Distopia Polanyiana

capa-de-immaginare-il-futuroPublicamos aqui mais um texto curto de Wolfgang Streeck que trata do futuro do capitalismo. Tendo por referência a Europa, foi publicado em 2016, em italiano, no livro Immaginare il futuro, coordenado por Carlo Bordoni. Ao lê-lo, não se deve esquecer que esse autor emprega um raciocínio que vem imediatamente de Karl Polanyi, mas que tem uma origem difusa mais antiga na tradição sociológica.

Segundo esse raciocínio, a sociabilidade mercantil capitalista é extremamente eficiente e eficaz na produção de riqueza material, mas vem a ser, também, inerentemente predatória do homem, da natureza e das tradições. Ela nasce e se expande cada vez mais no interior da sociabilidade herdada – não capitalista, tendendo a desagregá-la cada vez mais, inexoravelmente. Ao fazê-lo, passa a impor a sociabilidade do individualismo possessivo e da competição desenfreada em todos os domínios da vida social, com resultados que acabam por ser desastrosos.

A sociabilidade tradicional lhe põe contenções, mas também lhe fornece uma estrutura normativa e institucional necessária à sua própria subsistência. Ora, a sociabilidade capitalista que dela se nutre só pode destruí-la. À medida que a sociabilidade tradicional vai desaparecendo, vai deixando também de conter o processo da ruína dos recursos herdados, o que também é produzido pelo capitalismo.

Nesse sentido, o neoliberalismo é entendido como a batalha final da sociabilidade mercantil capitalista para subjugar toda sociabilidade tradicional que é inerentemente comunitária. Se essa última busca a preservação dos bens comuns, a primeira é baseada em bens exclusivos e privados. É por isso que ele vê o futuro da sociedade humana sob a égide da mercantilização desenfreada como sombrio.

O texto se encontra aqui: como-sera-a-nossa-sociedade-nos-proximos-decenios

Crise estrutural

Como se sabe, “crise” é sempre uma interrupção repentina e violenta no curso normal da existência de livro-de-mezarosum sistema. Crise econômica capitalista, nesse sentido, é uma interrupção no andamento do processo de acumulação de capital. Como também se sabe, “estrutura” é a disposição das partes num todo, isto é, o arranjo dos componentes desse todo tal como é posto pelo plexo das relações que unem as partes na formação do todo. Nesse sentido, o sistema econômico do capital é formado pelas relações sociais capitalistas, em particular e de modo central, pela relação entre o capital e o trabalho assalariado. Ora, qual é então o significado do termo “crise estrutural” que tem sido usado por alguns críticos do capitalismo? Um grande impasse na reprodução contínua desse sistema de relações sociais? No artigo aqui postado, examina-se essa questão no plano conceitual e no plano empírico. O capitalismo, como sistema mundial agora plenamente desenvolvido, passa atualmente por uma crise estrutural? Em seu desenvolvimento histórico, ele enfrenta agora mais uma barreira que pode superar (para vir a criar também, mais à frente, barreiras ainda mais poderosas) ou está encontrando finalmente o seu limite histórico insuperável?

O texto encontra-se aqui: crise-estrutural-do-capitalismo

O capitalismo tem futuro?

capa-do-livro-de-streeckDiversos autores contemporâneos vêm questionando, sob diversas perspectivas, o futuro do capitalismo. Dentre aqueles que mantêm uma posição cética quanto à sua sobrevivência possível para além do século XXI – ou mesmo para os próximos 30 ou 40 anos – não é possível esquecer de István Mészáros, Immanuel Wallerstein e Robert Kurz. Esta postagem, porém, visa recomendar a leitura de Wolfgang Streeck, um instigante sociólogo alemão, que pensa a partir de Karl Marx, mas, principalmente, de Karl Polanyi. A sua tese central é que o neoliberalismo, ao extremar a competição como modo de vida, ao transformar o indivíduo em empresário de si mesmo, ao mercantilizar todas as esferas da vida social, vem minar inexoravelmente as bases morais e sociais da integração dos humanos em sociedade. Como a existência do capitalismo depende de tais bases – herdadas das gerações passadas, mas agora violentamente predadas –, a tentativa de salvá-lo por meio da intensificação neoliberal, levará, segundo ele, à sua desintegração progressiva. E esta dissolução poderá vir acompanhada, eventualmente, do fim da própria humanidade. Alguns poucos textos de Wolfgang Streeck foram traduzidos para o português; aqui se recomenda um deles em especial que foi publicado pela revista Piauí, na edição de outubro de 2014: Como vai acabar o capitalismo? Além disso, aqui se fornece uma tradução de um texto que sintetiza a sua intervenção num debate realizado em 2016, no encontro anual da “Society for Advancement of Socio-economics” (SASE) em que diversos autores discutiram a seguinte questão chave: “o capitalismo tem futuro? ”.

