Método dialético versus método estrutural

Publica-se em sequência um trecho do livro L´obscurantisme contemporain em que Pierre Fougeyrolas trata da diferença entre o método dialético e o método estruturalista. O texto versa sobre uma questão crucial: o que é um sistema? [2] O estruturalismo diz que um sistema está estruturado por um conjunto de regras de interação social que ele se julga capaz de desvendar.

Dialética à esquerda; Estruturalismo à direita; o centrão está irado.

A dialética diz que um sistema é uma totalidade em devir constituída a partir de determinadas relações sociais, vinculações contraditórias que unem/separam os indivíduos, bases internas, essenciais, sobre as quais as interações aparentes acontecem. Em consequência, como salientou Ruy Fausto, o estruturalismo opera por meio de totalizações feitas a partir de observações empíricas; já a dialética vai da aparência para a essência, opera por meio de reduções do que aparece ao que é. [3]   

Método dialético e método estrutural

Autor: Pierre Fougeyrollas [1]

Uma apreciação justa dos esforços de Lévi-Strauss exige a consideração do método que ele escolheu promover. É, portanto, com a análise e síntese estrutural que devemos nos preocupar agora.

Continuar lendo

Policrise novamente

Autor: Michael Roberts

The next recession blog – 08/10/2023

No início deste ano, escrevi um poste sobre o que alguns chamam de ‘policrise’. O termo indica que o modo de produção capitalista está se defrontando com diversas tensões disruptivas simultâneas: econômica (inflação e recessão); ambiental (clima e pandemia); e geopolítica (guerra e divisões internacionais). Tudo isso começou a acontecer já no início do século XXI.  Palavra da moda na esquerda conectada às novidades, resume, em muitos aspectos, a minha própria descrição das contradições do sistema. Aquilo que designei como “longa depressão” já da década de 2010 está agora atingindo o seu auge.

Como neste mês de outubro as principais agências econômicas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se reúnem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. É bom verificar o que está a acontecer com as contradições que compõem a policrise do capitalismo.

Continuar lendo

Lévi-Strauss: da natureza à cultura

Traduz-se aqui a primeira parte do primeiro capítulo do livro L’obscurantisme contemporain, escrito por um importante antropólogo e filósofo francês, Pierre Fougeyrollas, o qual foi publicado em 1980, mas que agora está relativamente esquecido.[1] O objeto é mostrar o caráter de construção idealista do estruturalismo de Lévi-Strauss, fonte principal da metodologia de Jacques Lacan, autor que estamos estudando criticamente. Expõe-se, assim, que o defeito encontrado em um se encontra também no outro.

Lévi-Strauss: natureza e cultura

Autor: Pierre Fougeyrollas [2]

O problema da relação entre natureza e cultura e a questão da passagem da primeira para a segunda na geração e desenvolvimento do ser humano foram legados pela especulação filosófica do passado ao pensamento do nosso tempo. Apesar do desdém que professa pela filosofia, Claude Lévi-Strauss não deixou de enfrentá-lo na sua principal obra sobre as Estruturas Elementares do Parentesco. É por este texto que começaremos a discussão de seu trabalho.

Continuar lendo

A tripla desigualdade do problema climático “global”

Autor: Adam Tooze, 11/06/2023

A crise climática é frequentemente discutida como um problema global que requer a mobilização coletiva da humanidade. Isso pode ser inspirador. Contra o pano de fundo da tensa geopolítica de hoje, pode até ser reconfortante imaginar que existem pelo menos alguns problemas que temos em comum como “nós”. Conforme observado no Relatório de Desigualdade Climática 2023 , escrito pela equipe de Lucas Chancel, Philipp Bothe e Tancrède Voituriez, esta visão “global” do problema é profundamente enganosa.

