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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

Capitalismo cadente e a raiva das massas

Autor: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 14/08/2024

Na esteira de sua enorme derrota em 30 de junho de 2024, quando 80% dos eleitores rejeitaram o presidente “centrista” francês Emmanuel Macron, ele disse que entendia a raiva do povo francês. No Reino Unido, o conservador e perdedor Rishi Sunak disse o mesmo sobre a raiva do povo britânico; o líder trabalhista Starmer diz agora que compreende por que a raiva está explodindo em seu país. É claro que essas frases desses políticos geralmente significam pouco ou mesmo nada; elas não implicam numa mudança de rumo substantiva.   

Esses líderes europeus e seus partidos continuam a calcular qual seria a melhor forma de recuperar o poder depois que o perderam. Nisso, eles são como os democratas norte-americanos após o desempenho de Biden em seu debate com Trump, agora em 2024, ou como os republicanos nos EUA após a derrota de Trump, em 2020. Em ambos os partidos, um pequeno grupo de líderes e de doadores toma sempre todas as decisões importantes, mas organiza depois o teatro político para ratificá-las “democraticamente”. Mesmo uma surpresa como a de Kamala Harris, que substituiu Biden na corrida eleitoral, é apenas um pequeno desvio no rumo costumeiro da política contemporânea.

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Armadilha de renda média ou de lucratividade?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 17/08/2024

Em um post recente, revisei um novo – e bem importante – livro dos economistas marxistas brasileiros Adalmir Antônio Marquetti, Alessandro Miebach e Henrique Morrone.  Eles trabalharam com um modelo de desenvolvimento econômico baseado, por um lado, na mudança técnica, na taxa de lucro e na acumulação de capital e, por outro, na mudança institucional (ou seja, políticas e governos). Juntos, esses dois fatores são combinados por eles para explicar a dinâmica de alçamento ou de retardamento do processo de desenvolvimento.

A realidade é que, no século XXI, a “recuperação” não está acontecendo para quase todos os países e, assim, para as populações do chamado “Sul Global”, ou seja, para a periferia pobre fora das economias capitalistas avançadas do Norte Global.  Essa realidade é frequentemente negada pelos economistas convencionais e, em particular, pelos economistas das agências internacionais como o FMI e o Banco Mundial.

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Introdução a O capital, mas sem dialética

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Está agora disponível em português um livro bem-sucedido editorialmente que se apresenta como uma introdução orgulhosamente analítica à obra mais importante de Karl Marx, da qual outros estudiosos dizem ser uma apresentação racional, imanente e dialética do modo de produção capitalista. Eis que a editora Boitempo acaba de publicar a Introdução a O Capital de Michael Heinrich que veio à luz na Alemanha em 2004 e que foi traduzida para o inglês no mesmo ano. Diferentemente das edições nessas duas línguas, a original preferiu fazer menção ao subtítulo da obra, Kritik der politischen Ökonomie: eine Einführung. Eis que ele indica já que ela vem a ser uma crítica interna ao objeto e às compreensões que permanecem externas ao objeto, isto é, ao sistema da relação de capital.

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Troca desigual de trabalho na economia mundial

Autores: Jason Hickel [1], Morena Hanbury [2] Lemos e Felix Barbour [3]

Resumo [4]

Argumenta-se usualmente que as nações ricas dependem de uma grande apropriação líquida de trabalho e de recursos do resto do mundo obtida por meio de trocas desiguais no comércio internacional e nas cadeias globais de commodities.

Aqui isso é avaliado empiricamente medindo os fluxos de trabalho incorporado na economia mundial de 1995 a 2021, levando em conta os níveis de qualificação, setores e salários. Descobrimos que, em 2021, as economias do Norte global se apropriaram de 826 bilhões de horas de trabalho incorporado do Sul global, em todos os níveis de qualificação e setores.

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Outra visão da financeirização

Autores: Stephen Maher e Scott Aquanno[1]

A análise do papel das finanças no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo oferecida por este livro é marcadamente diferente daquela geralmente encontrada em plataformas políticas progressistas e em estudos críticos. De fato, há hoje um consenso quase universal, particularmente após a crise de 2008, de que as finanças são uma força corrosiva e parasitária na economia industrial “real”. O mesmo acontece com os muitos males do neoliberalismo, de crises às desigualdades sociais, pois, elas são constantemente atribuídas à “financeirização”.

