O capitalismo “já foi”?

Publica-se aqui uma resenha irônica e desdenhosa de quatro livros abaixo mencionados que analisaram criticamente o capitalismo após a crise econômica de 2008-09 e a pandemia de 2020-21 para anunciar que ele já foi superado – mesmo estando aí produzindo mercadorias, explorando trabalhadores e estraçalhando vidas.

Apesar do viés social-democrata pós-moderno do autor, apesar de falta de qualidade crítiica, ele fornece algumas informações que ajudam a fazer uma eventual avaliação desses folhosos. Segundo ele, esses livros surgiram porque essas duas crises ‘desferiram golpes devastadores em uma sociedade de mercado que já estava cambaleante – esvaziada que fora pela “financeirização” ou pela “desmaterialização” dos ativos”. Veja-se, pois, o que disseram em resumo.

O que foi o capitalismo?

Autor: James Livingston[1] – Project Syndicate – 16/02/2023

O que não acaba hoje em dia? O que não está à beira da extinção? A lista de isenções não é longa e, nós – seres humanos –, não estamos certamente nela.

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Bem-vindo ao mundo da policrise

Autor: Romaric Godin [1]– Sinpermiso – 02/01/2024

O historiador Adam Tooze ressuscitou a noção de “policrise”, que se tornou um tema favorito das elites políticas e econômicas mundiais. Consideramos, abaixo, a ascensão e queda dessa noção da moda.

Bruno Le Maire, Ministro das Finanças de França desde 2017, não é um escritor prolixo. Mas, nas horas vagas, ele também é profeta. No outono de 2021, quando apresentou a Lei das Finanças de 2022, disse aos deputados que o seu orçamento era a primeira pedra de uma “grande década de crescimento sustentável”. Foi um momento de otimismo: a economia global parecia estar se recuperando rapidamente da crise sanitária. Os comentários de Le Maire ilustram a euforia generalizada que aflorou nos círculos empresariais e entre os principais economistas após a superação da crise sanitária.

No dia 1º de janeiro de 2021, quando as feridas da Covid ainda estavam abertas, um dos principais colunistas do Financial Times, jornal da City de Londres, Martin Sandbu, abriu o ano novo de então com um texto intitulado: “Adeus 2020, ano do vírus; olá ‘loucos anos vinte’.” O termo final da alocução (…) refere-se à década de 1920, que, pelo menos nos Estados Unidos, foi um período de forte crescimento e de nascimento da sociedade de consumo. A posição de Martin Sandbu parecia simples. Os consumidores, tentando esquecer a crise sanitária, tal como um século antes tinham tentado esquecer os horrores da guerra, embarcaram num frenesi de gastos, colocando a economia num círculo virtuoso, ou seja, “na maior prosperidade num século”.

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Intepretação da forma valor em Marx

Autor: Michael Roberts

Como mencionei em uma nota recente em meu blogue The next recession, na conferência Historical Materialism em Londres, em novembro de 2023, foi lançado o novo livro de Fred Moseley, Marx’s Theory of Value. Ele discute como interpretar o primeiro capítulo de O Capital. E faz uma crítica à interpretação de Michael Heinrich no que se refere à forma valor. Michael Heinrich e Winfried Schwarz (marxista alemão crítico da interpretação de Heinrich) participaram da apresentação do livro.

O livro de Moseley é um exame da teoria do valor de Marx contida no capítulo 1 de O capital, quase parágrafo por parágrafo nas seções 1 e 2, e uma crítica detalhada da interpretação de Heinrich sobre o valor enquanto forma de valor, conforme apresentado em seu livro de 2021, How to Read Marx’s Capital, que é uma tradução de seu livro de 2018 Wie das Marxsche Kapital Lesen?

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Foley e Shaikh: economistas nobres sem Nobel

Autor: Michael Roberts – The New School Economic Review, 12/2023

Neste comentário, Michael Roberts recorre às autobiografias de Duncan Foley e Anwar Shaikh para refletir sobre as contribuições, muito importantes e bem abrangentes, desses dois autores.

