Uma taxa de lucro mundial: novas evidências

Autor: Michael Roberts

Fonte: The next recession blog – 22/01/2022

A lei de Marx da tendência de queda da taxa de lucro (LTQTL) foi sempre muito criticada ou mesmo ignorada. Foi tratada como uma explicação irrelevante das crises sob o capitalismo, tanto teórica quanto empiricamente.

Os críticos não pertencem à economia tradicional, já que eles geralmente ignoram completamente o papel do lucro nas crises. Eles vêm, em parte, de economistas pós-keynesianos que veem na “demanda agregada” o motor das economias capitalistas – e não diretamente o lucro. Mas os maiores céticos vêm dos próprios economistas marxistas.

Embora Marx considerasse a LTQTL como “a lei mais importante da economia política” (Grundrisse) e a causa subjacente dos ciclos recorrentes e das crises (O Capital, Volume 3, Capítulo 13) da economia capitalista, os céticos argumentam que a lei de Marx é ilógica e “indeterminada” enquanto proposição teórica (Michael Heinrich).

 Dizem que o suporte empírico para essa lei é inexistente ou impossível de obter. Em vez disso, afirmam que devemos procurar em outro lugar uma teoria da crise, seja recorrendo a Keynes seja amalgamando várias teorias ecléticas que se fundam na “superprodução”, no “subconsumo” ou na “financeirização” – ou simplesmente aceitando que não existe uma teoria marxista das crises. A meu ver, essas críticas foram respondidas de forma eficaz por vários autores, inclusive por mim.     

Paz gelada

Autor: Cédric Durand – Sidecar – 16/03/22

Petrov’s Flu (2021), o último filme de Kirill Serebrennikov, começa apresentando um ônibus lotado na Rússia. A atmosfera é febril, quase violenta. Com uma forte febre, o protagonista sofre um ataque de tosse e se desloca para a traseira do veículo. Logo atrás dele, outro passageiro grita: “Costumávamos receber cupons grátis para um sanatório todos os anos. Foi bom para o povo. Gorby nos vendeu, Yeltsin jogou tudo fora, depois Berezovsky se livrou dele, nomeou esses caras, e agora? Ele conclui que “todos aqueles que estão no poder devem ser fuzilados”. Nesse ponto, o protagonista desce do ônibus e entra em um devaneio em que se junta a um pelotão de fuzilamento que executa um grupo de oligarcas.

O termo “esses caras” se refere a Putin e sua camarilha, enquanto “e agora?” é uma pergunta que pesa muito sobre o país que eles criaram. Que tipo de sociedade é a Rússia contemporânea e para onde ela está indo? Quais são as dinâmicas de sua economia política? Por que eles desencadearam um conflito devastador com seu vizinho igualmente paralisado? Por três décadas, a paz gelada reinou na região, com a Rússia e o resto da Europa nadando juntos nas águas frias da globalização neoliberal. Em 2022, após a invasão da Ucrânia e as sanções econômicas e financeiras do Ocidente, a Rússia entrou em uma nova era, na qual as ilusões que animaram a transição de mercado do país se tornaram impossíveis de sustentar.

É claro que a fantasia do desenvolvimento pós-soviético nunca correspondeu à realidade. Em 2014, Branko Milanović elaborou um balanço das transições para o capitalismo, no qual concluiu que “apenas três ou no máximo cinco ou seis países podem estar no caminho de se tornarem parte do mundo capitalista rico e (relativamente) estável. Muitos estão ficando para trás e alguns estão tão atrasados que por várias décadas não podem aspirar a voltar para onde estavam quando o muro caiu”. Apesar das promessas de democracia e prosperidade, a maioria das pessoas na antiga União Soviética não conseguiu nenhuma das duas. Por sua dimensão geográfica e centralidade político-cultural, a Rússia foi o nó górdio desse processo histórico, que constitui o pano de fundo vital da crise na Ucrânia. Para além do tropismo militar das abordagens de “Grande Potência”, os fatores econômicos domésticos são pelo menos tão essenciais para mapear as coordenadas da situação atual e explicar a precipitada corrida da liderança russa para a guerra.

