A construção do homo alienatis

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Neste artigo, pretende-se fazer um comentário crítico à famosa tese de Jacques Lacan que se encontra no texto O estádio do espelho como formador da função do eu tal como é revelada na experiência psicanalítica, dado a conhecer em comunicação feita ao XVI Congresso Internacional de psicanálise, em Zurique, aos 17 de julho de 1949. Nesse escrito, o psicanalista francês se esforça para mostrar como ocorre o primeiro momento da formação do eu, aquele em que se dá supostamente o reconhecimento de si mesmo pelo infante como um corpo uno e, assim, distinto de outros corpos e das coisas do ambiente.  

O teor da crítica já está evidentemente anunciado pelo título: a experiência psicanalítica visa o indivíduo – antes de tudo na família – e tende a construir uma antropologia fundante. Aquela engendrada pela mente criativa de Jacques Lacan – julga-se – deve ficar conhecida pelo nome aqui proposto: homo alienatis. O que se segue não se baseia, entretanto, nesse tipo de experiência, porque está escrito na perspectiva da crítica da economia política.

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Liberdade e Alienação; do humanismo mitigado (não-todo)

Autor: Mateus Flisfeder

Atualmente, o conceito popular de Antropoceno, usado para designar a era geológica humana, coloca em questão a centralidade da subjetividade humana. O pós-humanismo crítico – particularmente em suas versões ontologicamente realistas, neoespinosanas e deleuzianas, atreladas ao imediatismo e à imanência pura – exige o descentramento do sujeito humano. Este, em sua arrogância e desprezo prometeico pelo não humano, parece ter incendiado o mundo, causando danos ambientais irreparáveis. Mas será que uma descentração ativa do sujeito humano é realmente possível?

E se a única maneira de acessar adequadamente a situação for fazendo o oposto, isto é, ocupando uma posição antropocêntrica, não no sentido de dominação humana do mundo não humano, mas de fazer da subjetividade humana o centro metodológico e ético de nossa investigação sobre esse enigma? E se a era do Antropoceno exigir, não o descentramento do sujeito humano, mas o inverso? E se agora for preciso repensar um humanismo dialético e universalista por causa do Antropoceno?

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Sobre a suposta homologia do mais-de-gozar com o mais-valor

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Para tratar desse tema, vale-se de início de conteúdos que se encontram no livro Poder e política na clínica psicanalítica (Annablume, 2015) de Marcelo Checchia, um escrito longo, mas compreensível mesmo se proveio do teclado de um autor lacaniano. O que se fará é uma tentativa bem arriscada de entender um ponto difícil, atravessado por incertezas que se devem ao estilo do autor principal. Ademais, como bem de sabe, as noções da psicanálise não parecem estar ainda bem estabelecidas, o que dificulta muito o entendimento de qualquer ponto crucial de seu discurso.

O objetivo consiste em compreender criticamente a afirmação de Jacques Lacan de que haveria uma relação de homologia entre o mais-valor de Marx e a noção de mais-de-gozar proposta por ele mesmo. Contudo, não se pode compreender esse ponto polêmico se não se apreendeu antes o sumo da dialética da luta pelo reconhecimento que Georg Hegel apresentou na Fenomenologia do Espírito – essa luta, e isso é muito importante, consiste também, originalmente, numa contraposição entre vida e liberdade.

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A moral jansenista e a compulsão do capitalismo (III)

Autor Samo Tomšič

A antissocialidade do capitalismo versus a sociabilidade da análise

Na citação inicial, antes apresentada, Lacan evoca a dialética hegeliana do senhor e do escravo, na qual o senhor é aquele que aposta sua existência numa luta de vida e morte. Enfrentando o risco, ele se põe como senhor não só de sua própria vida, mas também – e sobretudo – da vida dos outros que subordina. Ao transformar o adversário em seu escravo, o senhor simultaneamente triunfa sobre a morte. Mas Pascal não está preocupado com esse mito hegeliano da aposta inicial daquele que se transformará em mestre; na verdade, ele nos apresenta uma figura mais sofisticada e totalmente moderna do mestre.[1]

O mestre de Pascal não precisa apostar nada, porque o jogo que comanda delega o risco ao libertino, transformando-o num trabalhador compulsivo em prol de Deus. Transformado, o antes incrédulo deve trabalhar doravante para um Deus que é radicalmente indiferente ao sacrifício humano e cuja vontade não pode ser influenciada por nenhuma ação humana.

