Sim, é suicidarismo

Eleutério F. S. Prado [1]

Essa nota dá continuidade a outra que foi publicada em 12/2023 aqui em A terra é redonda, mas que não foi bem notada. Sob o propósito de caracterizar o extremismo neoliberal, ela recebera originalmente um título negativo, “não, não é fascismo”. O escrito, entretanto, saiu com um título afirmativo que também se mostrou bem justo, “extremismo neoliberal suicidário”. Ninguém deu bola, mas a questão é importante para o que vem vindo no século XXI com o ocaso do capitalismo.

O artigo tinha uma mensagem: eis que é preciso evitar usar a etiqueta “fascista” para caracterizar todos os extremismos de direita. Pois, esse costume impede uma melhor compreensão dessa prática política que, desde os anos 1980, vem buscando dar sustentação ao sistema fundado na relação de capital.

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O herói trágico e o desocultamento da alienação

Autor: Todd McGowan[1]

Resumo

O que separa o herói trágico antigo do moderno é a alienação. O contraste entre a obediência de Antígona a seu ancestral e o questionamento de Hamlet sobre a autoridade de seu pai morto deixa clara essa diferença. A alienação evidente na tragédia moderna fornece a base para a emancipação porque revela como a subjetividade pode não coincidir com as injunções postas por qualquer forma de autoridade social, mesmo aquela que desafia a ordem dominante.

Rompendo consigo mesmo

A emancipação só está presente no universo moderno. Trata-se de uma subjetividade que rompe com o domínio da autoridade da tradição sobre si mesma. Essa ruptura exige que o sujeito reconheça que não se enquadra na ordem social que habita.

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Por que Trump venceu?

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Os partidários norte-americanos da democracia liberal, com boa dose de angústia, têm se defrontado com essa pergunta. Se Trump se afigura para eles como populista, autoritário, mentiroso e até mesmo como neofascista, como pode ele ter ganho a eleição presidencial nos Estados Unidos, um suposto bastião da democracia liberal num mundo propenso a acolher ditaduras? Veja-se o que dizem dois economistas famosos, ganhadores do Prêmio Risk Bank (usualmente chamado de Prêmio Nobel de Economia), dado anualmente para os profissionais dessa área que propugnam pela continuidade do capitalismo.

Eis a explicação dada por Daron Acemoglu:

Em uma pesquisa Gallup de janeiro de 2024, apenas 28% dos americanos (um recorde de baixa) disseram-se satisfeitos com “a maneira como a democracia dos EUA estava funcionando”. Ora, a democracia americana há muito promete quatro coisas: prosperidade compartilhada, voz para a cidadania, governança orientada por especialistas e serviços públicos eficazes. Mas a democracia dos EUA – como, aliás, a democracia em outros países ricos (e até de renda média) – tem falhado no atendimento dessas aspirações.

Porém, nem sempre foi assim. Durante três décadas após a Segunda Guerra Mundial, a democracia entregou tais bens, especialmente a prosperidade compartilhada. Os salários reais (ajustados pela inflação) aumentaram rapidamente para todos os grupos demográficos e, assim, a desigualdade diminuiu. Mas essa tendência chegou ao fim em algum momento no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Desde então, a desigualdade disparou; ademais, os salários reais dos trabalhadores sem diploma universitário mal aumentaram. Em consequência, cerca de metade da força de trabalho americana viu a renda da outra metade aumentar.[2]

Eis agora a explicação dada por Joseph Stiglitz:

À medida que o choque da vitória de Donald Trump se instalou, especialistas e políticos passaram a refletir sobre o que isso significa para o futuro dos Estados Unidos e para a política global. Entender por que uma figura tão divisiva e desqualificada venceu novamente é crucial para os democratas. Eles foram muito para a esquerda e perderam os americanos moderados que constituem a maioria? Ou o neoliberalismo centrista –  perseguido por presidentes democratas desde Bill Clinton – falhou em entregar o que prometia, criando assim uma demanda por mudança?

Para mim, a resposta é clara: 40 anos de neoliberalismo deixaram os EUA com desigualdade sem precedentes, estagnação na parte intermediária do espectro de renda (algo ainda pior para aqueles abaixo) e declínio da expectativa de vida média (destacada pelo aumento de “mortes por desespero”). O sonho americano está morrendo; embora o presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris tenham se distanciado do neoliberalismo com sua adoção de políticas industriais, como representantes do establishment dominante, eles permaneceram associados ao seu legado.[3]

A conclusão que se segue dessas declarações é bem clara: para ambos esses autores, a vitória de Trump ocorreu porque as condições necessárias para a existência e continuidade da democracia liberal foram minadas nos Estados Unidos à medida que passaram a prevalecer aí as instituições e as políticas econômicas do neoliberalismo.

