A defesa da sociedade hierárquica

Autor: Matthew McManus [1] (Segunda Parte. A primeira parte está aqui)

Curiosamente, a direita política foi a segunda, não a primeira, doutrina importante a surgir na época moderna. Isso pode parecer estranho, já que os conservadores muitas vezes se consideram defensores de valores mais antigos e duradouros do que os liberais e, certamente também, do que os socialistas. E, de fato, a direita política geralmente se baseia em autores da antiguidade e o faz mais intensamente que que nos liberais ou socialistas, quer se trate de Aristóteles, Confúcio ou as inúmeras vertentes do quase-tomismo.

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O fogo em Los Angeles foi previsto

Los Angeles arde, o pensador marxista Mike Davis antecipou a tragédia. Mergulhando em arquivos obscuros, percorrendo as colinas secas e as habitações que são pasto para fogo em Los Angeles, Davis relatou e explicou a implacável combustibilidade física e social de Los Angeles com zelo e erudição. Textos de Harold Meyerson e Joshua Frank.

HAROLD MEYERSON E JOSHUA FRANK

Como foi prevista a tragédia ambiental?

The American Prospect, 8 de janeiro de 2025

É uma verdade quase universalmente negada que os incêndios apocalípticos que assolam Los Angeles – a minha cidade natal – não são mais do que uma versão ampliada do normal.

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Por que Trump venceu?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Os partidários norte-americanos da democracia liberal, com boa dose de angústia, têm se defrontado com essa pergunta. Se Trump se afigura para eles como populista, autoritário, mentiroso e até mesmo como neofascista, como pode ele ter ganho a eleição presidencial nos Estados Unidos, um suposto bastião da democracia liberal num mundo propenso a acolher ditaduras? Veja-se o que dizem dois economistas famosos, ganhadores do Prêmio Risk Bank (usualmente chamado de Prêmio Nobel de Economia), dado anualmente para os profissionais dessa área que propugnam pela continuidade do capitalismo.

Eis a explicação dada por Daron Acemoglu:

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A dissolução do marxismo humanista (II)

Autor: Ian H. Angus

Publica-se agora a segunda parte do artigo de Ian H. Angus. A primeira foi publicada e está aqui. Em sequência se publicará uma nota do autor deste blogue:

3. A dissolução do marxismo humanista

Sugeri que a filosofia dos anos sessenta deveria ser entendida como um espaço discursivo próprio e não como uma doutrina específica. Agora quero me concentrar em certos aspectos problemáticos do humanismo marxista, os quais provocaram reações e desenvolvimentos subsequentes que levaram à sua dissolução. Usando a terminologia em uso no discurso filosófico contemporâneo, esses desenvolvimentos constituíram o campo do “pós-estruturalismo”. Podem, assim, ser explicados com referência a várias obras altamente influentes de Michel Foucault e Jacques Derrida. Abrindo um parêntese, pode-se dizer o discurso anglófono foi assim marcado por uma mudança na referência primária já que se transladou da filosofia alemã para a francesa. E essa dissolução começou já no auge do humanismo marxista.

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A entropia requer o decrescimento

Autor: Crelis Rammel[1]

Introdução

Uma fera voraz devora o equivalente a um monte Everest inteiro de recursos a cada 20 meses. Também acelera o seu metabolismo, pois vai reduzir esse prazo para apenas 10 meses nas próximas duas décadas.[2] Ao encher a barriga, a fera esgota seu ambiente e o sobrecarrega com resíduos, interrompendo os sistemas naturais de renovação de recursos e gestão de resíduos. Em última análise, aniquila seu próprio habitat. Refiro-me, naturalmente, ao capitalismo global.

Esse sistema exige acumulação contínua de capital e vacila quando se vê prejudicado nesse processo. A resposta típica à crise ecológica não consiste, portanto, em restringir o crescimento econômico, mas em depositar toda a esperança na eficiência, circularidade, desmaterialização, descarbonização e outras inovações verdes orientadas para o lucro dentro do capitalismo.

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China: superprodução e guerra de preços

Autor: Romaric Godin[1]

Enquanto as famílias europeias continuam a enfrentar as graves consequências sociais da inflação, outra ameaça já se aproxima do outro lado do mundo: a deflação. [2] Na China, o principal problema não é mais o aumento dos preços, mas a queda dos preços. Em janeiro, os preços ao consumidor caíram 0,8%. É o quarto mês consecutivo de queda dos preços, sendo essa última aquela mais acentuada desde 2009.

Ainda mais preocupante é o fato de que os preços anuais da produção industrial chinesa estão caindo há onze meses. Em janeiro, caíram 3,4%. Esta situação é a consequência lógica do agravamento da situação econômica no país e, em particular, da crise imobiliária que começou no final de 2021. Note-se as dificuldades da incorporadora Evergrande, que foi colocada em liquidação em 28 de janeiro por um tribunal de Hong Kong.