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A moral jansenista e a compulsão do capitalismo (II)

Autor Samo Tomšič

O surgimento da fé a partir da compulsão de repetir

Depois de vincular a noção de mais-valor à transformação moderna do gozo, Lacan volta-se para Pascal e, em uma série de sessões do Seminário XVI, focaliza um detalhe específico dos Pensées de Pascal. Observa a notória aposta com que Pascal se empenha, por um lado, em desenvolver um argumento probabilístico para a existência de Deus e, por outro, em lançar luz sobre o mecanismo da conversão, a transformação do incrédulo em crente.

Se a ligação de Pascal com o capitalismo deve ser buscada em algum lugar, este vem a ser o vínculo – a princípio um tanto excêntrico – entre a questão da existência de um ser supremo e o jogo de aposta, na função estrutural dessa aposta e no surgimento da fé. A aposta, de fato, representa uma sofisticada mudança na tradição filosófica já que o esforço fundamental da filosofia sistemática consistiu sempre em fornecer provas sólidas da existência de Deus. Ao longo de sua história, a filosofia investiu muito esforço nessa empreitada, mas os resultados foram fracos; particularmente com o advento da ciência moderna, já que, por causa dela, a certeza da existência de Deus tem sido cada vez mais minada internamente pela dúvida ateísta.

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A moral jansenista e a compulsão do capitalismo (I)

Autor Samo Tomšič

Renúncia à vida e mais-valor

No XVI Seminário, Jacques Lacan afirmou: “O que o senhor vive é uma vida, mas não a sua própria, mas a vida do escravo. É por isso que, sempre que uma aposta na vida está em jogo, o mestre fala. Pascal é um mestre e, como todos sabem, um pioneiro do capitalismo.”[1]

Sabe-se mesmo que Pascal foi um pioneiro do capitalismo? A conexão não é evidente, embora Lacan apoie sua afirmação com a lembrança de que Pascal inventou o ônibus e a primeira calculadora mecânica (machine arythmétique). Essas invenções de natureza técnica podem sugerir certa compatibilidade do espírito científico de Pascal com a proverbial capacidade de inovação do sistema capitalista; no entanto, elas não justificam uma tese tão forte quanto aquela formulada por Lacan.

Como a citação inicial faz referência não apenas às invenções de Pascal, mas também à notória aposta – o argumento probabilístico de Pascal para a existência de Deus –, uma questão se impõe.

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Sobre as origens da realidade psíquica

Autor: Jon Mills[1]

A arché [2] da psique

Quando começa a vida psíquica? A emergência do ego constitui propriamente a subjetividade humana ou podemos apontar legitimamente para forças ontológicas anteriores? Como mencionado anteriormente, não desejo reduzir essa indagação metafísica a um empreendimento meramente materialista, apenas para reconhecer que certas contingências fisiológicas da corporeidade são uma condição necessária, embora não suficiente para explicar a origem psíquica.

Embora a psicologia do processo psíquico seja sensível ao trabalho contíguo e compatível feito nas ciências biológicas e neurocientíficas, isso não precisa nos preocupar aqui. Se alguém se contenta com uma abordagem materialista, que recorra ao discurso sobre o óvulo e o esperma.

Eis que devemos proceder com um respeito cuidadoso à máxima de Freud segundo a qual é preciso resistir à tentação de reduzir a psique ao seu substrato anatômico. Como as abordagens empíricas sozinhas não podem abordar a epistemologia do nosso interior ou do vivido qualitativo inerente ao processo experiencial, devemos tentar abordar a questão dialeticamente.

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A religião na crítica do capitalismo

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Este artigo pretende expor resumidamente a tese do filósofo freudo ou lacano-marxista Adrian Johnston sobre o lugar da religião nos últimos dois séculos frente à secularização produzida pelo crescimento exponencial das relações mercantis. Ele quer saber, dizendo de outro modo, como a religião ocupou o espaço social conforme ocorreu o desenvolvimento do capitalismo. A sua exposição encontra-se num extenso artigo publicado na revista Philosophy Today, em 2019: The triumph of theological economics: god goes underground, título que pode ser assim traduzido: O triunfo da teologia econômica: deus se tornou subterrâneo.

Johnston se inspira numa prédica de Jacques Lacan deixada nas linhas de seu famoso seminário sobre Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, de 1964: “a verdadeira fórmula do ateísmo não é que Deus esteja morto… a verdadeira fórmula do ateísmo é que Deus se tornou inconsciente”.

Se assim for, isso mostra que o governo da divindade sobre a sociedade é tão poderoso que apenas pode ser abandonado na aparência; quando isso ocorre, quando os crentes se tornam descrentes, ele vai sobreviver oculto no inconsciente daqueles que agora são “ateus” – incluindo-se nessa categoria os que se assumem agnósticos e aquele que o são devido ao seu comportamento social, mas não se assumem como tais. Mais do que isso, Johnston sustenta que a crença em um ser todo poderoso, quando passa a ser renegada explicita ou implicitamente, se torna ainda mais enérgica, pois agora ela passa a reinar sobre os “sujeitos” sociais sem que eles o saibam.