Enquanto os progressistas temem que a prosperidade e a competitividade nos EUA diminuam sem regulamentações para controlar o poder das finanças, os marxistas, por sua vez, veem em geral a financeirização como um sintoma do “capitalismo tardio” e como um prenúncio do declínio imperial americano. Essas ideias animaram debates políticos entre socialistas e progressistas, bem como as plataformas de figuras políticas que vão de Hillary Clinton a Jeremy Corbyn.[2]

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Socialização do capital I

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

É bem sabido que Marx, já em meados do século XIX, contemplou o processo de socialização do capital, ou seja, a superação da forma pela qual as empresas figuram como “capital privado” de certas pessoas pela forma em que se apresentam como “capital social” detido coletivamente por conjuntos de pessoas, pelo Estado e mesmo por outras empresas (mas não necessariamente por todos).

A compreensão do surgimento dessa última forma começa pelo entendimento de que a emissão e a venda de ações para o público – signos que representam uma parte alíquota do capital próprio de uma ou mais empresas – constitui-se numa forma especial de obter crédito e, assim, recursos extras para o funcionamento e para a expansão das operações que lhes dão vida econômica. Eis como apresentou esse desenvolvimento:

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Taxa de juro como instrumento político

O escrito abaixo do economista James K. Galbraith[1], publicado no portal Project Syndicate, em 6 de agosto de 2024, mostra bem que a suposta independência do banco central, no caso do banco central dos Estados Unidos, é uma farsa, pois tal como todos os outros, ele atua não apenas politicamente, mas de modo partidário. Eis o artigo:

O Federal Reserve dos EUA parece ter finalmente provocado a recessão que costuma engendrar sempre que o desemprego é baixo e o presidente é do partido democrata. Se isso lhes custar a Casa Branca em novembro, espera-se que os seus líderes usem seu tempo fora do poder para refletir sobre a insensatez de sua barganha de décadas com Wall Street.

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A ascensão das gestoras de ativos – o novo capital financeiro.

Autores: Stephen Maher e Scott Aquanno [1]

Introdução

A crise financeira de 2008 marcou uma mudança fundamental no capitalismo americano. À medida que os esforços de gerenciamento da crise feita pelo Federal Reserve e pelo Tesouro levaram o poder do Estado mais profundamente para o coração do sistema financeiro, sucessivas rodadas de flexibilização quantitativa facilitaram a concentração e centralização sem precedentes da propriedade corporativa em um pequeno grupo de empresas gigantes de gestão de ativos.

Na esteira da crise, essas empresas – BlackRock, Vanguard e State Street – substituíram os bancos como as instituições mais poderosas das finanças contemporâneas, acumulando poder proprietário em escala e escopo nunca dantes vistos na história do capitalismo. Essas empresas de gestão de ativos tornaram-se os nós centrais em uma vasta rede que incorporou quase todas as grandes empresas de todos os setores econômicos.

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Outro império do mal?

Autora: Elizabeth Schmidt [1] – Sidecar – 24/07/2024

A crescente presença da China na África chamou a atenção global. À medida que seus acordos comerciais e investimentos eclipsaram os do Ocidente, políticos dos EUA e da UE deram o alarme: Pequim, dizem eles, está explorando os recursos do continente, ameaçando seus empregos e apoiando os seus ditadores; ademais, está deixando de lado as considerações políticas ou ambientais.

As organizações da sociedade civil africana fazem muitas das mesmas críticas, ao mesmo tempo em que apontam que os países ocidentais há muito se envolvem em práticas semelhantes. Na mídia anglófona, a maioria das avaliações das perspectivas da China é obscurecida pela retórica da Nova Guerra Fria, que enquadra Xi Jinping como um sujeito que visa dominar o mundo. Pede-se, assim, às forças da civilização que o detenham. Ora, como se poderia fazer uma análise mais sóbria? Como se deve entender o papel da África nessa matriz geopolítica hostil?

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Quem possui e controla o capital globalmente

Autora: Albina Gibadullina [1]

Resumo [2]

Desde a década de 1980, as finanças dos EUA cresceram desproporcionalmente em poder e influência, à medida que os fundos de investimento americanos se tornaram os maiores acionistas das corporações americanas, administrando dezenas de trilhões de dólares em investimentos. Este artigo fornece uma nova análise empírica da ascensão do capitalismo de gestores de ativos nos Estados Unidos.

De fato, ele explora a extensão de sua disseminação global, examinando o Formulário SEC de investidores institucionais dos EUA, juntamente com um extenso conjunto de dados de propriedade corporativa global fornecido pela Orbis. Este artigo conclui que as finanças dos EUA possuem aproximadamente 60% das empresas listadas nos EUA (era apenas 3% em 1945) e 28% do patrimônio de todas as empresas listadas globalmente.

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