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O poder de mercado é permanente

Mordecai Kurz [1] – Project Syndicate – 1/12/2023

E a concorrência não o elimina

O dinheiro gira e cresce

Economistas e formuladores de políticas concordam que as melhorias tecnológicas são cruciais para o crescimento econômico. A revolução da tecnologia da informação (TI) das últimas quatro décadas impulsionou a economia; por isso, muito poucas pessoas gostariam de pará-la. Mas desde a década de 1980, à medida que essa revolução se enraizou, a economia dos EUA experimentou um aumento acentuado no poder de mercado das empresas, definido predominantemente como sua capacidade de afetar os preços.

O aumento da produtividade e o aumento do poder de mercado são os resultados gêmeos do processo de inovação. Ambos resultam da propriedade privada da tecnologia e dos poderes legais conferidos por patentes ou segredos comerciais. Quando uma onda de inovação como a revolução da TI decola, o poder de mercado rapidamente se acumula e se torna uma força significativa, com profundas implicações econômicas e políticas. Em meu livro recente, chamo essa força única de “poder de mercado da tecnologia

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Policrise novamente

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 08/10/2023

No início deste ano, escrevi um poste sobre o que alguns chamam de ‘policrise’. O termo indica que o modo de produção capitalista está se defrontando com diversas tensões disruptivas simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Tudo isso começou a acontecer já no início do século XXI.  Palavra da moda na esquerda conectada às novidades, resume, em muitos aspectos, a minha própria descrição das contradições do sistema. Aquilo que designei como “longa depressão” já da década de 2010 está agora atingindo o seu auge.

Como neste mês de outubro as principais agências econômicas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se reúnem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. É bom verificar o que está a acontecer com as contradições que compõem a policrise do capitalismo.

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Marx, O capital e a metafísica

Uma nota inicial do professor da FEA “transformado” em blogueiro.

Publica-se em sequência uma introdução ao livro Marx, o Capital e a metafísica de João Paulo, escrita por ele mesmo. Como a controvérsia faz parte dos propósitos do blog Economia e Complexidade, tem-se aqui um texto que, segundo o seu autor, vem a ser uma introdução curta ao conteúdo de uma obra maior que pretende renovar a compreensão da apresentação dialética de O capital. O endereço eletrônico do livro encontra-se ao final do artigo.

Uma introdução

Autor: João Paulo – Blog Canhoto – 26/06/2023

Faço esta introdução para agradar paladares do marxismo oficial, o acadêmico. De tal modo, aqui não estará exposto em exato um resumo do livro inteiro ou algo do tipo; por isso, adianto temas que apenas serão claros no desenrolar da obra. Como o assunto é difícil e desagrada o senso comum teórico, senti necessidade de antecipar algo, para facilitar a aceitação de nossas teses. Portanto, peço mente aberta, sem críticas a priori.

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Fim da hegemonia das finanças? (I)

Introdução: Eleutério F. S. Prado

Cédric Durand, o economista francês de esquerda (marxista) em ascensão, sustenta que a hegemonia das finanças está terminando. Essa tese conflita com a tese que o autor deste blog vem propondo segundo a qual a financeirização é apenas a aparência do processo de socialização do capital. Este último, iniciado já em meados do século XIX, atingira já no final do século XX ao seu amadurecimento. Daí em diante, o grande capital industrial se torna constrangido a obter lucros para servir o capital financeiro, ou seja, os detentores de ações e fundos de vários tipos.  Essa tese concerne, pois, às tendências inerentes ao desenvolvimento da relação de capital e não fica apenas na análise dos fenômenos econômicos (algo que permeia em geral as análises da financeirização).  

Em minha opinião a sua argumentação é fraca, muito fraca.  Afirma que após duas crises supostamente financeiras, a hegemonia das finanças se tornou irracional e que, portanto, aqueles que estão no cimo da política econômica – e que comandam o sistema – tomarão providências para salvá-lo, voltando, provavelmente, à hegemonia do capital industrial. Que, dada a competição geopolítica, o Estado possa passar a intervir mais fortemente no desenvolvimento industrial, essa possibilidade, no entanto, é bem real. Ele vê a desfinanceirização uma como tendência possível, mas parece duvidar que essa transformação se dê de forma bem rápida. Ora, duvidoso mesmo é que o termo “hegemonia” faça sentido para tratar da relação entre o capital financeiro e o capital industrial: eis que são momentos conjugados da produção capitalista; a relação entre eles muda historicamente com a socialização do capital e a crise estrutural da acumulação de capital.

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