Do anarcocapitalismo à auteridade

Michael Roberts – The next recession blog – 15/04/2025

No dia 14 de abril, o FMI anunciou que concordou em emprestar ao governo argentino Milei mais US$ 20 bilhões (além das dívidas existentes contraídas no passado) para ajudar o governo a cumprir suas obrigações de dívida e restaurar as suas reservas cambiais em rápida queda. O acordo de empréstimo liberará US$ 12 bilhões iniciais, com mais US$ 3 bilhões chegando no final do ano.  

O governo diz que deve receber US$ 28 bilhões somente em 2025, incluindo US$ 15 bilhões de dinheiro do FMI, US$ 6 bilhões de outros credores multinacionais, US$ 2 bilhões de bancos globais e US$ 5 bilhões da extensão de um swap cambial com a China. Milei se gabou de que “o que o seu governo terá uma montanha de dólares“; eis que tema meta de dobrar as reservas cambiais brutas para US$ 50 bilhões.

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Economia do lado da oferta

Autor: Martijn Konings – Sidecar – 24 janeiro 2025

O renascimento da “economia do lado da oferta” keynesiana e uma política industrial proativa sob o governo Biden pareciam marcar uma mudança significativa. Os neoliberais há muito insistiam que os governos deixassem as forças da globalização do mercado se desdobrarem, acomodadas pela garantia de um ambiente não inflacionário por meio de uma política fiscal e monetária austera.

Mas a crise financeira global e o crescimento dramático do apoio governamental aos mercados financeiros que se seguiram sugeriram que os mercados não eram tão suavemente autorregulados ou “livres” da autoridade pública como se afirmava. As medidas de emergência implementadas durante a pandemia, que ampliaram a rede de segurança financeira muito além do setor bancário, impulsionaram essas ideias para o mainstream.

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O casino global pode explodir?

Escrevendo no dia 10 de abtil, após a queda nos precos dos titulos do tesouro americano, a autora desta postagem se mostrou alarmada. Pouco depois voltou ao normal. Será que o pior já passou? Eis uma pergunta que não tem uma resposta fácil. Leia-se, portanto, o que ela tem a dizer. De qualquer modo, o preço dos titulos do tesouro americano cairam de novo ontem diante das ameaças de demissão que pesam sobre o presidente do Fed.

Autora: Ann Pettifor [1] – Sin Permiso – 19/04/2025

É preciso considerar os perigos do Tesouro dos EUA que figura aogra como uma “fábrica de garantias” de baixa qualidade. Pois, outra falha do sistema bancário paralelo poderá explodir o que chamo de cassino global? E qual será o impacto nas famílias, empresas e governos?

O mercado de títulos dos EUA parece estar afundando, como mostra o gráfico da Bloomberg abaixo. É preciso, pois, parar de falar apenas sobre comércio e começar a falar sobre títulos do Tesouro dos EUA.

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Cortando o Estado, mas mantendo a Segurança

Autor: Pablo Pryluka [1]- Argentina sob a motosserra de Milei

A ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina veio com todos os tipos de promessas de reparação econômica, política e cultural. Em um discurso de campanha, no período que antecedeu as eleições de outubro de 2023, Milei afirmou que, caso seu partido, La Libertad Avanza, chegasse ao poder, “a Argentina poderia alcançar padrões de vida semelhantes aos da Itália ou da França em quinze anos. Se você me der vinte anos”, continuou ele, “a Alemanha” será alcançada. E se você me der trinta e cinco anos, os Estados Unidos serão alcançados.

Quando ele de fato assumiu o cargo em dezembro daquele ano, ele o fez com uma agenda política ousada, mas com pouco apoio do Congresso. La Libertad Avanza conquistou apenas 15% dos assentos na Câmara de Deputados e 10% no Senado, ambos dominados por peronistas, de um lado, e Juntos por el Cambio, a coalizão que levou Mauricio Macri à presidência em 2015, do outro. As promessas foram grandes, mas, embora vitoriosa, Milei teve um espaço apertado para manobrar. 

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Reino Unido: ainda inverno, sem sinal de primavera

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 26 de março de 2025

A declaração de primavera do governo do Reino Unido sobre gastos foi tal como esperada – realmente horrível.  Primeiro, a chanceler Rachel Reeves teve que aceitar que a estimativa de crescimento real do PIB, em 2025, é agora metade da taxa prevista anteriormente; eis que foi reduzida pela metade, ou seja, para 1% de 2% pelo analista oficial do governo, o Escritório de responsabilidade orçamentária [Office for Budget Responsibility (OBR)].  Além disso, Reeves teve que admitir que a meta de inflação do governo de 2% ao ano não seria atingida até 2027 – e isso pressupõe que as medidas tarifárias de Trump não aumentem os custos nesse meio tempo.