Se há dois possíveis candidatos ao prêmio maior em Economia (conhecido como Nobel) que o mereceriam são Duncan Foley e Anwar Shaikh. Mas, em vez disso, o Prêmio Riksbank é sempre concedido a economistas convencionais, os quais muitas vezes não lançam luz sobre qualquer uma das questões econômicas e sociais candentes de nosso tempo.

Em vez disso, ao longo de suas longas carreiras, Foley e Shaikh aplicaram seu extenso conhecimento teórico às questões macro e microeconômicas que são verdadeiramente importantes: Foley escreveu sobre o papel do dinheiro, o crescimento, ciclos e desigualdade; Shaikh produziu análises sobre as crises, o comércio internacional, os lucros e até mesmo sobre o mercado de ações.

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Trabalho imaterial e fetichismo: uma crítica a Negri e Hardt

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

No livro Império[2], Hardt e Negri definem trabalho imaterial como trabalho que produz, entre outras coisas, mas de uma maneira especial, serviços: “Como a produção de serviços não resulta em bem material e durável, definimos o trabalho envolvido nessa produção como trabalho imaterial – ou seja, trabalho que produz um bem imaterial, como serviço, produto cultural, conhecimento ou comunicação”[3]. Ao fazê-lo, eles ficam além ou aquém de Marx?

Em conseqüência, de modo preliminar, deve ficar claro que esses dois autores, ao empregarem o termo trabalho imaterial, estão se referindo ao trabalho que produz bens ou utilidades – e não ao trabalho abstrato, no sentido de Marx, que é uma abstração e  substância do valor. Obscuras permanecem, porém, as razões e as conseqüências dessa opção teórica.

Em O capital, esse último autor menciona uma certa preferência encontrada em textos econômicos por tratar da produtividade do trabalho no modo de produção capitalista fazendo referência ao conteúdo material do trabalho. Hardt e Negri atribuem uma enorme importância ao que chamam de trabalho imaterial. Por isso, crêem importante fazer diferença entre trabalho que produz coisa útil e trabalho que gera imediatamente serviço útil.

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Argentina: um desequilíbrio externo persistente

Autor: Ignácio Juncos[1] – Phenomenal world – 6/01/2024

Buenos Aires: um protesto exige salários mais altos em 04/2023.

Em agosto de 2023, uma semana depois de vencer as eleições primárias da Argentina, o agora presidente Javier Milei declarou publicamente que o peso argentino “valia menos do que excrementos”. Nos dois dias seguintes, a taxa de câmbio paralela dólar-peso subiu quase 20%, intensificando a já rápida desvalorização da moeda. Tais proclamações extremas eram comuns para o político Milei. Eis o candidato, agora eleito e empossado, combinou o libertarianismo com o extremismo de direita global; no centro de sua campanha, apresentou propostas para abolir o banco central e para dolarizar a economia nacional.

A ascensão de Milei deve ser entendida no contexto da inflação extraordinária da Argentina nos últimos dois anos. Em 2022, a inflação anual de preços ao consumidor foi de 72,4%, colocando a Argentina entre os cinco países do mundo com a maior inflação.[2] Em 2023, a situação tornou-se terrível – o IPC anual aumentou para impressionantes 142,7% na última medida do Escritório Nacional de Estatísticas da Argentina.

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Por que Trump venceu?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Os partidários norte-americanos da democracia liberal, com boa dose de angústia, têm se defrontado com essa pergunta. Se Trump se afigura para eles como populista, autoritário, mentiroso e até mesmo como neofascista, como pode ele ter ganho a eleição presidencial nos Estados Unidos, um suposto bastião da democracia liberal num mundo propenso a acolher ditaduras? Veja-se o que dizem dois economistas famosos, ganhadores do Prêmio Risk Bank (usualmente chamado de Prêmio Nobel de Economia), dado anualmente para os profissionais dessa área que propugnam pela continuidade do capitalismo.

Eis a explicação dada por Daron Acemoglu:

Em uma pesquisa Gallup de janeiro de 2024, apenas 28% dos americanos (um recorde de baixa) disseram-se satisfeitos com “a maneira como a democracia dos EUA estava funcionando”. Ora, a democracia americana há muito promete quatro coisas: prosperidade compartilhada, voz para a cidadania, governança orientada por especialistas e serviços públicos eficazes. Mas a democracia dos EUA – como, aliás, a democracia em outros países ricos (e até de renda média) – tem falhado no atendimento dessas aspirações.

Porém, nem sempre foi assim. Durante três décadas após a Segunda Guerra Mundial, a democracia entregou tais bens, especialmente a prosperidade compartilhada. Os salários reais (ajustados pela inflação) aumentaram rapidamente para todos os grupos demográficos e, assim, a desigualdade diminuiu. Mas essa tendência chegou ao fim em algum momento no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Desde então, a desigualdade disparou; ademais, os salários reais dos trabalhadores sem diploma universitário mal aumentaram. Em consequência, cerca de metade da força de trabalho americana viu a renda da outra metade aumentar.[2]

Eis agora a explicação dada por Joseph Stiglitz:

À medida que o choque da vitória de Donald Trump se instalou, especialistas e políticos passaram a refletir sobre o que isso significa para o futuro dos Estados Unidos e para a política global. Entender por que uma figura tão divisiva e desqualificada venceu novamente é crucial para os democratas. Eles foram muito para a esquerda e perderam os americanos moderados que constituem a maioria? Ou o neoliberalismo centrista –  perseguido por presidentes democratas desde Bill Clinton – falhou em entregar o que prometia, criando assim uma demanda por mudança?

Para mim, a resposta é clara: 40 anos de neoliberalismo deixaram os EUA com desigualdade sem precedentes, estagnação na parte intermediária do espectro de renda (algo ainda pior para aqueles abaixo) e declínio da expectativa de vida média (destacada pelo aumento de “mortes por desespero”). O sonho americano está morrendo; embora o presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris tenham se distanciado do neoliberalismo com sua adoção de políticas industriais, como representantes do establishment dominante, eles permaneceram associados ao seu legado.[3]

A conclusão que se segue dessas declarações é bem clara: para ambos esses autores, a vitória de Trump ocorreu porque as condições necessárias para a existência e continuidade da democracia liberal foram minadas nos Estados Unidos à medida que passaram a prevalecer aí as instituições e as políticas econômicas do neoliberalismo.

As duas explicações, situadas ainda – e com méritos – no campo da economia política não estão erradas, mas falham, em primeiro lugar, por não apresentarem a razão estrutural do advento do neoliberalismo. E essa descoberta apenas pode ser feita mediante um avanço no campo da crítica da economia politica. Sem esse movimento crítico que vai do funcionamento aparente do sistema às suas leis de tendência e contratendência parece que a adesão das forças políticas ao neoliberalismo provém de atos deliberativos autônomos que podem ser revogados a qualquer momento por outros atos deliberativos igualmente autônomos.

  Como bem se sabe, essa ideologia, normatividade e prática política veio à tona no final dos anos 1970 e se difundiu a partir daí – avassaladoramente – como uma resposta complexa à crise de lucratividade iniciada já no final dos anos 1960, que atingiu não apenas a economia norte-americana, mas a economia mundial como um todo.

A figura em sequência mostra bem que as taxas médias de lucro nos EUA  cairam por mais de um década (de 1968 a 1981) por efeito da redução da relação produto capital (aumento implícito da composição orgânica do capital), assim como da dificuldade de elevar a relação lucro/capital (ou seja, aumentar a taxa de exploração) em virtude do poder dos sindicatos, que então se mostrava bem forte. E ela mostra também como a política neoliberal, que enfraqueceu o poder dos trabalhadores de várias formas, deu bons resultados para o capital, na década seguinte (de 1981 a 1987). Sem atingir o patamar anterior, a taxa de lucro se recuperou e, com ela, os investimentos que impulsionam a acumulação de capital.

