O plano mestre de Trump segundo Yanis Varoufakis

Publica-se em sequência um escrito de Yanis Varoufakis em que ele tenta encontrar uma racionalidade mais substantiva na política econômica de Donald Trump. Talvez seja apenas uma enormidade já que a sua tese não parece estar apoiada em documentos abalizados. Mesmo se provém de seu estilo altisonante, talvez ajude a compreender melhor essa política.

Autor: Yanis Varoufakis [1] – Sin Permiso [2] – 27/02/2025

Diante das medidas econômicas do presidente Trump, os seus críticos centristas oscilam entre o desespero e uma fé pungente de que seu frenesi tarifário desaparecerá. Eles assumem que Trump vai bufar até que a realidade revele a falsidade de seu raciocínio econômico. Eles não se deram conta do seguinte:  a imposição de tarifas feita por Trump faz parte de um plano econômico global sólido, mesmo que seja inerentemente arriscado.

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Eleições: Tarifas e Taxas de câmbio

Richard Koo [1] – Sin Permiso  – 07/12/2024

O que o Japão, os EUA e a Europa têm em comum é a crescente raiva popular com a economia, apesar dos altos preços das ações e do baixo desemprego.

Por que os partidos no poder foram derrotados nas eleições dos EUA e do Japão?

Grandes mudanças políticas estão chegando no Japão, nos Estados Unidos e na Europa. Os EUA e o Japão realizaram eleições nacionais nas últimas semanas e, em ambos os casos, o partido no poder sofreu uma grande derrota, criando grande incerteza sobre a política econômica. Enquanto isso, na Alemanha, a retirada do Partido Democrata Livre (FDP) da coalizão de três partidos deixou o governo em apuros.

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Nacionalismo de desastre

Richard Seymour [1]

É muito fácil ser antifascista no nível molar sem nem mesmo ver o fascista que existe dentro de você mesmo, o fascista que você mesmo sustenta, nutre e estima com moléculas tanto pessoais quanto coletivas. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs [2].

I.

O fascismo, como Robert O. Paxton escreve em sua convincente história,[3] torna-se uma força histórica quando enfrenta “uma sensação de crise avassaladora além do alcance de quaisquer soluções tradicionais”. O livro, que aqui chega ao fim,[4] aponta para num paradoxo: as crises reais estão proliferando, mas o nacionalismo de desastre está se nutrindo de crises inteiramente fictícias.

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A crise do capitalismo tardio e a banalidade do mal

Autor: Fernando Rosas [1] – 19/11/2024 – Portal Esquerda

A banalidade do mal fabricada pela alienação é o caminho aberto para o desastre que só a resistência contra hegemônica pode e deve travar.

O conceito de banalidade do mal foi adiantado por Hannah Arendt no livro publicado em Maio de 1963 sobre o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém entre Abril de 1961 e Maio de 1962, data em que foi executado após confirmada a sua sentença de morte. Eichmann era o tenente-coronel das SS, destacado na Gestapo, a polícia política da Alemanha nazi, onde se tornara o principal “especialista” da “questão judaica”, vindo a ser responsável pela gigantesca operação logística que implicou o extermínio da população judia da Alemanha e de todos os países sob ocupação do III Reich.

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Efeitos das transferências fiscais para os capitalistas

[1] Autor: Prabhat Patnaik [2] – Blog Ideas – 25 de novembro de 2024

É comum, atualmente, que os governos forneçam transferências fiscais aos capitalistas, seja por meio de redução das taxas de impostos corporativos ou fornecendo subsídios diretos; com essas medidas, eles visam incentivar um maior investimento por parte dos capitalistas, estimulando, assim, a economia.

Durante a primeira presidência de Donald Trump, houve um corte na alíquota do imposto corporativo com esse objetivo. Na Índia, o governo Modi, como é bem sabido, deu enormes concessões fiscais com o mesmo objetivo. Mesmo um conhecimento mínimo de economia, no entanto, mostra que tais transferências para capitalistas são contraproducentes em um regime neoliberal.

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Cidadão Trump: sob o jugo do excesso

Autor: Todd McGowan [1]

O que falta a Kane

Houve pelo menos uma vez em que Donald Trump se mostrou mais capaz do que qualquer outro presidente americano. Quando perguntado sobre seu filme favorito, Donald Trump deu uma resposta digna de um estudioso de cinema. Ele nomeou Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, não apenas como o melhor filme já feito, mas como o seu pessoalmente favorito.

Certamente essa é a melhor resposta que qualquer outro presidente americano possa ter dado para essa pergunta. Mas quando se a considera de imediato, parece que se trata de um deslize inconsciente. Trump identifica como seu favorito o único filme que narra o vazio de um homem rico e poderoso que tem uma semelhança notável com ele mesmo.

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O capitalismo se tornou rentista?

Autor: Eleutério F. S. Prado

Bank sign on glass wall of business center

Nesta nota, responde-se a essa pergunta com uma negação: não, o capitalismo não se tornou rentista. Veja-se, porém, que essa posição não quer cair numa apreciação vulgar, já que, ao contrário, pretende remontar à crítica da economia política. Que fique, pois, claro desde o início: uma resposta afirmativa à essa indagação conteria já forte censura ao rumo desse modo de produção.  

Na verdade, a tese apontada no questionamento contém um fundo de verdade que precisa ser apreendido de outro modo. Por isso mesmo, essa nota se desenvolve por meio de uma crítica ao importante livro de Brett Christophers assim denominado. Em Rentier Capitalism [1], esse autor não apenas afirma, mas também pergunta quem são os donos da economia assim constituída e quem paga por isso.

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O bem comum e o excesso no capitalismo

Todd McGowan [1]

Dialética do Progresso

Saber como o progresso engendra movimentos de reação é uma questão que tem preocupado muitos pensadores desde meados do século XX, quando uma onda reacionária, muito destrutiva, manifestou-se na história. A primeira grande tentativa de dar sentido ao que alimenta essa política reacionária é a Dialética do Iluminismo de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para Adorno e Horkheimer, o progresso sempre conteve um resíduo perverso de violência. Eles veem esse resíduo se manifestar nas estrepolias perpetuadas por Odisseu, nas perversões celebradas pelo Marquês de Sade e nas manipulações da indústria cultural. As forças negativas do iluminismo operam aí e se impõem diante de qualquer resistência possível.

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O domínio exuberante do capital fictício

Autor: Renildo Souza[1]

O papel crucial da ciência e da tecnologia na economia capitalista do século XXI favorece a valorização das mercadorias-conhecimento gerando as chamadas renda-conhecimento

Neste artigo, centrado na categoria capital fictício e nos bancos, voltamos a discutir as possíveis pistas, os começos de elaboração, acerca da finança da lavra de Karl Marx na Seção V do livro III de O capital.

Em sua definição, Marx explicou: “A formação do capital fictício tem o nome de capitalização. Para capitalizar cada receita que se repete com regularidade, o que se faz é calculá-la sobre a base da taxa média de juros como o rendimento que um capital, emprestado a essa taxa de juros, proporcionaria”.[i]

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O que vem após o neoliberalismo?

N. T.: Publica-se abaixo um artigo informativo, mas algo confuso, que responde ao título acima. Ele versa sobre as mudanças no capitalismo advindas da ascensão das grandes empresas de tecnologia digital (big techs) e das gestoras ativos, as quais são apresentadas como “rentistas”. Apesar disso, ele põe um problema teórico que seria preciso desenvolver a partir da apresentação dialética de O capital. O artigo não resolve essa questão, ao contrário, atrapalha o esforço de resolvê-la de um modo rigoroso.

Ele não compreende que capital é uma relação social de exploração que se manifesta por meio de formas reificadas, a saber, dinheiro, meios de produção, força de trabalho e mercadorias acabadas. Não consegue ver que as plataformas são uma forma de capital financeiro. Ele parece não saber nada sobre a distinção entre o capital portador de juros, que financia a produção de mercadorias, e o capital fictício, que financia o consumo ou tem uma relação indireta com a produção. Chama, por isso, os pagamentos associados ao capital fictício de renda, confundindo, assim, os “juros” apropriados pelo capital fictício – que não é de fato capital, mas parece que é – com a renda da terra. É partindo desse erro crasso, que teóricos pouco rigorosos citados no artigo chegam à ideia absurda do tecnofeudalismo.  Contudo, ainda assim o artigo pode ser lido com proveito por aqueles que querem pensar o capitalismo em sua configuração contemporânea.


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