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A linguagem messiânica da mercadoria

Introdução

Autor: Eleutério F S Prado

Apresenta-se em sequência um texto de um autor pós-estruturalista que pensa na perspectiva das ideias de Jacques Derrida. Ele se chama Werner Hamacher e sua área de pesquisa está no encontro da Filosofia com a Literatura. O seu escrito versa sobre o que Karl Marx chama de linguagem das mercadorias. Para comentar basicamente certos aspectos do primeiro capítulo de O capital, ele se inspira no livro Espectros de Marx do filósofo contemporâneo já mencionado.

Como os eventuais leitores podem verificar, ele se concentra muito mais na linguagem de O capital do que no seu objeto de exposição, o modo capitalista de produção. Terry Eagleton afirma que esse tipo de preocupação, que escalou no final do século XX, é a contrapartida de uma época em que as esperanças de transformação social se esvaíram. Nessas circunstâncias, pensar o mundo como uma construção da linguagem pareceu interessante para muitos intelectuais de esquerda.

Note-se, entretanto, que essa “operação” de desconstrução, que enxerga o texto em busca de seus pressupostos – e não a sua referência objetiva -, desmaterializa Marx: segundo Pierre Macherey, nessa perspectiva, não é mais a matéria que põe o espírito, mas o espírito que parece pôr a matéria. 

De qualquer modo, o que ele diz tem interesse para uma boa compreensão da Crítica da Economia Política.  Por que Marx emprega aí o que se chama de prosopopeia? De qualquer modo, ele diz que o “pano fala”.  

Língua amissa[1]

Autor: Werner Hamacher[2]

— O pano fala.

É Marx quem diz que o pano fala. E dizendo isso, ele fala a linguagem do tecido, ele fala “a partir de sua alma” com tanta certeza, em sua afirmação, quanto os economistas burgueses que ele critica. A linguagem de Marx é a linguagem do tecido quando ele diz “o tecido fala”. Mas, na linguagem de Marx, essa linguagem do pano é ao mesmo tempo traduzida na linguagem analítica – e irônica – da própria crítica da economia política que define as categorias da linguagem do pano.

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Sensível suprassensível II

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Esta nota visa comentar a interpretação de Sami Khatib[2] sobre a formação do valor apresentada no primeiro capítulo de O capital. Tal como se mostrou na postagem anterior[3] – sensível suprassensível (I) – esse autor aceita que a forma valor provém de uma abstração real e que tem, por isso, uma existência espectral. Como diz: “nas sociedades em que prevalece o modo de produção capitalista é como se a dimensão abstrata do valor adquirisse vida própria”; “é como se esse modo de abstração tivesse uma existência material própria, independente da mente humana”; “é um fato real – não o resultado de uma operação intelectual subjetiva, mas efeito de uma relação objetiva e realmente existente”.

Esse autor – é preciso esclarecer – pertence à corrente de pensamento que se autodenomina “lacano-marxista” e que está se esforçando para associar a psicanálise de Sigmund Freud/Jacques Lacan à crítica da economia política de Karl Marx. Ora, para fundar tal cooptação de modo sólido, parte ele de um ponto bem correto: a questão do valor aparece em O capital da maneira que se tornou conhecida porque Marx investiga aí – e ele próprio o diz claramente – a linguagem das mercadorias. Partindo daí, Khatib procura mostrar uma suposta convergência da apresentação do valor nessa obra com a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure[4], a qual, como se sabe, está na base das reflexões psicanalíticas de Lacan.

Esse investigante lacano-marxista parte então – como diz – da noção de “abstração real”; eis que o valor das mercadorias – e sobre isso não há dúvida – advém por meio de uma abstração real. Sim, mas como pensá-la em sua efetividade no mundo real? Ao invés de investigar o que se encontra de fato na apresentação dialética da forma valor em O capital, Khatib procede do seguinte modo:

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Sensível suprassensível I

Introdução

Autor: Eleutério F. S. Prado

Como se sabe, “sensível suprassensível” é um termo que aparece na seção sobre o fetichismo da mercadoria do primeiro capítulo de O capital. Sami Khatib, professor da Leuphana University, em Lüneburg, Alemanha, apresenta abaixo uma interpretação desafiadora desse termo e, assim, da teoria do valor de Marx. Como é importante contestá-la, esse blogueiro, numa postagem posterior (Sensível suprassensível II), vai discuti-la mais a fundo tendo em mente os ensinamentos de Ruy Fausto sobre a dialética de Marx.