Como se sabe, o neoliberalismo foi bem-sucedido em conter a elevação do salário real da classe trabalhadora nos EUA e nos outros países em geral, ou seja, em mantê-lo abaixo dos ganhos de produtividade, tal como mostra a figura em sequência. Contudo, essa estatística descritiva é insuficiente para avaliar as perdas dessa classe. Pois, como se sabe, a partir de 1980, ela perdeu proteção sindical e governamental, acesso a empregos de longa duração, qualidade de vida  e até mesmo, para boa parte dela, aquele orgulho identitário de ser bem-sucedido na sociedade nucleada na relação de capital. Mas isso ainda não é tudo. Com o neoliberalismo, os trabalhadores perderam em parte a identificação de classe, pois são instados ou mesmo forçados pelas circunstâncias a se verem como auto-empresários.        

Ademais, como já se insinuou, as explicações de Acemoglu e Stiglitz acima apresentadas se dão sob a suposição de que o indivíduo social atua como homo oeconomicus tanto como trabalhador na esfera econômica quanto como eleitor na esfera política. Ao tomarem, assim, esse “puppet” do sistema como sujeito, ademais intemporal –, eles não conseguem apreender o que passa a ocorrer com a subjetividade dos trabalhadores sob os constrangimentos da normatividade neoliberal. Ora, para esclarecer esse ponto – diferencial importante na explicação do resultado da recente eleição presidendial nos EUA – é preciso agora recorrer à psicanálise como crítica social.

Como se sabe, a economia política e, sobretudo, a economia vulgar, constroem a abstração homo oeconomicus a partir da aparência do  sistema sistema mercantil generalizado apenas para explicar o seu funcionamento. É assim porque aqueles que atuam de fato como personificações das mercadorias em geral e, em particular, da mercadoria “força de trabalho” (ou seja, os trabalhadores), se comportam e têm de se comportar como indivíduos auto-interessados.

“O homem é” – diz Stuart Mill pondo um fundamento primeiro – “um ser determinado, pela necessidade de sua natureza, a preferir uma maior porção de riqueza ao invés de uma menor em todos os casos”.[4] Contudo, a personificação, que assim aparece, é também a base da identidade da classe trabalhadora[5] – classe essa, no entanto, que só existe in fieri. É apenas lutando que essa classe se constitui em ato, como tal. Ora, é essa potência que o neoliberalismo combate individualizando o trabalhador.

Se essa economia política apreende os atores econômico como sujeitos, a crítica da economia política mostra que eles são sujeitos assujeitados à lógica compulsiva e infinita da acumulação de capital. A psicanálise desde Freud, por sua vez, mostra esse “sujeito”, assim construído desde o berço e na família, como um ser contraditório, em cuja psique lutam entre si e se combinam as pulsões amorosas/solidárias e as pulsões agressivas/individualistas. Ora, essas últimas ganham proeminência na vida econômica desses “sujeitos” porque eles aí labutam num “sistema” – como diz Tomšič – “que pode ser descrito como uma socialidade anti-social organizada”.[6]

Ora, esse sistema, fundado que está na acumulação sem limite de capital, apesar de requerer cooperação na esfera da produção, promove de maneira intensa e extensa a competição, acentuadamente na esfera da circulação mercantil. Ora, como esse “sujeito” se defronta com forças que não controla e até mesmo desconhece, ele está permanentemente numa posição de pouca potência ou até mesmo numa condição precária. Em consequência, a psique de muitos, aqueles assalariados ou por conta própria que não ousam lutar contra o sistema, encontra-se muitas vezes embargada pelo ressentimento.[7] Eis que “covardemente” submetem o seu desejo à lógica do sistema, mas querem cobrar algo por essa submissão; mantêm, por isso, sentimentos de rancor, hostilidade, vingança, ciume, inveja em relação a outros escolhidos como culpados.  

