Por que Trump venceu?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Os partidários norte-americanos da democracia liberal, com boa dose de angústia, têm se defrontado com essa pergunta. Se Trump se afigura para eles como populista, autoritário, mentiroso e até mesmo como neofascista, como pode ele ter ganho a eleição presidencial nos Estados Unidos, um suposto bastião da democracia liberal num mundo propenso a acolher ditaduras? Veja-se o que dizem dois economistas famosos, ganhadores do Prêmio Risk Bank (usualmente chamado de Prêmio Nobel de Economia), dado anualmente para os profissionais dessa área que propugnam pela continuidade do capitalismo.

Eis a explicação dada por Daron Acemoglu:

Em uma pesquisa Gallup de janeiro de 2024, apenas 28% dos americanos (um recorde de baixa) disseram-se satisfeitos com “a maneira como a democracia dos EUA estava funcionando”. Ora, a democracia americana há muito promete quatro coisas: prosperidade compartilhada, voz para a cidadania, governança orientada por especialistas e serviços públicos eficazes. Mas a democracia dos EUA – como, aliás, a democracia em outros países ricos (e até de renda média) – tem falhado no atendimento dessas aspirações.

Porém, nem sempre foi assim. Durante três décadas após a Segunda Guerra Mundial, a democracia entregou tais bens, especialmente a prosperidade compartilhada. Os salários reais (ajustados pela inflação) aumentaram rapidamente para todos os grupos demográficos e, assim, a desigualdade diminuiu. Mas essa tendência chegou ao fim em algum momento no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Desde então, a desigualdade disparou; ademais, os salários reais dos trabalhadores sem diploma universitário mal aumentaram. Em consequência, cerca de metade da força de trabalho americana viu a renda da outra metade aumentar.[2]

Eis agora a explicação dada por Joseph Stiglitz:

À medida que o choque da vitória de Donald Trump se instalou, especialistas e políticos passaram a refletir sobre o que isso significa para o futuro dos Estados Unidos e para a política global. Entender por que uma figura tão divisiva e desqualificada venceu novamente é crucial para os democratas. Eles foram muito para a esquerda e perderam os americanos moderados que constituem a maioria? Ou o neoliberalismo centrista –  perseguido por presidentes democratas desde Bill Clinton – falhou em entregar o que prometia, criando assim uma demanda por mudança?

Para mim, a resposta é clara: 40 anos de neoliberalismo deixaram os EUA com desigualdade sem precedentes, estagnação na parte intermediária do espectro de renda (algo ainda pior para aqueles abaixo) e declínio da expectativa de vida média (destacada pelo aumento de “mortes por desespero”). O sonho americano está morrendo; embora o presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris tenham se distanciado do neoliberalismo com sua adoção de políticas industriais, como representantes do establishment dominante, eles permaneceram associados ao seu legado.[3]

A conclusão que se segue dessas declarações é bem clara: para ambos esses autores, a vitória de Trump ocorreu porque as condições necessárias para a existência e continuidade da democracia liberal foram minadas nos Estados Unidos à medida que passaram a prevalecer aí as instituições e as políticas econômicas do neoliberalismo.

As duas explicações, situadas ainda – e com méritos – no campo da economia política não estão erradas, mas falham, em primeiro lugar, por não apresentarem a razão estrutural do advento do neoliberalismo. E essa descoberta apenas pode ser feita mediante um avanço no campo da crítica da economia politica. Sem esse movimento crítico que vai do funcionamento aparente do sistema às suas leis de tendência e contratendência parece que a adesão das forças políticas ao neoliberalismo provém de atos deliberativos autônomos que podem ser revogados a qualquer momento por outros atos deliberativos igualmente autônomos.

  Como bem se sabe, essa ideologia, normatividade e prática política veio à tona no final dos anos 1970 e se difundiu a partir daí – avassaladoramente – como uma resposta complexa à crise de lucratividade iniciada já no final dos anos 1960, que atingiu não apenas a economia norte-americana, mas a economia mundial como um todo.

A figura em sequência mostra bem que as taxas médias de lucro nos EUA  cairam por mais de um década (de 1968 a 1981) por efeito da redução da relação produto capital (aumento implícito da composição orgânica do capital), assim como da dificuldade de elevar a relação lucro/capital (ou seja, aumentar a taxa de exploração) em virtude do poder dos sindicatos, que então se mostrava bem forte. E ela mostra também como a política neoliberal, que enfraqueceu o poder dos trabalhadores de várias formas, deu bons resultados para o capital, na década seguinte (de 1981 a 1987). Sem atingir o patamar anterior, a taxa de lucro se recuperou e, com ela, os investimentos que impulsionam a acumulação de capital.

