocorre em geral, manifesta-se por meio de preços. Os motoristas são proprietários do meio de produção automóvel, assim como do aparelho celular que usam para trabalhar, além de suas próprias forças de trabalho. Para empregar os recursos da plataforma, entretanto, têm de se credenciar junto à empresa dela proprietária. Vinculam-se a ela aderindo a um contrato cujos termos foram pré- definidos por esta última, segundo a sua conveniência.

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Guerra comercial em marcha

Os economistas liberais e neoliberais estão alarmados: Trump está paralisando ou mesmo retrocedendo a globalização; guerras comerciais, para eles, são jogos com resultados negativos e, portanto, irracionais, ou seja, em que todos perdem. Como idealizam e santificam o processo de concorrência capitalista, não veem, entretanto, que as guerras comerciais são extensões do próprio processo de competição dos capitais realmente existentes e que elas já estão aí em potência mesmo nos períodos em que vigora uma aparente paz comercial. Ademais, como essas guerras requerem, também, a intervenção e o arbítrio dos estados nacionais, podem também se constituir em prenúncios de guerras de fato. O progresso turbulento e, assim, a regressão e a destruição, tudo isso é inerente ao processo de acumulação capitalista.  

Entretanto, também erra um crítico keynesiano, Joseph Stiglitz, quando diz que as ações de Trump são “motivadas por pura política”. Eis que ele estaria apenas “ansioso para parecer forte e confrontador aos olhos de sua base eleitoral”. Ora, Stiglitz também não vê que o irracional está contido na própria racionalidade contraditória do desenvolvimento capitalista. Sonha, assim, como bom keynesiano, com um capitalismo totalmente racional.

No post anterior, A estagnação dos países ricos, forneceu-se um dos fundamentos históricos dessa conjuntura permeada pela guerra comercial e, possivelmente, pela guerra de fato. Pois, mostrou-se aí, claramente, que o dinamismo do processo de acumulação, no correr dos últimos quarenta anos, havia se deslocado do centro para a periferia asiática, em particular, para a China. Neste que aqui se publica traduz-se um post recente de Michael Roberts em que ele mostra o que está verdadeiramente em jogo nessa disputa: a liderança na capacidade de gerar inovações tecnológicas de ponta e, assim, a hegemonia imperialista no “concerto das nações”, pois ainda domina aí o desconcertado modo de produção capitalista.

A tradução está aqui: Trump, comércio e guerra tecnológica  

P.S. By the way, como se viu e se vê, assim como o socialismo estatista interverte-se em despotismo a fim de promover a acumulação centralizada, a democracia liberal, na crise da acumulação descentralizada, interverte-se em ditadura disfarçada ou mesmo em ditadura de fato.

A estagnação dos países ricos

Ao contrário do que muita gente pensa, o capitalismo não está mais progredindo de modo firme e forte em países como EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália etc. Ao contrário, sabe-se que o crescimento econômico se reduziu progressivamente nas nações de altas rendas, década após década, após o término da II Guerra Mundial. Os dados mostram, inclusive, que o investimento como proporção do excedente obtido pelas grandes corporações tendeu a se reduzir ao longo dos últimos decênios.

Nessa postagem faz-se uma confrontação entre duas teses, sustentadas ambas por economistas de esquerda, que buscam explicar esse curso histórico.

Uma delas, mais aceita pelos keynesianos, julga que a causa do fenômeno se encontra na política econômica neoliberal que, em síntese, possibilitou que ocorresse uma “vingança dos rentistas”. A outra, mais acolhida por marxistas, pensa que essa causa se encontra na própria onda mais recente de globalização: ela deslocou a acumulação de capital do centro euro-americano para a Ásia. Como ela se centra no movimento do capital – a exploração reificada – em busca de maior rentabilidade, é aqui denominada de “incursão do capital”.

O texto se encontra aqui: A estagnação econômica dos países ricos

Dos ciclos de acumulação II

No post anterior voltou-se ao chamado “ciclo sistêmico de acumulação” de Giovanni Arrighi com a finalidade de reexaminar o papel da financeirização em sua fase da desaceleração.  Neste post retorna-se a ele para enfatizar o papel das inovações tecnológicas no seu desenvolvimento, aceleração e desaceleração. Para tanto, traduz-se um artigo de Tony Smith recém-publicado em inglês na revista Logos.