Se Nietzsche bem notou que esse afeto predomina na sociedade moderna, ele não o associou ao capitalismo. Ao contrário, considerou que se tratava de uma reação psicológica doentia, patológica, às condições sociais inexoráveis de uma sociedade que produz derrotas, desigualdade, insucesso etc., ou seja, que tende a produzir muitos perdedores. Como se sabe, ao indivíduo ressentido ele opunha o indivíduo heroico que enfrenta o seu destino com galhardia. Tomšič mostra bem que essa crítica erra porque não desafia o individualismo e a lógica da competição:

Ao contrário da perspectiva de Nietzsche, o afeto em questão não é simplesmente uma reação “patológica” (…) à desigualdade, à injúria e à injustiça. De um ponto de vista mais estrutural, o ressentimento é uma manifestação (…) das relações econômicas de competição; eis que expressam o funcionamento compulsivo dessas relações em indivíduos e grupos sociais. Como o ressentimento impõe um envenenamento da diferença, ele marca o ser social com hostilidade mútua.

Se o ser social carrega a significação de “ser-com” e eventualmente de “ser em comum”, então o ressentimento sinaliza a subversão antissocial do ser social em “ser-contra”, um modo de ser que corresponde ao esforço capitalista pela “privatização” total do social e do comum, ou mais genericamente, um esforço para expropriar os sujeitos políticos de seus corpos, suas vidas e, finalmente, de toda estrutura que lhes forneceria condições (materiais e imateriais) para a reprodução da vida.[8]

Ora, toda essa volta de argumentos, foi necessária para encontrar a origem da segunda lacuna antes apontada nas explicações de Stiglitz e Acemoglu para o advento e a vitória do extremismo de direita na última eleição nos EUA – assim como, em parte, para a falta de votos na direita tradicional. Dizer que Trump ganhou porque Biden e os próceres do partido democrata norte-americano abandonaram as causas que interessam aos trabalhadores é insuficiente e, na verdade, superficial.

A razão verdadeira dessa deriva é que o neoliberalismo, ao extremar o individualismo, ao impor competição sem tréguas aos “sujeitos” trabalhadores, exacerba e multiplica o ressentimento. Não tanto porque não tem cumprido o que antes prometera em termos de expansão econômica e bem-estar. Não tanto também porque subtraiu as vozes dos trabalhadores na competição política. Mas principalmente porque o empreendedorismo neoliberal e o ressentimento individualista estão, assim, bem conjugados entre si. E esse último requer uma cobertura da falta que “sujeito” sente por meio de “boas” mentiras e de violência irracional. É daí que surge a possibilidade de ascensão da extrema direita.

Os eleitores populares de Trump são pessoas recriminadoras que “esqueceram” que submeteram os seus desejos ao sistema da relação de capital e que passaram a compensar a insatisfação com o próprio desempenho medíocre nesse sistema, dirigindo um ódio seletivo a outros tomados como culpados (imigrantes, pessoas que lutam por direitos, gente de esquerda, certos povos estrangeiros etc.).

Ao votarem num político vingador, eles obtêm gozo, ou seja, satisfação perversa. Trump é um pequeno grande homem, “pequeno” porque se apresenta como um homem comum tal como os seus seguidores e “grande” porque, para além deles, parece poderoso e é capaz de esmagar de fato aqueles que foram escolhidos para serem falsamente responsabilizados e, assim, odiados. Nessa toada, ao invés de progresso, o capitalismo espalha agora destruvidade brutal tal como ocorreu na Alemanha nazista e está já acontecendo de modo proeminente no Oriente Médio, sob a agência de Israel/EUA. Foi para aprofundar essa tendência que Trump venceu.  


[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https//eleuterioprado.blog.

[2] Ver Acemoglu, Daron – The fall and rise of American democracy. In: Project Syndicate, 3/12/2024.