A Estética da Abstração Real [1]

Autor: Sami Khatib

A linguagem e o trabalho são expressões nas quais o indivíduo em si não mais se retém e se possui a si mesmo; antes, ele deixa o interior mover-se totalmente para fora dele e assim o abandona ao outro. Por essa razão, podemos dizer que essas expressões expressam tanto o interior quanto podemos dizer que o expressam muito pouco. Muito – porque o próprio interior irrompe nessas expressões, nenhuma oposição permanece entre elas e o interior; eles não fornecem meramente uma expressão do interior, eles fornecem imediatamente o próprio interior. Muito pouco – porque na fala e na ação o interior se transforma em outro e assim se abandona à mercê do elemento de transformação, que torce a palavra falada e a ação realizada e faz deles algo diferente do que eles, como as ações desse determinado indivíduo, são em si e para si.

Hegel, 1807, Fenomenologia do Espírito

Abstração Real

Explicando as peculiaridades da forma de valor, na edição original de 1867 de O capital, vol. I, Marx desdobra uma imagem convincente:

É como se ao lado e fora dos leões, tigres, coelhos e todos os outros animais reais, os quais formam, quando agrupados, os vários tipos, espécies, subespécies, famílias etc. do reino animal, existisse também em adição o animal, encarnação individual de todo o reino animal.

O projeto de Marx da crítica da economia política poderia ser resumido como a ciência desse animal e de seu modo de existência espectral. Nas “sociedades em que prevalece o modo de produção capitalista” é como se a dimensão abstrata do valor adquirisse vida própria.

O caráter dual da mercadoria – eis que ela é tanto valor de uso quanto valor de troca – cria uma esfera aparentemente autônoma de relações de valor, as quais se desvincularam do mundo sensível das mercadorias concretas e, assim, da dimensão valor de uso dessas mercadorias. Essa autonomia, porém, não é meramente intelectual ou ideal como na esfera da religião onde “os produtos do cérebro humano aparecem como figuras autônomas dotadas de vida própria”.

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Bulimia capitalista: Lacan sobre Marx e crise

Fabio Vighi é um lacano-marxista italiano que escreve textos crítico do capitalismo que têm semelhança com os da corrente da crítica do valor dissociação. No artigo Bulimia capitalista ele mostra como Lacan compreendeu a categoria de mais-valor de Marx. Mesmo sem estar em concordância com ele, aqui se publica uma tradução do artigo que tem o nome acima indicado, cujo resumo – feito por ele mesmo – é o seguinte:

Quando, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Jacques Lacan se deparou com a crítica de Marx à economia política, ele chegou ao cerne de sua noção mais crucial: o mais-valor. 

Ao desenvolver sua abordagem psicanalítica, afirmou que o mais-valor de Marx ocupa a posição de sintoma/sinthoma como um núcleo de gozo não quantificável (jouissance), o que desafia a valorização.

Este artigo oferece uma interpretação da teoria do discurso de Lacan, destacando seu caráter socialmente crítico tal como aparece, particularmente, no discurso capitalista (o quinto discurso que subverte a estrutura dos quatro anteriores). 

Em seguida, enfoca o modo como Lacan à compreende o mais-valor de Marx, argumentando que, ao ler mais-valor como sintoma, Lacan chega ao cerne do enigma do modo de produção capitalista tal como desvelado por Marx.  Finalmente, o artigo examina a relevância que a leitura de Marx por Lacan pode ter para a compreensão da crise do capitalismo contemporâneo e seu impasse substantivo.

Para ler a tradução do texto como um todo baixe o pdf abaixo: