Neoliberalismo, niilismo e extrema-direita

O artigo que se apresenta em sequência pensa o niilismo como causa do extremismo de direita agora resurgente. No entanto, por niilismo deve se entender mais propriamente um diagnóstico – ideologicamente comprometido – do estado de espírito dos “sujeitos” na época moderna. Assim pensado, fica claro que ele requer impliciatamente uma reação contrária, ou seja, a posição de um estado de espírito pleno de valores heroicos que pode se condensar num extremismo de direita. Veja-se aqui uma analise mais completa da relação entre niilismo e capitalismo.

Damián Pachón Soto [1] – Fonte original: El Espectador – 25.11.2025

Resenha comentada do livro Ultraderechas (2025) do psicanalista e pensador argentino Jorge Alemán, um texto que esclarece o papel que o neofascismo desempenha dentro do niilismo contemporâneo, assim como a crise atua do regime neoliberal.

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Da libido, por meio do desejo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como se tentou mostrar criticamente no texto O humano segundo Freud aqui publicado, esse autor pensa o humano com um ser reativo regido pela inércia orgânica, ou seja, pela tendência de conservar a quantidade de excitação no nível mais baixo possível – e não como um ser proativo que busca a excitação e a mantém em nível alto até o momento em que sente a necessidade de descansar.

Numa linha de argumentação semelhante, aqui se buscará entender como Sigmund Freud pensa o desejo humano com o fim de criticá-lo por não o tomar como uma força produtiva, na verdade, como a força produtiva primordial do sujeito social possível. Com esse fim se lerá, para dela se apropriar, a crítica feita por Gilles Deleuze e Félix Guattari em O anti-édipo – capitalismo e esquizofrenia. Para apresentá-la de um modo bem compreensível, se empregará aqui não o texto original, mas a explicação contida no livro Capitalismo, desejo e política – Deleuze e Guattari leem Marx, de Rodrigo Guéron.[2]

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O que é que a extrema direita é?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

De Marx a Adorno

Muitos estudos do extremismo de direita, que genericamente chamam de fascismo, baseiam-se no escrito Teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista [2] de Theodor Adorno, de 1951. Trata-se, como se sabe, de um texto superposto a dois outros: eis que discute o escrito Psicologia das massas e análise do eu [3] de Sigmund Freud, de 1921, o qual, por sua vez, discute o escrito Psicologia das massas de Gustav Le Bon, de 1895, e o escrito A mente dos grupos [4] de William McDougall, de 1920. Os últimos três, portanto, vieram à luz antes da ascensão do fascismo histórico. O primeiro, ao contrário, enfrentou a questão de compreender esse câncer social depois que ele foi derrotado na II Guerra Mundial.  

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O humano segundo Freud

Eleutério F. S. Prado[1]

Sobre a “inércia orgânica”

Para entender a metapsicologia de Sigmund Freud é preciso fazê-lo metodologicamente. Eis que ele pensa o homem social do seu tempo partindo do homem animal que ainda, supostamente, mora dentro dele, apesar de ter sido já transformado pela civilização. Ora, esse homem animal é para ele, essencialmente, um ser pulsional.

Antes de apresentá-lo como tal, é preciso começar lembrando que a existência humana percorre ciclos sucessivos de atividade e inatividade e que eles acontecem num tempo de vida limitado. Como se sabe, essa ciclicidade se inicia no útero e termina na morte.

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Nacionalismo de desastre

Richard Seymour [1]

É muito fácil ser antifascista no nível molar sem nem mesmo ver o fascista que existe dentro de você mesmo, o fascista que você mesmo sustenta, nutre e estima com moléculas tanto pessoais quanto coletivas. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs [2].

I.

O fascismo, como Robert O. Paxton escreve em sua convincente história,[3] torna-se uma força histórica quando enfrenta “uma sensação de crise avassaladora além do alcance de quaisquer soluções tradicionais”. O livro, que aqui chega ao fim,[4] aponta para num paradoxo: as crises reais estão proliferando, mas o nacionalismo de desastre está se nutrindo de crises inteiramente fictícias.

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O prazer e gozo segundo Todd McGowan

Autor: Todd McGowan

Compreender a política do gozo requer reconhecer a sua diferença em relação ao prazer. O gozo e o prazer existem em uma relação dialética, [pois um é negação determinada do outro]. O gozo é o termo privilegiado nessa relação, pois é ele que impulsiona o sujeito inconscientemente. As pessoas agem em prol do seu gozo, mesmo que o gozo nunca possa se tornar seu objetivo consciente.