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A estagnação e o futuro da economia capitalista no Brasil

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

A economia capitalista no Brasil foi fortemente afetada pela crise do novo coronavírus que se iniciou em 2020 e que ainda não tem data certa para acabar: o nível do PIB caiu, o desemprego se elevou e a desigualdade de renda e riqueza aumentou. Considerando que a crise atual não vai durar para sempre, que talvez termine em 2022, o que os próximos anos reservam para os brasileiros? Sabendo que ela se encontrava estagnada ou quase-estagnada pelo menos desde o começo dos anos 1990, o que os brasileiros, especialmente os mais pobres, podem esperar do futuro?

Uma resposta será fornecida neste artigo, mas ela só virá ao final da exposição.

Os economistas em geral acreditam na capacidade da política econômica de produzir o crescimento. Os neoliberais têm fé no mercado: se o Brasil tem mostrado pouco potencial para elevar o PIB é porque o Estado cometeu sucessivos erros estratégicos no passado: descuidou da educação e da estabilidade macroeconômica; pecou pelo protecionismo e pelo estatismo. A solução que propõem são as reformas liberalizantes, as quais, em última análise, visam aumentar a taxa de exploração da força de trabalho e desregular os mercados para que o capital possa exercer o seu mando sem entraves burocráticos.

Os keynesianos confiam na capacidade do Estado para criar as condições e suplementar os mercados para que estes possam se desenvolver: é preciso elevar o investimento público, manter a empresas estatais estratégicas, sustentar um câmbio desvalorizado, taxar a exportação de bens primários, implementar políticas efetivas de distribuição da renda etc. Se o Brasil tem crescido pouco desde os anos 1990, isso se deve ao “thatcherismo tupiniquim” que, abandonando o nacionalismo econômico, produziu a desindustrialização, a reprimarização e a financeirização da economia brasileira, assim como uma enorme concentração da renda e da riqueza.

Para ler o artigo como um todo, favor baixar o pdf abaixo


[1] Professor Titular e sênior do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; blog na internet: https://eleuterioprado.blog.

Lacan, crítico de Marx

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Crítico de Marx ou apenas um mal leitor de O capital já que ele o lê sob o visor de Louis Althusser? Eis uma dúvida que o texto em sequência não resolve. Mas que fica aí para uma discussão posterior.

Como sabem os psicanalistas, mas não provavelmente os críticos da economia política, o objeto “a” aparece atualmente como um conceito fulcral da psicanálise contemporânea. Mas o que é então esse objeto, noção de lavra própria, com base no qual Lacan se lança numa crítica sutil ao autor de O capital?

Lacan partiu dos descobrimentos de Sigmund Freud de quem se dizia um seguidor fiel – o que, aliás, se pode duvidar. Ora, todos aqueles que se depararam pela primeira vez – senão pela segunda, terceira etc. vezes – perceberam que se trata de um conceito enigmático e de difícil compreensão. Nessa nota pretende-se discutir esse enigma recorrendo a certas categorias lógicas, as quais aqui advirão no momento apropriado. Por enquanto, procurar-se-á simplesmente descrevê-lo como categoria da psicanálise.

No textos dessa disciplina, esclarece-se em primeiro lugar que o “a” – um “a” minúsculo – adicionado ao termo “objeto” vem de “autre” em francês, termo que corresponde ao termo “outro” em português. Como o desejo visa sempre algo, forma com esse outro uma relação de mútua determinação. Então, esse “objeto outro” é apresentado com o objeto causa do desejo. Enquanto tal, enquanto objeto de desejo, ele assinala a produção de gozo, de satisfação. Sem que esse objeto possa ser aqui bem identificado, dá-se um primeiro passo na sua compreensão.[2] 

Quando a criança passa, no curso de seu processo de crescimento, a identificar aqueles que a cercam (mãe, pai, irmãos etc.) como outras pessoas, ela toma conhecimento de si mesma, ao mesmo tempo, como uma pessoa. Ora, essa distinção apenas se consolida quando a criança aprende a linguagem dos pais e se torna capaz de nomeação. Assim, ela passa a distinguir, no seio da família, a duplicidade “eu/outros”. Nessa diferenciação surgem, necessariamente, desejos na criança que se dirigem para os familiares, vistos como outros. Ademais, os desejos passam a se dirigir não apenas para as outras pessoas, mas também para as coisas outras, tudo o que eventualmente caia no interesse e no alcance do “sujeito”.

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