Senhores digitais ou titãs capitalistas?

Crítica da narrativa sobre o “tecnofeudalismo”

Arif Novianto [1] – 5 de maio de 2025

Nos últimos anos, a ascensão de monopólios que operam por meio de plataformas como Google, Amazon, Meta e Microsoft gerou um debate crescente entre estudiosos e intelectuais públicos. Muitos deles descrevem esses desenvolvimentos sob a ótica de um suposto retorno às estruturas de propriedade feudais.

Essa narrativa, frequentemente rotulada como tecnofeudalismo ou como feudalismo digital, sugere que o capitalismo contemporâneo, baseado em meios de produção digitais, não é mais movido principalmente pela exploração do trabalho, mas pela extração de rendas de aluguel por meio do controle de infraestruturas digitais (Varoufakis, 2021).

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O capitalismo e a forma K

Michael Roberts – The next recession blog [1]

O K não é OK nos EUA

Lê-se no Financial Times que, na campanha do ano passado, Donald Trump prometeu “baixar os preços imediatamente, a partir do primeiro dia”. No entanto, desde seu retorno à Casa Branca, em janeiro de 2025, a inflação tem permanecido elevada para os padrões norte-americanos. Como resultado, a aprovação de Trump caiu por estar afetada por preocupações com a elevação do custo de vida. No entanto, na última quarta-feira, ele afirmou que as preocupações com o custo de vida dos Estados Unidos são um “trabalho sujo” e uma “farsa” que vem sendo perpetuada pelos democratas.

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A “revolução” dos “nuvenlistas”!

Jorge Nóvoa [1] e Eleutério F. S. Prado [2]

Uma tese inusitada

O livro da moda entre os que, na esquerda, cedem à fraseologia e ao espetáculo é, sem dúvida, Tecnofeudalismo – o que matou o capitalismo[3] de Yanis Varoufakis. Nele, esse autor, um economista estrelado e autoconfiante, sustenta que “os “nuvenlistas” (…), membros da nova classe revolucionária, tiraram os capitalistas do topo da hierarquia social”.[4] No entanto, passado o susto diante dessa assertiva pretenciosa, um economista questionador poderia perguntar: mas o gênero “capitalista” não englobaria o subgênero nuvenlista? O seu texto deixa essa e muitas outras dúvidas; algumas das quais aparecem aqui.[5]

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A fenomenologia de Tran Duc Thao

Título original: A origem e a gênese da consciência pura: o conteúdo real da fenomenologia por meio do materialismo dialético de Tran Duc Thao.[1]

Jérôme Melançon – Universidade de Regina, Canadá

Resumo

A leitura de Husserl por Tran Duc Thao visa desembaraçar a noção de consciência pura para redescobrir a realidade da vida humana. O marxismo, portanto, permitiu que Thao fosse além da fenomenologia para alcançar os objetivos do próprio marxismo. A partir do que ele retém do idealismo transcendental de Husserl, Thao desenvolve um materialismo dialético no qual a subjetividade é o movimento da própria tomada de autoconsciência da natureza.

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O fim incontornável de uma teoria

Autores: Jorge Nóvoa [1] e Eleutério F. S. Prado [2]

Uma ideia luminosa

Sim, parecia uma teoria inovadora quando surgiu no artigo Em busca de uma teoria do valor-atenção [3], o qual foi publicado não faz muito tempo na grande rede de informação e comunicação em que tudo parece morrer de modo bem rápido e, igualmente, durar para sempre; contudo, não demorou muito, para que essa teoria recebesse algumas críticas, as quais ofuscaram o seu brilho e empanaram a pretensão que a engendrara. [4] Isso pressionou o seu autor, Marcos Barbosa de Oliveira, a tentar esquecer que a formulara. E o fez num novo artigo que denominou Considerações sobre a economia da atenção.[5]

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“E Marx não conheceu a internet…”

Jorge Novoa [1] e Eleutério F. S. Prado [2]

Crítica ou alavanca?

Que não se assustem os eventuais leitores! A frase inesperada, que aparece aqui como título da presente nota – e que encerra um anacronismo espantoso –, encontra-se num artigo de Marcos Dantas. Com mais precisão, ela está presente em seu escrito, Uma mercadoria ‘sui generis[3], o qual foi publicado aqui no portal A terra é redonda. Por meio dele, esse autor buscou entrar numa pequena, mas necessária, controvérsia.  

Apareceu aí com o objetivo aparente de criticar outro artigo, Crítica da teoria do valor atenção,[4] que fora publicado nesse mesmo portal, assinalando os equívocos do protoprojeto teórico anunciado no escrito Em busca de uma teoria do valor-atenção. [5]  Aí tão somente se dedicou algum esforço para corrigir um erro crasso, mas muito difundido, sobre uma suposta formação de valor econômico na esfera da comunicação.

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Ouro: o que está por trás do boom?

Michael Roberts – The next recession blog – 9/10/ 2025

Esta semana, o preço do ouro em dólares americanos atingiu US $ 4.000 por onça-troy (que equivale a 24,3 gramas de ouro). Esta é uma alta histórica (pelo menos em dólares nominais). Mas mesmo essa alta parece destinada a ser superada. O banco de investimento Goldman Sachs prevê que chegará a um valor de US $ 4.900 por onça-troy até o final do ano. Note-se que preço do ouro em outras moedas importantes também tem se elevado.

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Ciclos longos na economia capitalista

Michael Roberts – The next recession blog – 26/12/2024

Há muito simpatizo com o conceito de longos ciclos na produção e acumulação capitalistas. A ideia é que a produção capitalista se move em ciclos, não apenas booms e recessões a cada 8-10 anos ou mais, mas que também há períodos mais longos de acumulação e crescimento da produção geralmente mais rápidos, ou seja, períodos de relativa prosperidade seguidos por períodos de acumulação e crescimento relativamente mais lentos.  com mais recessões. Esses ciclos ou ondas mais longas duram cerca de 50 a 60 anos, incluindo as fases de expansão e queda.

Se tais ciclos existirem e puderem ser apoiados por evidências empíricas, eles forneceriam um indicador importante do estado da economia capitalista mundial.

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O capital está morto?

Autor: Eleutério F. S. Prado

Os eventuais leitores deste textinho podem não acreditar, mas aquele que aqui escreve recebeu uma mensagem do além – além daquilo que aprendeu estudando O capital. E ela começa afirmando algo bem conhecido: no período que se inicia nos anos 80 do século passado, ocorreu uma “implosão da estabilização do mundo do trabalho fordista”. Começa bem, portanto, mas logo se aventura por sendas desconhecidas. Sugere, nesse sentido, que esse processo afetou de modo crucial o desenvolvimento da sociedade moderna; agora, passadas quatro décadas de seu início, ou o capital está moribundo ou ele está morto.

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Efeitos das transferências fiscais para os capitalistas

[1] Autor: Prabhat Patnaik [2] – Blog Ideas – 25 de novembro de 2024

É comum, atualmente, que os governos forneçam transferências fiscais aos capitalistas, seja por meio de redução das taxas de impostos corporativos ou fornecendo subsídios diretos; com essas medidas, eles visam incentivar um maior investimento por parte dos capitalistas, estimulando, assim, a economia.

Durante a primeira presidência de Donald Trump, houve um corte na alíquota do imposto corporativo com esse objetivo. Na Índia, o governo Modi, como é bem sabido, deu enormes concessões fiscais com o mesmo objetivo. Mesmo um conhecimento mínimo de economia, no entanto, mostra que tais transferências para capitalistas são contraproducentes em um regime neoliberal.

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