Samo Tomšič em paralaxe

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

A psicanálise de Freud à Lacan pressupõe o ser social posto pela sociabilidade mercantil, ou seja, o indivíduo social e, portanto, o dinheiro e, mais do que isso, o próprio capitalismo. Segundo o texto que aqui se vai examinar “não é o inconsciente que explica o capitalismo”, mas o oposto, “é o capitalismo que explica o inconsciente” (Tomšič, 2015, p. 108). Para examinar essa tese – e os seus problemas – é preciso estudar criticamente o que diz Samo Tomšič em seu livro O inconsciente capitalista (2015). Mas será que se chega a algum lugar?

Ele parte de Freud:

A Interpretação dos Sonhos quiz ir além dos seus significados para examinar os mecanismos formais que podem ser reconhecidos nos processos oníricos, isolando assim sua função de satisfação (Tomšič, 2015, p. 100).

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Marx e Freud, um pelo outro

Qual é o tema da teoria crítica?[1]

Sandrine Aumercier[2] e Frank Grohmann[3]

A hipótese freudiana do inconsciente é inseparável de uma crítica do sujeito; o exame de Marx das categorias da economia política constitui uma crítica às relações sociais objetivas do capitalismo. As pesquisas enciclopédicas de Marx em todos os campos científicos de seu tempo, bem como as incansáveis incursões de Freud em disciplinas vizinhas – e, em particular, na teoria da cultura – mostram que nenhum dos dois desconhecia as limitações de suas respectivas abordagens. Pelo contrário, eles foram receptivos ao fato de que o método empregado exigia necessariamente uma extensão para além de si mesmo. Nenhum deles, entretanto, foi capaz de extrair todas as consequências dessa necessidade.

O que ambas as críticas têm em comum é que elas retornam à materialidade da vida psíquica e da vida social. A psicanálise o faz por meio da análise do desvio das formações do inconsciente; a crítica da economia política o faz por meio do exame das consequências sociais da redução da vida humana a um mero apêndice do movimento autônomo do valor, algo que acontece às costas do portador da função. O problema da consciência emerge em ambos como o verdadeiro escândalo.

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Realizando a filosofia: Marx, Lukács e a Escola de Frankfurt

Autor: André Feenberg [1]

Resumo

Este artigo[2]explica a filosofia da práxis de quatro pensadores marxistas, os primeiros Marx e Lukács, e os filósofos da Escola de Frankfurt, Adorno e Marcuse. A filosofia da práxis sustenta que os problemas filosóficos fundamentais são, na realidade, problemas sociais concebidos abstratamente. Esse argumento tem duas implicações: por um lado, os problemas filosóficos são significativos na medida em que refletem contradições sociais reais; por outro lado, a filosofia não pode resolver os problemas que identifica já que só a revolução social pode eliminar as suas causas sociais.

Eu chamo isso de argumento “metacrítico”. Argumento que a metacrítica, nesse sentido, subjaz à filosofia da práxis, podendo ainda informar o nosso pensamento sobre a transformação social e filosófica. As várias projeções de tais transformações distinguem os quatro filósofos discutidos neste artigo. Eles também diferem no caminho para a mudança social. Eles desenvolveram o argumento metacrítico sob as condições históricas específicas em que se encontravam. As diferenças nessas condições explicam grande parte da diferença entre as teses, especialmente porque a filosofia da práxis está ancorada na circunstância histórica – daí decorre a resolução revolucionária mais ou menos plausível dos problemas quando estão escrevendo.

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Da noção de capital financeiro

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A financeirização e o capital financeiro são fenômenos do desenvolvimento do capitalismo notados principalmente durante o século XX. Como tais, eles não resultaram de novas hegemonias de classe nem de grandes mudanças de política econômica, historicamente datadas e ideologicamente motivadas. Não deveriam ser vistos, portanto, como falhas ou como anomalias que poderiam ser evitadas por formas alternativas de governança, tal como costuma pensar certas correntes do marxismo vulgar e do keynesianismo crítico.

Eis que são processos inerentes ou próprios da lógica de desenvolvimento do capital, os quais não podem ser anulados ou revertidos ao bel-prazer de vontades políticas progressistas, por meio de políticas econômicas mais bem concebidas por estarem preocupadas com o bem-estar da população em geral. Ainda que possam condicionar ou modificar o curso dos acontecimentos, elas respondem em geral, com graus de liberdade suficientes, às exigências estruturais e às crises do próprio capitalismo. Para entender tais fenômenos intrínsecos ao devir histórico desse sistema é preciso voltar à apresentação dialética em que consiste O capital. Contudo, é justo começar discutindo escritos do autor que examinou essa questão exaustivamente.

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Tocar os corpos, mudar o mundo

IHU: Vivemos um tempo de mal-estar generalizado. Paradoxalmente, o mesmo sistema que o provoca nos oferece os remédios. No entanto, estes anestésicos ou alívios imediatos prometidos nos impedem de formular as perguntas necessárias para mudar desde a raiz as condições de vida daninhas. Como sair desta espiral catastrófica?

Em Capitalismo libidinal (Ned Ediciones, 2024), Amador Fernández-Savater nos propõe, de forma machadiana, trilhar um novo caminho para estar no mundo de uma forma diferente, reapropriando o nosso próprio mal-estar como energia de mudança e transformação. Chama este caminho de “políticas do desejo”. Eis que “As ideias que não tocam os corpos deixam o mundo igual”.

