Finança e imperialismo

The City, front cover of Verso bookEstá saindo um livro importante sobre o tema “finança e imperialismo”. Ele foi escrito por Tony Norfield. Originário de uma tese de doutorado na SOAS da Universidade de Londres, está sendo publicado pela Verso sob o título de The City – London and the global power of finance (em português:  A City Londres e o poder global das finanças). Nesse livro, a produção e a finança capitalista não são enxergadas como duas esferas analiticamente separáveis e que podem ser assim avaliadas distintamente como geradoras de bem-estar – um “erro” que costuma ser cometido por keynesianos e marxistas. Ao contrário, elas são vistas como esferas que formam uma unidade indissolúvel, uma simbiose de capitais funcionantes e financeiros, a qual existe e cada vez se integra mais para melhor extrair o mais-valor na economia capitalista. Como forma de indicar a sua leitura para os pesquisadores brasileiros da área, publica-se uma tradução da resenha do livro feita pelo notável blogueiro inglês que é conhecido pelo nome de Michael Roberts.

 

Michael Roberts bloga em https://thenextrecession.wordpress.com/

Tony Norfield bloga em http://economicsofimperialism.blogspot.co.uk/

 

A resenha se encontra aqui: O imperialismo britânico e poder global da finança.

O que é austeridade?

Oxi - Milios PaperÉ o modo por meio do qual é reforçada a disciplina do capital nas economias capitalistas contemporâneas. Ao implementá-la como política de Estado, visa-se, em última análise, a recuperação da lucratividade possível das empresas capitalistas, seja reduzindo diretamente os gastos públicos sociais seja reduzindo indiretamente, no setor privado, o salário real. No capitalismo clássico do século XIX, a própria crise econômica, que lavrava espontaneamente, reimpunha a disciplina do capital, pois esta encontrava-se corroída em parte na fase de boom. Interpretada aqui como crise de superacumulação em geral, quando sobrevinha, gerava queda dos salários e, assim, aumento da taxa de exploração; destruía também boa parte do capital real e do capital financeiro, de tal modo que a taxa de lucro subia. Ora, isto preparava as condições de um novo boom.

No capitalismo regulado pelo Estado da segunda metade do século XX em diante, os impactos automáticos das crises nos estoques de capital real e financeiro tornaram-se insuportáveis. O gasto público estabilizador tornou-se muito importante e os bancos centrais passaram a impedir o colapso da liquidez e, assim, as quebras em cadeia que produziam um decrescimento econômico descontrolado. A política de austeridade nas novas condições históricas do capitalismo passou a visar, então, a reposição da disciplina do capital sem que haja uma forte destruição do capital acumulado. O resultado dessa estratégia de enfrentamento da superacumulação, entretanto, pode não gerar o melhor dos mundos para o evolver da relação de capital. Ao invés de queda abrupta da atividade econômica, tal como fora observada na Crise de 1929, passou-se a verificar uma expressiva tendência à recessão prolongada e mesmo à depressão crônica.

Um artigo de John Milios, publicado em inglês na revista Jacobin, encontra-se aqui traduzido para o português. Ele ajuda a compreender a racionalidade perversa da política de austeridade em geral. Pois, segundo ele, A austeridade não é irracional.

Produção e finança

img025 (2)Há uma dicotomia entre produção e finanças? Produção é meramente produção de bens e serviços? Finança é apenas uma atividade de intermediação que às vezes, ou mesmo frequentemente, transforma-se em especulação, dando origem a um rentismo desenfreado?  Na nota que aqui se publica procura-se mostrar que essa “dicotomia” é uma falsidade fundada não num mero erro teórico, mas na própria aparência do modo de produção capitalista. Pois, a duplicidade entre produção e finança está inscrita já na duplicidade entre valor de uso e valor constitutiva da mercadoria. Ela é também, em consequência, inerente à relação de capital. E que, portanto, mesmo a exacerbação da atividade financeira e mesmo a financeirização não é uma anomalia no capitalismo. A nota foi escrita e apresentada no seminário Crise capitalista – Perspectivas emancipatórias promovido pelo Cedeplar e ocorrido entre 27 e 29 de outubro de 2015.