As duas explicações, situadas ainda – e com méritos – no campo da economia política não estão erradas, mas falham, em primeiro lugar, por não apresentarem a razão estrutural do advento do neoliberalismo. E essa descoberta apenas pode ser feita mediante um avanço no campo da crítica da economia politica. Sem esse movimento crítico que vai do funcionamento aparente do sistema às suas leis de tendência e contratendência parece que a adesão das forças políticas ao neoliberalismo provém de atos deliberativos autônomos que podem ser revogados a qualquer momento por outros atos deliberativos igualmente autônomos.

  Como bem se sabe, essa ideologia, normatividade e prática política veio à tona no final dos anos 1970 e se difundiu a partir daí – avassaladoramente – como uma resposta complexa à crise de lucratividade iniciada já no final dos anos 1960, que atingiu não apenas a economia norte-americana, mas a economia mundial como um todo.

A figura em sequência mostra bem que as taxas médias de lucro nos EUA  cairam por mais de um década (de 1968 a 1981) por efeito da redução da relação produto capital (aumento implícito da composição orgânica do capital), assim como da dificuldade de elevar a relação lucro/capital (ou seja, aumentar a taxa de exploração) em virtude do poder dos sindicatos, que então se mostrava bem forte. E ela mostra também como a política neoliberal, que enfraqueceu o poder dos trabalhadores de várias formas, deu bons resultados para o capital, na década seguinte (de 1981 a 1987). Sem atingir o patamar anterior, a taxa de lucro se recuperou e, com ela, os investimentos que impulsionam a acumulação de capital.

Como se sabe, o neoliberalismo foi bem-sucedido em conter a elevação do salário real da classe trabalhadora nos EUA e nos outros países em geral, ou seja, em mantê-lo abaixo dos ganhos de produtividade, tal como mostra a figura em sequência. Contudo, essa estatística descritiva é insuficiente para avaliar as perdas dessa classe. Pois, como se sabe, a partir de 1980, ela perdeu proteção sindical e governamental, acesso a empregos de longa duração, qualidade de vida  e até mesmo, para boa parte dela, aquele orgulho identitário de ser bem-sucedido na sociedade nucleada na relação de capital. Mas isso ainda não é tudo. Com o neoliberalismo, os trabalhadores perderam em parte a identificação de classe, pois são instados ou mesmo forçados pelas circunstâncias a se verem como auto-empresários.        

Ademais, como já se insinuou, as explicações de Acemoglu e Stiglitz acima apresentadas se dão sob a suposição de que o indivíduo social atua como homo oeconomicus tanto como trabalhador na esfera econômica quanto como eleitor na esfera política. Ao tomarem, assim, esse “puppet” do sistema como sujeito, ademais intemporal –, eles não conseguem apreender o que passa a ocorrer com a subjetividade dos trabalhadores sob os constrangimentos da normatividade neoliberal. Ora, para esclarecer esse ponto – diferencial importante na explicação do resultado da recente eleição presidendial nos EUA – é preciso agora recorrer à psicanálise como crítica social.

Como se sabe, a economia política e, sobretudo, a economia vulgar, constroem a abstração homo oeconomicus a partir da aparência do  sistema sistema mercantil generalizado apenas para explicar o seu funcionamento. É assim porque aqueles que atuam de fato como personificações das mercadorias em geral e, em particular, da mercadoria “força de trabalho” (ou seja, os trabalhadores), se comportam e têm de se comportar como indivíduos auto-interessados.

“O homem é” – diz Stuart Mill pondo um fundamento primeiro – “um ser determinado, pela necessidade de sua natureza, a preferir uma maior porção de riqueza ao invés de uma menor em todos os casos”.[4] Contudo, a personificação, que assim aparece, é também a base da identidade da classe trabalhadora[5] – classe essa, no entanto, que só existe in fieri. É apenas lutando que essa classe se constitui em ato, como tal. Ora, é essa potência que o neoliberalismo combate individualizando o trabalhador.

