Teorias da taxa de juros

Autores: Stavros Mavroudeas[1] & Th. Chatzirafailidis[2]

Três abordagens distintas

Existem três abordagens principais no pensamento econômico sobre a determinação da taxa de juros. Primeiro, analisaremos as duas mais importantes teorias burguesas da taxa de juros e, em seguida, apresentaremos separadamente a relevante teoria de Marx. Como será argumentado mais adiante, essa distinção é feita não apenas por razões de apresentação, mas principalmente por razões de substância científica.

A primeira teoria burguesa dos juros é a teoria neoclássica dos fundos emprestáveis. Sua ideia central gira em torno da existência de uma taxa natural de juros. Isso significa que a taxa de mercado tende a se aproximar da primeira no longo prazo. Assim, o ônus do ajuste “recai” sobre a taxa de mercado sempre que a poupança divergir dos investimentos. Mais detalhadamente, quando os investimentos superam a poupança e a taxa de juros de mercado é menor que a natural, a primeira aumenta até igualar a segunda, de modo a trazer a equalização da poupança com os investimentos. O mecanismo de ajuste inverso ocorre quando o investimento fica aquém da poupança, de modo que, no final, a economia sempre acaba em um estado de equilíbrio.

Continuar lendo

A grande substituição

Publica-se aqui um pequeno artigo de uma autora que pensa a partir de uma idealização, o capitalismo liberal corrigido em seus excessos pela social-democracia. A sua tese de fundo é que o sistema econômico está embutido numa sociedade que supostamente garante a solidariedade social. Eis que essa solidariedade é contrariada constantemente pela sociabilidade posta pelo sistema mercantil generalizado – outro nome para o capitalismo.

A sociedade é assim pensada, portanto, não como “sociedade civil” tal como acontece na tradição que vai de Hegel a Marx, mas como comunidade – forma de existência dos humanos soldada supostamente por uma sociabilidade orgânica. Apesar disso, a sua questão parece relevante. O que vai acontecer na civilização humana realmente existente se o neoliberalismo extremista (que chama de populismo) predominar num grande número de países?

Publica-se porque faz um contraponto aos artigos Não, não é fascismo e Sim, é suicidarismo sim, ambos publicados neste blogue.

Continuar lendo

Não, não é fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Às vezes, certas palavras se transformam em etiquetas que podem ser coladas em qualquer lugar que pareça interessante. É o que vem acontecendo com a palavra “fascista” que é usada por gente de esquerda quando enfrenta opiniões e ações controversas de gente de direita. Trata-se, é bem evidente, de uma tática de fácil emprego em entreveros políticos, mas que pode pecar por falta de rigor teórico: nem toda posição política de direita, ainda que adversa, pode ser denotada como fascista – mesmo quando se insurge como igualmente perversa.

Aqui não se quer considerar esse uso corriqueiro da palavra “fascista”, mas um outro que se afigura bem comum atualmente e que se vale de um embasamento bem mais austero. E ele se encontra, por exemplo, no artigo A ascensão global da extrema direita, de Sérgio Schargel, que veio à luz recentemente no sítio A terra é redonda. Os argumentos aí apresentados foram introduzidos por meio da seguinte epígrafe: “mais do que nunca, precisamos chamar e classificar o bacilo da extrema direita por seu nome verdadeiro: fascismo”.

Continuar lendo

Bem-vindo ao mundo da policrise

Autor: Romaric Godin [1]– Sinpermiso – 02/01/2024

O historiador Adam Tooze ressuscitou a noção de “policrise”, que se tornou um tema favorito das elites políticas e econômicas mundiais. Consideramos, abaixo, a ascensão e queda dessa noção da moda.

Bruno Le Maire, Ministro das Finanças de França desde 2017, não é um escritor prolixo. Mas, nas horas vagas, ele também é profeta. No outono de 2021, quando apresentou a Lei das Finanças de 2022, disse aos deputados que o seu orçamento era a primeira pedra de uma “grande década de crescimento sustentável”. Foi um momento de otimismo: a economia global parecia estar se recuperando rapidamente da crise sanitária. Os comentários de Le Maire ilustram a euforia generalizada que aflorou nos círculos empresariais e entre os principais economistas após a superação da crise sanitária.

