Crítica do Metalismo e do Cartalismo

André Lara Resende tem escrito artigos para defender a  Teoria Monetária Moderna, conhecida pela sua sigla em inglês, MMT. Há uma versão popular, A crise da macroeconomia, que foi publicada no jornal Valor, e uma versão acadêmica Consenso e Contrassenso: déficit, dívida e previdência, que foi publicada como “artigo para discussão” no centro de pesquisa Casa das Garças.

Segundo ele, assim como para muitos economistas sofisticados do centro do capitalismo, a teoria macroeconômica está em crise. “A realidade” – diz ele – “sobretudo a partir da crise financeira (sic!) de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita”. Clama, então, para uma renovação radical dessa disciplina, sabendo também que essa teoria dita moderna origina-se do velho cartalismo proposto por Georg F Knapp, em 1905, em seu livro The State Theory of Money. A lei do progresso manda, de qualquer modo, falar em algo novo:

O primeiro pilar do novo paradigma macroeconômico, sua pedra angular, é a compreensão de que a moeda fiduciária contemporânea é essencialmente unidade de conta [ou como também se poderia se dizer, padrão de preços]. Assim como o litro é uma unidade de volume, a moeda é uma unidade de valor. 

Pois bem, o volume (algo quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo do litro, logo o valor (algo também, supostamente, quantitativa e qualitativamente determinado) é o conteúdo da moeda (por exemplo, do dólar, do real, da rúpia, etc). Qualquer estudante de Física sabe o que é o volume, mas qualquer estudante de economia sabe o que é o valor? O que é o valor, Dr. André? De todo modo, ele completa: “O valor total de moeda na economia é o placar da riqueza nacional” – recém produzida –  deve-se acrescentar. “No jargão da economia – continua -, diz-se que a moeda é endógena, criada e destruída à medida que atividade econômica e a riqueza financeira se expandem ou se contraem”. Mas qual seria, Dr. André, a medida da riqueza já que “preço” é expressão dessa medida?

Bulindo com essa dúvida crucial, neste post argumenta-se, com base na tradição brasileira de crítica da economia política, que tanto o metalismo quanto o cartalismo são ilusões criadas pela aparência da circulação de mercadoria no sistema  capitalista. O físico não confunde o litro  (forma aparente de um determinado volume) com o volume, mas o economista costuma confundir o preço com o valor.

O texto está aqui: https://eleuterioprado.blog/2020/12/31/critica-das-visoes-metalista-e-cartalista-do-dinheiro-no-capitalismo/

 

Declínio sexagenário: por quê?

No post anterior apresentou-se um artigo de Alan Freeman que mostra um declínio persistente do crescimento econômico dos países que formam o centro do sistema capitalista de produção e circulação de mercadorias. Os dados agregados da evolução do PIB de 17 países, dentre os quais se encontram EUA, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha etc. exibem que, se este crescimento oscilava em torno de 6% das duas primeiras décadas entre 1950 e 2015, ele passou a cair desde então, de tal modo que, atualmente, oscila em torno de 2%. O gráfico em sequência que apresenta a taxa de crescimento anual médio para os países do Norte industrializado é autoexplicativo.


O que explica esse declínio persistente que a literatura ortodoxa chama de “estagnação secular”? Em busca de uma resposta, neste post apresenta-se os principais resultados de um artigo de Tsoufidis e Paitaridis publicado recentemente na revista Review of Radical Political Economics. Ele mostra – pensa-se aqui – que esse desempenho cadente tem uma causa estrutural clara: o declínio persistente da taxa de lucro líquida. Pois esta condiciona o nível do investimento e este o crescimento de longo prazo.

A nota se encontra aqui: Declínio sexagenário – por quê?

