A grande desvalorização II

UMA NOTA COMPLEMENTAR

Examinou-se na nota anterior de mesmo nome, limitadamente, a tese central da corrente de pensamento marxista que se autodenomina de “crítica do valor”. De acordo com essa tese, a terceira revolução industrial, iniciada na década dos anos 60 do século XX, trouxe consigo um limite que o capitalismo não poderá superar: o decrescimento na produção de mais-valor decorrente do crescimento acelerado da produtividade do trabalho. Eis o que diz um autor destacado dessa corrente: “o capitalismo está chegando à sua crise final porque, com o crescimento da produtividade, agora a produção social total (global) de mais-valor apenas pode decrescer no longo prazo” (Ortlieb, 2014, p. 78). Nesta nota, complementar à primeira, pretende-se prosseguir e aprofundar aquele exame, discutindo agora certas condições necessárias para avaliá-la diante do desenrolar efetivo da realidade histórica contemporânea.

Numa nota futura pretende-se discutir como os autores dessa corrente apreendem a relação entre a queda da massa de mais-valor e o protagonismo do capital financeiro no capitalismo contemporâneo.

A nota complementar se encontra aqui: Queda da Massa de Mais-valor II

A grande desvalorização I

Imagem - La grande dévalorisation

Dois autores do grupo de pesquisadores da “crítica do valor”, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle escreveram, em alemão, um livro muito interessante de interpretação da grande depressão, iniciada em 2008. Traduzido para o português, o título da obra fica assim: A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise. O texto original foi publicado em 2012 e uma tradução para o francês apareceu em 2014: La grande dévalorisation… Nesta postagem, publica-se, primeiro, um resumo elaborado por eles mesmos da tese central do livro, o qual recebeu o seguinte título: A grande descarga de capital fictício. A versão aqui apresentada é despretensiosa, mas pretende estar de acordo com o texto original; ela foi elaborada a partir de uma tradução francesa do resumo escrito em alemão, a qual foi feita por Paul Braun. Ver http://www.palim-psao.fr/article-sur-l-immense-decharge-du-capital-fictif-par-ernst-lohoff-et-norbert-trenkle-108796981.html 

A interpretação da crise encontrada nesse livro está fundada numa conhecida tese de Robert Kurz segundo a qual, após a eclosão da terceira revolução industrial, o capitalismo entrou já na rota inexorável de seu próprio colapso. Pois, com ela, a produção social total de mais-valor, ao invés de crescer persistentemente como exige a lógica da acumulação de capital, passou a diminuir continuamente. Por isso, o grupo como um todo enxerga na enorme expansão financeira atual uma conclusão das contradições do próprio capital: por um lado, decorre de uma necessidade imanente da autovalorização do capital e, por outro, ocorre por meio de criação explosiva de capital fictício, capital fundado na apropriação possível de um mais-valor que, supostamente, será produzido no futuro. Como a massa de mais-valor está, segundo eles, declinando, o gigantesco volume de capital fictício assim criado não poderá se realizar enquanto tal. A valorização possível tornou-se, pois, impossível. Esses autores constatam, assim, que a relação de capital encontrou um limite que se revelará, ao fim e ao cabo, por mais que dure a agonia do sistema, como insuperável. O Reino de Hades é, pois, o seu destino…

Para explicar criticamente essa tese, publica-se também o pequeno texto Queda secular da massa de mais-valor – apenas uma nota explicativa.

A primeira encontra-se aqui: Da imensa descarga de capital fictício

A segunda encontra-se aqui: Queda da Massa de Mais-valor I

As fissuras do sistema

imagesComentam-se criticamente, numa nota curta, as teses de Raghuram Rajan sobre as causas da “grande recessão” da economia capitalista de 2008, a qual é encontrada em seu livro Fissuras – como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial. Para ele, em resumo, a crise foi produzida por uma piora na distribuição da renda nos EUA, por desequilíbrios nos fluxos internacionais de mercadorias e poupança e, finalmente, pela “exuberância” dos mercados financeiros. Procura-se mostrar que as suas análises são superficiais e que elas próprias demandam uma melhor compreensão das contradições inerentes à acumulação de capital e, assim, da propensão à crise que é inerente ao capitalismo. Ao final, indica-se que tanto a concentração da renda quando a financeirização não são mais do que manifestações fenomênicas da tendência à superacumulação de capital que vem caracterizando, sem resolução sustentável, o capitalismo contemporâneo desde a década dos anos 70 do século passado.

A nota se encontra aqui: Rajan e as fissuras do sistema

O que é financeirização? (I)

????????????????????????????????????????No prefácio ao livro A finança mundializada (2005), organizado por François Chesnais, Luiz Gonzaga Belluzzo não se esquece de equiparar o pensamento de Keynes ao de Marx:  “Marx, como Keynes, desvendou no capitalismo a possibilidade da acumulação da riqueza abstrata, desvencilhada dos incômodos da produção material. Para eles, tal ambição não é sintoma de deformação, mas de aperfeiçoamento da “natureza” do regime do capital.”  No entanto, como se sabe, Marx nunca propôs a “eutanásia dos rentistas”, mas Keynes o fez. Logo, não pode ser certo que Keynes tenha visto o desenvolvimento das formas financeiras do capital como “aperfeiçoamento da natureza do regime do capital”. Também é verdade que Beluzzo parece aprovar grosso modo as teses contidas no livro organizado por Chesnais. Mas, afinal, que teses são estas? Seriam elas corretas? Um livro recém-publicado, A political economy of contemporary capitalism and its crisis, propõe uma compreensão bem diferente da financeirização.