Spinoza dizia que a essência do ser humano é desejar, o que chamava de apetites naturais. Contudo, quando essas necessidades biológicas se tornam desejos socialmente construídos, e que demandam algo que não precisamos, tornam-se capitalismo.

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Felicidade subversiva

A felicidade talvez tenha sido a maneira ocidental de discutir o que hoje é chamado de “bem viver” ou de “vida bem gostosa”. Ou seja, discutir a própria definição da vida boa

Amador Fernández-Savater[1] – 20/05/2023 – CTXT

Abraçando a nova direção / Acácio Puig

“Povos felizes não têm história”

A felicidade, hoje, pressiona negativamente o pensamento crítico. Eis que é considerada como uma ilusão. Mas também, soe ser pensada como um mandato obrigatório, como um sonho complicado da classe média: “seja feliz!”.

Postei no Facebook uma citação de Pasolini a favor da felicidade e alguém imediatamente respondeu: “Pasolini capacitista! – a felicidade está cancelada”.

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Do “homem”, talvez, ao homem (sujeito)

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

No pequeno texto que se segue faz-se um comentário sobre o escrito de Ian H. Angus, A dissolução do humanismo marxista (Angus, 2018) publicado neste blog (aqui e aqui), com o objetivo de mais bem compreendê-lo. Esse filósofo norte-americano parte da constatação de que, nos anos sessenta do século passado, o marxismo relevante – para além do marxismo soviético que dominava nos partidos comunistas influenciados pelo estalinismo – veio a ser um “humanismo marxista” ou, o que seria o mesmo, um “marxismo existencial”.

Para essa corrente, que prosperou às margens da corrente principal bem mais volumosa, haveria uma essência humana, mas ela estaria perdida por enquanto nas formas de vida social existentes e que existiram no passado. Se está assim negada pelas condições históricas prevalecentes até a atualidade, pode ser recuperada eventualmente por meio de uma luta contra essas condições, visando mudá-las.  

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A dissolução do marxismo humanista (I)

Publica-se aqui uma tradução de um artigo de Ian H. Angus The dissolution of Marxist humanism em duas partes para, numa data em sequência, publicar também um comentário do autor deste blogue sobre o conceito de “homem” – humanitas – em Karl Marx.

Autor: Ian H. Angus [1]

1.Introdução

Em 1906, Benedetto Croce, em seu O que está vivo e o que está morto na filosofia de Hegel, questionou a filosofia de uma nova maneira. Em vez de perguntar o que é verdadeiro e o que é falso na linguagem estabelecida da filosofia, ele colocou a questão de uma maneira que era imediatamente histórica: o que era verdadeiro poderia ter se tornado falso e o que era falso poderia ter se tornado verdade. Perguntava sobre o aqui e agora da filosofia, não sobre o seu conteúdo eterno.

É certo que essa referência histórica já existia em Hegel na medida em que a verdade era entendida como algo que vai surgindo, mas também era vista como culminação da lógica – isto é, a verdade encapsulava a história mesmo emergindo dela. Croce afirmou implicitamente a incompatibilidade entre lógica e história.

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A ideia de progresso à luz da psicanálise

Autor: Herbert Marcuse[1]

Permitam-me que defina desde já os dois principais tipos de conceito de progresso, característicos do período moderno da cultura ocidental. Em primeiro lugar, o progresso é definido de forma predominantemente quantitativa e se evita ligar o conceito a qualquer valoração positiva. O progresso significa, portanto, que no curso da evolução cultural, apesar de muitos períodos de regressão, os conhecimentos e habilidades humanas geralmente crescem, e que, ao mesmo tempo, sua aplicação no sentido de dominação do ambiente humano e natural tornou-se cada vez mais universal. O resultado desse progresso é o aumento da riqueza social.

À medida que a cultura continua a se desenvolver, aumentam também as necessidades dos homens e os meios para as satisfazer, deixando em aberto a questão de saber se esse progresso também contribui para a plena realização do homem, para uma existência mais livre e feliz. Esse conceito quantitativo de progresso pode ser chamado de conceito de progresso técnico e contrastado com o conceito qualitativo de progresso, tal foi elaborado particularmente pela filosofia idealista, talvez mais vigorosamente por Hegel.

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Em guerra com o “meu” neoliberalismo

Autor: Amador Fernández-Savater [1]

Vários exercícios de “economia libidinal” são ensaiados neste livro [Capitalismo Libidinal [2]] O que se quer dizer com esse título? O que ele significa?

Em primeiro lugar, uma espécie de escuta, acolhida de fenômenos que chamam a atenção, não apenas os discursos ou as identidades, os cálculos ou os interesses, mas também às posições do desejo e as flutuações de humor, desejos e relutâncias, assim como os estados anímicos.

Jean-François Lyotard, em seu livro intitulado Economia Libidinal, nos ensina a distinção entre signos e intensidades: o que é dito e o que acontece, o nível de informação e o nível das forças. Nosso ouvido, hipersemiotizado, registra (e acredite-se!) as retóricas, as declarações, as gesticulações, mas deixa escapar os funcionamentos, as ações e os movimentos que deslizam “por baixo”. É um ouvido incauto, que fetichiza sinais, que acredita no que é dito e mostrado, leva as coisas ao pé da letra. Mas não basta falar de algo (revolução, comunidade, cuidado) para que ele exista. E vice-versa: há existências imperceptíveis, sem nome, sem termo de referência, sem rótulo.

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