O apocalipse cripto vindouro

Nouriel Roubini [1]  – Project Syndicate – 3 de fevereiro de 2026

O futuro do dinheiro e dos pagamentos terá uma evolução gradual, não a revolução que os vigaristas de cripto estão prometendo. A mais recente queda do Bitcoin e de outras criptomoedas ressalta ainda mais a natureza altamente volátil dessa pseudoclasse de ativos. Só resta esperar que os formuladores de políticas acordem para os riscos antes que seja tarde demais.

Há um ano, o presidente mais pró-cripto da história dos EUA havia acabado de voltar ao poder. Eles acabara de agradar um contingente de investidores de criptomoedas desinformados e de receber um enorme apoio financeiro de profissionais semi-corruptos do setor cripto. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser um novo amanhecer para as criptomoedas, levando vários evangelistas auto-interessados a prever que o Bitcoin se tornaria “ouro digital”, alcançando pelo menos $200.000 até o final de 2025.

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Do Consenso de Washington ao de Londres?

Michael Roberts – The next recession blog – 16/01/2026

O Consenso de Washington consistia num conjunto de dez prescrições de política econômica, as quais, nas décadas de 1980 e 1990, eram consideradas como um pacote “padrão”. Recomendava reformas a serem implementadas nos países em desenvolvimento que passassem por crises, sob o controle do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, instituições multilaterais instaladas em Washington DC.

O termo Consenso de Washington foi cunhado, em 1989, pelo economista britânico John Williamson. Tornou-se depois uma base para políticas globais destinadas a promover “mercados livres”, tanto domésticos quanto globais, além de redução do papel do Estado por meio de privatizações e ‘desregulamentação’ dos mercados de trabalho e financeiros. O seu lema era “mantenha os gastos e déficits do governo baixos e deixe o mercado fazer seu trabalho”. Na prática, o Consenso de Washington era um conjunto de diretrizes econômicas que formava o núcleo do que depois viria a ser chamado de “neoliberalismo”.

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Eis como o G7 se desindustrilizou

Richard Baldwin [2] – 01/09/2026

Introdução

Talvez o evento mais importante da história econômica moderna tenha sido a industrialização dos países do G7 e sua ascensão ao domínio da economia mundial. Sete gráficos mostram como a velha dominância industrial foi perdida [1]

Durante os séculos XIX e XX, as economias do G7 se industrializaram de forma rápida, crescendo mais rápido do que a média global. Isso fez com que passassem a gerar cerca de dois terços da produção manufatureira e do PIB globais, apesar de conterem apenas 13% da população mundial (5,2 bilhões). Assim, apenas um terço da renda mundial era distribuída entre os outros 4,5 bilhões restantes, habitantes do planeta.

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Carga tributária no Brasil

Diversos autores [1]

Resumo

Este estudo emprega microdados administrativos de cobertura populacional para fornecer novas estimativas da desigualdade de renda e das alíquotas efetivas por grupo de renda no Brasil, abrangendo toda a renda e todos os tributos.

Os dados permitem conectar empresas a seus respectivos sócios e acionistas e, assim, alocar os lucros das empresas e os tributos a elas incidentes aos correspondentes sócios e acionistas pessoas físicas. Os resultados levam a uma revisão acentuada das estimativas oficiais de desigualdade: o 1% mais rico concentra 27,4% da renda total em 2019, um dos níveis mais elevados registrados no mundo.

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Uma nova era feudal?

Walden Bello [1] – Counterpunch – 13 de novembro de 2025

Investidura de um cavaleiro (miniatura dos estatutos da Ordem do Nó, fundada em 1352 por Luís I de Nápoles) – imagem de domínio público

Desde que a Internet nasceu na década de 1990, e com ela as “big techs”, temos a sensação de que entramos numa nova era em termos de economia política global. Muitos tentaram apontar em que consiste essa transformação. Talvez aquela mais famosa entre esses pensadores críticos seja Shoshana Zuboff. Essa autora, como se sabe, afirmou num longo livro que estamos vivendo numa era de “capitalismo de vigilância”.

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Ouro: o que está por trás do boom?

Michael Roberts – The next recession blog – 9/10/ 2025

Esta semana, o preço do ouro em dólares americanos atingiu US $ 4.000 por onça-troy (que equivale a 24,3 gramas de ouro). Esta é uma alta histórica (pelo menos em dólares nominais). Mas mesmo essa alta parece destinada a ser superada. O banco de investimento Goldman Sachs prevê que chegará a um valor de US $ 4.900 por onça-troy até o final do ano. Note-se que preço do ouro em outras moedas importantes também tem se elevado.

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A desigualdade nos EUA (Parte V)

Autor: Paul Krugman.

Eis as quatro primeiras postagem sobre o tema: Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV.

A minha frase favorita do filme Wall Street, saído em 1987, aparece quando Gordon Gekko ridiculariza o personagem Charlie Sheen por suas limitadas ambições: “Não estou falando de US $ 400.000 por ano trabalhando duro em Wall Street, voando de primeira classe e vivendo confortavelmente. ” Ora, ajustado pela inflação, 400 mil, em 1987, equivalem a cerca de US $ 1,1 milhão agora.

O que essa frase diz é que, mesmo em 1987, bem no início do grande aumento da desigualdade pós-1980, muitas pessoas que operavam no setor de finanças – ou seja, que trabalhavam em Wall Street – já recebiam quantias muito grandes e que, por isso, algumas delas estavam acumulando fortunas extraordinárias.

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A desigualdade nos EUA (Parte IV)

Autor: Paul Krugman – As três primeiras postagem então aqui: Parte I, a Parte II e  a Parte III.

Quem disse isto que se segue? Se houver neste país homens suficientemente grandes para tomar o governo dos Estados Unidos, eles o tomarão. O que temos que determinar agora é se somos suficientemente grandes, se somos homens com larga grandeza, se somos suficientemente livres, para tomar posse novamente do governo que é nosso.

Não, não foi Bernie Sanders ou Alexandria Ocasio-Cortez. É uma citação de The New Freedom, ou seja, da plataforma de campanha de Woodrow Wilson na eleição presidencial de 1912.

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O neoliberalismo morreu?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A questão é bem controversa. Segundo Nancy Fraser, o neoliberalismo não morreu; contudo, passou da fase progressista para uma fase reacionária (veja-se a nota Depois do neoliberalismo). Já para Branko Milanovic o mundo está entrando em uma nova era, mas o neoliberalismo não chegou ao fim. Segundo ele, os países ricos adotam agora uma política com dupla face:  abandonam a globalização neoliberal internacionalmente, mas continuam a promover um projeto neoliberal internamente (veja-se a nota O que vem depois da globalização?).

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A desigualdade nos Estados Unidos (Parte II)

Autor: Paul Krugman – A primeira parte está aqui.

A importância do poder do trabalhador [1]

Após a Segunda Guerra Mundial, as disparidades de renda na América permaneceram relativamente estreitas por mais de uma geração. Alguns eram ricos e muitos eram pobres, mas não havia a extrema desigualdade, a fragmentação econômica e a guerra de classes tal como veio a existir depois.

Então, começando por volta de 1980, a desigualdade aumentou, chegando a níveis incrivelmente altos tal como se vê atualmente. Como ficou documentado na postagem anterior (Parte I), não apenas o 1% superior na distribuição de renda se afastou dos 99% restantes, mas dentro do 1% superior o 0,1% superior, o 0,01% superior e o 0,001% superior também se afastaram daqueles que ganham menos do que eles.

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