De uma crítica classista ao neoliberalismo

img017 (2)Eis que se tornou necessário examinar criticamente as teses sobre o “neoliberalismo” e sobre a sua “crise” dos conhecidos economistas políticos Gérard Duménil e Dominique Lévy. Pois, essas teses estão profundamente equivocadas.

Veja-se que esses dois autores franceses vêm escrevendo sistematicamente, quase sempre em conjunto, sobre esse tema, havendo desenvolvido uma particular compreensão do evolver do capitalismo contemporâneo. Em resumo, para eles, o neoliberalismo consiste apenas numa estratégia das classes capitalistas para recuperar a hegemonia que havia sido perdida no período em que prevalecera a socialdemocracia e o keynesianismo. Ora, isto parece fazer sentido à primeira vista – à primeira vista somente.

Como enxergam o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo sob uma perspectiva que privilegia a luta de classes pela apropriação de renda, eles não vão muito além de uma crítica classista ao neoliberalismo. Apreendem-no, assim, como um processo que se resolve na esfera da circulação do capital e não como um processo que a si mesmo se engendra na própria esfera da produção do capital. Assim, ao invés de tomar o capital como sujeito automático do modo de produção, ao invés de privilegiar a lógica fetichista da acumulação de capital que faz das classes suportes das relações sociais, caem numa sociologia vulgar que assume as classes como sujeitos políticos plenamente atuantes e, assim, já sempre efetivos e constituídos enquanto tais. Se eles se apresentam como marxistas tout court é porque ainda não superaram o nível já ultrapassado do marxismo tradicional.

Eis aqui o texto: De uma critica classista ao neoliberalismo

A agonia da relação de capital

Figura - O olho da HistoriaComo já se mencionou neste blog, dois autores do grupo de pesquisadores da “crítica do valor” (Grupo Krisis), Ernst Lohoff e Norbert Trenkle escreveram um livro importante de interpretação da atual crise estrutural do capitalismo. Traduzido para o português, o título da obra fica assim: A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise. Numa nota, recém-publicada pela revista O olho da História, as suas duas teses mais importantes são questionadas. Sem desprezá-las, pergunta-se: A) há mesmo um declínio da produção de mais-valor no capitalismo contemporâneo?  B) a financeirização vem a ser uma reação impetuosa do sistema frente a ameaça iminente de seu próprio colapso?

O texto se encontra aqui: http://oolhodahistoria.org/inicio/wp-content/uploads/2015/06/agoniadarelacaodecapital.efsp-pdf.pdf

Da crítica truncada

Imagem do Sursis II

Uma das teses mais populares sobre a crise econômica iniciada em 2008, muito difundia na esquerda keynesiana e marxista, sustenta que ela surgiu como resultado da exacerbação das atividades financeiras deslanchada ao fim da década dos anos 70 do século XX. Conforme reza, o advento do neoliberalismo na década dos anos 80 trouxe consigo o afrouxamento dos controles sobre a criação de capital financeiro, assim como, em consequência, a financeirização das empresas capitalistas voltadas para a produção de bens e serviços como mercadorias.

Um dos resultados dessas reformas liberalizantes teria sido a queda da taxa de acumulação – e do crescimento econômico –, principalmente nos países do centro do sistema. A financeirização, segundo essa ótica, disparou um processo anômalo de expansão dos títulos, ações, etc. que se auto realimentou, que se autonomizou, e que puncionou sistematicamente parte dos lucros obtidos nas atividades produtivas. Em consequência, a taxa de investimento caiu inexoravelmente para níveis bem baixos. A transformação da economia que havia sido construída após a II guerra mundial sob a orientação do keynesianismo, uma pujante máquina de crescimento, teria produzido, após as reformas neoliberais, apenas um sistema em que o crescimento se tornou anêmico e o rentismo passou a prosperar sem qualquer vergonha.

Os teóricos da corrente “crítica do valor” consideram essa avaliação do evolver do capitalismo gestado pelo neoliberalismo como uma crítica truncada. Para começar, ela omite que o capital financeiro, que é mais propriamente denominado de capital fictício, constitui-se como uma forma intrínseca e necessária da relação de capital. E que, por isso mesmo, existe em simbiose com capital funcionante: eis que toda operação financeira está ancorada direta ou indiretamente na produção real de mais-valor; não apenas colhe parte do mais-valor aí produzido, mas também permite e induz que ele seja aí criado. Se o capital funcionante se valoriza ao agregar valor atuando diretamente na esfera da produção mercantil, o primeiro se valoriza indiretamente, fora dessa esfera, mas somente o faz porque antecipa mais-valor que ainda vai se realizar ou ainda vai ser produzido no futuro. Logo, não apenas punciona mais-valor, mas também estimula a sua produção. Não faz sentido, portanto, confundir o jurismo com o rentismo tal como costumam fazer aqueles que não são capazes de ir além de uma crítica truncada do capitalismo.

