A Guerra-Espetáculo de Trump no Irã: cortina de fumaça para a grande crise

Por José Paulo Guedes Pinto[1]

“No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” – Guy Debord, tese 14 do livro “A Sociedade do Espetáculo”

Vivemos um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o que custar.

Em outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e mais como instrumentos simbólicos momentâneos para reorganizar a política doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a base de Trump com a imagem de um líder forte.

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Da libido, por meio do desejo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como se tentou mostrar criticamente no texto O humano segundo Freud aqui publicado, esse autor pensa o humano com um ser reativo regido pela inércia orgânica, ou seja, pela tendência de conservar a quantidade de excitação no nível mais baixo possível – e não como um ser proativo que busca a excitação e a mantém em nível alto até o momento em que sente a necessidade de descansar.

Numa linha de argumentação semelhante, aqui se buscará entender como Sigmund Freud pensa o desejo humano com o fim de criticá-lo por não o tomar como uma força produtiva, na verdade, como a força produtiva primordial do sujeito social possível. Com esse fim se lerá, para dela se apropriar, a crítica feita por Gilles Deleuze e Félix Guattari em O anti-édipo – capitalismo e esquizofrenia. Para apresentá-la de um modo bem compreensível, se empregará aqui não o texto original, mas a explicação contida no livro Capitalismo, desejo e política – Deleuze e Guattari leem Marx, de Rodrigo Guéron.[2]

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O socialismo após a IA

Autor: Evgeny Morozov [1]

Fonte original: Jacobina – 19/12-2025 – Tradução Pedro Silva

Evgeny Morozov faz aqui uma crítica do esboço de economia moderna multicriterial de Aaron Benanav, apresentada aqui por meio da tradução de três partes de seus dois artigos publicados na NLR (eiso primeiro; eis o segundo; eis o terceiro). Ele analisa por que as tecnologias do capitalismo não devem ser consideradas meramente como ferramentas que o socialismo poderia usar de forma mais eficaz. Isso é especialmente relevante quando falamos de Inteligência Artificial (IA), que, em sua implementação, cristaliza e até cria valores e desejos. Eis o seu texto:

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Um socialismo possível para o futuro

Autor: Aaron Benanav [1]

O primeiro artigo está aqui. O segundo artigo está aqui.

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Primeiros passos

Como uma economia moderna poderia funcionar se fosse movida por múltiplos objetivos sociais em vez de ser regida pela busca do lucro privado? A primeira parte desta contribuição discutiu as formas como a tradição socialista clássica enfrentou essa questão, desde os utopistas do século XIX aos industrialistas da Rússia Soviética, passando pelos planejadores da Viena Vermelha, pelos socialistas guildas da Grã-Bretanha eduardiana e pelos arquitetos do estado de bem-estar social do pós-guerra. Um grande problema que essa tradição não conseguiu resolver foi como projetar instituições capazes de entreter múltiplos objetivos determinados democraticamente – eis que esses fins variados precisariam ser articulados e compostos a partir da alocação adequada dos recursos limitados.

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Um futuro possível para o socialismo

Autor: Aaron Benanav [1]

O primeiro artigo está aqui.

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Quais conclusões devem ser tiradas da longa história do socialismo? Primeiro, a luta por uma ordem econômica governada por objetivos mais amplos do que apenas a busca pelo lucro, tão incansavelmente reimaginada de Thomas More à Étienne Cabet e à William Morris, só pode ser bem-sucedida se for capaz de compreender toda a complexidade das sociedades capitalistas contemporâneas. Karl Marx pensou tardiamente sobre esse problema, mas (…) não deu atenção suficiente aos problemas da transição para um sistema econômico pós-capitalista, especialmente no que diz respeito ao investimento.

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Para ir além do capitalismo

Autor: Aaron Benanav [1]

Título original: Beyond capitalism – Groundwork for a multi-criterial economy [2]

Poucos discordariam de que existe, por trás da turbulência política atual, um profundo mal-estar econômico. As taxas de crescimento nas economias avançadas são baixas. Quando são impulsionadas por gastos públicos, os ganhos se concentram, desproporcionalmente, nas faixas de renda alta. Empresas oligopolistas ocupam o topo das cadeias globais de valor, mantendo direitos de propriedade sobre uma variada gama de produtos, ao mesmo tempo em que terceirizam os processos de produção para licitantes com menores custos já que estão forçados a competirem entre si.

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O espetáculo de Trump na Venezuela

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Guerra, crise e a política como encenação permanente

Por José Paulo Guedes Pinto[i] – 03 de janeiro de 2026

Vivemos uma época em que a política já não se organiza prioritariamente em torno da resolução de problemas concretos, mas da produção incessante de narrativas. Guy Debord chamou esse momento histórico de sociedade do espetáculo: um mundo em que a experiência direta é substituída por imagens, versões e encenações, e onde o falso se perpetua como verdade socialmente aceita, interrompida apenas por raros momentos de realidade.

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A fenomenologia de Tran Duc Thao

Título original: A origem e a gênese da consciência pura: o conteúdo real da fenomenologia por meio do materialismo dialético de Tran Duc Thao.[1]

Jérôme Melançon – Universidade de Regina, Canadá

Resumo

A leitura de Husserl por Tran Duc Thao visa desembaraçar a noção de consciência pura para redescobrir a realidade da vida humana. O marxismo, portanto, permitiu que Thao fosse além da fenomenologia para alcançar os objetivos do próprio marxismo. A partir do que ele retém do idealismo transcendental de Husserl, Thao desenvolve um materialismo dialético no qual a subjetividade é o movimento da própria tomada de autoconsciência da natureza.

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A desmedida de Marcos Dantas

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

“Tudo o que é humano – riqueza, honra, poder, mas também alegria, dor etc. – tem uma medida determinada, cuja transgressão leva à perdição e à ruina.” Hegel, G. W. F. – A ciência da lógica.[2]

Marcos Dantas escreve torto por linhas certas, ou melhor, por linhas aparentemente certas. Eis que em suas incursões na teoria do valor de Karl Marx, ao pôr em arquivo digital e no papel ideias que antes ruminara, ele comete alguns desatinos conceituais dignos de nota. A propósito, ele colou em um seu escrito uma citação de um texto vintenário – logo se dirá qual –, que julgou corroborar as suas teses.

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A economia dos EUA prosperará! – segundo Roubini

Como se sabe, Nouriel Roubini era conhecido como “doutor estouro” (doctor doom, em inglês) em razão de sua vocação para prever as crises vindouras do capitalismo; porém, agora passou a ser chamado de “doutor estrondo” (doctor boom, também em inglês), porque está prevendo um futuro muito promissor para a economia dos Estados Unidos da América do Norte, em razão das transformações tecnológicas em curso e de uma suposta excelência dos mercados.

 Curiosamente, o seu último livro Megathreats (abaixo referido), que versa sobre as mega-ameaças ao futuro da humanidade, justifica ainda o epiteto anterior. Mesmo duvidando do acerto dessa predição, publica-se aqui o seu último escrito para que possa ser eventualmente discutido pelos interessados. Veja-se também o escrito anterior que ia no mesmo sentido.

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