 

O texto da nota encontra-se aqui: Produção e finança

A luta pelo “comum”

Da regulação social democrática 

roda de conversaTentando repercutir a tese de que, na atual conjunta histórica, é preciso opor o “comum” à propriedade privada e, mesmo, à propriedade estatal, de que, ademais, é preciso opor a democracia dos iguais à dominância de classe e, mesmo, à democracia burguesa, procura-se desenvolver aqui uma crítica à regulação social democrática. Sustenta-se, em síntese, que ela se tornou, ao mesmo tempo, uma impossibilidade e um estorvo. A tese da defesa do “comum” vem de um texto de Pierre Dardot e Christian Laval que se encontra aqui: Propriedade, apropriação social e instituição do comum.  A tese crítica à regulação moderadora acima mencionada, por sua vez, encontra-se aqui:A regulação social democrática tornou-se anacrônica

Este post,  publicado em 18 de setembro, foi modificado em 20 de setembro de 2015.

De uma crítica classista ao neoliberalismo

img017 (2)Eis que se tornou necessário examinar criticamente as teses sobre o “neoliberalismo” e sobre a sua “crise” dos conhecidos economistas políticos Gérard Duménil e Dominique Lévy. Pois, essas teses estão profundamente equivocadas.

Veja-se que esses dois autores franceses vêm escrevendo sistematicamente, quase sempre em conjunto, sobre esse tema, havendo desenvolvido uma particular compreensão do evolver do capitalismo contemporâneo. Em resumo, para eles, o neoliberalismo consiste apenas numa estratégia das classes capitalistas para recuperar a hegemonia que havia sido perdida no período em que prevalecera a socialdemocracia e o keynesianismo. Ora, isto parece fazer sentido à primeira vista – à primeira vista somente.

Como enxergam o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo sob uma perspectiva que privilegia a luta de classes pela apropriação de renda, eles não vão muito além de uma crítica classista ao neoliberalismo. Apreendem-no, assim, como um processo que se resolve na esfera da circulação do capital e não como um processo que a si mesmo se engendra na própria esfera da produção do capital. Assim, ao invés de tomar o capital como sujeito automático do modo de produção, ao invés de privilegiar a lógica fetichista da acumulação de capital que faz das classes suportes das relações sociais, caem numa sociologia vulgar que assume as classes como sujeitos políticos plenamente atuantes e, assim, já sempre efetivos e constituídos enquanto tais. Se eles se apresentam como marxistas tout court é porque ainda não superaram o nível já ultrapassado do marxismo tradicional.

Eis aqui o texto: De uma critica classista ao neoliberalismo

A agonia da relação de capital

Figura - O olho da HistoriaComo já se mencionou neste blog, dois autores do grupo de pesquisadores da “crítica do valor” (Grupo Krisis), Ernst Lohoff e Norbert Trenkle escreveram um livro importante de interpretação da atual crise estrutural do capitalismo. Traduzido para o português, o título da obra fica assim: A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise. Numa nota, recém-publicada pela revista O olho da História, as suas duas teses mais importantes são questionadas. Sem desprezá-las, pergunta-se: A) há mesmo um declínio da produção de mais-valor no capitalismo contemporâneo?  B) a financeirização vem a ser uma reação impetuosa do sistema frente a ameaça iminente de seu próprio colapso?

O texto se encontra aqui: http://oolhodahistoria.org/inicio/wp-content/uploads/2015/06/agoniadarelacaodecapital.efsp-pdf.pdf

Da crítica truncada

Imagem do Sursis II

Uma das teses mais populares sobre a crise econômica iniciada em 2008, muito difundia na esquerda keynesiana e marxista, sustenta que ela surgiu como resultado da exacerbação das atividades financeiras deslanchada ao fim da década dos anos 70 do século XX. Conforme reza, o advento do neoliberalismo na década dos anos 80 trouxe consigo o afrouxamento dos controles sobre a criação de capital financeiro, assim como, em consequência, a financeirização das empresas capitalistas voltadas para a produção de bens e serviços como mercadorias.

