China: uma economia zumbi

Autor: Ho-Fung Hung [1] – Sidecar em 4/08/2023 e Sinpermiso em 8/08/2023

No início dos anos 2010, o economista Justin Lin Yifu, ex-diretor do Banco Mundial ligado ao governo chinês, previu que a economia chinesa teria pelo menos mais duas décadas de crescimento acima de 8%. Ele calculou que, como a renda per capita do país na época estava aproximadamente no mesmo nível do Japão na década de 1950, e da Coreia do Sul e Taiwan na década de 1970, não havia razão para que a China não pudesse replicar os sucessos anteriores desses outros países do Leste Asiático.

O otimismo de Lin ecoou entre os comentaristas ocidentais. A revista The Economist projetou que a China se tornaria a maior economia do mundo até 2018, ultrapassando os Estados Unidos. Outros fantasiavam que o Partido Comunista embarcaria em um ambicioso programa de liberalização política. No New York Times, Nicholas Kristof, em 2013, escreveu que Xi Jinping iria “liderar um ressurgimento da reforma econômica e, provavelmente, também alguma flexibilização política”.

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Liberdade e Alienação; do humanismo mitigado (não-todo)

Autor: Mateus Flisfeder

Atualmente, o conceito popular de Antropoceno, usado para designar a era geológica humana, coloca em questão a centralidade da subjetividade humana. O pós-humanismo crítico – particularmente em suas versões ontologicamente realistas, neoespinosanas e deleuzianas, atreladas ao imediatismo e à imanência pura – exige o descentramento do sujeito humano. Este, em sua arrogância e desprezo prometeico pelo não humano, parece ter incendiado o mundo, causando danos ambientais irreparáveis. Mas será que uma descentração ativa do sujeito humano é realmente possível?

E se a única maneira de acessar adequadamente a situação for fazendo o oposto, isto é, ocupando uma posição antropocêntrica, não no sentido de dominação humana do mundo não humano, mas de fazer da subjetividade humana o centro metodológico e ético de nossa investigação sobre esse enigma? E se a era do Antropoceno exigir, não o descentramento do sujeito humano, mas o inverso? E se agora for preciso repensar um humanismo dialético e universalista por causa do Antropoceno?

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Alimentos, comércio e recessão

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 10/08/2023

A última medida de preços ao consumidor dos EUA, referente a julho de 2023, mostrou um aumento na taxa anual de inflação; foi 3,2% frente a 3% em junho. Esse resultado adveio principalmente da comparação (efeitos de base, como são chamados) com uma queda na taxa em julho passado em relação ao pico em junho.  O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, permaneceu muito mais alto, em 4,7% ao ano.

É bom lembrar aqui, que mesmo se a inflação caísse ainda mais e ficasse próxima de zero, os preços desde o fim da queda da pandemia de COVID subiram de 10% a 15% na maioria das economias do G7.  Sim, a taxa de inflação está desacelerando, mas os preços ao consumidor dos EUA estão 17% mais altos do que no início de 2021.

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Sobre a suposta homologia do mais-de-gozar com o mais-valor

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Para tratar desse tema, vale-se de início de conteúdos que se encontram no livro Poder e política na clínica psicanalítica (Annablume, 2015) de Marcelo Checchia, um escrito longo, mas compreensível mesmo se proveio do teclado de um autor lacaniano. O que se fará é uma tentativa bem arriscada de entender um ponto difícil, atravessado por incertezas que se devem ao estilo do autor principal. Ademais, como bem de sabe, as noções da psicanálise não parecem estar ainda bem estabelecidas, o que dificulta muito o entendimento de qualquer ponto crucial de seu discurso.

O objetivo consiste em compreender criticamente a afirmação de Jacques Lacan de que haveria uma relação de homologia entre o mais-valor de Marx e a noção de mais-de-gozar proposta por ele mesmo. Contudo, não se pode compreender esse ponto polêmico se não se apreendeu antes o sumo da dialética da luta pelo reconhecimento que Georg Hegel apresentou na Fenomenologia do Espírito – essa luta, e isso é muito importante, consiste também, originalmente, numa contraposição entre vida e liberdade.

