Keynesianismo e o problema da lucratividade

O autor da nota publicada em sequência, que se perfila como keynesiano, examina as consequências da política econômica keynesiana na lucratividade do capital – o que é raro nesse ramo da literatura sobre macroeconomia. No entanto, ele não toca na questão das relações entre a acumulação de capital, o aumento da produtividade do trabalho e da queda da produtividade aparente do capital e, assim, da tendência ao declínio da taxa de lucro.   

Eis o artigo:

Autor: Nick Johnson – Fonte: The political economy of development – 2/07/2025

O que salva o capitalismo hoje pode enfraquecê-lo amanhã. As políticas governamentais que sustentam o pleno emprego correm o risco de sustentar o capital improdutivo [de valor excedente] e atrasar a destruição criativa. Mas existe uma solução progressiva para esse problema?

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Os países “atrasados” vão se tornar “adiantados”?

Autor: Michael Roberts. Apresentação: Eleutério F. S. Prado

Michael Roberts fez uma apresentação desse tema na Conferência da Associação de Economia Heterodoxa, em Londres, em junho de 2025. Aqui se faz um esforço para traduzir essa apresentação num texto corrido. Para colocar em dúvida a suposta “história de recuperação” dos páises atrasados, esse blogueiro famoso faz primeiro uma pergunta. Para apresentar, depois, uma resposta contundente.

Eis a pergunta: “Os países pobres do chamado Sul Global estão “alcançando” os países mais ricos do chamado Norte Global?”

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A ideologia do capital posto em plataformas

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Nesse artigo pretende-se examinar criticamente a tese sobre o atual desenvolvimento e sobre o futuro do capitalismo, apresentada por Peter Thiel em seu livro De zero a um.[2] Formado em Filosofia e Direito e grande investidor em tecnologias digitais, esse intelectual engajado previu nele que o futuro desse sistema econômico, baseado que está na relação de capital, será formidável.

Além de ter se tornado um controvertido bilionário que milita como empresário no Vale do Silício, esse autor é conhecido por apoiar a criação de “cidades de liberdade”. Nelas – imagina ele – o capitalismo é extremado e se desvencilha do Estado e da política, mas não evidentemente da polícia. Eis que a segurança em tais cidades será feita por robôs munidos de inteligência artificial, os quais terão a função de expulsar ou eliminar os intrusos e os indesejados.  

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Desenvolvimento (pouco) com dívida insustentável

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 30/06/2025

Os líderes mundiais se reúniram em Sevilha, Espanha, para uma cúpula de ajuda da ONU para países em desenvolvimento. Esta foi a Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento.  Pelo menos 50 líderes mundiais, incluindo o presidente francês Macron, a chefe da UE von der Leyen e o chefe da ONU Andrés Guterres estarão lá.  A conferência deve aumentar o apoio ao desenvolvimento global, os chamados objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos décadas atrás pela ONU, com o objetivo de tirar os países pobres e seus povos da pobreza.

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Criptoativos: formas de ocultação

Michael Roberts – The next recession blog14/07/2025

O Bitcoin não é investimento, mas meio de especulação. Não é regulamentado, não tem lastro em nenhum ativo; vale apenas o que alguém está disposto a pagar por ele.” – Mateus Stephenson

“Trata-se de um jogo totalmente louco e estúpido” – Charlie Munger (2023).

As criptomoedas são altamente voláteis e, por isso, não são realmente úteis como reservas de valor; elas não estão apoiadas em nada… Figuram como ativos especulativos que, essencialmente, substituem o ouro e não o dólar”.  Presidente do Federal Reserve Bank, Jay Powell

“Bitcoin, parece uma farsa…. Não gosto porque vem a ser outra moeda competindo com o dólar. Donald Trump, em junho de 2021.

A semana nos EUA está marcada pelos ativos designados como criptos. Note-se de passagem que o preço do criptoativo[1] mais saliente, o Bitcoin, atingiu um recorde de US$ 120.000.  Ora, nessa semana, o Congresso dos EUA se prepara para considerar projetos de lei destinados a criar estruturas regulatórias mais claras para os ativos digitais.  Os legisladores dos EUA considerarão vários ordenamentos com esse objetivo: Genius Act, o Digital Asset Market Clarity Act e o Anti-CBDC Surveillance State Act. O objetivo é tornar a “América a capital mundial dos criptoativos”.

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Liberdade para o capital, mas não para as pessoas

Autor: Mathias Schmelzer [1]

Introdução ao livro apresentado na figura acima

Faça amor, não invista’, ‘livre-se dos banqueiros’, ‘o capitalismo não está funcionando’. Esses foram alguns dos slogans que, repetidos pelos manifestantes, ecoaram na cúpula do G20 de abril de 2009, em Londres. Com milhares de pessoas participando das manifestações, os confrontos com a polícia deixaram um manifestante morto. Contudo, um acampamento climático de mil pessoas foi levantado em Bishopsgate; elas estavam ali porque se opunham ao comércio de carbono. Ademais, uma agência do Royal Bank of Scotland foi saqueada. De qualquer modo, viu-se naquele momento uma das manifestações mais conflituosas que eclodiram na onda global de agitação desencadeada pela crise financeira.