Se essa economia política apreende os atores econômico como sujeitos, a crítica da economia política mostra que eles são sujeitos assujeitados à lógica compulsiva e infinita da acumulação de capital. A psicanálise desde Freud, por sua vez, mostra esse “sujeito”, assim construído desde o berço e na família, como um ser contraditório, em cuja psique lutam entre si e se combinam as pulsões amorosas/solidárias e as pulsões agressivas/individualistas. Ora, essas últimas ganham proeminência na vida econômica desses “sujeitos” porque eles aí labutam num “sistema” – como diz Tomšič – “que pode ser descrito como uma socialidade anti-social organizada”.[6]

Ora, esse sistema, fundado que está na acumulação sem limite de capital, apesar de requerer cooperação na esfera da produção, promove de maneira intensa e extensa a competição, acentuadamente na esfera da circulação mercantil. Ora, como esse “sujeito” se defronta com forças que não controla e até mesmo desconhece, ele está permanentemente numa posição de pouca potência ou até mesmo numa condição precária. Em consequência, a psique de muitos, aqueles assalariados ou por conta própria que não ousam lutar contra o sistema, encontra-se muitas vezes embargada pelo ressentimento.[7] Eis que “covardemente” submetem o seu desejo à lógica do sistema, mas querem cobrar algo por essa submissão; mantêm, por isso, sentimentos de rancor, hostilidade, vingança, ciume, inveja em relação a outros escolhidos como culpados.  

Se Nietzsche bem notou que esse afeto predomina na sociedade moderna, ele não o associou ao capitalismo. Ao contrário, considerou que se tratava de uma reação psicológica doentia, patológica, às condições sociais inexoráveis de uma sociedade que produz derrotas, desigualdade, insucesso etc., ou seja, que tende a produzir muitos perdedores. Como se sabe, ao indivíduo ressentido ele opunha o indivíduo heroico que enfrenta o seu destino com galhardia. Tomšič mostra bem que essa crítica erra porque não desafia o individualismo e a lógica da competição:

Ao contrário da perspectiva de Nietzsche, o afeto em questão não é simplesmente uma reação “patológica” (…) à desigualdade, à injúria e à injustiça. De um ponto de vista mais estrutural, o ressentimento é uma manifestação (…) das relações econômicas de competição; eis que expressam o funcionamento compulsivo dessas relações em indivíduos e grupos sociais. Como o ressentimento impõe um envenenamento da diferença, ele marca o ser social com hostilidade mútua.

Se o ser social carrega a significação de “ser-com” e eventualmente de “ser em comum”, então o ressentimento sinaliza a subversão antissocial do ser social em “ser-contra”, um modo de ser que corresponde ao esforço capitalista pela “privatização” total do social e do comum, ou mais genericamente, um esforço para expropriar os sujeitos políticos de seus corpos, suas vidas e, finalmente, de toda estrutura que lhes forneceria condições (materiais e imateriais) para a reprodução da vida.[8]

Ora, toda essa volta de argumentos, foi necessária para encontrar a origem da segunda lacuna antes apontada nas explicações de Stiglitz e Acemoglu para o advento e a vitória do extremismo de direita na última eleição nos EUA – assim como, em parte, para a falta de votos na direita tradicional. Dizer que Trump ganhou porque Biden e os próceres do partido democrata norte-americano abandonaram as causas que interessam aos trabalhadores é insuficiente e, na verdade, superficial.

A razão verdadeira dessa deriva é que o neoliberalismo, ao extremar o individualismo, ao impor competição sem tréguas aos “sujeitos” trabalhadores, exacerba e multiplica o ressentimento. Não tanto porque não tem cumprido o que antes prometera em termos de expansão econômica e bem-estar. Não tanto também porque subtraiu as vozes dos trabalhadores na competição política. Mas principalmente porque o empreendedorismo neoliberal e o ressentimento individualista estão, assim, bem conjugados entre si. E esse último requer uma cobertura da falta que “sujeito” sente por meio de “boas” mentiras e de violência irracional. É daí que surge a possibilidade de ascensão da extrema direita.

Os eleitores populares de Trump são pessoas recriminadoras que “esqueceram” que submeteram os seus desejos ao sistema da relação de capital e que passaram a compensar a insatisfação com o próprio desempenho medíocre nesse sistema, dirigindo um ódio seletivo a outros tomados como culpados (imigrantes, pessoas que lutam por direitos, gente de esquerda, certos povos estrangeiros etc.).