O texto traduzido se encontra aqui: Do-futuro-sombrio-do-capitalismo

Do nosso futuro humano

Durante os últimos séculos, o capitalismo produziu civilização frequentemente por meios bárbaros. Agora, porém, o potencial civilizador desse sistema de relações sociais, caracterizado sobretudo pela subsunção do trabalho ao capital, está esgotado historicamente. Pois, desde a década dos anos 1970, o processo de modernização deixou de estar acompanhado por modernidade, isto é, por uma prática social e Figura Nova razaopolítica que se orienta efetivamente pela esperança de construir no vindouro um mundo globalmente melhor. Ademais, desde então, como sistema que tornava efetivamente mundializado, ele passou a operar sob a ameaça constante de uma estagnação secular. Foi diante dessa perspectiva que o neoliberalismo se difundiu e se afirmou como prática e pensamento político dominante que tem por função renovar e reativar o capitalismo. Para dar impulso à acumulação de capital em nível mundial, apresentou-se como um paradigma de racionalidade que visava condicionar em geral os comportamentos das pessoas, assim como o sentido do desenvolvimento da sociedade como um todo. Para tanto, ao mesmo tempo em que passou a sacralizar o sistema econômico como uma “ordem social” que se deve preservar acima de tudo, buscou transformar as pessoas em empresas, tratando-as de modo anti-humanista como veículos do processo de concorrência, isto é, como se fossem mero capital humano.

Discute-se essa questão num texto aqui publicado: Do que destrói o nosso futuro humano possível

 

Horizonte do capitalismo

Ascensão e DeclinioPerscrutando o horizonte histórico do capitalismo

 Após vários séculos de desenvolvimento capitalista, não teriam se realizadas já certas condições objetivas para a superação desse modo de produção? As relações de produção que o caracterizam não estariam entravando o desenvolvimento das forças produtivas? A questão não é certamente fácil de responder. Entretanto, mesmo sem pretender chegar a uma conclusão definitiva, é possível observar certa tendência à estagnação, a qual se manifesta especialmente nas economias ditas desenvolvidas. Após sugerir, como base na noção de “causação cumulativa”, que a histórica do capitalismo pode ser dividida numa fase de ascensão e numa fase de declínio, examinam duas grandes evidências empíricas: aquela que mostra uma queda secular da taxa de lucro e aquela que examina a passagem histórica da grande onda de crescimento da produtividade do trabalho.  O artigo concluí que chegou o momento de repensar o pós-capitalismo, isto é, um novo socialismo, agora profundamente democrático, como uma possibilidade real, ou seja, como um parto necessário que talvez seja possível fazer acontecer.

O artigo está aqui: Perscrutando o horizonte histórico do capitalismo

 

Estagnação secular

Lagarde - Pequeno (2)A estagnação secular e o futuro do capitalismo

Este artigo examina uma tese bem polêmica do economista keynesiano Lawrence Summers sobre o futuro imediato do capitalismo. Tomando como referência a situação atual dos países desenvolvidos, esse autor tem sustentado que o sistema produtor de mercadorias – o qual chama de economia de mercado – entrou em estado de estagnação secular. Mesmo sem o desejar, ao fazê-lo, ele põe em questão a existência futura do capitalismo no século XXI. Argumenta-se, então, que esse autor constata os sintomas, mas é incapaz de descobrir a verdadeira doença congênita que está corroendo por dentro esse modo de produção. Mostra-se, então, que as suas “sacadas” apenas podem receber uma fundamentação adequada e rigorosa com base na teoria do valor e da acumulação de Karl Marx – uma velha teoria do século XIX.

O artigo foi publicado na Revista do NIEP e se encontra aqui: A estagnação secular…

http://www.marxeomarxismo.uff.br/index.php/MM/article/view/76