No dia 1º de janeiro de 2021, quando as feridas da Covid ainda estavam abertas, um dos principais colunistas do Financial Times, jornal da City de Londres, Martin Sandbu, abriu o ano novo de então com um texto intitulado: “Adeus 2020, ano do vírus; olá ‘loucos anos vinte’.” O termo final da alocução (…) refere-se à década de 1920, que, pelo menos nos Estados Unidos, foi um período de forte crescimento e de nascimento da sociedade de consumo. A posição de Martin Sandbu parecia simples. Os consumidores, tentando esquecer a crise sanitária, tal como um século antes tinham tentado esquecer os horrores da guerra, embarcaram num frenesi de gastos, colocando a economia num círculo virtuoso, ou seja, “na maior prosperidade num século”.

Continuar lendo

Foley e Shaikh: economistas nobres sem Nobel

Autor: Michael Roberts – The New School Economic Review, 12/2023

Neste comentário, Michael Roberts recorre às autobiografias de Duncan Foley e Anwar Shaikh para refletir sobre as contribuições, muito importantes e bem abrangentes, desses dois autores.

Se há dois possíveis candidatos ao prêmio maior em Economia (conhecido como Nobel) que o mereceriam são Duncan Foley e Anwar Shaikh. Mas, em vez disso, o Prêmio Riksbank é sempre concedido a economistas convencionais, os quais muitas vezes não lançam luz sobre qualquer uma das questões econômicas e sociais candentes de nosso tempo.

Em vez disso, ao longo de suas longas carreiras, Foley e Shaikh aplicaram seu extenso conhecimento teórico às questões macro e microeconômicas que são verdadeiramente importantes: Foley escreveu sobre o papel do dinheiro, o crescimento, ciclos e desigualdade; Shaikh produziu análises sobre as crises, o comércio internacional, os lucros e até mesmo sobre o mercado de ações.

Continuar lendo

Trabalho imaterial e fetichismo: uma crítica a Negri e Hardt

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

No livro Império[2], Hardt e Negri definem trabalho imaterial como trabalho que produz, entre outras coisas, mas de uma maneira especial, serviços: “Como a produção de serviços não resulta em bem material e durável, definimos o trabalho envolvido nessa produção como trabalho imaterial – ou seja, trabalho que produz um bem imaterial, como serviço, produto cultural, conhecimento ou comunicação”[3]. Ao fazê-lo, eles ficam além ou aquém de Marx?

Em conseqüência, de modo preliminar, deve ficar claro que esses dois autores, ao empregarem o termo trabalho imaterial, estão se referindo ao trabalho que produz bens ou utilidades – e não ao trabalho abstrato, no sentido de Marx, que é uma abstração e  substância do valor. Obscuras permanecem, porém, as razões e as conseqüências dessa opção teórica.

Em O capital, esse último autor menciona uma certa preferência encontrada em textos econômicos por tratar da produtividade do trabalho no modo de produção capitalista fazendo referência ao conteúdo material do trabalho. Hardt e Negri atribuem uma enorme importância ao que chamam de trabalho imaterial. Por isso, crêem importante fazer diferença entre trabalho que produz coisa útil e trabalho que gera imediatamente serviço útil.

Continuar lendo

É Žižek um intelectual sério?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aviso: ainda que seja bem importante encontrar uma resposta, a pergunta posta pelo título não será aqui respondida. Pois, esta nota apenas visa reapresentar criticamente um artigo escrito por esse autor, o qual também ele escolheu denominar interrogativamente: É o trabalho abstrato universal? O objetivo consiste, outrossim, em opor uma pequena à sua provocação maior porque ela própria suscita esse tipo de dúvida. A reflexão necessária para respondê-la que fique, pois, com cada um. Mas que se examine também, ao mesmo tempo, por justiça, a seriedade do autor da presente nota.