Como se sabe, o neoliberalismo foi bem-sucedido em conter a elevação do salário real da classe trabalhadora nos EUA e nos outros países em geral, ou seja, em mantê-lo abaixo dos ganhos de produtividade, tal como mostra a figura em sequência. Contudo, essa estatística descritiva é insuficiente para avaliar as perdas dessa classe. Pois, como se sabe, a partir de 1980, ela perdeu proteção sindical e governamental, acesso a empregos de longa duração, qualidade de vida  e até mesmo, para boa parte dela, aquele orgulho identitário de ser bem-sucedido na sociedade nucleada na relação de capital. Mas isso ainda não é tudo. Com o neoliberalismo, os trabalhadores perderam em parte a identificação de classe, pois são instados ou mesmo forçados pelas circunstâncias a se verem como auto-empresários.        

Ademais, como já se insinuou, as explicações de Acemoglu e Stiglitz acima apresentadas se dão sob a suposição de que o indivíduo social atua como homo oeconomicus tanto como trabalhador na esfera econômica quanto como eleitor na esfera política. Ao tomarem, assim, esse “puppet” do sistema como sujeito, ademais intemporal –, eles não conseguem apreender o que passa a ocorrer com a subjetividade dos trabalhadores sob os constrangimentos da normatividade neoliberal. Ora, para esclarecer esse ponto – diferencial importante na explicação do resultado da recente eleição presidendial nos EUA – é preciso agora recorrer à psicanálise como crítica social.

Como se sabe, a economia política e, sobretudo, a economia vulgar, constroem a abstração homo oeconomicus a partir da aparência do  sistema sistema mercantil generalizado apenas para explicar o seu funcionamento. É assim porque aqueles que atuam de fato como personificações das mercadorias em geral e, em particular, da mercadoria “força de trabalho” (ou seja, os trabalhadores), se comportam e têm de se comportar como indivíduos auto-interessados.

“O homem é” – diz Stuart Mill pondo um fundamento primeiro – “um ser determinado, pela necessidade de sua natureza, a preferir uma maior porção de riqueza ao invés de uma menor em todos os casos”.[4] Contudo, a personificação, que assim aparece, é também a base da identidade da classe trabalhadora[5] – classe essa, no entanto, que só existe in fieri. É apenas lutando que essa classe se constitui em ato, como tal. Ora, é essa potência que o neoliberalismo combate individualizando o trabalhador.

Se essa economia política apreende os atores econômico como sujeitos, a crítica da economia política mostra que eles são sujeitos assujeitados à lógica compulsiva e infinita da acumulação de capital. A psicanálise desde Freud, por sua vez, mostra esse “sujeito”, assim construído desde o berço e na família, como um ser contraditório, em cuja psique lutam entre si e se combinam as pulsões amorosas/solidárias e as pulsões agressivas/individualistas. Ora, essas últimas ganham proeminência na vida econômica desses “sujeitos” porque eles aí labutam num “sistema” – como diz Tomšič – “que pode ser descrito como uma socialidade anti-social organizada”.[6]

Ora, esse sistema, fundado que está na acumulação sem limite de capital, apesar de requerer cooperação na esfera da produção, promove de maneira intensa e extensa a competição, acentuadamente na esfera da circulação mercantil. Ora, como esse “sujeito” se defronta com forças que não controla e até mesmo desconhece, ele está permanentemente numa posição de pouca potência ou até mesmo numa condição precária. Em consequência, a psique de muitos, aqueles assalariados ou por conta própria que não ousam lutar contra o sistema, encontra-se muitas vezes embargada pelo ressentimento.[7] Eis que “covardemente” submetem o seu desejo à lógica do sistema, mas querem cobrar algo por essa submissão; mantêm, por isso, sentimentos de rancor, hostilidade, vingança, ciume, inveja em relação a outros escolhidos como culpados.  

Se Nietzsche bem notou que esse afeto predomina na sociedade moderna, ele não o associou ao capitalismo. Ao contrário, considerou que se tratava de uma reação psicológica doentia, patológica, às condições sociais inexoráveis de uma sociedade que produz derrotas, desigualdade, insucesso etc., ou seja, que tende a produzir muitos perdedores. Como se sabe, ao indivíduo ressentido ele opunha o indivíduo heroico que enfrenta o seu destino com galhardia. Tomšič mostra bem que essa crítica erra porque não desafia o individualismo e a lógica da competição:

Ao contrário da perspectiva de Nietzsche, o afeto em questão não é simplesmente uma reação “patológica” (…) à desigualdade, à injúria e à injustiça. De um ponto de vista mais estrutural, o ressentimento é uma manifestação (…) das relações econômicas de competição; eis que expressam o funcionamento compulsivo dessas relações em indivíduos e grupos sociais. Como o ressentimento impõe um envenenamento da diferença, ele marca o ser social com hostilidade mútua.

Se o ser social carrega a significação de “ser-com” e eventualmente de “ser em comum”, então o ressentimento sinaliza a subversão antissocial do ser social em “ser-contra”, um modo de ser que corresponde ao esforço capitalista pela “privatização” total do social e do comum, ou mais genericamente, um esforço para expropriar os sujeitos políticos de seus corpos, suas vidas e, finalmente, de toda estrutura que lhes forneceria condições (materiais e imateriais) para a reprodução da vida.[8]

Ora, toda essa volta de argumentos, foi necessária para encontrar a origem da segunda lacuna antes apontada nas explicações de Stiglitz e Acemoglu para o advento e a vitória do extremismo de direita na última eleição nos EUA – assim como, em parte, para a falta de votos na direita tradicional. Dizer que Trump ganhou porque Biden e os próceres do partido democrata norte-americano abandonaram as causas que interessam aos trabalhadores é insuficiente e, na verdade, superficial.

A razão verdadeira dessa deriva é que o neoliberalismo, ao extremar o individualismo, ao impor competição sem tréguas aos “sujeitos” trabalhadores, exacerba e multiplica o ressentimento. Não tanto porque não tem cumprido o que antes prometera em termos de expansão econômica e bem-estar. Não tanto também porque subtraiu as vozes dos trabalhadores na competição política. Mas principalmente porque o empreendedorismo neoliberal e o ressentimento individualista estão, assim, bem conjugados entre si. E esse último requer uma cobertura da falta que “sujeito” sente por meio de “boas” mentiras e de violência irracional. É daí que surge a possibilidade de ascensão da extrema direita.

Os eleitores populares de Trump são pessoas recriminadoras que “esqueceram” que submeteram os seus desejos ao sistema da relação de capital e que passaram a compensar a insatisfação com o próprio desempenho medíocre nesse sistema, dirigindo um ódio seletivo a outros tomados como culpados (imigrantes, pessoas que lutam por direitos, gente de esquerda, certos povos estrangeiros etc.).

Ao votarem num político vingador, eles obtêm gozo, ou seja, satisfação perversa. Trump é um pequeno grande homem, “pequeno” porque se apresenta como um homem comum tal como os seus seguidores e “grande” porque, para além deles, parece poderoso e é capaz de esmagar de fato aqueles que foram escolhidos para serem falsamente responsabilizados e, assim, odiados. Nessa toada, ao invés de progresso, o capitalismo espalha agora destruvidade brutal tal como ocorreu na Alemanha nazista e está já acontecendo de modo proeminente no Oriente Médio, sob a agência de Israel/EUA. Foi para aprofundar essa tendência que Trump venceu.  


[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https//eleuterioprado.blog.

[2] Ver Acemoglu, Daron – The fall and rise of American democracy. In: Project Syndicate, 3/12/2024.

[3] Ver Stiglitz, Joseph – How Trump victory exposes the failures of neoliberalism. In: Social Europe, 2/12/2024.

[4] Ver Stuart Mill, John – Da definição de economia política e o método de investigação própria a ela. In: Stuart Mill, São Paulo: Abril, 1974.

[5] Aqui se optou, por simplicidade, em não segmentar a classe trabalhadora em pequena burguesia, proletariado e lumpemproletariado.

[6] Ver Tomšič, Samo – The antisociality of capitalism. In: Libidinal Economies of Crises Times. Ed. Ben Gook. Bielefeld: Verlag, 2024.

[7] Sobre isso ver Kehl, Maria Rita – Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2020.

[8] Op. cit.

Perspectivas sombrias na era das catástrofes

Autor: Nouriel Roubini – Projeto Sydicate – 24/11/2023

Agora é de conhecimento geral que as ameaças econômicas, monetárias e financeiras estão crescendo e interagindo perigosamente com vários outros desenvolvimentos sociais, políticos, geopolíticos, ambientais, de saúde e tecnológicos. E há poucas razões para acreditar que os líderes de hoje possam gerenciar esses riscos que se multiplicam entre si.

Desde a publicação de Megathreats[1], em outubro de 2022, os temas que ai enfatizei se tornaram mainstream. Todos agora reconhecem que as ameaças econômicas, monetárias e financeiras estão aumentando e interagindo perigosamente com vários outros desenvolvimentos sociais, políticos, geopolíticos, ambientais, de saúde e tecnológicos. Assim, em dezembro de 2022, o Financial Times escolheu o termo “policrise” como uma das palavras-chaves do ano. Seja qual for o termo preferido (outros adotaram “permacrises” ou “calamidades confluentes”), há um reconhecimento crescente de que não só a economia global, mas até mesmo o ser humano está sob risco.

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Crise e corrupção na economia vulgar

Não é só a economia capitalista realmente existente que entra em crise, que passa por quedas, que eram periódicas no passado, mas que agora se transformaram numa crise estrutural continua, persistente. A própria economia vulgar também sofre crises constantes, mas não só porque os erros são possíveis, mas porque ela se desvia dos objetivos estritamente científicos, mesmo vulgares, para servir ao capital.

Se caía e ainda cai em meras apologias do existente, tal como a economia de equilíbrio geral, após-II Guerra Mundial, a própria “teoria econômica” se tornou mercadoria. Ao ser vendida na praça, perdeu completamente a seriedade. A corrupção se tornou inerente à sua prática. Os economistas mais afamados atuais são justamente aqueles que manipulam conceitos e números para falar disfarçadamente em nome dos interesses do grande capital e, particularmente, do capital financeiro. Um artigo recente do economista norte-americano, dissidente do mainstream, James Galbraith mostra isso com bastante clareza.

Eis porque a economia convencional  errou sobre a inflação

Autor: James Galbraith [1] – Publicado em 15/11/2023 – Project Syndicate

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Policrise novamente

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 08/10/2023

No início deste ano, escrevi um poste sobre o que alguns chamam de ‘policrise’. O termo indica que o modo de produção capitalista está se defrontando com diversas tensões disruptivas simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Tudo isso começou a acontecer já no início do século XXI.  Palavra da moda na esquerda conectada às novidades, resume, em muitos aspectos, a minha própria descrição das contradições do sistema. Aquilo que designei como “longa depressão” já da década de 2010 está agora atingindo o seu auge.

Como neste mês de outubro as principais agências econômicas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se reúnem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. É bom verificar o que está a acontecer com as contradições que compõem a policrise do capitalismo.

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China: uma economia zumbi

Autor: Ho-Fung Hung [1] – Sidecar em 4/08/2023 e Sinpermiso em 8/08/2023

No início dos anos 2010, o economista Justin Lin Yifu, ex-diretor do Banco Mundial ligado ao governo chinês, previu que a economia chinesa teria pelo menos mais duas décadas de crescimento acima de 8%. Ele calculou que, como a renda per capita do país na época estava aproximadamente no mesmo nível do Japão na década de 1950, e da Coreia do Sul e Taiwan na década de 1970, não havia razão para que a China não pudesse replicar os sucessos anteriores desses outros países do Leste Asiático.

O otimismo de Lin ecoou entre os comentaristas ocidentais. A revista The Economist projetou que a China se tornaria a maior economia do mundo até 2018, ultrapassando os Estados Unidos. Outros fantasiavam que o Partido Comunista embarcaria em um ambicioso programa de liberalização política. No New York Times, Nicholas Kristof, em 2013, escreveu que Xi Jinping iria “liderar um ressurgimento da reforma econômica e, provavelmente, também alguma flexibilização política”.

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Por que o capital está deixando os EUA?

Author: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 21/07/2023

No início, o capitalismo norte-americano estava centrado na Nova Inglaterra. Depois de algum tempo, a busca pelo lucro levou muitos capitalistas a deixar aquela área e se transferirem para Nova York e para os estados do meio do Atlântico. Grande parte da Nova Inglaterra ficou com fábricas abandonadas e cidades deprimidas – o que é evidente até hoje. Eventualmente, os empregadores se mudaram novamente, abandonando Nova York e o meio do Atlântico para o Meio-Oeste.

A mesma história foi se repetindo à medida que o centro do capitalismo se deslocava para o Extremo Oeste, o Sul e o Sudoeste. Termos descritivos como “cinturão da ferrugem”, “desindustrialização” e “deserto manufatureiro” se aplicavam cada vez mais a espaços antes habitados pelo capitalismo norte-americano.

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Um buraco negro? Crises econômica, bancária e financeira no horizonte

Autor: Jacques Sapir[1] – El viejo topo – 9/06/2023

Uma nova crise econômica internacional está claramente na perspectiva de muitos comentaristas.[2] Problemas crescentes nos sistemas bancários de vários países, nos Estados Unidos com o Silicon Valley Bank e depois com o First Republic Bank, na Suíça com o resgate do Credit Suisse, e na Alemanha com o Deutsch Bank, reavivaram os temores de uma grande crise financeira, como em 2008-2009. Mas há outros problemas no horizonte, como o crescimento lento nos países da União Europeia combinado com o aumento da dívida pública, assim como forte desaceleração da economia dos EUA.

Isso ocorre em um momento em que as economias ainda não se recuperaram totalmente da crise da Covid-19 e estão lutando contra uma inflação não vista desde os anos setenta. Por fim, a progressiva fragmentação das relações comerciais internacionais, processo que se arrasta desde o fim da crise financeira de 2008-2009, mas que se acelerou acentuadamente com as sanções adotadas pelos países ocidentais contra a Rússia, preocupa tanto as organizações internacionais quanto os economistas.[3]

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O mundo à beira de uma catástrofe climática

Autor: José Eustáquio Diniz Alves – IHU – 11/04/23 [1]

Eis a epígrafe

“Presta atenção, querida

De cada amor, tu herdarás só o cinismo

Quando notares, estás à beira do abismo

Abismo que cavaste com teus pés”

Cartola (1908-1980), O mundo

Eis o. resumo:

A ultrapassagem do limite de 1,5 graus Celsius em relação ao período pré-industrial pode levar a uma série de consequências negativas para a sociedade e o meio ambiente.

Eis o artigo:

O mundo está à beira de um aquecimento global catastrófico, em função do aumento das atividades antrópicas que geram danos profundos nos ecossistemas e no clima. O ser humano tem sido egoísta e tem apresentado uma avareza sem limites pelo domínio das riquezas naturais. Com uma soberba sem igual tem desprezado as demais espécies vivas do Planeta e provocado uma degradação em larga escala na biosfera. A civilização está à beira de um abismo climático e ambiental e, como alertou Cartola (1908-1980), é uma situação auto infringida: “Abismo que cavaste com teus pés”.

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A extrema-direita como expressão do declínio do Ocidente

Autor: Alejandro Pérez Polo [1]

1. O crash de 2008: aqui começou tudo

O ano era 2012. A crise económica resultante da Grande Recessão estava a grassar na Europa. As mobilizações populares em Espanha (15M e a greve geral de março de 2012) e os protestos violentos na Grécia tinham infetado todo o mundo ocidental. Chegaram ao coração do império: em Nova Iorque, os cidadãos manifestavam-se em Wall Street através de Occupy. Não havia quase vestígios da extrema-direita em lado nenhum. Nem mesmo em França a estreante Marine Le Pen lograva chegar à segunda volta das eleições presidenciais, que haveriam ser decididas entre Sarkozy e Hollande, com uma vitória socialista.

Estava em curso uma fase de decomposição ideológica e orgânica do neoliberalismo. Os consensos económicos da globalização, após a queda da U.R.S.S., tinham sido estilhaçados para sempre. A lua-de-mel que durou de 1991 a 2008, na qual o capitalismo desenfreado conseguiu incorporar na sua lógica todos os países da ex-União Soviética, terminou. Uma subsunção formal e material de todo o globo chegara ao seu fim.

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Capital no século XXI – entre a estagnação e a guerra

Autor: Domenico Moro [1]

A realidade geopolítica do início do século XXI deve ser estudada a partir da categoria de modo de produção. Esta categoria define os mecanismos de funcionamento do capital em geral, abstraindo de economias e estados individuais. Por esta razão, devemos inter-relacionar a categoria do modo de produção com a da formação económico-social historicamente determinada, o que nos dá a imagem de estados individuais e as relações entre eles num dado momento.

Além disso, a nossa abordagem deve ser dialética, ou seja, baseada na análise das tendências da realidade económica e política. Estas tendências não são lineares, mas estão muitas vezes em contradição com outras tendências. Só o estudo das várias tendências conflituantes pode permitir-nos delinear possíveis cenários futuros.

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