A realidade do “problema climático global” é, de fato, definida por uma tripla desigualdade. O maior impacto é sofrido por aqueles que menos contribuíram para a crise e têm menos condições de pagar. Aqueles de nós que são mais responsáveis e têm maior capacidade de contribuir para a solução sofrem atualmente menos e serão ameaçados no futuro por um impacto relativamente menor.

Continuar lendo

O retorno da psicopolítica

Autor: Eli Zaretksy [1] – Sidecar – 22/09/2023

Como que demonstrando que o reprimido retorna, a política irrompeu no mundo supostamente apolítico da psicanálise americana. Um grupo de defesa, Black Psychoanalysts Speak e um documentário, Psychoanalysis in El Barrio, procuram corrigir os preconceitos raciais e de classe dessa disciplina, a análise.

Unbehagen, um serviço de psicanalítico popular, está envolvido num debate agitado sobre se é necessário combinar o gênero, a raça, a etnia e a orientação sexual do analista com os do paciente. A própria Associação Psicanalítica Americana (APsaA) foi abalada por recriminações políticas, expurgos, demissões e denúncias. Um artigo de Donald Moss, publicado no jornal da associação, forneceu o catalisador para isso ocorresse. De acordo com seu resumo:

Continuar lendo

O discurso do homo oeconomicus

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A figura do homo oeconomicus como forma de caracterizar o modo de calcular e de atuar do bípede sem plumas quando ele está envolvido em atividades mercantis apareceu junto com o nascimento da economia política [2], grosso modo, no século XVIII. A melhor reflexão sobre essa realização no campo da ciência moderna foi feita por John Stuart Mill em seu Da definição de Economia Política e do método de investigação própria a ela, publicado em 1832. Aí, considerando esse saber como uma ciência moral ou psicológica, define explicitamente a economia política do seguinte modo:

A ciência que trata da produção e da distribuição de riqueza na medida em que elas dependem das leis da natureza humana (…) das leis morais ou psicológica da produção e da distribuição da riqueza.[3]

Porém, o que é riqueza? Mill, em seu artigo seminal, apresenta uma definição em que a riqueza aparece como uma coleção de bens e serviços que tem utilidade e que precisam ser produzidos pelo trabalho humano:

Continuar lendo

Os ciclos de globalização seguem a taxa de lucro

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 9/09/2023

O que a economia dominante entende por globalização é a expansão acelerada do comércio e dos fluxos de capital (mas não do trabalho) livremente através das fronteiras.

A globalização, assim definida como a expansão do comércio e dos fluxos de capitais a nível mundial, ocorreu em ondas, ou seja, períodos de rápida expansão do comércio e do capital a nível mundial e, em seguida, períodos em que o comércio e os fluxos de capitais diminuíram e os países reverteram para barreiras comerciais e de capital. Penso que podemos distinguir três ondas de globalização, por volta de 1850-80; por volta de 1944-70; e o maior de meados da década de 1980 até o final do século XX.

Continuar lendo

A construção do homo alienatis

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Neste artigo, pretende-se fazer um comentário crítico à famosa tese de Jacques Lacan que se encontra no texto O estádio do espelho como formador da função do eu tal como é revelada na experiência psicanalítica, dado a conhecer em comunicação feita ao XVI Congresso Internacional de psicanálise, em Zurique, aos 17 de julho de 1949. Nesse escrito, o psicanalista francês se esforça para mostrar como ocorre o primeiro momento da formação do eu, aquele em que se dá supostamente o reconhecimento de si mesmo pelo infante como um corpo uno e, assim, distinto de outros corpos e das coisas do ambiente.  

O teor da crítica já está evidentemente anunciado pelo título: a experiência psicanalítica visa o indivíduo – antes de tudo na família – e tende a construir uma antropologia fundante. Aquela engendrada pela mente criativa de Jacques Lacan – julga-se – deve ficar conhecida pelo nome aqui proposto: homo alienatis. O que se segue não se baseia, entretanto, nesse tipo de experiência, porque está escrito na perspectiva da crítica da economia política.

Continuar lendo