Os teóricos da “crítica do valor” julgam, assim, que é enganoso considerar o capital financeiro como uma intrusão que parasita e abate o capital funcionante. Ademais, pensam também que esse capital, ao contrário do que admitem os autores da crítica truncada, teve um papel decisivo na sustentação da acumulação no período neoliberal. Se ela foi fraca, mas fraca ainda teria sido sem o boom de capital fictício observado em todo período. Pois, segundo eles, o advento da terceira revolução industrial reduzira drasticamente a possibilidade de crescimento da massa de mais-valor, jogando o capitalismo realmente existente num processo de estagnação e de declínio.  Nessa circunstância, a acumulação sustentada pela expansão explosiva do capital financeiro foi a única forma capaz de manter o sistema funcionando sem cair numa depressão profunda. Ora, para fornecer uma amostra do conteúdo desse argumento, publica-se aqui um excerto tirado do livro A Grande Desvalorização de Ernst Lohoff e de Norbert Trenkle, o qual já foi discutido em postagens anteriores. Nesse trecho da obra, eles explicam como o neoliberalismo foi capaz de produzir uma suspensão (temporária) do desenrolar da crise.

 

Ei-lo: Lohoff – A suspensão da crise pelo neoliberalismo

A grande desvalorização III

Imagem para AusteridadeCom esta postagem, a qual se segue a duas anteriormente feitas, concluímos a apresentação das teses de Ernst Lohoff e Norbert Trenkle desenvolvidas amplamente em A grande desvalorização. Este livro, como já dissemos, foi publicado apenas em alemão e em francês. Para mostrar como esses dois autores pertencentes ao grupo de autores da “crítica do valor” apreendem a relação entre certo travamento da acumulação de capital real e a expansão desmedida do capital fictício no capitalismo contemporâneo, publicamos a tradução de uma entrevista dada por eles mesmos e que foi publicada na revista Telepolis, em 2012. Ela esclarece como, na opinião deles, a produção de riqueza abstrata tem de continuar de modo insensato mesmo quando as bases da acumulação real foram erodidas pelo próprio movimento histórico de expansão do capital.

O conteúdo dessa entrevista é bem interessante porque ajuda a compreender também a lógica da política de austeridade que ora está sendo praticada, de modo bem disfarçado, no Brasil. Em resumo, essa lógica consiste em matar de fato parte da produção de bens e serviços para dar mais vida ao capital financeiro. Ao derrubar a produção de mercadorias, propicia também o rebaixamento dos salários reais, aumentando assim, implicitamente, a taxa média de lucro obtida pelo capital funcionante. E que não haja ilusão, pois, no capitalismo contemporâneo, o capital funcionante opera sob a liderança e o protagonismo do capital financeiro nacional e internacional. A ilusão de que ainda há progresso no capitalismo, aliás, não para de ser propagandeada inclusive por economistas que se apresentam como de esquerda.

 

O texto se encontra aqui: Como os bancos centrais são transformados em “bad banks

Ideontologia

Gérard LebrunFoi preciso criar esse termo arrevesado para designar a compreensão de Hayek do capitalismo, a qual se funda – e somente se funda – na sociabilidade da esfera do mercado. Pois, recupera-se aqui um velho artigo de Gérard Lebrun, publicado em 1984, em que ele derramou uma refinada apologia das teses liberais sustentadas pelo autor de O caminho da servidão nas brancas páginas do falecido Jornal da Tarde. Trata-se de uma peça discursiva que merece ser mais uma vez divulgada já que, em sua impar modalidade, destaca-se como uma argumentação astuciosa que leva a uma completa rejeição do socialismo e das políticas socializantes em geral.

Nessa peça, esse renomado filósofo francês, bem conhecido então no meio universitário de ciências sociais no Brasil, destaca elogiosamente que Hayek entrou no principal debate político da era moderna com uma poderosa ontologia social. No mundo descrito por esse autor liberal, aliás, o herói é o empresário, o empreendedor capitalista – e não, claro, o operário, o trabalhador, o assalariado cuja pele continua como sempre disponível para o curtume.

Ora, esta – precisamente esta – era uma roupagem que o capitalismo podia usar no momento que o velho liberalismo, enquanto episteme do século XIX, já se tornara fora de moda. Como se sabe, nesse momento, o capitalismo já começara a se apresentar com uma nova vestimenta, adequada para o fim do século XX, o neoliberalismo. Adorno não mencionara na Dialética Negativa que toda ontologia contemporânea, precisamente por apresentar uma enfática pretensão de verdade, é sempre “uma disposição para sancionar uma ordem heterônoma”, dispensando-se, assim, “de se justificar perante a consciência crítica”.  E que sempre o faz – fique patente – a partir de traços aparentes da realidade ratificada como esfera que não deve ser radicalmente transformada.

Logo se verá: o capitalismo, no visor de Hayek, aparece como sociabilidade que se tece como ordem espontânea, a qual foi surgindo ao longo dos séculos por meio de um processo evolutivo lento, cego, mas certeiro, de seleção de regras. Essa ordem, segundo ele, seria o esteio da liberdade; sim, mas que liberdade? De todos ou apenas de alguns? Perante tal ideologia que assumiu a forma da ontologia, aquilo que se apresenta como crítica e que contraria a sua enorme pretensão de verdade passará a figurar, transfigurada, como diabrura irracionalista do espírito racionalista dos tempos modernos. Nos escritos de Hayek, o socialismo surge, nessa perspectiva, como uma mera ideia ou pretensão tecnocrática e construtivista de realizar a justiça social por meio do poder de Estado.