Ao votarem num político vingador, eles obtêm gozo, ou seja, satisfação perversa. Trump é um pequeno grande homem, “pequeno” porque se apresenta como um homem comum tal como os seus seguidores e “grande” porque, para além deles, parece poderoso e é capaz de esmagar de fato aqueles que foram escolhidos para serem falsamente responsabilizados e, assim, odiados. Nessa toada, ao invés de progresso, o capitalismo espalha agora destruvidade brutal tal como ocorreu na Alemanha nazista e está já acontecendo de modo proeminente no Oriente Médio, sob a agência de Israel/EUA. Foi para aprofundar essa tendência que Trump venceu.  


[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https//eleuterioprado.blog.

[2] Ver Acemoglu, Daron – The fall and rise of American democracy. In: Project Syndicate, 3/12/2024.

[3] Ver Stiglitz, Joseph – How Trump victory exposes the failures of neoliberalism. In: Social Europe, 2/12/2024.

[4] Ver Stuart Mill, John – Da definição de economia política e o método de investigação própria a ela. In: Stuart Mill, São Paulo: Abril, 1974.

[5] Aqui se optou, por simplicidade, em não segmentar a classe trabalhadora em pequena burguesia, proletariado e lumpemproletariado.

[6] Ver Tomšič, Samo – The antisociality of capitalism. In: Libidinal Economies of Crises Times. Ed. Ben Gook. Bielefeld: Verlag, 2024.

[7] Sobre isso ver Kehl, Maria Rita – Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2020.

[8] Op. cit.

O conceito de totalidade na crítica do capitalismo

Autora: Sandrine Aumercier[1]

À medida que se aproxima de seus limites internos e externos, a mercantilização do mundo tenta relançar a acumulação de capital de forma cada vez mais enfurecida, como se estivesse diante de uma máquina que está parada, mas que deve continuar funcionando a todo custo.

A violência desse esforço, que não para diante de qualquer esfera da existência social que quer anexar, só é igualada pelo inevitável esgotamento de suas fontes de movimento. Diante desse horizonte totalitário, a teoria crítica que pretende compreender esse funcionamento não pode almejar menos do que abraçar o nível da totalidade.

Voltando-se para esse propósito, ela tem de desafiar a fobia daqueles que diagnosticam sempre alguma tendência totalitária escondida no próprio conceito de totalidade. Mas também é preciso renunciar ao fruto venenoso dos amanhãs cantados a que o conceito de totalidade parece convidar.

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Sujeito em Lacan (II)

Eleutério F. S. Prado [1]

Na primeira parte deste artigo mostrou-se que a concepção de sujeito deste mestre psicanalista advém de uma fundação primeira, a qual se descreveu como homo alienatis. Como já se procurou mostrar em outro artigo desta safra de 2023, essa figura teórica está presente, de modo implícito, na economia política e na economia positiva sob a aparência do homo oeconomicus. A primeiro homo é a essência oculta do segundo homo. Agora, nessa segunda parte, pretende-se mostrar um outro aspecto desse sujeito tal como pensado por Lacan: posta também como uma fundação primeira, esta outra merece ser chamada de homo insaciabili. Ou seja:

O pensamento de Lacan, como se sabe, está enraizado no estruturalismo que vê a linguagem como um sistema cujas “leis” se impõe supostamente àqueles que nele adentram e que dele participam – não, portanto, como um complexo de signos criado do socialmente, portador de contradições, cujo envolvimento torna possível tanto a alienação quanto a desalienação.[2] A linguagem possibilita o assujeitamento do indivíduo social, mas também a crítica das ilusões forjadas socialmente com a sua mediação para mantê-la, passo primeiro para chegar à ação coletiva que pode realizar o sujeito enquanto tal.

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Sujeito em Lacan (I)

Eleutério F. S. Prado[1]

O objetivo desta nota consiste em debater um pouco, da perspectiva da crítica da economia política, a noção de sujeito em Lacan com base principalmente no livro O sujeito lacaniano entre a linguagem e o gozo de Bruce Fink, publicado em 1995, em inglês, e em 1998, em português.[2] Antes de tudo, como acentua esse autor, Lacan concebe o sujeito como falta-a-ser, ou seja, por meio de um princípio primeiro que o nega enquanto tal: “o sujeito” – diz ele – “fracassa em se desenvolver como alguém, como um ser específico; pois, no sentido mais radical, ele é um não-ser”.