Para uma outra opinião, agora baseada mais na aparência, veja-se: A concentração de mercado está ameaçando a economia dos Estados Unidos

Em queda (oscilante) por 60 anos

O post de hoje encaminha um artigo de Alan Freeman que apresenta estatísticas históricas do crescimento econômico de 16 países industrializados do Norte. Ao contrário do que se acredita, a taxa de expansão do PIB nesses países tem caído continuamente, com apenas breves e limitadas interrupções, desde pelo menos o início dos anos 1960. Essa informação parece singela, mas tem grande significado.

É assim que o próprio Freeman lê esses resultados:

Esta evidência lança nova luz sobre as dificuldades atuais da economia mundial e tem muitas implicações profundas. Ela entra em conflito com qualquer ideia de que a atual crise ou “grande depressão” tenha origem em algum recente transtorno ou regime de acumulação, como o neoliberalismo ou a financeirização. De fato, as raízes da crise atual se encontram no longo processo histórico que se iniciou com expansão do pós-guerra, isto é, com a assim chamada de “Idade de ouro”.

Ela lança luz sobre muitos fenômenos recentes, tais como a ascensão do governo Trump e da extrema direita, a rápida erosão do tradicional centro socialdemocrata e/ou liberal na política do Ocidente, a dramática expansão da agitação social em grande parte do mundo ocidental e as crescentes tensões militares e econômicas que agora afetam as relações Norte-Sul.

Entra em conflito, também, com qualquer ideia de que os problemas atuais possam ser resolvidos a médio ou longo prazo por medidas limitadas, sejam de esquerda, como os estímulos fiscais e monetários, sejam de direta, especialmente a austeridade, mas também o nacionalismo de Donald Trump e outros governantes semelhantes.

O artigo está aqui: A sexagenária tendência declinante

“Economics” e Ética científica

A ciência econômica corriqueira, aquela que é ensinada nos cursos de Economia na maior parte do mundo e de modo predominante, tem orgulho de se apresentar como ciência positiva. Eis que ela se esmera não apenas em apreender as relações externas entre os fenômenos econômicos, mas também em ser capaz de fazer previsões sobre o comportamento futuro das variáveis econômicas. Um campeão nessa área, Milton Friedman, escreveu em A metodologia da ciência positiva (1957):

“A Economia Positiva é, em princípio, independente de qualquer posição ética ou quaisquer juízos normativos. Se refere ao “o que é” e não ao que “deveria ser”. A sua tarefa consiste em fornecer um sistema de generalizações que possa fornecer previsões corretas acerca das consequências de qualquer mudança das circunstâncias. O seu funcionamento deve ser julgado por sua precisão, alcance e conformidade das predições que fornece com a experiência.”

Para instrumentar esse tipo de teorização, os economistas ditos do “mainstream” desenvolveram a Econometria, ou seja, um campo especializado no aprendizado de técnicas estatísticas simples ou sofisticadas de tratamento empírico de informações sobre variáveis econômicas. Esse saber permite supostamente que os iniciados nessa arte de manipulação de “dados” econômicos possam testar a validade de certas relações funcionais, assim como fazer projeções a partir delas.

Entretanto, na prática, a ambição de objetividade dos economistas do sistema se revela às vezes como o seu contrário, ou seja, como falsificação ou como ideologia vulgar. A arrogância teórica e a pretenciosa cientificidade transmutam-se, então, em grosseira culinária de séries estatísticas com a finalidade de sustentar determinadas proposições e posições de política econômica. Eis que os dados podem ser arrumados ou mesmo inventados, a direção de causação pode ser invertida, as estimações podem ser manipuladas de vários modos. Por isso mesmo, parece ser usual nesse campo a prática de evitar a replicação dos experimentos estatísticos.

Neste post apresenta-se um caso exemplar fornecido pela economista crítica Jayati Ghosh. Ela mostra, numa nota publicada no portal Project Syndicate, que foi provado que um famoso artigo publicado numa “revista de primeira linha” torceu e corrompeu a econometria para provar que políticas pró-trabalhadores prejudicam os próprios trabalhadores.

Eis o artigo: Ciência e Subterfúgio em Economics