O discurso parece plausível a primeira vista porque o material para a sua elaboração foi fornecido, em parte, pelos próprios socialistas. Entretanto, como para o principal crítico do capitalismo, o socialismo rigorosamente não é uma mera ideia, não é um projeto de engenharia social, não se baseia na demanda por justiça social e não se realiza por meio do poder de Estado, a peça merece também uma resposta. Por isso, além de republicar aqui o artigo de Lebrun, publica-se também um texto crítico que visa contrariá-lo.

 

O artigo de Gérard Lebrun encontra-se aqui: A loteria de Friedrich Hayek

 

O artigo crítico, por sua vez, encontra-se aqui: Do socialismo centralista ao socialismo democrático

As fissuras do sistema

imagesComentam-se criticamente, numa nota curta, as teses de Raghuram Rajan sobre as causas da “grande recessão” da economia capitalista de 2008, a qual é encontrada em seu livro Fissuras – como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial. Para ele, em resumo, a crise foi produzida por uma piora na distribuição da renda nos EUA, por desequilíbrios nos fluxos internacionais de mercadorias e poupança e, finalmente, pela “exuberância” dos mercados financeiros. Procura-se mostrar que as suas análises são superficiais e que elas próprias demandam uma melhor compreensão das contradições inerentes à acumulação de capital e, assim, da propensão à crise que é inerente ao capitalismo. Ao final, indica-se que tanto a concentração da renda quando a financeirização não são mais do que manifestações fenomênicas da tendência à superacumulação de capital que vem caracterizando, sem resolução sustentável, o capitalismo contemporâneo desde a década dos anos 70 do século passado.

A nota se encontra aqui: Rajan e as fissuras do sistema

O que é neoliberalismo?

Friedrich Hayek 2

Antes de qualquer outra consideração é preciso afirmar de saída, e fortemente, que o neoliberalismo não é a política do Estado mínimo. Segundo Pierre Dardot e Christian Laval, a tese segundo a qual “o termo neoliberalismo designa uma ideologia que prega o “retorno” ao liberalismo originário e uma política econômica que consiste em retirar o Estado para abrir espaço ao mercado” está totalmente errada. Ora, essa mesma crítica já fora feita no artigo Pós-grande indústria e neoliberalismo, que é de 2005, e está publicado no número 97 da Revista de Economia Política. Entretanto, mesmo se não há originalidade nessa afirmação, os escritos desses dois intelectuais franceses sobre o tema contribuem para uma melhor compreensão desse pensamento político ora dominante na sociedade. Por isso, aqui se publica uma tradução de duas seções de um importante artigo da lavra desses autores, Néolibéralisme et subjectivation capitaliste, o qual foi  publicado no número 41 da Revue Cités.

Dardot,P e Laval,C – O que é o neoliberalismo

O marxismo de David Harvey

O que é chave para compreender o desenvolvimento histórico do capitalismo e as suas crises, o subconsumo ou a superacumulação? O que divide os marxistas nessa questão? Na apresentação em anexo constrói-se um argumento para mostrar com a aceitação ou a rejeição da lei tendencial da queda da taxa de lucro apresentada por Marx no terceiro livro de O Capital divide os marxistas em duas correntes antagônicas: os teóricos do subconsumismo e os teóricos da superacumulação. Esse pano de fundo é utilizado então para fazer um comentário crítico do livro O Enigma do Capital de David Harvey. Segue a apresentação em pdf: O enigma do capital e as crises do capitalismo

Capitalismo Zumbi

Chris Harman e o capitalismo zumbi

Nesta nota de leitura, pretende-se apresentar o sentido geral das teses contidas no livro de Chris Harman, de 2009, que tem o seguinte título: Zombie capitalism – global crisis and the relevance of Marx, ou seja, capitalismo zumbi – crise global e a relevância de Marx. Neste livro, em cerca de 350 páginas, este autor visa explicar o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, mantendo fidelidade ao pensamento de Marx. Entre outros pontos, por exemplo, ele critica as ideias de dominância financeira e de financeirização que são muito difundidas no Brasil. Para ler essa matéria basta Baixar texto 27 aqui.

A grande falha do capitalismo

Um resumo da tese de Andrew Kliman

em The Failure of capitalist production

A nota busca apresentar resumidamente a explicação dada por Andrew Kliman para a grande crise do capitalismo, a qual se manifestou fortemente a partir de 2007. Ela foi desenvolvida em seu livro A falha da produção capitalista – as causas subjacentes da grande recessão, publicado em 2012. Nessa obra, com base em uma investigação estatística extremamente árdua dos dados da economia norte-americana, ele sustenta a tese polêmica segundo a qual todo o desenvolvimento da crise, assim como as suas condições antecedentes, pode ser explicado estritamente com base nas concepções de Marx sobre as leis que determinam o evolver do capitalismo. Para ver o texto como um todo basta Baixar texto 25  aqui.