Da renda mínima à renda universal

Autora: Sarah Babiker[1] – Sin Permiso22/01/2025

Na Espanha, as promessas de um resgate para as pessoas mais vulneráveis deram lugar a um sistema que as submete a um verdadeiro pesadelo administrativo, onde a ajuda é acompanhada de dúvidas, dívidas e insegurança.

Em mais um Dia dos Santos Inocentes, 28 de dezembro de 2024, as pessoas afetadas pela renda mínima se apresentaram em frente ao Ministério da Inclusão, Previdência Social e Migração. Convocado pela Plataforma RMI – Tu Derecho, em uma ação apoiada por dezenas de organizações e grupos, pelo quarto ano consecutivo os afetados pela má gestão desse benefício quiseram lembrar que o “Ingresso mínimo vital” (IMV) – que foi apresentado como uma tábua de salvação, como um recurso para não deixar ninguém para trás, como a materialização de um direito social – está dificultando suas vidas. Transforma sua mera sobrevivência em uma espécie de teste contínuo diante de uma burocracia sem rigor ou sentido.

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Captura e produção de valor na economia mundial

 Autor: Tomás N. Rotta [2]

Introdução: análise marxista das cadeias globais de valor, 2000-2014 [1]

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 e a subsequente mudança da manufatura dos Estados Unidos e da Europa para a Ásia remodelaram drasticamente as cadeias de valor globais. Essa nova fase da globalização, impulsionada pela ascensão da China, resultou em uma desindustrialização significativa nos Estados Unidos e na Europa, com impactos profundos nos salários, emprego, política e distribuição de renda. Nesse contexto, o presente estudo fornece uma nova análise empírica de como o valor econômico é produzido e distribuído na economia global.

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Do neofeudalismo ao capitalismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Faz-se nessa nota um comentário sobre um escrito de Jodi Dean em que essa autora do campo crítico explica por que pensa que o modo de produção capitalista está se transformando num novo outro que denomina de neofeudalismo. O seu artigo From neoliberalism to neofeudalism recém-publicado [2] se mostra bem apropriado como objeto de crítica porque está construído com base numa ingenuidade metodológica.

Eis que apresenta essa tese partindo de uma definição de capitalismo:

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Economia excepcional

Autor: MichaelRoberts – The next recession blog – 14/01/2025

Na próxima semana, o presidente dos EUA, Joe Biden, termina seu mandato, para ser substituído pelo Donald. Biden teria sido extremamente popular entre os norte-americano e provavelmente teria concorrido e conseguido um segundo mandato como presidente, se o PIB real dos EUA tivesse aumentado 4,5-5,0% em 2024, e se durante todo o seu mandato desde o final de 2020, o PIB real tivesse subido 23%; e se o PIB per capita real tivesse aumentado 26% nesses quatro anos. E ele teria sido parabenizado se a taxa de mortalidade por Covid durante a pandemia de 2020-21 tivesse sido uma das mais baixas do mundo e a economia evitasse a queda pandêmica na produção.

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O fogo em Los Angeles foi previsto

Los Angeles arde, o pensador marxista Mike Davis antecipou a tragédia. Mergulhando em arquivos obscuros, percorrendo as colinas secas e as habitações que são pasto para fogo em Los Angeles, Davis relatou e explicou a implacável combustibilidade física e social de Los Angeles com zelo e erudição. Textos de Harold Meyerson e Joshua Frank.

HAROLD MEYERSON E JOSHUA FRANK

Como foi prevista a tragédia ambiental?

The American Prospect, 8 de janeiro de 2025

É uma verdade quase universalmente negada que os incêndios apocalípticos que assolam Los Angeles – a minha cidade natal – não são mais do que uma versão ampliada do normal.

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Nacionalismo de desastre

Richard Seymour [1]

É muito fácil ser antifascista no nível molar sem nem mesmo ver o fascista que existe dentro de você mesmo, o fascista que você mesmo sustenta, nutre e estima com moléculas tanto pessoais quanto coletivas. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs [2].

I.

O fascismo, como Robert O. Paxton escreve em sua convincente história,[3] torna-se uma força histórica quando enfrenta “uma sensação de crise avassaladora além do alcance de quaisquer soluções tradicionais”. O livro, que aqui chega ao fim,[4] aponta para num paradoxo: as crises reais estão proliferando, mas o nacionalismo de desastre está se nutrindo de crises inteiramente fictícias.

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Ciclos longos na economia capitalista

Michael Roberts – The next recession blog – 26/12/2024

Há muito simpatizo com o conceito de longos ciclos na produção e acumulação capitalistas. A ideia é que a produção capitalista se move em ciclos, não apenas booms e recessões a cada 8-10 anos ou mais, mas que também há períodos mais longos de acumulação e crescimento da produção geralmente mais rápidos, ou seja, períodos de relativa prosperidade seguidos por períodos de acumulação e crescimento relativamente mais lentos.  com mais recessões. Esses ciclos ou ondas mais longas duram cerca de 50 a 60 anos, incluindo as fases de expansão e queda.

Se tais ciclos existirem e puderem ser apoiados por evidências empíricas, eles forneceriam um indicador importante do estado da economia capitalista mundial.

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Por que Trump venceu?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Os partidários norte-americanos da democracia liberal, com boa dose de angústia, têm se defrontado com essa pergunta. Se Trump se afigura para eles como populista, autoritário, mentiroso e até mesmo como neofascista, como pode ele ter ganho a eleição presidencial nos Estados Unidos, um suposto bastião da democracia liberal num mundo propenso a acolher ditaduras? Veja-se o que dizem dois economistas famosos, ganhadores do Prêmio Risk Bank (usualmente chamado de Prêmio Nobel de Economia), dado anualmente para os profissionais dessa área que propugnam pela continuidade do capitalismo.

Eis a explicação dada por Daron Acemoglu:

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O prazer e gozo segundo Todd McGowan

Autor: Todd McGowan

Compreender a política do gozo requer reconhecer a sua diferença em relação ao prazer. O gozo e o prazer existem em uma relação dialética, [pois um é negação determinada do outro]. O gozo é o termo privilegiado nessa relação, pois é ele que impulsiona o sujeito inconscientemente. As pessoas agem em prol do seu gozo, mesmo que o gozo nunca possa se tornar seu objetivo consciente.

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