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Mercados financeiros no capitalismo contemporâneo

Michael R. Krätke

O novo reinado dos mercados financeiros globalizados

Mesmo que isso possa sempre surpreender alguns é preciso dizer que o capitalismo moderno constitui, desde os seus primórdios, uma economia de crédito e de endividamento. Revoluções financeiras e industriais permeiam seu desenvolvimento, fortemente marcado por saltos. Na hierarquia dos mercados, que caracteriza a forma histórica de uma economia de mercado capitalista, os mercados financeiros (mercado monetário e de crédito) estão e estão sempre colocados no topo. Nesses mercados trocam-se ficções. É aí que o mundo extremamente artificial, “de cabeça para baixo”, do capitalismo se ergue, anda e salta “de cabeça”. Para o capitalismo, como religião cotidiana, a mitologia dos mercados financeiros é indispensável.

Os mercados financeiros sempre tiveram caráter internacional. Hoje, são multipolares, em rede e quase globalizadas. Alguns dos mestres desses mercados, como fundos multinacionais e operadores do mercado de ações, são o que chamamos de players globais. No entanto, os seus clientes, as pessoas comuns desses mercados, não são. O capital que circula nesses mercados comporta-se de forma altamente móvel e globalizada participando de muitos negócios no interior dos limites do mundo dos mercados financeiros internacionais. O volume dos mercados financeiros internacionais, ou seja, a soma total das transações neles realizadas, de alguma forma explodiu durante as décadas de 1980 e 1990.

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Por que o capital está deixando os EUA?

Author: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 21/07/2023

No início, o capitalismo norte-americano estava centrado na Nova Inglaterra. Depois de algum tempo, a busca pelo lucro levou muitos capitalistas a deixar aquela área e se transferirem para Nova York e para os estados do meio do Atlântico. Grande parte da Nova Inglaterra ficou com fábricas abandonadas e cidades deprimidas – o que é evidente até hoje. Eventualmente, os empregadores se mudaram novamente, abandonando Nova York e o meio do Atlântico para o Meio-Oeste.

A mesma história foi se repetindo à medida que o centro do capitalismo se deslocava para o Extremo Oeste, o Sul e o Sudoeste. Termos descritivos como “cinturão da ferrugem”, “desindustrialização” e “deserto manufatureiro” se aplicavam cada vez mais a espaços antes habitados pelo capitalismo norte-americano.

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Da inflação…

O vídeo que aqui se apresenta é uma tentativa de completar com teoria o que o artigo do economista político britânico Michael Robert apresenta como fato histórico. O seu artigo versa sobre o recente surto inflacionário na economia mundial. Para alcançar esse objetivo, faz-se uso extenso da teoria da inflação de Anwar Shaikh.

Uma tradução do artigo de Michael Roberts, aqui referenciado, encontra-se publicado neste blog, na postagem anterior. Eis aí o vídeo.

Video do autor do blog

Trata-se de uma experiência: uma arquivo em power-point foi transformado num vídeo. Supõe-se aqui que o conteúdo, uma apresentação didática, pode ser entendida sem uma apresentação muito extensa. Aqueles que quiserem fazer um comentário podem fazê-lo porque ele me ajudará a melhorar.

Inflação produzida por aumento dos lucros

Autor: Michael Roberts

Título original: Custo de vida e lucros – – The next recession blog – 12/07/2023

O último relatório de emprego da OCDE é um revelador da crise do custo de vida. Eis que permite saber se os aumentos salariais ou os lucros deram a maior contribuição para o aumento da inflação. Sobre os salários, a OCDE constata que os salários reais caíram em média 3,8% no último ano na OCDE. Pois, o relatório afirma: “Os mercados de trabalho elevaram os salários nominais, mas menos do que a inflação, levando a uma queda dos salários reais em quase todas as indústrias e países da OCDE.”

As quedas variaram consideravelmente de país para cada país da OCDE.  As maiores quedas foram na Escandinávia e no Leste Europeu, onde os preços da energia subiram mais devido à perda de petróleo e gás russos, enquanto a queda dos EUA é uma das mais baixas, já que os preços da energia, embora subindo, não dispararam tanto.  A Europa teve que mudar da energia de gasodutos da Rússia para passar a receber gás natural liquefeito (GNL), muito mais caro por causa do transporte.

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