Lacan, portanto, ao invés de pensar o humano como um ser que está atualmente em estado de alienação, mas que poderá vir a ser sujeito em certas condições, ele o funda como um homo alienatis, como um ser que não pode superar esse estado de alienação a não ser como uma mera faísca – tal como se mostrará mais à frente – mas também, enfim, como homo oeconomicus. Um esclarecimento melhor desse impasse lacaniano requer que se aprofunde uma comparação.

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É o trabalho abstrato universal?

Publica-se aqui um escrito enigmático – como sempre – do mais produtivo filósofo de todos os tempos, Slavoj Žižek ! Artigo que, aliás, já foi publicado também por outros. Mas aqui isso feito com o objetivo de criticá-lo – não para pô-lo no pódio. Leia, portanto, o antigo anterior também aqui publicado: É Žižek um intelectual sério?

Autor: Slavoj Žižek [1] Tradução: Lucas Tretin Reich. Original: aqui

Na medida em que não se pronuncia sobre o papel fundamental que a ciência moderna desempenha nos circuitos do capital, Kohei Saito pensa abstratamente, no sentido hegeliano de abstrair ou ignorar as circunstâncias concretas. E em nenhum lugar essa abstração é mais palpável do que em sua afirmação na qual o trabalho abstrato já existe nas sociedades pré-modernas, que ele não é (como o valor) uma forma puramente social, que surge apenas por meio da troca de mercadorias. Ao fazer isso, Saito ignora o fato crucial de que a noção de trabalho abstrato de Marx pressupõe a ciência moderna, especificamente a termodinâmica do século XIX.

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É Žižek um intelectual sério?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aviso: ainda que seja bem importante encontrar uma resposta, a pergunta posta pelo título não será aqui respondida. Pois, esta nota apenas visa reapresentar criticamente um artigo escrito por esse autor, o qual também ele escolheu denominar interrogativamente: É o trabalho abstrato universal? O objetivo consiste, outrossim, em opor uma pequena à sua provocação maior porque ela própria suscita esse tipo de dúvida. A reflexão necessária para respondê-la que fique, pois, com cada um. Mas que se examine também, ao mesmo tempo, por justiça, a seriedade do autor da presente nota.

A figura pública do autor de Menos que nada – Hegel e a sombra do materialismo dialético, como bem se sabe, levanta outros questionamentos: como se deve classificar melhor o Sr. Slavoj? Seria o Sr. Žižek um filósofo hegeliano, um crítico cultural pós-moderno, um leninista de escritório, um novo gênio iluminista ou mesmo um agitador contrarrevolucionário? Ora, essa espécie de confusão não seria produzida, propositalmente, por ele mesmo? Afinal, não se vive hoje na sociedade do espetáculo?

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A experiência analítica e seu futuro

Autor: Pierre Fougeyrollas

A nossa crítica seria incompleta se não focalizasse também a experiência analítica tal como é concebida por Lacan. No centro desse modo de interação, ele coloca o processo de transferência, o que não nos parece errado.

De fato, à Freud parecia que a manifestação da transferência constituía o ponto de inflexão da cura. Pois o paciente literalmente permanece um paciente enquanto o narcisismo neurótico o impede de investir efetivamente a sua libido num outro. O amor de transferência é justamente o renascimento de uma capacidade de investimento objetal que se dirige a um outro privilegiado: o analista. E, a partir daí, abre-se uma nova fase em que o nó neo-edipiano da transferência pode ser desatado, dando assim, gradualmente, à libido um mínimo de fluidez e margem de manobra.

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A análise freudiana do “ego”; o jogo do “eu” de Lacan

Autor: Pierre Fougeyrollas

Entre 1954 e 1955, Lacan reivindicou ter certa erudição filosófica diante de uma plateia de analistas pouco conhecedores dessa área. Com exceção de elementos clericais inspirados num anti-materialismo extremo. Explicou a ela que a concepção freudiana do ego englobava uma herança que antecedera a descoberta da psicanálise. Enfatizou, ademais, as especulações sobre um envelhecimento do freudismo como justificativa para desenvolver a sua teoria regressiva do sujeito, no sentido filosófico do termo.

Nessa perspectiva, postulou: “A obra metapsicológica de Freud depois de 1920 foi mal lida, foi, ademais, interpretada de forma delirante pela primeira e pela segunda geração depois de Freud – por pessoas insuficientes preparadas“. Pode-se supor, diante dessa consideração, que o autor esteja dando continuidade à sua crítica de um freudismo achatado e americanizado que esteve no centro de seu Discurso de Roma. Mas, não! Ao fim e ao cabo, é o próprio Freud que ele ataca.

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