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Morte como desejo, não como mero fato!

Apresenta-se abaixo um escrito de Jon Mills, um psicanalista que se define como hegeliano, sobre a questão da pulsão de morte em Freud. Ao invés de tomar a pulsão de vida como primeira e a pulsão de morte/agressão como interversão desta em decorrência do surgimento de barreiras internas/externas respectivamente à realização dos desejos, ele, tal como o pai da psicanálise, procede de modo contrário.

Eis o texto de Jon Mills

O que poderia ser mais banal do que a morte, do que o inevitável, se ela é previsível, algo totalmente certo? É banal em virtude do fato de ser um evento que se imagina como rotineiro – algo inevitável. A morte não pode ser abolida ou superada. Por isso, Heidegger em Ser e tempo confessa que ela “está diante de nós – como algo fatal e iminente – nosso projetar – que pode ser adiado e, até mesmo, negado.

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O bem comum e o excesso no capitalismo

Todd McGowan [1]

Dialética do Progresso

Saber como o progresso engendra movimentos de reação é uma questão que tem preocupado muitos pensadores desde meados do século XX, quando uma onda reacionária, muito destrutiva, manifestou-se na história. A primeira grande tentativa de dar sentido ao que alimenta essa política reacionária é a Dialética do Iluminismo de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para Adorno e Horkheimer, o progresso sempre conteve um resíduo perverso de violência. Eles veem esse resíduo se manifestar nas estrepolias perpetuadas por Odisseu, nas perversões celebradas pelo Marquês de Sade e nas manipulações da indústria cultural. As forças negativas do iluminismo operam aí e se impõem diante de qualquer resistência possível.

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A violência do tecnofascismo

Autor:  Franco ‘Bifo’ Berardi [1] – CTXT, tradução: Rôney Rodrigues

“Caliban: Você me ensinou a língua
e meu benefício é que eu sei amaldiçoar.
“A peste vermelha leva você por me ensinar sua língua.”
Shakespeare: A Tempestade

Colonialismo histórico: extrativismo de recursos físicos

A história do colonialismo é uma história de depredação sistemática do território. O objeto da colonização são os locais físicos ricos em recursos de que o Ocidente colonialista necessitava para a sua acumulação. O outro objeto da colonização são as vidas de milhões de homens e mulheres explorados em condições de escravatura no território sujeito ao domínio colonial, ou deportados para o território da potência colonizadora.

Não é possível descrever a formação do sistema capitalista industrial na Europa sem ter em conta o fato de que este processo foi precedido e acompanhado pela subjugação violenta de territórios não europeus e pela exploração em condições de escravatura da força de trabalho subjugada em os países colonizados ou deportados para países dominantes. O modo de produção capitalista nunca poderia ter sido estabelecido sem extermínio, deportação e escravidão.

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Sociabilidade associal: de Bentham a Sade

Autor: Samo Tomšič – Continuação de temática abordada em outro texto antes publicado neste blogue.

Marx, em O capital, criticou o liberalismo como a filosofia política que se assenta na aparência do modo de produção capitalista e que se constrói com base em ilusões que veem harmonia onde prevalece desarmonia. Eis o que escreveu ao final do capitulo 4 do livro I de sua magna obra:

A esfera da circulação ou da troca de mercadorias, em cujos limites se move a compra e a venda da força de trabalho, é, de fato, um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem. Ela é o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham. Liberdade, pois os compradores e vendedores de uma mercadoria, por exemplo, da força de trabalho, são movidos apenas por seu livre-arbítrio. Eles contratam como pessoas livres, dotadas dos mesmos direitos. O contrato é o resultado, em que suas vontades recebem uma expressão legal comum a ambas as partes. Igualdade, pois eles se relacionam um com o outro apenas como possuidores de mercadorias e trocam equivalente por equivalente. Propriedade, pois cada um dispõe apenas do que é seu. Bentham, pois cada um olha somente para si mesmo. A única força que os une e os põe em relação mútua é a de sua utilidade própria, de sua vantagem pessoal, de seus interesses privados. E é justamente porque cada um se preocupa apenas consigo mesmo e nenhum se preocupa com o outro que todos, em consequência de uma harmonia preestabelecida das coisas ou sob os auspícios de uma providência todo-astuciosa, realizam em conjunto a obra de sua vantagem mútua, da utilidade comum, do interesse geral.

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