[3] Ver Stiglitz, Joseph – How Trump victory exposes the failures of neoliberalism. In: Social Europe, 2/12/2024.

[4] Ver Stuart Mill, John – Da definição de economia política e o método de investigação própria a ela. In: Stuart Mill, São Paulo: Abril, 1974.

[5] Aqui se optou, por simplicidade, em não segmentar a classe trabalhadora em pequena burguesia, proletariado e lumpemproletariado.

[6] Ver Tomšič, Samo – The antisociality of capitalism. In: Libidinal Economies of Crises Times. Ed. Ben Gook. Bielefeld: Verlag, 2024.

[7] Sobre isso ver Kehl, Maria Rita – Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2020.

[8] Op. cit.

A crise argentina: uma perspectiva de longo prazo

Autor: Rolando Astarita [1]

A crise atual faz parte de uma longa história de quedas recorrentes do PIB, como mostra a tabela a seguir (Figura 1), que registra as variações anuais do PIB desde 1961 até o presente.  Tomamos como referência a crise de 1975, pois foi a última crise a ocorrer no âmbito da industrialização por substituição de importações (ISI), ou seja, do programa de desenvolvimento da industrialização baseado no mercado interno.

Figura 1

Após essa data, ao longo destes 50 anos, houve nada menos do que por 13 vezes houve “crescimentos negativos” do PIB, totalizando 20 anos ao todo. Em 1981-1982, 1988-1990, 1999-2002 e em 2019-2020, as quedas foram superiores a 10%. Embora os contratempos combinem com anos de crescimento e até mesmo, mais do que compensatoriamente, de alto crescimento. Eis agora como se comportou a inflação no período (Figura 2):  

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Perspectivas sombrias na era das catástrofes

Autor: Nouriel Roubini – Projeto Sydicate – 24/11/2023

Agora é de conhecimento geral que as ameaças econômicas, monetárias e financeiras estão crescendo e interagindo perigosamente com vários outros desenvolvimentos sociais, políticos, geopolíticos, ambientais, de saúde e tecnológicos. E há poucas razões para acreditar que os líderes de hoje possam gerenciar esses riscos que se multiplicam entre si.

Desde a publicação de Megathreats[1], em outubro de 2022, os temas que ai enfatizei se tornaram mainstream. Todos agora reconhecem que as ameaças econômicas, monetárias e financeiras estão aumentando e interagindo perigosamente com vários outros desenvolvimentos sociais, políticos, geopolíticos, ambientais, de saúde e tecnológicos. Assim, em dezembro de 2022, o Financial Times escolheu o termo “policrise” como uma das palavras-chaves do ano. Seja qual for o termo preferido (outros adotaram “permacrises” ou “calamidades confluentes”), há um reconhecimento crescente de que não só a economia global, mas até mesmo o ser humano está sob risco.

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O poder de mercado é permanente

Mordecai Kurz [1] – Project Syndicate – 1/12/2023

E a concorrência não o elimina

O dinheiro gira e cresce

Economistas e formuladores de políticas concordam que as melhorias tecnológicas são cruciais para o crescimento econômico. A revolução da tecnologia da informação (TI) das últimas quatro décadas impulsionou a economia; por isso, muito poucas pessoas gostariam de pará-la. Mas desde a década de 1980, à medida que essa revolução se enraizou, a economia dos EUA experimentou um aumento acentuado no poder de mercado das empresas, definido predominantemente como sua capacidade de afetar os preços.

O aumento da produtividade e o aumento do poder de mercado são os resultados gêmeos do processo de inovação. Ambos resultam da propriedade privada da tecnologia e dos poderes legais conferidos por patentes ou segredos comerciais. Quando uma onda de inovação como a revolução da TI decola, o poder de mercado rapidamente se acumula e se torna uma força significativa, com profundas implicações econômicas e políticas. Em meu livro recente, chamo essa força única de “poder de mercado da tecnologia

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