A figura pública do autor de Menos que nada – Hegel e a sombra do materialismo dialético, como bem se sabe, levanta outros questionamentos: como se deve classificar melhor o Sr. Slavoj? Seria o Sr. Žižek um filósofo hegeliano, um crítico cultural pós-moderno, um leninista de escritório, um novo gênio iluminista ou mesmo um agitador contrarrevolucionário? Ora, essa espécie de confusão não seria produzida, propositalmente, por ele mesmo? Afinal, não se vive hoje na sociedade do espetáculo?

Continuar lendo

A China está em apuro – ou não?

Nathan Sperber – Sidecar – 8/09/2023

O economista ganhador do Prêmio Nobel Paul Krugman não mede as palavras para falar da economia capitalista na China:

Os sinais são agora inequívocos: a China está em grandes apuros. Não estamos falando de algum pequeno contratempo no caminho, mas de algo mais fundamental. Toda a forma de fazer negócios do país, o sistema econômico que impulsionou três décadas de crescimento incrível, atingiu os seus limites. Poderíamos dizer que o modelo chinês está prestes a atingir a sua Grande Muralha e a única questão agora é quão grave será a queda.

Esse relato, entretanto, não é de hoje, mas se refere ao que ocorreu no verão de 2013. O PIB da China cresceu 7,8% nesse ano “fatídico”. Na década seguinte, a sua economia expandiu-se 70 por cento em termos reais, em comparação com 21 por cento para os Estados Unidos. A China não teve uma recessão neste século – por convenção, dois trimestres consecutivos de crescimento negativo – e muito menos um “crash”. No entanto, de tempos em tempos, os meios de comunicação financeiros anglófonos e o seu rastro de investidores, analistas e grupos de reflexão são dominados pela crença de que a economia chinesa está prestes a entrar em colapso.

Continuar lendo

Xi Jinping: um imperador?

Autor: Ho-Fung Hung [1] – Jacobin EUA – 15/02/2023. Título original: Mussolini em Pequim

O modelo chinês de capitalismo dirigido pelo Estado está se desfazendo – e está desencadeando um novo autoritarismo.

Em 2008, antes de sua primeira candidatura séria à presidência dos EUA, Donald Trump expressou admiração sem reservas pelo modelo econômico da China. Naquela época, a China era vista como um lugar onde capitalistas como ele podiam buscar livremente lucros sem quaisquer restrições regulatórias:

Na China, os capitalistas ocupam centenas de hectares de terra, despejando sempre a sujeira no oceano. Certa vez, perguntei a um construtor: Você obteve um estudo de impacto ambiental? Ele me respondeu: “O quê?” Então, questionei: “Você precisava de aprovação para lançar os resíduos no mar?” Não, me disse.

Continuar lendo

China: uma economia zumbi

Autor: Ho-Fung Hung [1] – Sidecar em 4/08/2023 e Sinpermiso em 8/08/2023

No início dos anos 2010, o economista Justin Lin Yifu, ex-diretor do Banco Mundial ligado ao governo chinês, previu que a economia chinesa teria pelo menos mais duas décadas de crescimento acima de 8%. Ele calculou que, como a renda per capita do país na época estava aproximadamente no mesmo nível do Japão na década de 1950, e da Coreia do Sul e Taiwan na década de 1970, não havia razão para que a China não pudesse replicar os sucessos anteriores desses outros países do Leste Asiático.

O otimismo de Lin ecoou entre os comentaristas ocidentais. A revista The Economist projetou que a China se tornaria a maior economia do mundo até 2018, ultrapassando os Estados Unidos. Outros fantasiavam que o Partido Comunista embarcaria em um ambicioso programa de liberalização política. No New York Times, Nicholas Kristof, em 2013, escreveu que Xi Jinping iria “liderar um ressurgimento da reforma econômica e, provavelmente, também alguma flexibilização política”.

Continuar lendo