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Fim do consenso sobre o livre comércio

Tarifas, criptomoedas e caos – ou seja, um reordenamento econômico mais profundo parece estar remodelando o sistema global. A tese de Mark Blyth abaixo apresentada tem sido criticada por diversos autores, mas é importante conhecê-la mesmo se endossa a atual politica do governo norte-americano.

Autor: Mark Blyth[1]Social Europe – 9 de abril de 2025

Com o governo Trump impondo tarifas “insanas” ao resto do mundo, muitos comentaristas estão preocupados com o problema da “sanitização”: imputar justificativas convincentes a políticas que não têm nenhuma lógica. Comentaristas ingênuos, eles argumentam, distraem as pessoas da marra que está se desenrolando diante de seus olhos. A entrada da família Trump na esfera das criptomoedas – as quais funcionam como um convite aberto para subornos – certamente apoia essa interpretação.

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Estagnação e gastos militares

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

Eis uma pergunta interessante feita por Michael Roberts: “podem os gastos militares despertar as economias que estão presas numa depressão tal como se encontram as economias europeias desde 2009?”[2] Muitos economistas acreditam que sim, em especial os keynesianos que raciocinam centralmente sobre o nível da atividade econômica a partir da demanda agregada. Para eles, um estado estagnação pode ser superado por meio de gastos deficitários do Estado.

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Trump, tarifas e o mercado de ações

A interpretação da política econômica do governo Trump tem envolvido muitas controvérsias. Publica-se em sequencia uma opinião que vê uma tendência mais geral no rumo do autoristarismo, do isolacionismo e do protecionismo. O artigo analisa as Intervenções políticas que a acompanham e os seus limites. O artigo foi escrito antes do “dia da libertação”.

Autor: Lefteris Tsoulfidis [1]

A recessão que começou em 2007 ainda está em andamento. Como durante a Grande Depressão do período entre guerras, o autoritarismo, o isolacionismo e o protecionismo tornaram-se a política oficial de governo – embora não necessariamente de todos os países.

Nas décadas de 1920 e 30, foi a Itália, Alemanha, Espanha e Grécia em particular. Mas essa política foi muito além disso: em 1930, os EUA quadruplicaram suas tarifas com a Lei Smoot-Hawley, primeiro para produtos agrícolas, depois também para bens industriais.

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Sobre as origens do dinheiro

Autor: Michael Hudson [1]Counterpunch – 7 de março de 2025

O final do século XIX viu uma linhagem de economistas, principalmente alemães e austríacos, criar uma mitologia sobre as origens do dinheiro, que ainda é repetida nos livros didáticos de hoje. Para eles, o dinheiro se originou apenas na forma de mais uma mercadoria que era trocada; o metal foi a mercadoria preferida porque não é perecível (e, portanto, é passível de ser guardado), pode ser padronizado (apesar da possibilidade de fraude se não for cunhado), podendo, ademais, ser facilmente divisível. Supõe-se, assim, que a prata foi usada em pequenas trocas de mercado, o que é irreal, dado o caráter grosseiro das balanças antigas, as quais era muito imprecisas para pesos de alguns gramas.[1]

Essa mitologia não reconhece que o governo possa ter desempenhado qualquer papel como inovador, patrocinador ou regulador monetário, ou ainda como entidade que dá valor ao dinheiro ao aceitá-lo como um veículo para pagar impostos, comprar serviços públicos ou fazer contribuições religiosas. Também é minimizada a função do dinheiro como padrão de valor para denominar e pagar dívidas.[2]

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Dia da libertação

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 2/04/2025

Não ocorreu no Dia da Mentira (1º de abril).  Mas também o dia 2 de abril talvez seja esse Dia já que ontem o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou outra onda de tarifas sobre as importações do país. Para Trump trata-se do “Dia da Libertação”, mas a voz dos grandes negócios e das finanças nos Estados Unidos, o Wall Street Journal, classificou esse evento como “a guerra comercial mais burra da história”.

Nesta rodada, Trump aumentou as tarifas sobre as importações de países que supostamente têm tarifas mais altas sobre as exportações dos EUA, ou seja, implementou as chamadas ‘tarifas recíprocas’. Elas visam combater o que ele vê como impostos, subsídios e regulamentações injustas aplicados por outros países sobre as exportações dos EUA. Paralelamente, a Casa Branca analisa ainda as tarifas de 25% sobre todas as importações do Canadá e do México, que foram adiadas anteriormente, mas que agora podem ser reaplicadas.

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