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O povo do capital (II)

Autor: Quinn Slobodian

O ópio social e o animal humano

Charles Murray expandiu esse tema em um artigo que circulou na reunião da Sociedade Mont Pelerin em Cancún, México, em 1996. Eis o que então disse: já que “uma reforma liberal radical… agora parece potencialmente ao alcance nos Estados Unidos”, os neoliberais precisavam pensar sobre o seguinte ponto: “como um estado liberal pode lidar com o sofrimento humano que persiste depois que as políticas liberais passam a vigorar”.

Murray estava sem dúvida bem ciente do processo enormemente perturbador que estava sendo desencadeado pela terapia de choque econômico na Rússia pós-soviética. Por isso, em seu escrito, ele citou com aprovação a analogia de Herbert Spencer da sociedade a um ser humano viciado em drogas: “a transição da beneficência estatal para uma condição saudável de autoajuda e beneficência privada deve ser vista como uma transição de uma vida comedora de ópio para uma vida normal – dolorosa, mas corretiva. “

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O povo do capital (I)

Autor: Quinn Slobodian [1] [2]

Juntos, estamos promovendo um novo fusionismo que argumenta pela existência, como Mises já sabia, de vínculos férreos entre cultura, economia e política. Lew Rockwell

Em 2006, o formulador de ideias Charles Murray, de longa data um defensor incansável de uma ciência racial revivida, fez o discurso principal em um “jantar de liberdade” que marcava o vigésimo quinto aniversário do centro internacional dos laboratórios de ideias neoliberais, a Atlas Economic Research Foundation. Membro da Sociedade Mont Pelerin (SMP) desde 2000, Murray usou seu tempo para apresentar a desgastada história sobre como Ronald Reagan e Margaret Thatcher criaram a oportunidade para que ocorresse a difusão das ideias de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman.

Eis que essa explosão fora auxiliada pelas fundações Cato, Heritage e Hoover, assim como por dezenas de outros laboratórios de ideias ao redor do mundo, os quais a Atlas vinha promovendo. Pensando no futuro, Murray perguntou o que eles estariam discutindo daqui a vinte e cinco anos numa reunião da Atlas, a ser realizada em 2031, no seu quinquagésimo aniversário. Não seria a liberdade econômica, o livre comércio, o gênio do empresário ou qualquer um dos outros pontos salientes do roteiro neoliberal. Ele previu que eles falariam sobre ciência.

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Titãs no capitalismo contemporâneo

Autores: Benjamin Braun [1] e Adrienne Buller [2]

A ascensão das gestoras de ativos

Em meados de outubro de 2021, a BlackRock revelou os resultados obtidos até o terceiro trimestre que ali se encerrava: a gigante da gestão de ativos anunciou, então, que tinha quase US$ 10 trilhões em ativos sob gestão. É um grande montante já que se mostra “aproximadamente equivalente a todas as indústrias globais de fundos de cobertura (hedge funds), “participação privada” (private equity) e capital de risco, combinadas”. Considerando que essa empresa quebrou a marca de US $ 1 trilhão em 2009, vê-se que obteve um aumento de quase dez vezes em apenas alguns anos

Desde a crise financeira de 2008, testemunha-se a ascensão dessa indiscutível superpotência de capital acionário. A BlackRock, embora excepcional, não está sozinha. Ela tem como rival mais próxima, a Vanguard. Ora, essas duas empresas controlam quase US$ 20 trilhões em ativos, tendo uma participação de mercado combinada de mais de 50% no mercado em expansão dos fundos negociados em bolsa (Exchange Traded Funds ou ETFs[3]). E elas não são apenas grandes – elas são “universais” – pois controlam grandes participações em todas as empresas, classes de ativos, setores e geografias da economia global.

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A economia neoclássica é incapaz de compreender a politica tarifária de Trump

O texto em sequência aponta para “a incapacidade da economia convencional de explicar a desigualdade doméstica e a competição internacional entre as nações” e, assim, a política tarifária de Trump. A perspectiva dessa crítica, contudo, não parecer ser a dos países subjugados. De qualquer modo, ela admite implicitamente que as relações entre países portam contradições, as quais se manifestam como interações que visam a cooperação e/ou o conflito.

Autor: Branko Milanovic

Blog do autor – 19 de maio de 2025 – Título original: Nothing (meaningful) to say.

Em um excelente artigo recente “Guerra e política internacional” (de acesso livre), John Mearsheimer apresenta uma versão sucinta da teoria realista das relações internacionais, aplicada ao mundo multipolar atual. Ele se concentra na existência inevitável da guerra devido à forma como o sistema internacional está estruturado: vem a ser uma anarquia em que nenhum país desfruta do monopólio do poder semelhante ao que o Estado tem na política interna; eis que nele não há  uma instância capaz de impor o cumprimento das regras.

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