Um dos resultados dessas reformas liberalizantes teria sido a queda da taxa de acumulação – e do crescimento econômico –, principalmente nos países do centro do sistema. A financeirização, segundo essa ótica, disparou um processo anômalo de expansão dos títulos, ações, etc. que se auto realimentou, que se autonomizou, e que puncionou sistematicamente parte dos lucros obtidos nas atividades produtivas. Em consequência, a taxa de investimento caiu inexoravelmente para níveis bem baixos. A transformação da economia que havia sido construída após a II guerra mundial sob a orientação do keynesianismo, uma pujante máquina de crescimento, teria produzido, após as reformas neoliberais, apenas um sistema em que o crescimento se tornou anêmico e o rentismo passou a prosperar sem qualquer vergonha.

Os teóricos da corrente “crítica do valor” consideram essa avaliação do evolver do capitalismo gestado pelo neoliberalismo como uma crítica truncada. Para começar, ela omite que o capital financeiro, que é mais propriamente denominado de capital fictício, constitui-se como uma forma intrínseca e necessária da relação de capital. E que, por isso mesmo, existe em simbiose com capital funcionante: eis que toda operação financeira está ancorada direta ou indiretamente na produção real de mais-valor; não apenas colhe parte do mais-valor aí produzido, mas também permite e induz que ele seja aí criado. Se o capital funcionante se valoriza ao agregar valor atuando diretamente na esfera da produção mercantil, o primeiro se valoriza indiretamente, fora dessa esfera, mas somente o faz porque antecipa mais-valor que ainda vai se realizar ou ainda vai ser produzido no futuro. Logo, não apenas punciona mais-valor, mas também estimula a sua produção. Não faz sentido, portanto, confundir o jurismo com o rentismo tal como costumam fazer aqueles que não são capazes de ir além de uma crítica truncada do capitalismo.

Os teóricos da “crítica do valor” julgam, assim, que é enganoso considerar o capital financeiro como uma intrusão que parasita e abate o capital funcionante. Ademais, pensam também que esse capital, ao contrário do que admitem os autores da crítica truncada, teve um papel decisivo na sustentação da acumulação no período neoliberal. Se ela foi fraca, mas fraca ainda teria sido sem o boom de capital fictício observado em todo período. Pois, segundo eles, o advento da terceira revolução industrial reduzira drasticamente a possibilidade de crescimento da massa de mais-valor, jogando o capitalismo realmente existente num processo de estagnação e de declínio.  Nessa circunstância, a acumulação sustentada pela expansão explosiva do capital financeiro foi a única forma capaz de manter o sistema funcionando sem cair numa depressão profunda. Ora, para fornecer uma amostra do conteúdo desse argumento, publica-se aqui um excerto tirado do livro A Grande Desvalorização de Ernst Lohoff e de Norbert Trenkle, o qual já foi discutido em postagens anteriores. Nesse trecho da obra, eles explicam como o neoliberalismo foi capaz de produzir uma suspensão (temporária) do desenrolar da crise.

 

Ei-lo: Lohoff – A suspensão da crise pelo neoliberalismo

A grande desvalorização I

Imagem - La grande dévalorisation

Dois autores do grupo de pesquisadores da “crítica do valor”, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle escreveram, em alemão, um livro muito interessante de interpretação da grande depressão, iniciada em 2008. Traduzido para o português, o título da obra fica assim: A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise. O texto original foi publicado em 2012 e uma tradução para o francês apareceu em 2014: La grande dévalorisation… Nesta postagem, publica-se, primeiro, um resumo elaborado por eles mesmos da tese central do livro, o qual recebeu o seguinte título: A grande descarga de capital fictício. A versão aqui apresentada é despretensiosa, mas pretende estar de acordo com o texto original; ela foi elaborada a partir de uma tradução francesa do resumo escrito em alemão, a qual foi feita por Paul Braun. Ver http://www.palim-psao.fr/article-sur-l-immense-decharge-du-capital-fictif-par-ernst-lohoff-et-norbert-trenkle-108796981.html 

