Para 2020: sombras e sombrios

Neste post apresenta-se criticamente um pequeno artigo bombástico – e, talvez, por isso mesmo – muito lido por pessoas interessadas em economia política internacional e/ou nos rumos da economia norte-americana ou ainda no sistema econômico mundial. Ele foi escrito por Nouriel Roubini, no caso em parceria com Brunello Rosa. Eis o seu título: Os elementos causadores de uma recessão e crise financeira em 2020.

O folheto de somente três páginas contém muitas sombras, sombrios e assombrações. Foi publicado no portal Project Syndicate, em 13 de setembro de 2018. Nele, esses dois autores fazem uma previsão para a economia capitalista mundial que ainda está centrada nos Estados Unidos.  Segundo eles, sobrevirá inexoravelmente uma forte crise – ou mesmo uma crise catastrófica – em 2020, ano da próxima eleição presidencial na norte-américa. 

Roubini ficou mais conhecido depois que antecipou com boa precisão a crise que eclodiu no mercado imobiliário dos Estados Unidos, em 2008.  Ele foi capaz de mostrar a sua extensão e a sua gravidade mesmo antes que a bolha de crédito estourasse e espalhasse o seu poder destruidor para o resto do mundo. No entanto, no post que aqui se publica, sem deixar de reconhecer os seus méritos como economista e como marqueteiro de si mesmo, faz-se primeiro uma crítica ao seu estilo de fazer previsões. Eis que elas se destinam ao mercado consumidor de projeções econômicas e, por isso, está escrita num estilo excessivamente afirmativo. Ora, nesse caso, como em muito outros, como se sabe, a fama vale dinheiro.

A nota se encontra aqui: Para 2020 – sombras e sombrios

Ascensão – e queda? – do capitalismo neoliberal

Neste post apresenta-se uma resenha do livro recente de David M. Kotz que leva o título de The rise and fall of neoliberal capitalism, ou seja, Ascensão e queda do capitalismo neoliberal, o qual foi publicado em 2017 nos Estados Unidos.

Esse autor escreve de uma perspectiva teórica que visa compreender o capitalismo em processo de mudança e que se autodenomina de abordagem da “estrutura social da acumulação” (ESA). Como tal, essa teoria põe ênfase no que denomina “estrutura institucional”, supondo sempre que esta estrutura marca e demarca o sistema econômico real na temporalidade histórica.

Sob essa perspectiva, Kotz explica a mudança do capitalismo regulado de modo keynesiano, que perdurou no após II Guerra Mundial até cerca de 1980, para o capitalismo neoliberal que prosperou desde então. Esse último capitalismo, como se sabe, passou por uma forte crise em 2008 e, a partir dessa data, entrou numa recessão prolongada. Ora, a sua explicação da mudança do primeiro para o segundo se concentra basicamente em apresentar a matriz institucional tanto do capitalismo dito também socialdemocrático quando daquele que o sucedeu.

No último capítulo, o autor examina os “caminhos futuros possíveis” do capitalismo. Em primeiro lugar, assevera que a história econômica dos Estados Unidos justifica plenamente a principal tese da ESA. Esta se caracteriza por associar as grandes crises às grandes mudanças. Kotz, então, considera quatro possíveis direções de mudança após 2008.

A primeira delas é continuação do neoliberalismo ainda que modificado para superar os entraves atualmente presentes. A segunda consiste no aparecimento de um capitalismo mais autoritário, regulado e constrangido pelo Estado. A terceira faz referência a um verdadeiro retorno: a história observaria a volta de um capitalismo regulado que reporia o compromisso capital-trabalho que vigorara durante três décadas após a II Guerra Mundial. A quarta tem um caráter mais utópico, pois examina a possibilidade de que o capitalismo seja substituído por um socialismo democrático.

Ao final, o post apresenta uma avaliação crítica dessas quatro alternativas

A resenha se encontra aqui: Ascensão – e queda? – do capitalismo neoliberal

Marx e Polanyi juntos

Em virtude da onda populista de direita – Trump, Brexit etc. – que assola os países ditos desenvolvidos, alguns acreditam que o neoliberalismo está passando por um forte abalo. Não, não está. Na verdade, o que está perdendo a posição de pensamento político hegemônico é o neoliberalismo progressista cuja onda juntou tacitamente, a partir dos anos 1980, os defensores da liberalização dos mercados local e globalmente e os movimentos progressistas que se esmeraram na luta pela igualdade de gênero, sexo, etnia e religião.

Ora, o neoliberalismo progressista minou as suas próprias bases sociais e está sendo substituído atualmente pelo neoliberalismo conservador ou mesmo reacionário. Em vaga crescente, este neo-neoliberalismo figura como anti-globalista. Ele está conseguindo reunir os mesmos partidários da sociabilidade competitiva com as classes trabalhadoras revoltadas com um declínio econômico e social produzido pela redução sistemática da proteção social, assim como pela globalização, desindustrialização e financeirização das economias centrais. E essa aliança política tem sido mediada por um extremismo de direita que se caracteriza por propagar a misoginia, a xenofobia, o etnocentrismo etc.

Para compreender esse processo de mudança histórica parece bem importante tomar ciência das reflexões de Nancy Fraser, filósofa norte-americana que tem se destacado na análise do capitalismo contemporâneo. No texto que aqui se publica em português, ela defende a tese de que para entender bem o que está acontecendo é preciso desenvolver uma teoria crítica que combina e integra as “visões” de Karl Marx e Karl Polanyi sobre a sociedade moderna.

Para Fraser, o que se experimenta agora é uma crise multifacetada da civilização – não só ocidental; eis que essa crise se manifesta não apenas no interior do domínio econômico, mas também em suas relações contraditórias com a natureza humanizada, com a esfera da reprodução social e com o campo da política etc.  Tal compreensão macrossocial sugere, também, que essa reconfiguração do neoliberalismo vai acabar minando também as suas próprias bases de existência nos próximos anos.  

O texto, bem polêmico, encontra-se aqui: Por que dois Karls é melhor do que um