Para ler a nota clique aqui: O que é financeirização

Lei de Marx: pura lógica? lei empírica?

marx e criseApresenta-se nesta nota, em primeiro lugar, um resumo do debate recente entre Michael Heinrich e Michael Roberts sobre a validade da lei da queda tendencial da taxa de lucro. O primeiro autor, dando continuidade à tradição marxista contestadora, veio mais uma vez afirmar que ela não é nem empiricamente testável nem logicamente coerente. O segundo, na tradição marxista defensora, rebateu outra vez esses argumentos sustentando justamente o contrário. Em sequência, a nota procurar mostrar que ambas essas posições polares estão equivocadas. Pois, a lei de Marx não é nem uma proposição empírica vulgar nem uma tese puramente lógica. Ao contrário, vem a ser uma afirmação transfactual que expressa uma possibilidade real – uma necessidade relativa -, a qual apenas pode ser compreendida como momento expositivo no interior da dialética da acumulação de capital.

Para ler a nota chique aqui: Lei de Marx – Texto II

Um Gattopardo brazuca

????????????????????????????????????????O título desta nota veio de duas fontes. Proveio, primeiro, da leitura de Os limites do possível, livro recém-publicado de André Lara Resende (2013) e, segundo, de um artigo de Thomas Palley cujo título faz referência, precisamente, à celebre obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (2006): Gattopardo economics: the crisis and the mainstream response of change that keeps things the same (2013). E ela tem, é preciso deixar logo claro, um propósito bem acerbo e crítico. A nota pretende questionar acidamente as incongruências do conservadorismo ilustrado que anima o discurso de Resende na avaliação das perspectivas históricas do capitalismo contemporâneo.

Para ler a nota clicar aqui: Um gattopardo brazuca

Uma coisa transcendental

???????????????????????????????????????? Michael Heinrich virá ao Brasil em março para uma conferência. Ele é autor de um livro importante, bem rigoroso e muito didático, não traduzido para o português, que se chama Uma introdução aos três volumes de O Capital de Marx. Para divulgar um pouco o seu trabalho, este blog publica uma tradução de um pequeno artigo de sua lavra sobre o conceito de dinheiro na obra de Marx, o qual foi publicado antes em alemão e em inglês. Para apresentá-lo, ele menciona, comparativamente, como esse objeto social é apreendido pela escola neoclássica e pela escola keynesiana. Heinrich mostra que o dinheiro, em Marx, aparece como uma coisa com qualidades transcendentais. Indica, então, porque o capital é um importante desenvolvimento do dinheiro e porque ele engendra as suas próprias crises. Depois disso, explica a conexão entre crise econômica e crise financeira. Leia esse pequeno trabalho clicando aqui: Uma coisa com qualidades transcendentais.

Capitalismo movido à crédito

CDa acumulação em marcha forçada à crise e à da depressão prolongada

Nesta nota é discutida a tese de Richard Duncan sobre a íntima relação da expansão desmedida do crédito com o desempenho da economia norte-americana entre 1968 e o momento atual (2012).  Ele sustenta em seu livro The new depression, publicado em 2012, que a explicação desse movimento de  formação, expansão e estouro de uma  bolha de crédito, que dura por décadas pode ser feita com base na teoria austríaca do ciclo de Ludwig von Mises e na teoria monetária de Irving Fisher. Ambas essas teorias, como se sabe, enfatizam a importância do crédito na aceleração da acumulação de capital. A nota cuida, então, da crítica desse tipo de teorização baseado no equilibrismo de pleno emprego e, por isso, no dinheiro como meio de circulação em exclusivo. Mostra, em sequência, como o papel do crédito na acumulação de capital é acolhido – não do mesmo modo – pelo keynesianismo e pelo marxismo.

Para ler a nota basta clicar aqui: Capitalismo Movido à Credito

Depressão ou colapso?

CO marxismo oracular de Robert Kurz

Em 1995, Robert Kurz escreveu, na revista alemã Krisis, um texto sobre a crise e a depressão econômica – e sobre o eventual colapso do capitalismo –, o qual, desde então, circula intensamente na rede mundial de computadores. Eis aqui o seu título em português: A ascensão do dinheiro aos céus – Os limites estruturais da valorização do capital, o capitalismo de casino e a crise financeira mundial. Com o objetivo de testar as ideias de Robert Kurz aí expostas, não sem antes fazer um esforço para resumir as suas teses sobre a evolução futura do capitalismo, procura-se verificar se as informações estatísticas disponíveis e que podem ser encontradas na literatura econômica sobre o tema vêm ou não corroborá-las. Foca-se a economia norte-americana em que se localiza o coração do capital mundial. Para acessar o texto como um todo é preciso baixá-lo aqui:  O marxismo oracular de Robert Kurz.

Crise ou colapso?

Publicamos aqui, em tradução para o português, um novo texto de Michael Roberts. Nele, este autor discute de um modo simples umcolapso do dinheiro tema caro à tradição marxista. Questiona se a apresentação de Marx do modo de produção capitalista contém uma teoria das crises como fenômenos recorrentes ou se acolhe também uma teoria do colapso. A resposta que dá pode ser assim resumida: nessa apresentação, se não há apenas uma teoria de crises recorrentes, também não há uma teoria determinista do colapso do sistema como um todo. Este último, entretanto, permanece como uma possibilidade real num horizonte de tempo que não pode ser definido com precisão. Michael Roberts examina, então, com base em recursos de estatística descritiva, se é possível divisar os sinais de que um colapso está em andamento na trajetória da grande crise atual que, aliás, parece estar se transformando numa grande depressão. A resposta que consegue encontrar, se não é negativa, contempla um razoável grau de ceticismo quanto à efetivação dessa possibilidade. Para ler o artigo clique aqui: Michael Roberts – Crise ou colapso?