A interpretação da crise encontrada nesse livro está fundada numa conhecida tese de Robert Kurz segundo a qual, após a eclosão da terceira revolução industrial, o capitalismo entrou já na rota inexorável de seu próprio colapso. Pois, com ela, a produção social total de mais-valor, ao invés de crescer persistentemente como exige a lógica da acumulação de capital, passou a diminuir continuamente. Por isso, o grupo como um todo enxerga na enorme expansão financeira atual uma conclusão das contradições do próprio capital: por um lado, decorre de uma necessidade imanente da autovalorização do capital e, por outro, ocorre por meio de criação explosiva de capital fictício, capital fundado na apropriação possível de um mais-valor que, supostamente, será produzido no futuro. Como a massa de mais-valor está, segundo eles, declinando, o gigantesco volume de capital fictício assim criado não poderá se realizar enquanto tal. A valorização possível tornou-se, pois, impossível. Esses autores constatam, assim, que a relação de capital encontrou um limite que se revelará, ao fim e ao cabo, por mais que dure a agonia do sistema, como insuperável. O Reino de Hades é, pois, o seu destino…

Para explicar criticamente essa tese, publica-se também o pequeno texto Queda secular da massa de mais-valor – apenas uma nota explicativa.

A primeira encontra-se aqui: Da imensa descarga de capital fictício

A segunda encontra-se aqui: Queda da Massa de Mais-valor I

Exame crítico da teoria da financeirização

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Resumo

A teoria da financeirização tornou-se chave na compreensão marxista da evolução contemporânea do modo de produção capitalista. Entretanto, tal como tem sido formulada, ela não está totalmente de acordo com a compreensão do próprio Marx sobre as funções do capital portador de juros e do capital fictício na acumulação de capital. Examina-se, por isso, num novo artigo principalmente a teoria da financeirização de François Chesnais. A sua conjectura sobre a evolução recente do capitalismo é vista criticamente porque ela se restringe a condenar a dominação parasitária do capital industrial pelo capital financeiro. A predominância da lógica das finanças na condução da acumulação, segundo ele, vem rebaixar as perspectivas de crescimento da economia capitalista e, assim, dos salários dos trabalhadores encaixados no sistema. Mostra-se no texto que essa formulação apenas renova uma tradição muito antiga em Economia Política, a qual consiste em condenar o chamado “rentismo”, deixando, contudo, de condenar fortemente o capitalismo enquanto tal. A nota, no entanto, não deixa de fazer também um comentário crítico da teoria da financeirização de José Carlos Braga, a qual diverge da teoria muito mais divulgada e conhecida de François Chesnais.

O texto complexo do artigo faz parte do número 39 da revista Crítica Marxista, recém publicado. Ver http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/

As fissuras do sistema

imagesComentam-se criticamente, numa nota curta, as teses de Raghuram Rajan sobre as causas da “grande recessão” da economia capitalista de 2008, a qual é encontrada em seu livro Fissuras – como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial. Para ele, em resumo, a crise foi produzida por uma piora na distribuição da renda nos EUA, por desequilíbrios nos fluxos internacionais de mercadorias e poupança e, finalmente, pela “exuberância” dos mercados financeiros. Procura-se mostrar que as suas análises são superficiais e que elas próprias demandam uma melhor compreensão das contradições inerentes à acumulação de capital e, assim, da propensão à crise que é inerente ao capitalismo. Ao final, indica-se que tanto a concentração da renda quando a financeirização não são mais do que manifestações fenomênicas da tendência à superacumulação de capital que vem caracterizando, sem resolução sustentável, o capitalismo contemporâneo desde a década dos anos 70 do século passado.

A nota se encontra aqui: Rajan e as fissuras do sistema