Neste artigo, esse autor argumenta que o processo de acumulação de capital é uma luta sem trégua entre unidades de capital que se dá por meio da introdução de inovações de método e de produto. E que esse processo é sempre contraditório: se, por um lado, abre espaço para a valorização do valor, por outro, tende a produzir superprodução de mercadorias. Assim, além do aumento da composição orgânica do capital, a taxa de lucro tende a cair também devido ao aumento da capacidade ociosa das empresas capitalistas.

Sob essa perspectiva, Smith analisa o capitalismo contemporâneo agora globalizado. O seu ponto central é que um episódio de superprodução generalizada se manifestou na economia mundial na década dos anos 1970. E que ele foi parcialmente “resolvido” por meio da financeirização dos anos 1980 em diante, ou seja, por meio da superação de uma barreira que acabou criando uma barreira ainda maior. Ainda sob essa perspectiva, que é ainda de Karl Marx, ele examina a situação atual para apresentar nua e cruamente as suas ameaças, o seu crucial dilema.

O artigo se encontra aqui: Tecnologia e capitalismo 150 anos depois de Das Kapital

Dos ciclos de acumulação I

Este post encaminha um reexame da financeirização como momento intrínseco do desenvolvimento do capitalismo. Com esse objetivo, reestuda a noção de “ciclo sistêmico de acumulação” que, como se sabe, é fundamental na obra de Giovanni Arrighi sobre o desenvolvimento histórico da economia mundial capitalista.

A tese de que toda a história desse sistema enquanto sistema pode ser apreendida mediante essa noção está exposta em O Longo século XX – Dinheiro, poder e as origens de nosso tempo, publicado originalmente em 1994. Como se sabe, este autor mostrou aí que os seis séculos já transcorridos da inacabada história do capitalismo podem ser decompostos em quatro grandes ciclos longos de acumulação, os quais denominou de genovês, holandês, britânico e norte-americano.

Em A financeirização nos ciclos sistêmicos de acumulação argumenta-se que esse momento não pode ser encarado apenas como uma fuga para frente do capital em face do esgotamento das forças propulsoras de um ciclo. Diferentemente, procura-se mostrar que a financeirização resulta de um desenvolvimento endógeno do processo cíclico por meio do qual o capital, com base na ação dos capitalistas, subordina e intensifica a produção de mais-valor.

Ainda sobre o keynesianismo

Como o postO que é keynesianismo?” foi bem recebido pelo círculo de leitores desse blog, publica-se outro sobre o mesmo tema. Trata-se da tradução de uma resenha que também apresenta o livro de Geoff Mann antes aqui discutido, No longo prazo todos estaremos mortos. Esta foi feita por Mike Beggs da Universidade de Sydney, tendo sido publicada no sítio do Jacobin. Ela examina as teses de Mann do ponto de vista da política transformadora possível nos países ricos do centro do sistema capitalista mundial. Na interpretação do autor deste post, ao fim e ao cabo, ela sugere que demandas keynesianas sejam agora retomadas pelos partidos de esquerda, não para manter o capitalismo, mas para criar as condições necessárias para superá-lo. É uma proposta num momento em que faltam propostas...

O texto se encontra aqui: A contra-revolução keynesiana

O que é keynesianismo?

Aqui, o keynesianismo é caracterizado como uma doutrina econômica e política – e não estritamente como uma teoria econômica – que se encontra fortemente comprometida com a sobrevivência do capitalismo. Trata-se nesse sentido, ao fim e ao cabo, de um liberalismo iliberal. 

A nota é baseada no livro recém-publicado de Geoff Mann cujo título rememora uma famosa frase de John M. Keynes: no longo prazo estaremos todos mortos. Segundo esse autor, essa assertiva indica iniludivelmente que esse modo de pensar e atuar se encontra atravessado por uma profunda ansiedade histórica. Eis que expressa algo mais profundo, isto é, que o keynesianismo é movido por esperança e medo em relação as turbulências econômicas e as inquietações sociais do capitalismo. Afigura, assim, o futuro como enigmático e incerto e, por isso, contenta-se em ser uma doutrina pragmática, praticamente otimista no presente, que tem por objetivo ir salvando o capitalismo de si mesmo – não em geral, mas particularmente no mundo euro-americano.

A nota se encontra aqui:O que é keynesianismo?